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Libido feminina musical


“Rock'n'roll é um esporte sangrento. É para homens. Para as pessoas do lado negro. Masturbadores, marginalizados.” Por que não usar o rock um ato de expressão feminista? Como a música é capaz de promover uma liberdade comportamental? Mais que um recorte sobre as trajetórias da puberdade libertina de duas mulheres — as cantoras Cherrie Currie e Joan Jett que formaram a extinta banda The Runaways —, o filme dirigido e com roteiro da diretora de videoclipes Floria Sigismondi toma como base os relatos pessoais e íntimos das perspectivas de Currie, o livro “Neon Angel: The Cherie Currie Story”. É um nítido retrato sobre a expressão feminista e liberação sexual num período de grandes manifestações juvenis e exploração criativa musical. The Runaways não é uma cinebiografia sobre a construção da banda, mas sim um olhar mais íntimo na relação de amizade e nas próprias perspectivas das garotas — o envolvimento musical, afetivo e até libidinal vivenciado por Currie e Jett, interpretadas com eficiência e dedicação por Dakota Fanning e Kristen Stewart. É um olhar bem feminino sobre posicionamentos das ideologias, personalidades e contornos comportamentais dessas mulheres que usaram do rock uma expressão de vida e de liberdade de mulher.

Ao abarcar o período de 1975 a 1979 da explosão musical e sucesso da banda The Runaways, este filme claramente exibe o argumento da sexualidade, da quebra de tabus femininos e da maneira como a mulher procurava, irrevogavelmente, desfragmentar os laços com o machismo e as ideologias patriarcais. Mesmo frágil, polido e com um roteiro sem grandes aprofundamentos, o olhar de Floria Sigismondi alerta ao público sobre esses indícios ao colocar jovens mulheres em busca de “liberdade” e expressão musical — o filme mostra como existia preconceito para qualquer mulher, naquele tempo o rock era sinônimo da masculinidade e não havia espaço aparente para um grupo de adolescentes dispostas a dominar guitarras elétricas. 

Em linhas gerais, a representação do feminismo é evidente, pois a banda desafia a comunidade roqueira que enxerga o sexo feminino como algo frágil e incapaz de mostrar atitudes e dureza musical — Michael Shannon personifica o histérico produtor Kim Fowley, o homem irônico e peculiar, que faz com que essas garotas se tornem mais rígidas, capazes de mostrar que o rock é também um posicionamento feminino e que a agressividade é algo a ser viabilizado.

Além da vertente feminista assumida pelo roteiro, a caracterização hormonal é facilmente percebida. Dentro do cenário de filmes que envolvem temáticas de rock ou mesmo sobre caracterizações de personalidades famosas, a questão da sexualidade sempre é discutida. Neste caso, a homossexualidade entre Joan Jett e Cherrie Currie. O público mais ávido por cenas sensuais, provavelmente vai se sentir frustrado, por conta da pouca exploração neste sentido. A sensualidade é mais sutil, sem grande provocação na trama, mas é nítida.

Na época da produção, houve pressão por parte dos pais de Dakota Fanning e o teor mais provocador do roteiro — inúmeras menções ao envolvimento sexual das cantoras, cenas de beijo e explicitações carnais — foi atenuado para que a atriz permanecesse no filme. Talvez, aí seja o erro, pois a relação das duas por um lado é bem construída emocionalmente, mas perde força por atenuar o lado mais libidinal. Ainda assim, as poucas cenas, provam que existe uma química de Fanning com Stewart.

Instigante como a banda era tão ousada e sexualizada — as músicas, a maneira como Cherrie Currie utilizava de roupas e expressões corporais nos palcos —, é a típica concepção de como a ideia do sexo está muito atrelada ao rock. A canção mais famosa, "Cherry Bomb", é um belo exemplo de sinônimo de rebeldia e sensualidade expressiva. E Floria Sigismondi investe sutilmente nesses elementos básicos da sedução ou mesmo na maneira como, por exemplo, Kristen Stewart utiliza de trejeitos masculinos como Joan Jett — representação óbvia da concepção comportamental lésbica? 

Ao ver o filme, pode-se constatar que a banda The Runaways era mais que um marco na história do rock'n'roll. Mas, assim como tantas bandas da época ou até da atualidade, foram "formadas" para ter sucesso — tinham diferenciais e qualidades, porém esses sensos não fizeram que permanecessem na ativa. De acordo com o filme, fica evidente que a “ovelha-negra” feita por Fanning não parecia mesmo que queria só se rebelar perante o sistema machista, curtir música, mas não tinha um tesão avassalador para viver naquela realidade. Ao contrário de Stewart que mostra que Joan Jett aparentava mais prazer, dedicação pelas músicas que escrevia e por viver neste universo tão atraente de drogas e sexo e música, um mundo tão dinâmico e insano e efervescente.

Enfim, com uma proposta tão grandiosa e, ainda que tenha um resultado bem acima da média,
The Runaways é puro hard-soft e carece de um “erotismo roqueiro” mais evidente, tão necessário a esse tipo de produção. Com uma fotografia e edição ágeis e bem executadas, o filme se sustenta também no corpo da trilha sonora que tem canções de David Bowie, The Stooges e as próprias músicas mais célebres da banda The Runaways. Ao contrário de filmes mais contundentes como "Johnny e June" sobre Johnny Cash, "The Doors" sobre Jim Morrison ou mesmo "Control" que mostra as dores do Ian Curtis do Joy Division, faltou mais ousadia, coragem e espírito punk.

