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Amores Urbanos

A dor da ilusão, do sonho do amor que não cansa de machucar corações ansiosos, o azedo da vida que preenche de dor almas incansáveis por carinho. O segundo longa-metragem do cineasta Roberto Moreira justifica a ânsia atual que o Cinema Brasileiro sente em diversificar suas abordagens — explora-se aqui o discurso sobre a afetividade, o relacionamento sexual da juventude em meio aos seus desejos e expectativas emocionais. Como compreender as relações de amor e sexualidade? Por que tudo hoje é tão efêmero? Existe amor perdurável? Seres humanos envoltos em descobertas sexuais, busca por alguém que lide com suas fragilidades, questões que envolvem o sexo casual: aqui se encontra o argumento principal que mescla inúmeras problemáticas sem fim. Talvez aí seja o erro principal do morno Quanto Dura O Amor?. O roteiro coescrito por Anna Muylaert — que havia surpreendido com o interessante Durval Discos — carece de profundidade maior já que decide explorar a trajetória íntima de alguns jovens sob o congestionado coração agitado da cidade de São Paulo. A desilusão, a falta de perspectiva, as dúvidas e o pessimismo envolvem a trama de todos, ainda que a sexualidade mostre um papel definitivo nas motivações de cada um.

A narrativa recorta as vidas desses indivíduos, todos habitantes do mesmo edifício que fica na esquina das avenidas Paulista e Angélica. São várias histórias que caminham com um mesmo foco problemático, a carência-sexual. Há Marina (Sílvia Lourenço), a aspirante atriz que se muda para São Paulo em busca de realização profissional e acaba se apaixonando por uma cantora de boate, Justine (Danni Carlos); há a advogada bem-sucedida Suzana (Ana Clara Spinelli) que se sente solitária, mantém um segredo e passa a ter um caso com Gil (Gustavo Machado); Jay (Fábio Herford), escritor de um livro só, romântico ao extremo, se liga a uma prostituta (Leilah Moreno) interesseira que só quer dinheiro e sexo sem nenhuma condição afetiva; e temos Nuno (Paulo Vilhena), o namorado de Justine que rivaliza a relação dela com Marina prometendo conflitos incansáveis. Em 80 minutos, o roteiro parece aflito em querer mostrar cada personagem, suas vivências, suas atitudes, mas é fraco por conta de uma superficialidade absurda. Os diálogos são pobres, tornando o filme insosso. A direção não consegue se ajustar ao inseguro elenco que não mantém um ritmo evidente em cenas desconexas, desajustadas. O que parecia um panorama amoroso-sexual torna-se uma abordagem insatisfatória.

A melancolia permeia todo o filme que mantém seus personagens sob uma fotografia de tons azulados, vermelhos e o sol da Av. Paulista. Em meio aos anseios de cada um, o público pode até se envolver com a certa urgência do roteiro explorar a sexualidade. O cineasta Roberto Moreira investe na beleza exótica da cantora Danni Carlos, por sinal as melhores cenas do filme ficam a cargo de sua caracterização e sequências onde pode cantar canções melódicas, talvez o único ponto alto daqui. A relação lésbica da personagem é explorada — Justine é bissexual, vive uma relação conturbada com o personagem do Paulo Vilhena e mantém uma forte atração por Marina, a aparente personagem "mais principal" do filme. Há cenas de sexo, há uma câmera que expressa o tesão das duas mulheres no decorrer do longa, mas o roteiro não consegue trazer maiores compromissos.

Em contrapartida, o roteiro traz bons pontos como as reflexões que os relacionamentos atuais trazem: por que o ser humano é tão carente de amor e sexo? É possível construir uma relação sólida? A visão pessimista do filme parece responder quando situa o poeta Jay tentando de todas as formas conquistar a prostituta fútil, sem caráter, que só quer dinheiro — Leilah Moreno mantém a sensualidade de uma mulher que simboliza o papel rigoroso de alguém que só transa por dinheiro, só ama sob essa condição também. Infelizmente, o público não se envolve melhor, já que tudo é objetivo e sem maiores aprofundamentos. E o segredo da personagem Suzana é o recurso encontrado no roteiro para promover mais uma discussão acerca da sexualidade contemporânea, mas é frágil e nem Moreira sabe causar certa comoção maior em torno de uma situação que poderia render maiores contornos emotivos. Há cenas que a direção parece ser inexistente, gerando um desconforto em quem assiste. Ainda assim, de longe, Maria Clara Spinelli é a cereja talentosa do bolo indispensável que é este filme, visto que sua atuação é bem natural e possui carisma. A lamentar o resultado oferecido pelo cineasta que despontou na cinematografia brasileira com o excelente Contra Todos, onde a originalidade e o caráter reflexivo tinham muito mais textura que esse filme vago aqui.

Quanto dura o amor? (2009, BRA)
Direção de Roberto Moreira
Roteiro de Roberto Moreira e Anna Muylaert
Com Silvia Lourenço, Danni Carlos, Paulo Vilhena, Maria Clara Spinelli, Leilah Moreno

Diários de uma prostituta

É possível alguém apenas querer viver do lucro que seu corpo possibilita? O que motiva uma mulher a optar por esse “caminho de vida fácil”? Compreensível que o filme Bruna Surfistinha, baseado no livro O Doce Veneno do Escorpião, tivesse o mesmo sucesso exorbitante. A história já é conhecida por todos, não é segredo algum. Marcus Baldini aqui estreia na direção, demonstrando claramente sua intenção: tornar nítido a sexualidade dessa figura que causou tanta atração na sociedade — querendo ou não, até para os puritanos-de-plantão, Rachel Pacheco, nome de batismo, conseguiu usar da mídia para provocar/direcionar os refletores para sua decisão de vida. E conseguiu deixar todo mundo interessado. Tornou-se prostituta porque quis. Escolheu ganhar dinheiro através do sexo por vontade própria. Tornou-se a Bruna Surfistinha famosa. Novidade o argumento não é, existem tantas histórias semelhantes, reais e ficcionais, a grande sacada em questão é uma: nenhuma outra prostituta havia usado de um blog para mostrar com detalhes suas experiências sexuais; seus fetiches, seus desejos, seus programas tão expostos. E é exatamente esse sentido que o filme decide tornar explícito. Sem se preocupar muito em aprofundar as motivações psicológicas e motivacionais, a película apenas retrata a decisão da garota que abandona uma vida de classe-média para emergir no mundo da prostituição, do limbo ao topo.

O longa não detalha muito da vida familiar de Rachel Pacheco, apenas preocupa-se em contornar sua mudança para Bruna Surfistinha — da quase tímida-virginal, introspectiva e inocente do começo, à posição catártica de determinismo e fulgor libidinal ao fim. É interessante a maneira como o roteiro peca por não explorar as motivações da personagem-real — por que uma moça procura se prostituir apenas para “não querer depender de ninguém”? -, porém, consegue instigar por mostrar a dualidade e processo de transformação de uma garota que, inicialmente, demonstrava apatia, desconforyo e insegurança no sexo, mas que depois explode como um furacão sexual, repleta de malícia e determinação. O filme experimenta a trajetória de Bruna que, com seus 18 anos de idade, vivencia a natureza da prostituição por livre-arbítrio.

A ousadia da direção de Marcus Baldini apenas foca nas inúmeras transas sexuais da prostituta — ainda que não seja explícito, o sexo é muito bem fundamentado na trama, porém menos agressivo/cru que no livro que fora adaptado. O resultado são sequências de cenas de sexo oral, sodomia e simulações de penetração que são intercaladas com a narrativa em off da protagonista. A segurança da direção não vulgariza, mas as cenas atingem boa sensualidade e são fortes. De trajetória publicitária, Baldini acentua sua segurança no visual ao articular mais a provocação libidinal nas imagens do que nos diálogos. Relevante a cena do primeiro programa feito por Bruna no bordel, onde a câmera foca apenas no seu rosto e, ao fundo, seu primeiro cliente, interpretado por Cássio Gabus Mendes, executa sua penetração anal selvagem sem muita afetividade — a cena mostra bem o desconforto da mulher que, dali pra frente, teria toda sua vida modificada por conta de sua decisão. Sem levantar uma bandeira de que a prostituição é algo pecaminoso ou prejudicial, ainda assim o filme mostra que é uma vida que conserva inúmeras dificuldades, percalços.

