Preciosidade Literária

A paixão segundo G.H. é definitivamente a obra-prima de Clarice Lispector. É alma, coração e o misto pela contextualização da própria vida humana. O livro é o indizível que se permite ao dizível, eis o contraste. É a profundidade da alma que encontra a transcendência do espírito e carne. O enredo aparentemente banal: Uma mulher de identificação pelas iniciais G.H. relata com muito cuidado sua experiência íntima - no instante que entra no quarto, após ter demitido a empregada, decidida a limpar o ambiente, depara-se com uma barata no guarda-roupa. A narradora, muito aflita e enigmática, relata a perda de sua individualidade após esmagar o inseto. A catarse atinge o ápice: com repulsa, medo e angústia: G.H. decide provar, come a barata e, processualmente, avalia-se como perdida no concreto do mundo. Em aflição, acha que perdeu sua "montagem humana". Para retornar ao seu estado de um ser primitivo, selvagem - e, por isso, mais satisfeita - G.H. deve passar pela experiência de experimentar o gosto do inseto. Através da provação que concretiza a salvação! Com uma técnica bastante única, própria da autora, a narrativa se organiza em capítulos sequenciais e sistemáticos - cada um começa com a frase que serve de fechamento ao anterior. O contexto é mostrar que não existe a interrupção, eis o elemento de continuidade, representando assim a experiência efervescente de G.H. A obra é a busca pelo autoconhecimento, transformação e inspiração. O que é a própria existência de vida? Outra característica do livro é os fluxos de consciência - com forte teor subjetivo - , permeia em cada parágrafo da obra - uma espécie de monólogo em primeira pessoa, com elementos de filosofia e existencialismo. Ao esmagar e comer o interior branco da barata opera-se em G.H. uma espécie de revelação: conceitua um estado e aspecto epifânico, pois a personagem passa a comungar com o real e também o divino - indagando, relacionando e questionando os limites entre a racionalidade e emotividade. Em meio aos seus afazeres domésticos, o inseto a lança para fora de sua própria condição de humana. O que é o humano e o não-humano? Ora a personagem dialoga com o leitor, ora consigo mesma, concretizando a identidade própria. O amor está muito próximo do ódio, pois Clarice Lispector aproximava esses dois conceitos. Tudo de vez, tudo intensamente. Completamente desorganizada, vazia e desarrumada civilizadamente: G.H. se reconstrói moralmente. O divino e o inferno são concepções do psicológico da personagem. A incapacidade de conceber forma ao que lhe ocorreu, a aceitar este estado de perda da essência, a leva a imaginar que alguém está segurando a sua mão. Desta maneira, o leitor vivencia junto com a personagem esta experiência singular. Qual a relação da personagem com a barata? Como se fundamenta a realidade? A obra é um jorro visceral, turbilhante e ininterrupto de linguagem - vai do encontro da carne com o Deus. A criação do universo se define na construção do próprio ser humano. Deveria ser humano. Desmistificar G.H. - seria desmacarar o "Gênero Humano"? Deveria ser o livro-de-cabeceira de todo ser humano.

21 opinaram | apimente também!:

Paulo [ALT] disse...

Humm... desde que vi a capa toda com postura naquele tal kit-socorro, ainda lembro disso hehe, fiquei curioso. Parece até ser uma boa edição. Mas, como você mesmo sabe, literatura nacional não é lá meu forte embora eu não vire a cara claro.

Você disse que não ia gostar. Ah, como assim??? Nunca li um pra saber. Sei dessas epifanias e essa achei medonhamente engraçado e interessante. Tudo bem, podia ficar sem a descrição do branco lá hahaha, brincadeira. Bom, tem quitina, é bastante nutritivo segundo as aulas de biologia de antes, hehe.

Outra coisa, gostei dessa história de esquematização dos capítulos e do fluxo que você captou e passou pro blog. Tá conseguindo convencer leitores não tão muito chegados ao nacional hein.

Grande capa também. Simples, má dá impacto. A fonte utilizada é forte, como o título.

Abraçooo amigoo ^^
[ps. me conta como tá o download rsrs]

Marcelo Mayer disse...

começa com uma vírgula termina com uma exclamação

Luis Fabiano disse...

32 anos sem a querida Clarice Lispector. Seus textos são, indubitavelmente, o que há de melhor na investigação do nosso "interior" e desembocam sempre num questionamento da divindade, né? Eu adoro "A Paixão segundo G.H." e acho que a separação dela, na mesma época, foi decisiva para a realização desse romance. Bem lembrado esse recurso do encadeamento em corrente, em que cada última frase de um capítulo se repete como a primeira do outro, a metáfora do elo e o seu processo de aproximação. Nada é por acaso nele, o quarto como personificação do "sagrado", a mulher num mundo de linguagens e por aí vai. "Pessoas de alma já formada ou não" vão se encantar com o livro. Difícil falar qual o melhor de Clarice, porque ela não é uma escritora de trajetória irregular, mas, claro, "APsG.H." está entre os meus preferidos, ao lado de "Água Viva" e "A Hora da Estrela". Menção honrosa para "Perto do Coração Selvagem" e para o conto "Uma Amizade Sincera". Amigo, abração! Espero que o seminário tenha sido um sucesso.