The Runaways (EUA, 2010)
Direção de Floria Sigismondi
Roteiro de Floria Sigismondi, baseado no livro de Cherie Currie
Com Kristen Stewart, Dakota Fanning, Michael Shannon, Stella Maeve

O amor e outras drogas

Eis a juventude que parece predestinada ao ócio — ou seria a própria conformidade de não querer nada para vida? A única perspectiva aparente, seja no prazer ou na motivação, relaciona-se à auto-destruição, a possibilidade de caminhos tortuosos, ao excesso de tudo que agride o bom-senso. E o que dizer sobre o vício da droga? Jovens que se aventuram na opção de viver uma realidade paralela proveniente do consumo das drogas; do contato com os entorpecentes que concebem uma falsa ilusão de êxtase, nada mais que efêmero. A realidade é bem mais dolorosa, visto que a dependência acaba por dilacerar qualquer senso de moralidade, de amor próprio, não existe nem mesmo a consciência. Em Candy, nada parece ser belo, nem perfeito, não existe sonhos, a realidade é muito dolorosa. Dan (Heath Ledger) é um poeta, desempregado, apaixonado pela namorada pintora Candice "Candy" (Abbie Cornish). Eufóricos, hiperativos, dinâmicos. O casal vive um tórrido romance, uma sintonia perfeita, fazem sexo todo dia. Porém, o melhor orgasmo é quando se viciam, ainda mais, em heroína e cocaína. A partir desse sentido, o filme, dirigido pelo australiano Neil Armfield, surpreende ao percorrer o entusiasmo inicial a decadência física-emocional de duas pessoas que imergem num destino de grande aflição.

Só existe dois protagonistas nessa obra. Só convêm duas coisas para eles: sexo e drogas. Candy, a moça-título, com seu Dan. Boêmios, imaturos e indisciplinados. O casal explode com a sexualidade em cena. O roteiro aproveita-se da própria combustão dos personagens para acentuar uma perspectiva sensual: compreende-se que o casal tem muito amor, desejo e paixão. Tudo misturado, típicos valores de uma relação idealizada. Acompanha-se os dois em transas constantes, beijos e exploração libidinal que recria o universo íntimo da sexualidade presente. E o diretor aproveita-se para conceber inúmeros takes de beleza fotográfica, diálogos poéticos, tudo narrado pelo personagem Dan em tom de reflexão. Porém, não só de sexo se concentra a narrativa. Acompanha-se também a via-crucis dos amantes quando mergulham mais ainda no vício das drogas. E o tom de inocência transforma-se no inferno total.

Dividido em três capítulos — intitulados de "paraíso", "terra" e "céu" —, cada segmento, mais denso que o outro, explora o uso imoderado das drogas e a degradação do casal que transforma o sonho da felicidade inicial em desespero imoderado. A dependência, o vício incontrolável, a progressão da desarmonia conjugal: torna-se contextos da vida dos amantes. Eles passam a roubar para obter dinheiro para sustentar o uso; a prostituição torna-se uma condição vital para Candy que aceita vender seu corpo ou submete-se a sexo oral em desconhecidos para capitar uns míseros trocados; a triste servidão de duas pessoas por substâncias químicas que, se deveria trazer uma suposta "libertação", tornam-se marionetes do próprio vício. "Quando você pode parar, não quer; quando quer parar, não pode..." — é dito pelo personagem de Geoffrey Rush, o amigo homossexual do casal protagonista, tão viciado quanto eles.

O filme é denso em diversas cenas que externam as degradações psicológicas do casal, ao passo que a tensão torna-se gradual mais e mais. O roteiro funciona como um bom estudo sobre a compulsão juvenil — como segurar o que parece ser sempre imoderado? Para um junkie nada mais importa que não seja uma agulha na veia, isso basta. A enérgica atuação de Heath Ledger se converge na entrega interpretativa de Abbie Cornish — é perceptível a química dos dois em cena, tanto nas sequências sexuais quanto nos momentos de maior direcionamento dramático. Ledger é explorado ao máximo aqui, principalmente nos momentos de maior desespero de seu personagem. Cornish vai do corpo desnudo à transformação comportamental vivida pela sua Candy. A delirante cena de mais de 5 minutos de convulsões, vomitação e calafrios, quando o casal vivencia a intolerável crise de abstinência, é um dos momentos mais hipnóticos deste filme que emoldura a realidade das drogas numa triste história de amor. Como traço fiel ao universo da sexualidade que ferve, é eficiente. Mas, é quanto discurso sobre as mazelas das drogas e dos sonhos juvenis destruídos por esses abalos que este produto cinematográfico torna-se imperecível.

Candy (Austrália, 2006)
Direção de Neil Armfield
Roteiro de Neil Armfield e Luke Davies
Com Heath Ledger, Abbie Cornish, Geoffrey Rush e David Argue

Orgias Dançantes?