A interpretação concentrada de Deborah Secco é capaz de humanizar, torna tudo envolvente. A atriz sabe muito bem explorar suas nuances ao personificar a inocência e fragilidade do primeiro ato do filme, bem como ao elevar a sensualidade que sua personagem pede. Secco empresta seu corpo, sua voz e malícia até com o olhar — há uma entrega total, principalmente, nas cenas que são impregnadas de sexo, muitas por sinal, que o filme procura explicitar. Há nudez frontal e de diversos ângulos, apelo sensual e boa condução interpretativa nos momentos de transas sexuais. Ainda que não seja forte o erotismo, convence! E o tom emocional torna-se evidente quando Bruna passa a viciar-se em drogas, a cocaína — é quando a atriz se mostra ainda mais competente com os momentos de sofrimento e auto-flagelação. A ótima trilha sonora de Tejo Damasceno e André Lucarelli é sensual, ágil e ajuda na narrativa orgástica da protagonista. Contudo, ainda que explícita sexualmente na mídia, Bruna ainda é um mistério. E pelo filme, jamais dá pra entender o porquê de uma garota, que poderia ter tudo, não se ajustar tanto a sua vida comum a ponto de se realizar na prostituição. É perceptível que houvesse o gosto pelo sexo, o prazer, a satisfação em ser garota de programa. Talvez, até fosse ninfomaníaca. Porém, o roteiro não dá margem a maiores discussões sobre isso. Apenas mostra uma mulher que queria quebrar as amarras do tradicionalismo, viver sem preconceitos, no gosto pela liberdade e libertinagem sexual...

Bruna Surfistinha (BRA, 2010)
Direção: Marcus Baldini
Roteiro: José de Carvalho, Homero Olivetto, Antônia Pellegrino – Baseado no livro O Doce Veneno do Escorpião, de Raquel Pacheco e Jorge Tarquini
Com Deborah Secco, Cássio Gabus Mendes, Cristina Lago, Drica Moraes, Fabiula Nascimento, Guta Ruiz

Reflexões do desejo?

Um relacionamento desgastado, prestes a explodir de tanto ódio, amor e desejo. Nem sempre há sentido dentro de quatro paredes, visto que na teoria sentimental não há a existência do acordo da razão com a lógica — e se não há emoção, não pode haver uma relação viabilizada com o senso da intensidade. Muito menos o desejo transcorre já que é um elemento de impulso carnal humano. E é justamente esse ponto que o orgasmático Eu sei que vou te amar coloca em questão. Ao tratar de temas tão íntimos, dolorosos e ousados como o sexo em combustão com o sentimento ardente, Arnaldo Jabor retrata em seu filme as vicissitudes de um casal em plena crise da própria existência. Adotando um roteiro que prioriza o tom verborrágico-monólogo, Jabor expõe uma jornada psicossexual sobre um homem e uma mulher. A projeção tem o timing da narrativa vivenciada pelos personagens, em apenas duas horas se dispõe um completo jogo da verdade; o casal em diálogos febris sobre tudo que viveram, com questionamentos sobre próprias atitudes e vômitos sobre indagações sexuais. Qual conceito da fidelidade? Como acreditar no amor eterno? O que motiva o desejo? O filme propõe a realidade dos erros e acertos do amor, coloca em questão as fraquezas humanas bem como os vícios do caráter, eis a psicanálise do ser humano em plenitude cinematográfica. É muita intimidade, overdose de sensualidade a dois, repleto de sincronismo e cinismo sentimental. O que pode ser mais polêmico que os vícios e problemas sobre a esfera da paixão? O sexo é o ápice de um relacionamento? E o amor? O que conceitua um relacionamento intenso?

Com um estilo que mistura o tom teatral com a linguagem dinâmica de cenas que se assemelham ao videoclipe, o filme é todo centrado dentro do apartamento onde o casal não se inibe em providenciar diálogos ora desconexos, ora beirando às incitações filosóficas. Arnaldo Jabor impele seu texto com monólogos próprios de cada um — há seqüências inteiras em que Fernanda Torres exibe-se em indagações sobre o sentimento; perguntas sobre sexualidade ou demonstra fragilidade ao concentrar suas dúvidas sobre infidelidade. A atriz empresta à personagem uma personificação que se mistura em diversos tons; por vezes conduz uma enérgica presença feminista repleta de pontuações sobre questões comportamentais e situações sobre orgasmo feminino; sentimento ou desejos. Em outros momentos, há um tom frágil que mostra uma nova modulação de voz e modo interpretativo, é quando sua voz interpretativa mostra o medo, a agonia e os distúrbios de amar um homem que não te valoriza. Thales Pan Chacon também transforma seu homem; do másculo exibicionista que não teme ser rejeitado ao romântico inveterado que não desiste em conquistar a mulher de sua vida. Os atores, assim como os personagens, enfrentam as oscilações de seus personagens numa rapidez admirável.

A tensão sexual é nítida em muitas cenas. Situações onde o casal rememora transas, beijos ou mesmo nas seqüências em que Fernanda Torres exibe seus seios na presença de um descamisado Pan Chacon. Ainda que inúmeros diálogos concentrem o tom libidinoso da trama — O filme é um singelo estudo sobre os vícios, prazeres e discórdias sentimentalistas de um relacionamento fundamentado no tédio, na dor e na insegurança. Ora o casal permeia entre o amor lúcido repleto de declarações nostálgicas de desejos, ora comunga o ódio em discussões intensificadas de ira. Jabor consegue recriar uma atmosfera lúdica, íntima e com teor de paixão diante da concepção de seus diálogos ácidos e passionais: seria o casal um reflexo de nós mesmos? Até que ponto um relacionamento se condiciona na integridade da fidelidade? Ou está fadado ao término ou transforma-se após uma reflexão a dois. É necessário ter esperança no desejo de amar o outro? Como perdurar o sentimento vibrante? A organização das cenas alia-se do tom teatral, mais ainda pela forma como os diálogos são proferidos, porém a técnica de misturar a trilha sonora, a fotografia com filtros de azul e vermelho, e as narrações em off que pontuam o pensamento dos personagens evidenciam o apuro cinematográfico de Arnaldo Jabor. O diretor também concentra incansáveis closes nos atores para captar a emoção.

Mais que um discurso sobre as esferas da intimidade relacional humana, é um exemplo de acerto de dois atores numa combustão sexual em cena. Fernanda Torres ao lado de Thales Pan Chacon proporcionam um misto de amorosidade e sexo.Talentosos e concentrados, ambos têm uma química interpretativa que determina todo o melodrama verborrágico exponencial de Jabor. Se há um intelectualismo nos diálogos, o tom sexual é muito mais crível por conta do embalo físico-emocional dos dois atores. As cenas que o casal expõe seus fetiches, segredos e obscuridades sobre luxúria/infidelidade é um dos pontos mais hipnóticos do filme. E o diretor sabe explorar a virilidade necessária de Pan Chacon com a sensualidade feminina de Torres para realizar essas pontuações bem provocantes, ousadas e ferinas. Da perversão ao sentimento mais conservador, o filme é uma espécie de celebração sobre o amor e sexo. O casal extravasa seus ressentimentos, mágoas e ofensas sobre as próprias dores. O foco é no delírio da intimidade, no conflito de um para o outro. Altamente intenso e poético, uma espécie de playground psicológico. Um cult-movie feito para reflexão sobre os laços de amor e desejo. A proximidade com a realidade e o monólogo dos personagens proporcionam uma identificação gostosa com o filme. E nada mais prazeroso que constatar que este representante do Cinema Nacional jamais envelhece. Incondicionalmente, excitante.

Eu sei que vou te amar (BRA, 1986)
Direção de Arnaldo Jabor
Roteiro de Arnaldo Jabor
Com Thales Pan Chacon e Fernanda Torres

Juventude Libertária?