Paulo Braccini disse...

Clarice é e sempre será Clarice ...

;-)

Rodrigo Mendes disse...

Me empresta o livro?

Curioso! Queria comer todas as páginas....

Abs!

Ótimo texto!

Ilana disse...

Esse livro definitivamente é uma preciosidade. É a obra que estou lendo no momento.

"Clarice é e sempre será Clarice" 2

LuEs disse...

Certamente um livro que preciso ler. Parece ser bastante interessante.
=)

Marcelo Augusto Cetreus disse...

O que falar do meu livro favorito? Como relatar a sensação de perdição coletiva que sentimos ao vermos uma trama tão simplório se encaminhar para a passagem dos planos de vida?

O livro é essência. GH não simplesmente se primitiza, mas ao se primitizar, ela recupera o que perdeu no seu cotidiano. Uma trancêndencia aos avessos? O livro é meu norte, com ele, me encontrei e me encontro todos os dias.

Clarice é impiedosamente honesta demais em suas palavras, isso me assombra. Quem sabe algum dia, apareça alguém com o mesmo calibre que essa rainha!

Abraços, um texto muito coeso, mas não existirá texto que possa traduzir o que é Paixão Segundo GH.
Abraços, Cris.

Dauri Batisti disse...

Há sempre novas possibilidades de entendimentos de Clarice Lispector.
Bom passar por aqui e ler esta sua postagem.

Abraço.

Domenium disse...

Muito bom o artigo!

Valeu por ser um seguidor

Sunlight disse...

Eu não conheço muito de Clarice. Me ative até hoje apenas a trechos daquilo que ela produziu, mas tudo isso via internet. O que não é orgulho nenhum para mim.

Estive para começar a ler um de seus livros tem um tempo, mas acho que o momento não me foi propício. Acredito mesmo que para ler Clarice você tem de estar num momento para isso.

Intensidade e subjetivismo eu sei que fazem parte desse universo criado por ela, que conquistam tantos leitores e apaixonados. Mas eis aqui um incentivo para que eu possa, enfim, ler o livro que andava protelando, né? Gostei bastante do blog. Voltarei mais vezes. (;

Marcos Campos disse...

Fiquei curioso...vou ler...
Abraço!!

Andréia M. G. disse...

Nossa! A descrição que vc fez está a altura do livro. "O livro é o indizível que se permite ao dizível." Bem dizíveis estão suas palavras. Muito bom!

Conto Sem Fada disse...

gostei muito!

Cintia Carvalho disse...

Oi Cris!
Não conheço este livro da Clarice Linspector. Gostei do tema.

A forma como vc ta descrevendo a história é bem atraente e nos da vontade de ler.
Uma coisa que me chamou a atenção foi o fato da personagem comer uma barata. A partir de um ato repugnante para a maioria de nós, ela começa a fazer reflexões sobre sua vida e a exist~encia humana.

Uma boa pedida meu jovem.

Um abraço.

Abraão Vitoriano disse...

Clarice
e suas nuances do ser e do saber... para ela a vida é feita mas não acabada, sendo assim temos obrigação de desvendar e garimpar por meio dos nossos sentidos... nesta obra, ela mostra sem menor cerimônia o que acontece atrás das cortinas, revela sentido no sujo e no abstrato pouco valorizado pelos humanos comuns... sua narrativa é de vero alucinógena e sem pudor, um convite as entranhas do real sentimeno que nos cobre, a sentença de "captar vida"...

abraços,
e estou retornando...

do homem-menino,
espero você no meu espaço...

JULIANO TODESCO disse...

Fala rapaz, blz? Como sempre show de bola seus posts, sinto falta de seus comentários no meu blog, entra lá quando puder. Forte abraço.

João disse...

ótimo texto.
esse é um daqueles livros (coisa parecida acontece com filme também) que você deve ler num momento muito apropriado.
sinto que não fiz isso.
deu vontade agora.

giovana oliveira disse...

aaaaah, clarice... ai, ai.



perfeição.


sem mais.


:*

ElderF. disse...

É um livro fascinante, isso não deixa dúvidas.

Tem um livro da Clarice Lispector, chamado "A Descoberta do Mundo", acredito que já deves ter lido. Mas só como reforço: é outro livro fascinante, tanto pela escrita, quanto pelo enredo dos contos.
O livro são os ditos contos que ela enviava para o 'Jornal do Brasil' de agosto de 1967 a dezembro de 1973.

Sônia Brandão disse...

Clarice é tão reverenciada hoje, que se tornou um ícone da nossa literatura.

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Aperitivos deliciosos

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