Os anos 70 providenciou a euforia libertária da juventude que buscava transformação social, mas também fora um período onde a discoteca representava todo o ritmo vital e a pulsação musical pelo prazer — a tal febril "Era do Disco", áurea fase onde a música exercia um fascínio e lema de vida para muitas pessoas, caracterizou-se pela efervescência sonora que atiçava o lado mais sexual do ser humano. Estreante na direção, Mark Cristopher desmitifica a famosa discoteca que dá o nome ao filme, Studio 54. Lendário espaço que personificou toda a ebulição sonora, liberdade sexual pré-Aids e um reduto perfeito para homossexuais firmarem seu espaço. A pecaminosa discoteca atraia celebridades, celebrava o hedonismo desfigurado daquele período e a concreta filosofia do uso de drogas. Steve Rubbell (Mike Myers) é um empresário homossexual que cria o espaço que seria revolucionário: sem regras, preconceitos ou rótulos, celebridades poderiam conviver plenamente com pessoas comuns. O objetivo maior era promover festas que sempre fossem constantes, a típica boate dos sonhos. O roteiro centra-se na narração e ótica do frentista pobretão Shane O'Shea (Ryan Phillippe) que, insatisfeito com sua vida tediosa em Nova Jersey, parte para algo novo. É dentro do Studio 54 que ele provoca a catarse em seu mundo, vira barman e passa a vivenciar os excessos e tentações do universo sensual e glamoroso da tal discoteca. Lá ele conhece uma cantora e garçonete excêntrica, Anita (Salma Hayek) e passa a fomentar um tesão pela atriz Julie Black (Neve Campbell). O filme expõe o surgimento, o sucesso e o processo de decadência de uma discoteca que promovia orgias sexuais; era avançada para época, com pista de dança com efeitos de luzes impressionantes e os maiores DJs. Um local onde era disputado por todos e tornou-se que agitou a vida noturna de Nova Iorque. A trama percorre a ebulição da boate no verão de 1979 até seu declínio total um ano depois. Até hoje o frenesi diante da lendária discoteca se mantém.

A discoteca era uma espécie de reduto sexual, onde pessoas promoviam orgias constantes — o filme mostra como se sustentava essa situação ao colocar cenas onde indivíduos transam na própria arena de dança; na “pegação coletiva” ou mesmo no sexo oral grupal tão habitual naquele local. A sexualidade é forte no ambiente, nota-se que o local era mais uma busca para sexo casual e promiscuidade irrefreável que a própria condição de boate. A perversão é total! Decerto, o filme não procura vulgarizar as situações, nem mesmo polemiza com cenas só de sexo — o diretor opta por sustentar o olhar inocente do seu narrador-personagem, Shane, num ambiente onde só existia a celebração da sexualidade motivada pela dança. Studio 54 era o reduto de pessoas que queriam apenas se divertir, com seus vícios e seus excessos pelos prazeres diversos, carnais e sexuais, com drogas ou bebidas; ilusões e imaginações. Até o dono, Steve, definia a sua boate como um local ilusório, para tanto escolhia a dedo quem deveria entrar e seus critérios de escolhas eram duvidosos; o proprietário, muitas vezes, permanecia uma noite integral na frente de sua boate, só escolhendo quem deveria entrar. Homens com corpos perfeitos; mulheres sensuais; rostos sexys. ‘Espetacularização’ da vida real?

O tom homossexual é evidente no filme. O roteiro expõe o local como espaço GLS, onde o sexo entre homens também era grupal em meio às misturas de drogas, como cocaína. Shane só consegue trabalhar como barman no Studio 54 por conta de sua sensualidade, do corpo, que capta atenção de Steve, mulheres diversas e de outros homens. E o roteiro coloca em pauta a condição do assédio masculino por mostrar um rapaz sexualizado que trabalha pelo dote físico — tanto Shane quanto outros rapazes apresentavam-se, apenas, de short minúsculo e sem camisa; exibiam-se aos trajes libidinosos e ao corpo quase nu — afinal, num espaço onde gays, lésbicas e simpatizantes tinham a liberdade de externar suas intenções sexuais, não haveria condição para puritanismo. Só se empregava na discoteca quem poderia seduzir? Shane era o barman desejado por todos os homens e mulheres. O jovem vivencia as oportunidades que seu emprego oferece: envolve-se em transas furtivas com mulheres diversas; investe no mundo prazeroso de dinheiro e sexo que a discoteca condiciona. Ademais, o roteiro resume situações de homoafetividade; prostituição masculina e até situa questões sobre a esfera do uso de drogas ilícitas dentro da juventude.

Por que a música, em seu estado mais febril, sempre é um elemento afrodisíaco? Mais, aliada ao sexo, torna-se algo de grande prazer para o ser humano. Através de uma ambientação musical, é perceptível sentir o frenesi da década com músicas de Bee Gees e outros cantores de sucesso que retratam bem o universo. O filme explora esse reinado da Disco; do embalo das músicas dos anos 70; das cores esfuziantes daquele mundo e também da sexualidade imoderada, através da vivência de Shane — do jovem pobre a barman que, aos poucos, infiltrou-se na malícia coletiva de um espaço que celebrava algo nada mais que ilusório. As personificações talentosas de Ryan Phillippe e Mike Myers são pontos significativos. O filme acaba por servir de alerta às problemáticas de vidas prejudicadas pelo abuso de drogas e sexo, bem como a AIDS que se manifestou na década de 80, no momento onde a boate sofreu abalos incisivos e o mundo hedonista deu lugar à crueldade da realidade. É quando os personagens passam a acordar pra vida e toda reflexão moral é inserida. Ao fim, é um filme que articula como o ser humano não consegue viver só de ilusão — nem de sexo e música, muito menos de superficialidade. Mas, bem verdade, a sensualidade da "Era da Disco" permanece intacta e nunca é tarde para experimentá-la através das músicas que se mantém emblemáticas. Dançante, sensual e delirante.