Como se expressa a juventude sem sucesso? O que torna um homem inseguro? A falta de perspectiva pode corrompê-lo? Se nada mais der certo representa a crua e contundente realidade do cenário brasileiro — é um estudo humanístico sobre as mazelas sociais, a desesperança pessoal e os conflitos dos incontornáveis distúrbios políticos. Decisivo filme que recobre a juventude sem perspectiva, com suas inseguranças e dificuldades para se vencer numa metrópole predatória. Dirigido com cuidado por José Eduardo Belmonte, é um filme que costura as dores de personagens solitários, onde o tom da perseverança se ausenta para dar vazão a um universo que reina a criminalidade paulistana. O filme centra-se no submundo humano, é através de pequenos, mas não menos profundos, personagens que a trama se evidencia. Léo (Cauã Reymond) é o jornalista que enfrenta problemas financeiros, sem emprego definido e uma vida insatisfeita devido às dívidas exorbitantes; Ângela (Luíza Mariani) divide o apartamento com Léo por quem é sustentada, tem um filho de seis anos e não consegue definir sua vida: depressiva, viciada em drogas e com tendências evidentes de imaturidade; a andrógena Marcin (Caroline Abras) que se veste como homem, lésbica assumida, trafica drogas e mantém uma conturbada relação filial com a travesti Sybelle (Milhem Cortaz); e há o taxista Wilson (João Miguel) que acredita precisar de um psiquiatra para dar sentido a sua vida insípida. O que une esses personagens? Belmonte, com texto co-escrito com Breno Alex e Luis Carlos Pacc, constrói seu recorte de realidade brasileira, através de cada personagem, para promover sua crítica: desprovidos de oportunidades, chances e realizações, esses humanos se unem para praticar golpes. E o perigo é gradual, é quando os delitos tornam-se perigosos. A cinematografia nacional encontra-se na sua melhor atmosfera, esse filme reflete bem o momento deste brilhantismo; no exercício da pós-modernidade que toma novo fôlego através de produção viabilizada por um talentoso diretor.

Como se libertar das armadilhas do destino que pode ser cruel? Como vencer numa cidade que não é fácil e tudo é um redemoinho de vícios, frustrações e agruras? O filme critica a realidade brasileira. Sob a caótica São Paulo, vista com um olhar amargo por Belmonte, é que seus personagens ganham sustância. Se nada mais na vida der certo? Há a chance de burlar o sistema através da criminalidade? Da perda da paciência por um mundo melhor e justo? Belmonte coloca seus personagens aflitos, pois culpam o sistema que limita seus universos sem oportunidades. Com a falta de dinheiro, os males são reforçados. Léo, Marcin e Wilson permitem-se aos golpes às instituições; gradualmente imersos numa teia onde não há escapatória. Roubam pessoas, infiltram-se em meios arriscados para obter grana para uma ilusão de mundo? E como acordar dessa realidade? Belmonte atiça sua câmera na percepção desses personagens que contestam a política; questionam suas fraquezas e envolve-se mais no submundo do crime. Abandonados, descrentes, vivem neste limbo brasileiro onde não há regalias às classes desfavorecidas. O tom frenético da montagem; dos diálogos naturais e do elenco talentoso evidenciam a ousadia deste trabalho cinematográfico. Determinam o grande impacto que causa. A fotografia de André Lavenere captura os tons avermelhados dos ambientes soturnos dos bordéis paulistanos; os close-ups investidos em cenas emocionais e as narrações em off dos personagens principais são pontos positivos.

O tom sexual permeia a trama, através da construção das personalidades e do comportamento provocante dos personagens. A representação da homossexualidade é centrada na figura masculinizada de Marcin, uma garota que expressa sua fisionomia dúbia por ser andrógena; imersa em cenários de uma vida frágil dentro de bares e cabarés onde se alimenta do consumo de drogas e de uma vida precária. O roteiro contorna a maneira como uma garota se adequa ao meio masculino, através de uma postura transgressora e sem trejeitos femininos. E há também a dimensão do aspecto do travesti Sybelle, um homem que mantém seu corpo de mulher, ainda que sua voz seja grave — as representações da androgenia e do transexualismo são aspectos da realidade, universo queer, e é a forma como o filme investe na sua provocação. O submundo é controverso, é sexualmente transgressor. Ora, a ebulição sexual também é característica da juventude indagadora? E Belmonte jamais julga seus personagens subversivos, somente evidencia que todos são humanos e não devem sofrer preconceito. Porém, ainda que os contornos da diversidade sexual sejam evidentes, o filme não se aprofunda neste condicionamento. Ademais, as interpretações surpreendentes de Cauã Reymond e de Caroline Abras produzem momentos emotivos que prefiguram o efeito dramático da narrativa.

É um trabalho que expressa a crise da juventude, ao se desdobrar nas questões das identidades problemáticas e na criminalidade, assim Belmonte ajuda a criar seu filme conscientizador. É interessante como os personagens são ambivalentes, afinal a moralidade é um questionamento bastante relativo. O que torna alguém ruim? Qual o sentido de maldade? Todo ladrão, só por roubar e cometer crimes, deve ser taxado como perverso? A trama envolve ao intensificar um olhar humano, sensível, aos personagens que são, incontornáveis, solitários. E Belmonte mostra que pra amadurecer é preciso sofrimento, talvez por isso o filme converta-se numa visão pessimista da realidade brasileira. Decerto, é um trabalho para acordar a sociedade. Eminentemente político por abarcar uma visão crítica — inclusive, na polêmica seqüência, que o trio decide praticar um assalto e se disfarça atrás de máscaras que reproduzem as feições de Collor, FHC e Sarney. E a trilha de Os Saltimbancos promove uma ponte com a politicagem pós-ditadura e hino das ações criminosas do trio. É possível abdicar dos princípios morais e afrouxar os valores próprios apenas para tentar vencer? Ainda que exista uma linha tênue entre o caminho da lei e da criminalidade, deve-se pensar na manutenção da ética incorporada à identidade, pois essa jamais deve ser extraída. Pequena obra-prima do cinema nacional. "Todos juntos somos fortes, não há nada a temer".

Se nada mais der certo (BRA, 2009)
Direção de José Eduardo Belmonte
Roteiro de Belmonte, Breno Alex e Luis Carlos Pacca
Com Cauã Reymond, João Miguel, Caroline Abras, Luiza Mariani, Adriana Lodi, Murilo Grossi, Milhem Cortaz

Tesão Existencial?

Arnaldo Jabor viabiliza um estudo íntimo com seu provocante filme Eu te amo. O trabalho tornou-se um sucesso no princípio da década de 1980, por exibir uma sensualidade explícita, o próprio autor proferia que seu trabalho beirava ao pornográfico. Porém, a trama vai além da esfera sexual, por conter um roteiro que discute os vícios e amarguras das relações amorosas; das dores sentimentais e os mistérios dos desejos que rondam as mentes pervertidas dos seres humanos. O existencialismo libidinoso exerceu um fascínio, pois atuou como embalo romântico e funcionou como um retrato do delírio psicológico humano, visto que o texto é extremamente teatral e reflexivo, numa espécie de monólogo. O filme é uma fantasia erótica intelectual sobre desejo e não se caracteriza como um exemplar da pornochanchada. A trama é o encontro de dois desconhecidos, dentro de um apartamento no Rio de Janeiro, onde toda a narrativa se estabelece. Maria (Sônia Braga), uma ex-comissária de bordo que não consegue recuperar-se do término de uma relação com um comandante casado. Paulo (Paulo César Peréio) é um industrial falido que não tem mais prazer em viver, desde que sofreu com as frustrações sentimentais ao ser abandonado pela esposa. O que une esse casal? Arnaldo Jabor retrata um homem e uma mulher que desejam se amar, na busca pela satisfação do prazer em meio a realização de fantasias eróticas íntimas.

Este filme de Arnaldo Jabor aproveita-se da figura sexual de Sônia Braga, naquele período, para sustentar uma overdose libidinosa que o roteiro transparece. A atriz mantinha uma imagem bastante sensual, no frescor de seus trinta anos, além de forte identificação com o público masculino. Sua personagem sustenta o teor sensual e explícito que a película incita. A caracterização de uma mulher dotada de feminilidade e liberdade sexual é um fetiche que instiga o masculino. Em função disso, Jabor concentra seu esforço em exibir uma sexualidade sem inibição da figura desta mulher, coloca-a deliberadamente a favor de sua expressão própria de libertina sedutora. Como um filme tão sensual pode ser existencial? A trama toda é centrada dentro do apartamento, num ambiente claustrofóbico. É onde dois personagens se encontram para festejar a ebulição carnal da sexualidade; do encontro secreto a dois, sem aparente relação sentimental. É uma mulher e um homem que buscam o sexo, como forma de se livrar da dor — é a visão provocadora de Jabor, mostra como o ser humano sofre a perda ao inserir o sexo com outrem como o condicionamento de uma superação pessoal. Os personagens de Maria e Paulo buscam o sexo como forma de fuga, já que não se enquadram num mundo onde não esquece paixões do passado.

A fina ironia e as indagações que permeiam os diálogos do casal central refletem bem a intenção de Arnaldo Jabor em desmascarar as vicissitudes humanas, a hipocrisia e o falso puritanismo social. E há citações paralelas de homossexualidade, machismo e prostituição. O interessante é expor não só a sexualidade através do encontro de dois estranhos — é o texto teatral e delirante que permite diversas discussões. Jabor constrói os diálogos do casal da maneira mais densa possível, vai do senso psicológico ao humor tragicômico. O casal expõe seus problemas, anseios e delírios humanos; o sentimento à flor da pele que não consegue se calar. Jabor recheia seu roteiro com falas que mantém a tensão da sexualidade, emulando cenas de transas do casal: há seqüências explícitas de sodomia; oral e nudez expressa pelos atores. Enquanto dialogam sobre o encontro casual, incitam discussões filosóficas sobre questões da vida; dos medos e também dos desejos mais perversos. Nota-se que não há uma inibição, tanto nas cenas de sexo, quanto nos diálogos que dimensionam o teor pervertido da sexualidade obscura. O casal demonstra, mutuamente, o ardor libidinoso por um sexo imoderado, isento de conservadorismo que tanto a sociedade padroniza.

Sexualmente verborrágico, existencial e ousado, é um filme que aborda temas diversos da problemática brasileira — e ainda se mantém atual, verdadeiro. A relação sexual de Maria e Paulo, bem interpretados por Sônia Braga e Paulo César Peréio, é crível ainda que tenham momentos surreais e divagadores. A direção de Arnaldo Jabor procura externar mais esse tom teatral em cenas que concentram diálogos constantes, as ações interpretativas são emolduradas dentro do apartamento onde o casal costura suas cenas eloqüentes. Porém, há desdobramentos, que mostram situações diversas do passado dos dois personagens centrais, em outros locais — Vera Fischer interpreta a ex-mulher de Paulo, uma mulher que também exerce uma representação sexual. As cenas que ela aparece são para sustentar a atmosfera ousada que o filme flexiona. E Tarcísio Meira é o homem que rejeitou Maria, visto que ela era sua amante. Com músicas de Chico Buarque e Tom Jobim no background sonoro, o filme transcorre nesse sentido de diálogos e cenas de sexo para promover sua análise discursiva sobre o amor. A evolução do erotismo inicial para a esfera romântica é gradual, aos poucos se entende que esse casal procura não só viver de sexo, mas sim de renascimento diante de um amor inesperado.

Eu te amo (BRA, 1981)
Direção de Arnaldo Jabor
Roteiro de Arnaldo Jabor
Com Sônia Braga, Paulo César Pereio, Tarcísio Meira, Vera Fischer

Juventude Verbal?

É na fase onde há a transposição do período da infância para a adulta, no momento da puberdade em si, onde as transformações físicas e mentais sofrem modificações - que a adolescência se caracteriza como sinônimo de indecisões, fragilidades, descobertas sexuais e problemas existenciais. Como lidar com mundos tão distintos? Ou melhor: como aprender a entender o que habita o próprio mundo interior? As Melhores Coisas do Mundo reflete um recorte interessante sobre a evidência comportamental da adolescência - onde há todas as representações que compõem esse senso: conflitos, anseios e frustrações. O filme tem direção de Laís Bodanzky com roteiro do seu parceiro (e também marido) Luiz Bolognesi, inspirado numa série de livros escritos pelo jornalista Gilberto Dimenstein ao lado de Heloísa Prieto. O argumento foca na trajetória de um mês na vida de Hermano (Francisco Miguez), um jovem de 15 anos, pertencente à classe média de São Paulo, que vivencia a atmosfera melancólica e a catarse sofrida dentro do lar quando seus pais (Denise Fraga e Zé Carlos Machado) se separam. Porém, o roteiro realista não apenas centraliza seu estudo nesse contexto, é mais amplo e, através das vivências e percepções de Mano, que assuntos como sexualidade, laços familiares, depressão e inseguranças juvenis são expressos. O filme tem uma linha narrativa bastante ágil, onde os personagens parecem confrontar-se com seus próprios problemas e desejos, onde a linguagem da juventude ganha contornos tangíveis - é nítido como Bodanzky mantém um exercício de direção cuidadoso, um olhar profundo em seus personagens que figuram-se como representações reais de uma sociedade sexualizada, capaz de gritar as próprias verdades e em busca de sonhos, idealizações. São jovens expondo seus pontos de vistas, são pequenos contextos da realidade - obviamente, o roteiro de Luiz Bolognesi é consequente de inúmeras pesquisas realizadas com diversos adolescentes. Por isso, o trabalho consegue ser surpreendente. Interessante como aqui o foco foge dos habituais estereótipos tão temáticos dos filmes brasileiros (miséria, fome, criminalidade) - para discutir mais a sensibilidade da puberdade, da voz da juventude brasileira.

Como um manual exercitado - não só aos adolescentes retratados, mas para os pais em geral - é um filme que prioriza os conflitos mais evidentes dos contextos juvenis. Antes de tudo, um olhar sobre a sociedade que insiste em mascarar problemas dentro dos próprios lares, que parece não exercer a compreensão em relação a um jovem - afinal, nem todo adolescente é sinônimo de desajuste e deliquência. Há muitos jovens antenados, interessados em modificar uma estrutura social; pessoas que se preocupam com seus próprios anseios e com o que ocorre a sua volta. Há os alienados estruturais, também. E aqui há todo um panorama verbalizado: a sexualidade é pautada não só na experiência vivida pelo personagem principal, Mano. Não só ele condiciona o roteiro no teor sexual, visto que há um pulso pelo senso das questões intrínsecas ao sexo através de contorno de outros personagens. A primeira descoberta, contato sexual estabelecido, é contornado pelas experiências vivenciadas por Mano. Porém, os coadjuvantes interferem e crescem na narrativa junto com ele. Enquanto Mano vivencia os dilemas de seus primeiros contatos com o sexo, a problemática invade a esfera de seu universo - o garoto enfrenta a descoberta da sexualidade do pai, já que este sai de casa e revela que namora um homem.

Como entender que a homossexualidade também merece respeito? A vida sempre surpreende com o inimaginável? Mano demonstra desconforto, insegurança e medo a partir do momento que desconstrói a figura de 'pai idealizado', quando este assume a postura heróica de se aceitar como é. E o roteiro evidencia como muitos heterossexuais costumam dizer que respeitam gays, porém não compreendem quando há manifestações dentro da própria família. O velho hábito do discurso teórico? Típico da sociedade negar o que está ao seu lado. A hipocrisia se mantém, ainda que muitos insistam em negar. E o personagem sofre preconceitos externos, dentro do colégio onde estuda, por ter um pai homossexual assumido.