Studio 54 (EUA, 1998)
Direção de Mark Cristopher
Roteiro de Mark Christopher
Com Ryan Phillippe, Mike Myers, Salma Hayek, Neve Campbell, Breckin Meyer

Dolorosa Puberdade

Como compreender a juventude que insiste no que é prejudicial? O que estabelece o equilíbrio numa fase onde a imaturidade parece persistir? A adaptação do ousado livro autobiográfico de Jim Carroll exerce um importante recorte da realidade - a adolescência problemática, repleta de vícios e imersa no condicionamento do sexo promíscuo. Expresso na música, principalmente na literatura, desde cedo – Carroll escrevia poemas e sensações de mundo em seu diário. Quem aprecia hoje o poeta, desconhecia boa parte de seu passado obscuro. Diário de um adolescente tornou-se referência de estudo na década de 90, por expressar a cruel e assombrosa vivência do universo das drogas na sociedade e na família. A experiência amarga e emocionante de Carroll recebeu a direção emocional de Scott Kalvert, sob o roteiro de Bryan Goluboff que condensa toda a essência do material originado do livro (o material condensa as anotações do autor do período de seus 12 aos 16 anos). É um filme que pauta a dependência que destrói o ser humano, psico e comportamental. A trama centraliza na trajetória de Jim Carroll (Leonardo DiCaprio), no início da década de 1970, nos guetos de Nova York. Na ebulição de sua puberdade, torna-se um promissor jogador de basquete, porém imerge no submundo das drogas - transformando-se num marginal viciado, permite-se aos furtos para sustentar seu consumo irrefreável. Como conter os impulsos destrutivos? A dependência psíquica de Carroll e de seus três inseparáveis amigos - Pedro (James Madio), Mickey (Mark Wahlberg) e Neutron (Patrick Mc Gaw), o mais consciente da turma - torna-se intensa. Topam qualquer condição apenas para ter acesso às drogas. Inclusive, prostituindo-se. O longa-metragem provoca pela premissa tangível, contundente e percorre a sufocante vivência de um jovem que remodelou seu próprio destino. Eis o redemoinho inebriante da sensação ilusória que o sexo desmedido potencializa e a droga evidencia.

Jim Carroll retrata em seu diário todos seus vícios, sua trajetória ao inferno - o êxtase do consumo diário de drogas que já se torna parte de seu ser. Se inicialmente drogas apenas para melhorar o rendimento no esporte, com a progressão do uso o vício torna-se incontrolável. E o roteiro constrói toda a catarse macabra do personagem real rumo à destruição. De bom aluno e dedicado jogador de basquete, é expulso com seu amigo Mickey de um importante colégio católico onde estuda. A mãe de Carroll (Lorraine Bracco) também não consegue mais conter os ímpetos agressivos do filho, coloca-o na rua. Sem auxílio familiar, marginalizado, é então que a vida torna-se uma gama de abusos de entorpecentes, crescente onda de violência, mergulhando numa realidade perdida de conflitos. Jim Carroll torna-se viciado pelo meio do senso da sexualidade, visto que seu primeiro contato com as drogas é através de uma garota - ela o convence a usar cocaína para estimular um melhor desempenho sexual. É então que a libido, tão característica nessa fase juvenil, encontra reforço pelo contato com as drogas - como fugir dos prazeres sedutores da sexualidade que ofusca a razão? O efeito do uso de entorpecente químico logo afasta Carroll de sua ligação com o esporte, seu mundo desaba irremediável. Como controlar este vício crescente? Como retomar à promissora vida de outrora? E o universo de vício é também o da busca pelo favorecimento da sexualidade, inclusive pelo mesmo sexo.

Os garotos em sua rebeldia crescente, visto que a dependência transforma o caráter e o senso comportamental, aliam-se do sexo para manter o vício. Do uso da cocaína, passam para a heroína - de usuários experimentadores à dependência incondicional. Encontram na prostituição, no sexo com outros homens, preferencialmente, a intenção de usar o lucro na compra de drogas. O filme mostra essa onda de prostituição, principalmente de Carroll que busca sexo oral com homens em banheiros públicos ou estações de metrô. É a cruel realidade de jovens que se submetem a essa condição da sexualidade, a prática imoral e os atos sexuais ilícitos que coloca a discussão da dignidade humana. Neste meio do submundo das drogas, Carroll e seus amigos têm acesso às pessoas que se renderam ao vício e não consegue mais retomar as rédeas da própria vida - indivíduos perdidos, num mundo onde a própria percepção se esvaiu, reflexos do uso abusivo de narcóticos, anfetaminas e entorpecentes que modificaram toda a estrutura comportamental. Toda a realidade é exposta sob a ótica de Carroll: um universo de prostituição, onde jovens desorientados marginalizam-se pelas ruas, numa completa sociedade calamitosa. Ainda que receba ajuda de um ex-viciado, Reggie (Hernie Hudson), Carroll não consegue se desvencilhar do vício - o roteiro desnuda muito bem como a droga corrói o ser, é inevitável se desvencilhar.

A homossexualidade é abordagem dentro do cenário deste caráter da prostituição; além de ser colocada em pauta quando Carroll enfrenta assédio sexual do seu treinador de basquete. É um longa que exerce um forte teor de dramaticidade - principalmente pela inspirada atuação de Leonardo DiCaprio, em cenas densas onde seu personagem enfrenta a abstinência ou dissolve-se em dor por ter que se prostituir. Há cenas dolorosas, onde apenas a câmera focaliza os gritos e o desespero de um jovem que não consegue mais controlar a própria vida, perdido pelo domínio de uma droga que dilacera toda alma. É um ser destruído pelo vício, corrompido pelo sexo sujo. É um filme que concretiza a esfera da prostituição como forma de sustento das drogas; da tristeza de jovens que estão também inseridos na linha entre o perigo de contrair doenças como AIDS. E Carroll simboliza toda uma realidade, sustenta um grito de alerta à sociedade que ainda insiste em não observar como esses caminhos tortuosos podem ser devastadores, sem volta. Jovens como ele jamais tem consciência de como a dependência destrói, de que estão de fato firmados neste condicionamento - a maioria acredita que tem o poder de retroceder o uso das drogas quando quer. A fotografia do filme investe em cores avermelhadas, tons de azul. A direção cuidadosa de Kalvert seduz pela narrativa imagética, closes que captam a atmosfera dessa juventude inquieta. A trilha sonora, com hinos clássicos como ''Riders On The Storm'' do The Doors, revitaliza a efervescência transgressora juvenil da película. A injeção de realidade neste filme impressiona, sonhos são destruídos, porém a reflexão torna-se exercício necessário.

The Basketball Diaries (EUA, 1995)
Direção de Scott Kalvert
Roteiro de Bryan Goluboff, baseado no livro de Jim Carroll
Com Leonardo DiCaprio, Mark Wahlberg, Lorraine Bracco, Ernie Hudson, Juliette Lewis, Bruno Kirby Jr.

Rebeldia Feminina

O que faz uma jovem de bom comportamento alucinar, perder totalmente a razão frente às luxurias da vida? O inquietante filme Aos Treze é um trabalho bastante cru, amargo e tangível sobre a juventude transviada. O trabalho dirigido pela então estreante Catherine Hardwicke atua como um instigante retrato da sexualidade, do consumo de drogas e do desajuste familiar. A arrepiante excursão no mundo juvenil foca no universo de Tracy Louise (Evan Rachel Wood), uma garota introspectiva, quieta e delicada que reside num bairro pobre de Los Angeles. Ela vive com sua mãe Mel (Holly Hunter), uma ex-alcóolotra que mantém um caso amoroso com um ex-drogado, Brad (Jeremy Sisto) e tem uma relação amigável com seu irmão, Mason (Brady Corbet). A aparente tranquilidade do lar se define, até que Tracy fica fascinada por uma garota da sua mesma faixa etária - ambas estudam juntas, porém Evie Zamora (Nikki Reed), ao contrário, atrai atenção de todos por ser popular e ter um estilo próprio comportamental. E é então que o roteiro escrito pela própria Hardwicke, com a parceria de Reed, direciona sua premissa. Tracy passa a fomentar sua necessidade de conhecer mais do universo atraente de Evie. Então ambas iniciam uma amizade que se torna o abalo na aparente estabilidade familiar de Tracy. A película centraliza a análise nesta amizade das duas garotas - é então que sensos de rebeldia juvenil, aflorar da sexualidade, imersão no meio das drogas e desestrutura psicológica - em meio a grandes proporções conflituosas - tornam-se evidentes. Como entender a juventude que insiste em se rebelar? O filme arde por demonstrar de maneira crua este universo de Tracy que representa um real aspecto da sociedade. É um diálogo estabelecido sobre o lado perverso da juventude imoderada - ou seria pervertida? O que pode provocar isso: Carência afetiva? Falta de confiança?

Tracy representa a juventude no universo de influências, de dúvidas e inconstâncias irremediáveis. O que simboliza ter treze anos? É a idade que se fundamenta a identidade, as percepções, o aflorar da libido e também a importância da própria individualidade. Toda garota, nessa faixa, tende a se questionar - físico ou mentalmente. O que é necessário pra ser atraente aos garotos? Como ser aceita? Qual sentido da sensualidade, segurança e beleza? Tracy idealiza sua própria aceitação e segurança no que Evie transparece - então, ela tenta sugar, a todo custo, a representação de sensualidade e popularidade que sua amiga externa. A amizade cresce entre ambas de maneira intensificada. Tracy troca seus ursos de pelúcia, suas roupas infantis, por piercings e vestimentas que expressam seu novo comportamento sexualizado. Ela passa a usar roupas sensuais, maquiagens densas para expressar uma rebeldia. Ao lado da amiga, ela sente-se incluída num universo de satisfação. Foge de sua realidade familiar para viver no universo que a amiga Evie proporciona, sem receios. O roteiro toca na ferida por expor essa trajetória das duas e mostra como a imaturidade pode levar às péssimas consequências. Como fazer para lidar com as influências? À medida que as novas texturas, cores e seduções do novo mundo de Tracy se acentua - é perceptível como envolve-se num perigoso caminho de sexualidade descuidada, uso de drogas e pequenos crimes. Como sua mãe deve lidar com esta situação? Seria ela displicente? Não é fácil ter que cuidar de uma filha sozinha, visto que o pai de Tracy é omisso, ausente.