A homofobia ganha também contornos em personagens secundários - como uma aluna lésbica que estuda no mesmo colégio de Mano. E é nesta instituição escolar que outros jovens são delineados para expor um panorama comportamental da juventude brasileira. Há representações da alienação juvenil; há conflitos provenientes da virgindade e também das influências das drogas; há as determinações dos preconceitos que cicatrizam as esferas sociais. O tema do cyberbullying ganha maior evidência, este tipo de violência que, cada vez mais, provoca maiores índices de crescimento diariamente - efetiva a discussão da invasão de privacidade e da falta de ética humana em agredir mais e mais pessoas. E Laís Bodanzky abarca e amplia seu olhar nestes jovens que também sofrem de amor, são sufocados pelos estímulos dos sintomas da depressão - como Pedro (Fiuk), o irmão de Mano, que é trocado por outro pela namorada. Ele representa um jovem inseguro, frágil, que não consegue mais viver sem a dependência de uma pessoa ao seu lado. Em função disso, utiliza um diário virtual (blog) para expor seus pontos de vistas e sofrimento diário. Pedro é a personificação de alguém que não quer mais viver, que prefere cortar a dor. É então que o mote do suicídio, tão doloroso e controverso na atualidade, ganha exemplificação no filme.

Há ainda espaço para discussões sobre assédios sexuais de professores para alunos, Caio Blat é o professor que tem sua ética profissional diagnosticada (e também colocada em prova) ao ser acusado de aliciar e influenciar sexualmente a jovem Carol (Gabriela Rocha), amiga de Mano. Daí, a discussão da relação ética entre aluno e professor tem uma sequência de debate bem proposta - mostra que o roteiro preocupa-se em promover uma reflexão em cima dos acontecimentos, uma espécie de debate constante.

Com toda a sensibilidade, realismo e dedicação, Bodanzky mostra que o cinema nacional também serve de reflexão para problemáticas íntimas. A sociedade sofre de males que imergem dentro das próprias almas, dos âmagos de cada um. Sua câmera particular investe em closes e concentra suas lentes bem nas feridas da sociedade, retratando sem artifícios uma juventude em ebulição - e também em auto-afirmação, ainda que as contradições sejam persistentes. A maturidade é o lema do filme, visto que não só Mano - mas também outros personagens ali - adquirem essa transformação, ao longo do enredo desenvolvido. Através de Mano - entende-se que a sexualidade é um período de turbilhão de sentimentos, desejos e também de necessidades humanas. Bem verdade, o ser humano pode até galgar maturidade, mas o sexo permanece como um recurso de fragilidade permanente. Afinal, todos continuam nas buscas pelas satisfações - tanto da carne, quanto da alma. Interessante que a representação de Mano é para mostrar como adolescentes transitam facilmente nas confusões da libertinagem, na incoerência do mau uso da liberdade; na busca pelo sexo e sonhos que sempre se modificam; de como são suscetíveis às influências alheias para se sentirem aceitos num eixo social comum.

O simbolismo cinematográfico proposto por Bolognesi e Bodanzky (ora dosa drama, ora humor) torna-se verdade por ser reconhecido por qualquer um. A gama de situações vividas por Mano, desde amizades dúbias a frustrações amorosas, de preconceitos e transformações das relações entre familiares - é a maneira de tornar crível o argumento pertinente. É contraditório como jovens também se sente temerosos em abandonar a infância, ainda que ansiosos pela experiência que só a maturidade pode conferir. A trilha sonora com elementos de Beatles e contribuição de Arnaldo Antunes, o ritmo homogêneo e os diálogos críveis que abordam as expressões da juventude - são elementos que tornam a película mais saborosa. A cinematografia consegue ser mais luminosa aqui, inovadora, dotada de grande eficiência diante da fidelidade realística do roteiro. O cinema brasileiro nunca fora tão juvenil, tão importante.

As melhores coisas do mundo (Brasil, 2010)
Direção de Laís Bodansky
Roteiro de Luiz Bolognesi
Com Francisco Miguez, Fiuk, Denise Fraga, Caio Blat, Paulo Vilhena, Zé Carlos Machado, Gabriela Rocha

Sonhadores sexuais?

Como entender o comprometimento com a infidelidade na própria vida? O ser humano, ainda que imerso em princípios da moralidade, pode se permitir aos anseios de um súbito desejo? Qual sentido de um relacionamento se não há a euforia do amor e paixão? Interessante abordagem proposta pelo diretor e roteirista Paulo Halm no seu instigante filme Histórias de amor duram apenas 90 minutos. A película é uma discussão sobre as inconstâncias do sentimento juvenil, a relação da sexualidade e um pequeno recorte sobre os sentidos dos relacionamentos abertos e bígamos que se intensificam na esfera da sociedade. O foco narrativo centra-se em Zeca (Caio Blat), um homem à beira do colapso existencial, um escritor que não consegue finalizar seu livro e sente-se frustrado por isso. Reside num morno apartamento em companhia de sua esposa, Júlia (Maria Ribeiro). No completo ócio constante, eis que a infelicidade persiste nos laços conjugais ao ponto de Zeca não conseguir mais manter uma boa sintonia sexual com sua mulher. Seria um casamento já firmado com ausência de libido? Mas, o destino providencia a catarse: Zeca flagra Júlia em um quarto com sua melhor amiga Carol (Luz Cipriota) e crê que ambas têm um caso secreto. A desconfiança passa a ser gradual, o rapaz sustenta nas suas dúvidas e sua mente, a partir disso, garante todo um tormento particular. Todo o filme mantém a percepção centralizada no olhar do próprio narrador, Zeca - assim, todas suas fragilidades são expostas ao público concebendo uma intimidade identificável, crível. Será que ele estava sendo traído há muito tempo? Como entender essa descoberta que o corrói? Ou seria apenas um ciúme que estabeleceu a cegueira em sua vida?

Interessante que todo o mote do sexo paira no esqueleto argumentativo bastante delineado por Paulo Ham. Todos os diálogos não escondem o quão passional, intenso e sexual é seu personagem Zeca. É o típico homem que vive imerso nos próprios problemas das dúvidas existenciais - o que fazer para sustentar uma vida que quer? como ter inspiração para finalizar o livro que pretende terminar? a vida há de ser mais prazerosa? - e que não consegue conceber um rumo evidente aos anseios. Sua relação com sua mulher firma-se no condicionamento na teia tediosa da rotina - até as transas de ambos tendem a ser conformadas em padrões. Praticamente, Zeca tende a estimular a esposa a ter relações sexuais com ele, visto que se mostra um homem dotado de libido constante. É como se o orgasmo estimulasse uma energia já dispersa em sua vida, pois Zeca não consegue dar melhores contornos a sua vida senão ao vazio que o confunde. E ele se submete ao ostracismo social, vive no seu mundo de imaginações e sonhos - mas, sua realidade é ser sustentado pelo dinheiro da mãe falecida sob a administração do pai Humberto (Daniel Dantas), por quem nutre uma relação firmada em mágoas e frieza.

O destino de Zeca, em meio as suas turbulências internas de sonhos não realizados, passa a ter novos contornos: ao passo que desconfia que Júlia o esteja traindo com Carol - essa passa a viabilizar um novo sentido orgástico em sua vida. É o tesão expressando novos horizontes? Do desejo nada se sabe? Não há maneiras de internalizar a compreensão das funções libidinosas que se apoderam da carne. Eis que Zeca passa a desejar ardentemente a amiga de Júlia (ainda que ela possa ser amante de sua mulher), não consegue conter a sua libido que se torna mais nítida quando ele se masturba toda noite ao pensar no corpo da garota que causa um irremediável tesão dentro de si. Nota-se que Zeca transa com Júlia mais pela sua necessidade fisiológica, visto que é um homem com uma forte tendência aos anseios libidinosos. Então, Carol torna-se de amiga e amante de sua esposa para seu objeto de maior desejo: ele projeta nessa mulher, dançarina argentina, um modelo sexual de satisfação para todas suas aspirações de prazer. Enquanto erotiza suas visões ao imaginar um romance lésbico de sua esposa com ela, arde nele uma vontade de possuir essa misteriosa garota que domina todos os sentidos do seu dia a dia. É necessário trair? Há na mente de Zeca o fetiche da tentação de dividir-se sexualmente, como prato degustável do orgasmo, entre duas mulheres?

É um filme que aborda os percalços dos desejos que podem afligir a carne, a alma. Mas, o retrato de Paulo Ham vai além aos mostrar questões contemporâneas como sensos de moralidade, dúvidas existenciais de jovens que não insistem em amadurecer, inconstâncias do sentimento, ciúmes que se manifestam e inquietações da alma. A maneira como as ótimas atuações de Caio Blat (que sustenta a narração em off de seu personagem), Maria Ribeiro e uma enérgica Luz Cipriota se completam em cena, concebem uma atmosfera tangível - personificações da realidade de mundo? São questionamentos, sexualidade e anseios muito bem delineados. E o misto do drama com toques de humor tornam os diálogos coloquiais verossímeis. É interessante como o cinema nacional alia-se do vigor e da mudança nos paradigmas para estruturar um bom conto de sexo e reflexão. Seria também um retrato sobre a geração - humana - perdida em depressões? Dúvidas? Ou é apenas uma maneira de mostrar como todo ser humano, ainda que não demonstre, tende a ser infinitamente inseguro? Pelo menos Zeca não é representante do sexo frustrado. Belíssimo filme provocador, crônica cinematográfica realística.

Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos (Brasil, 2010)
Direção de Paulo Ham
Roteiro de Paulo Ham
Com Caio Blat, Maria Ribeiro, Luz Cipriota, Daniel Dantas, Hugo Carvana

Felina Ferina

O filme Nina é um trabalho precisamente rebuscado, de grande efeito estético e um exercício criativo. O longa nacional do pernambucano Heitor Dhalia tem livre inspiração em "Crime e Castigo" do escritor russo Dostoiévski - traça um diálogo e traz referências sutis, contextos e certas situações que remetem à obra. A trama foca em Nina (Guta Stresser), uma jovem gótica bissexual, rebelde e de grande sensibilidade ativa que busca meios de sobrevivência na metrópole desumana de São Paulo. Mas, só esbarra em dificuldades e adversidades tempestivas. Logo no início do filme, observa-se que ela tem grandes distúrbios psico-emocionais. Totalmente imatura, com ímpetos de impulsividade e anti-social. Sem muita perspectiva financeira e sem parentes próximos, vive com muito custo num apartamento cuja proprietária, Dona Eulália (Myriam Muniz), tem prazer em provocar desentendimentos e desmede cobranças constantemente. Com um mal-humor e acidez ranzinza, Eulália condiciona a vida da inquilina num inferno assustador. A senhoria tende a provocar, confiscar o dinheiro que a mãe envia a Nina e até viola a correspondência num ato contra à privacidade. Ela, por dificuldades tanto emocionais quanto financeiras, tende a viver no limite do condicionamento privativo e autoritarismo da velha decrépita. E os desentendimentos são constantes: Eulália tranca a geladeira a cadeado, impede que ela tenha acesso aos alimentos; age com ironias e rispidez e externa sua impaciência grosseira gratuita. Nina se depara com uma atmosfera de crueldade, insensatez e desconforto onde vive. E é na rua, fora do apartamento, onde vive em constante aflição, que ela tende a ser libertina: neo-gótica, universitária falida e artista fracassada, procura amigas prostitutas e traficantes; entre sexo com mulheres e homens, encontra na droga um consolo; sua válvula de escapa são boites frenéticas repletas de sexos promíscuos nos banheiros, beijos a três e amizades ocasionais. Ela precisa do sexo para se libertar?

Eis o universo underground vivenciado pela protagonista do filme: entre transas sexuais com estranhos, conversas existenciais com prostitutas e alimentando-se de lanches em bares de pé de escada. Sem dinheiro, tende a estar predestinada à incerteza: seria necessário prostituir-se para viver? E é neste quadro de sobrevivência que se compreende o caos: ela passa a demonstrar crises mentais, ao passo que desenvolve uma relação de ódio e sufoco com a inquilina. Sua insatisfação beira à ira compulsória, tanto que ela passa a ter desejo de cometer um assassinato para se livrar da tensão relacional com a senhora Eulália. Eis aí a proximidade com o universo de Dostoiévski: Nina é esquizofrênica, sofre de alucinações constantes e, aos poucos, não consegue mais atenuar seu descontrole psíquico - o que atira numa densa trajetória de problemas de relacionamento com as pessoas, num progresso de paranóia e crises inabaláveis de depressão. À beira do precipício da própria ausência da existência, ela mostra-se desequilibrada e é tragada pela sua loucura: passa a ter visões, acha que é perseguida e até acredita que matou Eulália num acesso de fúria. Será que houve, de fato, um crime? Ou seria apenas uma ilusão de sua consciência desequilibrada?

O roteiro escrito por Dhalia e Marçal Aquino pauta essa relação da percepção de Nina: ora ela caminha na superfície da realidade, ora ela permeia imersa na configuração de sua própria loucura intensificada. Torturada psicologicamente pela velha, e sempre sob os efeitos das drogas, Nina entra num mundo de ilusões e em certo momento não sabe mais o que é realidade e o que não é. A raiva dela em relação à Dona Eulália é descarregada/extravasada em seus desenhos (estilo mangás japoneses), que simbolicamente mostram o ódio daquela por esta. Envolvida nos fantasmas de seu inconsciente, envolvida num crime que acredita ter cometido, será ela punida? Cenas de um assassinato não saem de sua cabeça, e ela leva em frente essa loucura. Mas como conseguirá conviver com a culpa? O roteiro foca nessa atmosfera perceptiva da garota que é refém de sua própria consciência - no tormento de não saber livrar-se do pecado e do conflito existencial. E o longa é todo sob seu ponto de vista. A opressão dela não vem do ambiente externo, mas sim de sua própria mente. A direção de Dhalia extrai uma atuação talentosa de Guta Stresser: totalmente concentrada, personifica a densidade da personagem. E Myriam Muniz domina todas as cenas, numa caracterização assustadora. Tecnicamente bem concebido, a trilha sonora envolvente de Antônio Pinto promove um clima sensível e denso ao filme - repleto de loops de música instrumental, como uma espécie de delírio sonoro da paranóia de Nina, repetindo à exaustão. Os delírios da protagonista são concebidos em forma de animação, trabalho feito pelo desenhista Lourenço Mutarelli. Há uma edição ágil e direção de arte ousada de Akira Goto e Guta Carvalho. A bela fotografia prioriza tons soturnos e tinge tudo com sombras, um primoroso trabalho estético que prioriza um apuro visual gótico.

A experimentação da narrativa, a criatividade e a estética auxiliam na concepção deste filme eficiente. Participações rápidas, mas não menos importantes, de Wagner Moura, Selton Mello, Lázaro Ramos, Matheus Nachtergaele, Renata Sorrah e Guilherme Weber fortalecem o filme. Por pautar questões de sexualidade, solidão e loucura. Na nuance da realidade com a ficção - o sentimento da protagonista é evidenciado. Inquietante filme com ponto de vista maniqueísta do que se vive hoje, onde o bem e o mal se confundem bem como os entraves da realidade e imaginação. Para quem gosta de obscurantismo e psicopatia, é um prato cheio: uma atmosfera bizarra, desoladora e demente perpassa todo o filme. Um longa cyber-punk-gótico, por ser cheio de referências à estética do zine, HQ e contracultura, mas sempre com um olhar "negro" sobre as possibilidades dessas linguagens. Ótimo drama psicológico.

Nina (Brasil, 2004)
Direção de Heitor Dhalia
Roteiro de Billy Bob Thornton e Tom Eppersom
Com Guta Stresser, Myriam Muniz, Guilherme Weber, Selton Mello,
Wagner Moura, Renata Sorrah, Lázaro Ramos, Matheus Nachtergaele

Sonhos e desejos?