As garotas são totalmente impulsivas, onde o vício pela rebeldia parece fazer parte de um estranho lema de vida. Tracy, em seu anseio de ser reconhecida e parte de um grupo juvenil - Evie a coloca neste contexto - torna-se mais rebelde: afasta-se dos estudos, não consegue mais manter um elo natural de cumplicidade com sua mãe e vê na família uma concepção de negativismo, apenas. Para ela, viver resume-se nas roupas que compra, nas drogas que usa diariamente, na possibilidade de furtar dinheiro alheio para sustentar suas escolhas insanas. Bem verdade, Evie torna-se sua mentora - é através dela que todo este novo mundo se torna possível. Nota-se em Tracy uma perda de sua fragilidade, sensibilidade e pureza - visto que se permite às mudanças ao adentrar neste lado alternativo de sua vida. E ela é vulnerável, pois é comandada pela amiga sempre. O aspecto do uso de drogas demonstra a mensagem que o filme quer passar: jovens, perdidos e sem perspectivas, transformam-se e caem em diversas armadilhas. Tracy embarca numa viagem sem volta, seu histerismo é sem limites. Até que ponto um jovem pode não ter mais retorno? O que fazer para trazê-lo de volta à tranquilidade? Estar livres de más influências é agir com sensatez? É doloroso observar como Tracy atenua sua ansiedade, suas frustrações e tristeza com o manifesto da dessacralização corpórea: ela comete a autoflagelação - ela corta seu pulso levemente como uma estranha forma de prazer e alívio. A dor provoca uma fuga da própria realidade? Ou seria um aspecto do masoquismo? São sensos do mundo contemporâneo, de jovens que sentem prazer na própria auto-destruição e na maculação do corpo.

O roteiro de Hardwicke não esconde sintomas sociais ao mostrar as garotas na busca eufórica de sexo. Tracy e Evie flertam com garotos da mesma idade, externam a libido feminina que se apodera da carne: em meio às drogas, praticam iniciação sexual com bastante desejo. Beijam vários garotos, usam da própria malícia para constituir um cenário de luxúria no mundo que criam. É sexo sem moderação? É apenas a vontade de experimentar um prazer sem limites? As duas agem sem postura ao procurar o sexo sem comprometimento - inclusive ao descuidar-se no sexo oral com vizinhos. E o roteiro abstém-se de julgamentos ao expor esta trajetória de libertinagem, apenas expõe o universo das duas de maneira crua. Eis o início da vida sexual prematura que faz parte de tantos jovens no seio social, consequências dos reflexos reais que infestam o âmbito global. O sexo desenfreado caracteriza os princípios adotados por essas garotas, inclusive ambas até se experimentam sutilmente. E a trama aponta os culpados - não só os pais, muitas vezes ausentes e distantes da realidade dos filhos - sendo família, amigos e até as próprias garotas. É algo complexo pra se julgar, é um processo enraizado que deve ser compreendido sem preconceitos. A câmera nervosa, o tom da iluminação e a boa percepção da fotografia de Elliot Davis revestem o filme num tom quase documental - é como se o público observasse bem de perto os impulsos das duas garotas, de todos. O tom realista é violento. Os diálogos são crus em certos momentos onde a emoção transpira pelas interpretações densas de Reed e Hunter, porém é Evan Rachel Wood que se destaca pela composição visceral que verbaliza. Sua interpretação incomoda, causa pena e serve de alerta. É um personagem real. Sua Tracy exerce um turbilhão de sentimentos complexos, mas verdadeiros. Não há teor apelativo, mas sim uma problemática crível da atualidade - por isso, de fato é um filme onde a aridez dramática torna-se necessária. Exemplo de trabalho que causa reflexão. Pais e filhos, reflitam.

Thirteen (EUA, 2003)
Direção de Catherine Hardwicke
Roteiro de Catherine Hardwicke e Nikki Reed
Com Evan Rachel Wood, Nikki Reed, Holly Hunter, Jeremy Sisto, Brady Corbet