Inesquecível, ainda que imerso numa linguagem do melodrama novelesco, consegue ser plausível por pautar como o contexto de amizade/amor sofre interferências do ciúme doentio que ocasiona a culpa amarga. Este filme nacional é inspirado em um conto do escritor uruguaio Horácio Quiroga. O foco é na história de três únicos personagens: Laura Monteiro (Guilhermina Guinle) é uma estilista bastante talentosa, extrema profissional dedicada. Numa viagem à Buenos Aires, ela envolve-se rapidamente com Guilherme (Caco Ciocler), um fotógrafo underground que tem prazer em fotografia erótica. Tão logo se conhecem: o sentimento de Guilherme por Laura é evidente, eis que o sexo ocorre em tão poucos minutos entre os dois: transam, ardentemente, uma noite inteira no mesmo dia que se conhecem. Mas, há mais problemas pela frente. O abalo? Laura está pra se casar com Diego Borges (Murilo Benício), um ator e produtor bem sucedido de cinema. O recurso do melodrama se intensifica: Guilherme é o amigo de infância de Diego, ambos têm uma amizade que beira à cumplicidade incondicional. Atormentada pela coincidência macabra do destino: Laura e Guilherme sente-se aflitos, angustiados e o conflito emocional entre os dois transparece pra Diego. Como lidar com uma suspeita de traição? O maior tormento do roteiro é mostrar como um ciúme pode provocar a destruição de um sentimento. Pior: a traição trata-se de um abalo trágico e que pode cicatrizar uma vida inteira. Laura é o foco feminino e elo sensual do filme: é o desejo entre os dois homens e também é motivo de sentimento de ira. Ela vive entre o medo de ser descoberta pelo marido e o sentimento de culpa, crescente martírio, crescente dentro de si.

Como atenuar um desejo que corrói a alma? Pois, Laura não consegue parar de desejar o melhor amigo do marido: com ele, há um ato sexual mais denso, mais ousado e os gemidos são atos libertários de seu prazer. Ela não consegue se libertar do desejo por Guilherme, ainda que se sinta incomodada em dissimular uma fidelidade ao marido. E Diego passa a sentir que há sujeira por baixo do pano do seu casamento à medida que o triângulo começa a se fortalecer - com amor, ódio e sexo evidente. O que fazer para driblar uma situação que beira ao caos? O filme não ousa em expandir personagens secundários, todo o foco narrativo se acentua nos três: por isso, o clima de intimidade prevalece com muito tormento e clima de preocupação. A traição provoca uma catarse entre os três, ninguém consegue se desvencilhar das conseqüências que este ato provocou no relacionamento. E tudo vem à tona: as fragilidades da amizade de Diego com Guilherme sofrem certos deslizes, Laura passa a sentir-se angustiada e sofre por ter cometido a traição - acredita ter perdido a identidade após ter enganado o marido, num misto de sofrimento e nervoso. E o roteiro mostra como a traição soa como algo irremediavelmente sem reparo: condenados, desorientados e aflitos, Guilherme e Laura temem perder até a felicidade a dois.

Através do sentimento de culpa que reservou aos traíras, percebe-se o tom negativo: é como se o ser humano não tivesse direito a retratação, após cometer um erro contra outro. Ninguém tem direito a se libertar de um sentimento de culpa? Como mostrar que se arrependeu pelo crime de traição ao próximo? O clima avança num teor de tormento, sufoco e beira à alucinação: Diego, desconfiado, concebe um jogo psicológico de revolta e vingança surpreendente aos dois traidores. Todo ser humano trai? O que determina esse comportamento? A carne é fraca: o coração também? A direção de Paulo Sérgio Almeida não é inovadora, seu tom novelesco é evidente em várias cenas e certas motivações dos três demonstram isso - ainda sim, a passionalidade e os conflitos de ciume/traição conseguem ser absorvidos. Mistura de teledramaturgia com cinema?

Murilo Benício concebe uma boa caracterização; Caco Ciocler se sobrepõe mais na metade do filme e Guilhermina Guinle personifica a amante feminina que atordoa os másculos do filme - apesar dela ter traído o marido e envolver-se no desejo sexual com outro homem, busca a redenção em si mesma e quer livra-se do estigma de ter se submetido aos desejos da carne. Ela tenta fugir dos pecados e dos erros durante todo o filme. Ainda que limitado, o roteiro proporciona humanização. E a traição realmente pauta toda a narrativa do filme: é através dela que os personagens envolvem-se numa teia de alucinação, drama surreal e aflição íntima.

Inesquecível (Brasil, 2007)
Direção de Paulo Sérgio de Almeida
Roteiro de Paulo Sérgio de Almeida
Com Murílo Benício, Guilhermina Guinle, Caco Ciocler, Fernanda Machado

Encarcerados de desejos

Eis que o cinema nacional demonstra um belo exemplo de exercício cinematográfico. O filme Sonhos e Desejos, dirigido por Marcelo Santiago, baseado na obra "Balé da utopia", de Álvaro Caldas, consegue ser deliciosamente prazeroso. A produção foca na trajetória de três personagens: Três militantes confinados dentro de um apartamento. Há uma destemida jovem estudante, Cristiana (Mel Lisboa); um professor de literatura, Saulo (Felipe Camargo) e um guerrilheiro (Sérgio Marone) ferido durante uma ação que esconde a face, cujo nome é um mistério. Em plena euforia do auge da repressão militar, nos anos 70, Cristiana abandona sua cidade natal para esconder-se num "aparelho" em Belo Horizonte, junto com seu namorado Saulo. E é lá que conhece o homem ferido, um bailarino, com rosto coberto por um capuz. Ao passo que eles confrontam as próprias opções políticas, diante do medo de serem pegos, contestam também o aprendizado da convivência. E eis que o confronto da política é relacionado à afetividade - Cristiana passa a ter uma proximidade intensa com o misterioso guerrilheiro que, num súbito de desejo inesperado, passa a manter um gradativo elo de tesão com ela. Já que Saulo parte para a prática política - no apartamento, solitários e reclusos, Cristiana envolve-se sentimentalmente num elo de amizade pautada em grandes diálogos existenciais, papos desconexos e a afinidade flui. E o desejo ocorre. Como lidar com o sentimento inesperado? Cristiana passa a ter mais química sentimental, sexual e acalento ao lado do guerrilheiro - visto que Saulo, constantemente abalado pelos embates políticos, mantém-se, quase sempre, ausente do seu convívio.

E é na sua ausência que o desejo clama pelo companheiro encapuzado, o tesão entorpece os sentidos e o apetite sexual se intensifica. Entre papos, olhares e diálogos diários é que ambos envolvem-se mais. O roteiro navega entre essas duas vertentes - a discussão política externa e o triângulo amoroso dentro da atmosfera do apartamento que serve de refúgio e também proteção à ditadura militar. A intimidade deles é focada em primeiro plano, o conflito reside mais nas motivações sentimentais dos personagens que o detalhamento do painel político que se configura em segundo plano. Cristiana representa uma jovem que se envolve no movimento de resistência pela luta armada, levada mais pela paixão inicial do seu namoro com o Saulo, do que por forte convicção ideológica. Bem verdade, por acabar reclusa no aparelho, imersa em sonhos secretos e desejos pelo guerrilheiro, ela perde a própria identidade militar - já que não participa, integralmente, da luta armada representada pelo personagem de Saulo. Ele é o típico indivíduo politizado, conscientemente engajado, sendo parte de grupos armados contra o regime militar. No universo alienado do apartamento, Cristiana passa a ter envolvimento psicológico e sexual com o bailarino encapuzado.

O filme pauta essa questão da traição, lealdade e também o dilema do ciúme. A moralidade, a confusão dos sentimentos e as motivações dos desejos são questionados sempre pela personagem que narra a história: ela vê que não há mais solução para seu relacionamento com Saulo, este tenta não se abalar pelo ciúme que desorganiza seu foco na política - ele considera um "sentimento pequeno-burguês" está enfraquecido por questões do amor. Estaria ela apenas vivendo uma ilusão? O novo amor seria a libertação de uma vida já firmada na perda de sua identidade? O sexo é prazer que liberta a alma confusa? O corpo pede, clama e sente tesão constantemente. A opção visual do diretor, com nítido cuidado plástico, auxiliado com beleza pelo diretor de fotografia Dudu Miranda, contextualiza a narrativa. A fotografia muda de cor e textura conforme o momento. No esconderijo, as cores são extremamente fortes/quentes; do lado de fora, a fotografia recebe tons azulados; e as cenas do passado, em flashback (momentos que mostram o início do namoro de Saulo e Cristiana), tem a beleza do preto e branco. O conceito visual aprimora a qualidade do filme, precioso elemento. A densidade colorida dentro do apartamento revela o teor sexual que reina ali, já o tom monocromático externo representa o abalo político de crueldade. Tem uma montagem interessante em que mistura créditos, imagens de arquivo e cenas dos personagens da história concebendo agilidade à narrativa. A trilha sonora tem canções de Milton Nascimento e Wagner Tiso.

E o roteiro mantém um certo erotismo em colocar Cristiana como a representação do desequilíbrio masculino - tanto Saulo quanto o guerrilheiro sentem um desejo desmedido por ela. E ela transa com ambos, em cenas de sexo ardente. Mel Lisboa é o misto da sensualidade e representa a feminilidade passional apaixonada. Sérgio Marone exala charme, masculinidade sexual em olhar e expressão corporal. E Felipe Camargo é sereno e mantém uma concentração interpretativa. O choque entre a vida afetiva e a participação política, sentimentalidade versus comunismo, são artifícios do roteiro. O filme mistura a política e sexo - os personagens ora pregam a revolução, ora fazem maratonas sexuais. Vivem entre o desejo e a utopia - a sexualidade e o desejo são trabalhados como a expressão da individualidade e a utopia como o sonho coletivo de uma geração. A coexistência desses dois elementos em um mesmo indivíduo e a interferência que um exerce sobre o outro são problematizados. O conceito sexualidade versus comprometimento social é anunciado desde a abertura de créditos, sendo facilmente compreendido. À beira do colapso emocional, os personagens vivenciam a loucura proporcionada pela solidão, com diálogos sempre auto-reflexivos. E no cárcere privado é onde o amor se torna aliado do sexo que gera uma superação coletiva. Grande filme nacional de apuro técnico e emocional.

Com açucar, com afeto

O curta metragem brasileiro Café com leite, dirigido por Daniel Ribeiro é extremamente simples: contudo, cativa de maneira eficaz pela naturalidade proposta. O enredo foca no casal de namorados Danilo e Marcos: ambos vivem imersos em amor condensado em sexo, sintonia e fidelidade. Ambos atingem a maturidade no relacionamento. Quando o fotógrafo Danilo decide sair da casa dos pais para fidelizar compromisso com o namorado, eis que subitamente a tragédia: seus pais morrem num acidente de carro. Como se não bastasse tamanha reviravolta emocional, Danilo torna-se o único responsável pelo seu irmão caçula, Lucas. O curta foca nessa sutil problemática: como lidar com o inesperado? Como manter um desejo no namoro? Danilo preocupa-se em cuidar do pequeno irmão e ainda tem que promover articulações para sustentar seu relacionamento- já que este expressa carência afetiva e sexual. Então, novos laços são recriados e o cotidiano se transforma: Danilo convida Marcos a dividir seu apartamento em companhia do menino. Enquanto os irmãos tentam driblar a própria vivência de um para o outro, Marcos tenta encontrar seu sentido dentro daquela nova relação estrutural familiar. O pequeno Lucas é esperto, mas sensível e logo percebe que seu irmão mais velho é homossexual.

O diretor Daniel Ribeiro em tão poucos minutos recria um universo brasileiro, os diálogos parecem improvisados e são naturalizados pelos atores à vontade com a câmera observadora. Observamos o dia a dia dos três, a relação de família que se configura: Seriam Danilo e Marcos os pais educacionais do menino Lucas? Como sustentar essa adoção? Todo casal gay merece adotar um filho - será que os namorados estão cientes do novo encargo? Haja vista que tudo não foi premeditado, as circunstâncias do destino, apenas.

Sem maniqueísmo, o discurso do filme é abraçar e comprometer-se com delicadas questões da adoção gay, direitos à união civil homossexual - ainda que tão rapidamente, há esse discurso subliminar, essencialmente humanista. O curioso é que a figura da criança determina abalos no relacionamento do casal - o menino, por vezes, inclusive, parece mais maduro que o irmão em algumas situações. Apesar de nítidas dificuldades, o que poderia ter se evidenciado um fardo, traz à tona admiráveis e profundos sentimentos humanos: altruísmo, confiança, solidariedade e, acima de tudo, a dedicação da amorosidade. Relações ternas, intensas dos três - sem ser piegas. E

m Café com Leite, a pureza e a ternura emergem da dor, ilustrada no ícone maternal do copo de leite, surgindo como remédio e alento para o coração. Este drama soft gay desvia de polêmicas e mira exatamente no afeto humano. É cativante a maneira como o cinema queer consegue se recriar fora do espaço underground e corteja seu próprio espaço no mainstream. Daniel Tavares e Diego Torraca são íntimos e têm química interpretando o casal e Eduardo Melo, o pequeno Lucas, demonstra talento e se destaca na produção. O curta foi recentemente premiado com o Urso de Cristal no 58º Festival Internacional de Cinema de Berlim. Ganhou menção honrosa na categoria curta-metragem de ficção do Festival de Cartagena, na Colômbia, além de presença nos principais festivais nacionais e internacionais de cinema. Um curta tão interessante merecia ter maior tempo de duração – tudo que é bom dura pouco.

Loucura Manipulada?

Pois todo filme nacional pode atingir o ápice, é o que ocorre com o intenso Bicho de sete cabeças: definitivamente, uma abordagem contundente e violenta do âmbito brazuca, efeito cinematográfico de pura realidade. Dirigido com talento pela criativa Laís Bodanzky, o filme captura a crueldade humana no mais profundo absurdo. Rodrigo Santoro é Neto, um jovem enviado ao manicômio pelos pais por não se enquadrar nos padrões sociais. Qual a condição da loucura? O que determina ser ou não sensato? Neto suporta a crueldade e agrura de um sistema que, condicionalmente, devora suas presas com maldade. Othon Bastos e Cássia Kiss personificam a estrutura familia que adotam a internação do filho, pura medida impulsiva. O filme propõe alfinetar a alma, o coração e a sociedade: como abrir os olhos diante de jovens transviados? Neto peca em viver imerso nas drogas e à condição de subversivo, porém tem sua vida revirada pela ignorância da família. Como um adolescente de classe média se predestina ao esquecimento? É no manicômio que o jovem encontra a amargura: é obrigado a usar fortes medicamentos, recebe maus-tratos e tem um violento tratamento - inclusos eletrochoques de 460 volts e encarceramento! É com muita emoção que vivenciamos a dor: ele sente o próprio inferno de perto, junto com suas constantes convulsões provocadas pelas descargas elétricas. Já imaginou ter os neurônios queimados e se observar próximo da morte?

O filme é contundente, selvagem, impactante. Como se livrar do abismo? A história é baseada no material autobiográfico de Austregésilo Carrano Bueno, no seu livro Canto dos malditos - internado entre 1974 e 1977, num hospital de Curitiba. A película é um sôco no estômago, contextualiza um período de pura crueldade social e pra compreender é necessário refletir. Existem, ainda, jovens condenados ao manicômio? Como se configura a atualidade neste sentido? Como se deparar com o uso das drogas na juventude? O filme propõe ainda mais: é importante uma relação de pais com filhos, um ajuda o outro, a compreensão mútua. A ausência de diálogos e afetuosidade tende à alienação familiar.

O sistema manicomial do Brasil se predestina ao tabu total, nada é muito questionado. O cinema exerce essa importância de questionamentos. É interessante observar a atuação emocional de Rodrigo Santoro: a degradação mental e física de Neto é violenta, sofre na própria carne a violência dos abusos e métodos dos medicamentos inseridos na veia. A ironia é constatar que o manicômio não cura os pacientes, mas os condiciona, ainda mais, à loucura e alienação - sem nenhum estímulo de recuperação ou intelecto.

O filme tem uma estética documental com planos modernos, acelerados, de acordo com o ritmo narrativo e do embalo psicológico dos personagens. A trilha sonora tem letras compostas pelo músico Arnaldo Antunes e André Abujamra concebem o tom conceitual da temática: as músicas determinam pensamentos e sentimentos do protagonista. Eis que o cinema nacional denuncia com lucidez o sofrimento, as atrocidades de um sistema psiquiátrico e desmascara uma sociedade diante do consumo de drogas.

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