Sexy Musical

A paixão frenética pulsa no filme Os Boêmios, adaptação do famoso musical escrito por Jonathan Larson, baseado na ópera italiana La Bohème, de Giacomo Puccini. A direção para a adaptação cinematográfica é de Chris Columbus que consegue manter um foco altamente emocional, dinâmico e confiante na produção. É definitivamente um musical vibrante, surpreende por proporcionar uma bela atmosfera sonora somada à verve interpretativa da química do elenco. O filme narra a vida de uma comunidade juvenil residente numa casa, na zona leste de Nova Iorque - são 8 jovens que se envolvem na boêmia da modernidade do East Village. Há Mark Cohen (Anthony Rapp), um cineasta que necessita concluir seu filme, ele é apaixonado por sua ex-namorada Maureen Johnson (Idina Menzel - mas ela trocou a relação quando assumiu sua homossexualidade e foi viver com a advogada Joanne Jefferson (Tracie Thoms). Mark divide seu quarto com Roger Davis (Adam Pascal), um viciado em drogas e que porta o vírus HIV. Ele conhece Mimi Marquez (Rosario Dawson), uma sensual dançarina com tendências masoquistas que mora com Tom Collins (Jesse L. Martin) - este sente, posteriormente, inicia uma relação com o transexual Angel (Wilson Jermaine Heredia). O que torna pessoas tão distintas próximas? O elo de amizade, a sentimentalidade que evolui ao passo que amadurece uma sintonia grupal, é através desses personagens que o roteiro pauta contextos de sexualidade, revolução comportamentais e problemáticas da solidão, envolvimento com drogas e preconceitos sociais diante da AIDS. O filme exerce um ritmo ágil, através da linguagem adotada é que os personagens expressam suas opiniões, anseios e desejos. O roteiro de Stephen Chbosky alia-se das canções (que, por sinal, são constantes e consumam com vigor quase todo o aspecto da narrativa) para verbalizar as representações de jovens que lutam para conseguir se integrar numa sociedade tão predatória, insensível e conservadora. Como estabelecer um elo contra essa limitação imposta pela sociedade? Como lidar com dificuldades financeiras também?

É um belíssimo trabalho que acentua sua febre em canções interpretadas pelo grupo principal, tornando um trabalho digno que transpira energia. É interessante que o filme cumpre com sua premissa em apresentar o cotidiano de jovens que se misturam em poder da vaidade, da casualidade do sexo e da cumplicidade de uma amizade. O filme consegue ser tangível por lidar com problemas bastante reais - a esfera da homossexualidade, da maneira como jovens tendem a sair de casa mais cedo por não terem, dentro do seio familiar, o respeito às opções sexuais. É nítido que todos os 8 jovens representam, obviamente, esses arquétipos de desajustes - mas, serve como, também, uma maneira evidente de expressar a eterna carência juvenil no período da puberdade. E, com bastante ousadia, o filme lida com esses sensos que fazem parte do submundo social. E ainda traz um olhar delicado, acima de tudo humanitário sobre a realidade dos portadores de HIV - praticamente quase todos os personagens do filme trazem esse aspecto. E têm que lidar com a doença, com as fragilidades, com os traumas que a vida exerce. Como entender que a vida pode ser breve? Os jovens questionam essa brevidade, o tempo todo. É emocionante como eles, ainda que acometidos pelos vícios e doenças, não perdem tempo em viver tudo de uma vez - sugam a vida, são eufóricos e externam a libido. Evocam um espírito de festa que simbolizam sua intensidade por viver. E o arrependimento dos erros? E o amadurecimento torna-se plausível depois. Mas, AIDS torna-se um assombro à resolução dos sonhos - como viver sem medo da morte? Como conseguir realizar tudo que se quer? Os jovens em sua forma enérgica jamais querem ser operários de um sistema - mas, vozes ativas de vidas escolhidas.

Através de canções - que, como em todos os musicais, funcionam como diálogos reais, os personagens comungam com a própria existência da liberdade sexual. O tom sensual do filme é provocativo, visto que são personagens na ebulição da sexualidade - a libido explode, é perceptível sentir cada orgasmo em muitas canções expressas. A passionalidade é extensa. Há também canções de amor, de revolta, de tristeza. São jovens à margem do sistema, numa epidemia, até então, fora de controle - no fim da década de 80, a AIDS tornou-se notória e o desespero era grande. O filme mostra também uma juventude que não acata tudo que a sociedade impõe. Por isso, os 8 personagens, representam pessoas que mostram o que desejam: há um casal lésbico em constante trajetória de ciúme, tesão e desentendimento (Joanne e Maureen); há o casal heterossexual (Mimi e Roger) que tentam lidar com as diferenças, além do aflorar do sentimento; há o homossexual que se depara com um amor platônico de grande sensibilidade pelo drag-queen (Tom e Angel). Enquanto explodem as camadas sexuais, sentimentais e relacionais de cada um - o filme se mantém bastante prazeroso. Todos os personagens cantam, dançam e se exibem de maneira expressiva - poucos musicais tem esse ritmo efervescente. Este consegue agir pelo tom sempre emocional. É instigante como os personagens são libertários, hiperativos, inquietam-se com suas vidas a ponto de querer viver sem limites. Toda cura para todo mal? Ainda que certas situações vividas por eles possam gerar controvérsias, são personagens cativantes.

O aspecto musical do filme é da esfera da realidade - os personagens cantam no próprio âmbito real, não imaginam que estão em outro plano. Através das músicas, nota-se um partido à favor da sexualidade libertária - um catálogo de ideias, sabores e atitudes. Há nas letras das músicas os anseios de uma sociedade que precisa ser mais livre, sem medos, isenta de tabus irremediáveis. Nota-se que os jovens, além da intensa insatisfação contínua que sentem pela vida, gritam pela própria chance de viver como querem - afinal, não se deve questionar o desejo de escolha sexual e também de vida que decidiram para eles. Há uma naturalidade em abordar as ações impulsivas de comportamentos sexuais: a homossexualidade é vista como natural por todos, ainda que cause a alguns preconceitos evidentes. O personagem Angel representa o aspecto que a sociedade considera mais "destoante", o transexualismo. E ele é um personagem bastante expressivo - tanto no teor melodramático, quanto no humor acentuado em algumas cenas. A direção de Columbus conseguiu tornar o filme bastante harmônico, coeso. Há cenas sensuais, mas há bastante tristeza amorosa também exposta. E as músicas grudam na mente, facilmente. Os personagens não parecem coreografados em cena, mas concebem uma bela química-sexual-musical que viabiliza uma articulada dinâmica - é a misê-en-scène bem proposta através do ótimo timing do cast. Empolga, ousa, vicia. É rock, é blues e pop music que concebem sustância às cenas. Em suma, são jovens que tentam se buscar - sentimento, existencialmente. Eis um apetitoso musical que deve ser degustado por todos.

Rent (EUA, 2005)
Direção de Chris Columbus
Roteiro de Stephen Chbosky, baseado em musical de Jonathan Larson
Com Anthony Rapp, Adam Pascal, Rosario Dawson, Jesse L. Martin, Wilson Jermaine Heredia, Idina Menzel, Tracie Thoms, Taye Diggs

Identidades Sexuais

O trabalho da direção e roteiro do estreante Duncan Tucker concebe um pequeno recorte de realidade, sincero retrato humanístico sobre a sexualidade de um contexto social ultra-conservador - a sociedade norte-americana. Transamérica relata os conflitos em relação ao corpo e a maneira como se relaciona com ele. Analisa a relevância das normas socioculturais na aceitação ou repulsa de uma das formas de identificação queer, o transexual. A narrativa centra-se na história de Bree Ozbourne (Felicity Huffman) - registrado como Stanley Schupack -, uma educada e conservadora transexual que deseja fazer a operação de mudança de sexo, a fim de se sentir realizada por completo. Obviamente, a classificação de homossexual é incorreta para alguém como Bree, pois o problema tem reconhecidamente uma causa genética. Como estar mais satisfeita consigo mesma? A um passo de se submeter ao processo de transformação, o destino determina a catarse: Bree descobre que tem um filho de 17 anos, Toby (Kevin Zegers). Ele é fruto de um antigo relacionamento seu com uma mulher no período de colegial - na época que ainda vivia com corpo, mente e atitudes de um homem comum. Como aceitar essa reviravolta na vida? Como resolver as inesperadas surpresas que o cotidiano exerce? Bree tenta ignorar o filho, porém a psicóloga que deve liberar a cirurgia se recusa a autorizá-la sem que ela se acerte com seu passado. Antes de resolver seus próprios problemas das questões sexuais, deve solucionar suas pendências familiares. É então decide procurar o filho. O trabalho de Tucker viabiliza um tocante e também controverso ato de sensibilidade ao humanizar os personagens em busca de suas próprias esperanças, limitações e fragilidades íntimas.

Bree tem disforia sexual, não se aceita na condição de homem - portanto, preocupa-se e sente desconforto com seu corpo que ainda detém resquícios dos traços masculinos. A sua identidade sexual é plenamente estabelecida ao seu senso de sensações, sente-se como uma mulher repleta de características próprias e toda sua percepção psicológica é consciente: tem a sensação de ter ciclos hormonais femininos, age instintivamente como uma mulher e seu corpo é resultado dessa construção de suas preferências. O corpóreo é uma extensão - vê-se mulher, necessita de todos os arquétipos necessários para essa identificação. Por isso, veste-se como qualquer mulher, maqueia-se e necessita de seios para aproximar da esfera da realidade e modelo padrão feminino. Como qualquer transexual, Bree deixa um sexo pelo outro - abandona todos atributos de um sexo em função das aparências de um outro. Bem verdade, essa transformação física - a operação em si - é apenas uma mudança que deve ser entendida como transformação de "fachada", visto que o ser tem uma nova aparência dado ao seu novo aspecto exterior. Diferente do homossexual e do travesti (este alia-se de um estereótipo temporário de homem ou mulher, mas não muda permanentemente sua condição sexual), o transexual não aceita sua condição de nascimento. Há uma inadequada disfunção entre a anatomia dele com seu "sexo psicológico". A crise na identidade é comum. Daí, a necessidade de mudar de sexo e reivindicação de novo nome, retificando a certidão de nascimento. Bree representa um indivíduo que possui uma identidade de gênero diferente ao designado pelo seu nascimento, ela tem a convicção de pertencer a um sexo e possuir genitais opostos ao sexo que psicologicamente se pertence. Por isso, ansia viver e ser aceita como deseja.

Além de pautar a condição do transexual, o filme coloca questões emocionais: Bree percebe que, antes de mudar sua vida, necessita lidar com a nova situação que se instalou - o que fazer com o filho? A relação inicial que tem com Toby é superficial, visto que ela não diz que de fato é seu pai. Contudo, ao conhecer o garoto, percebe que ele é um ser totalmente transgressor, sem um eixo de moralidade - prostitui-se para conseguir dinheiro; promíscuo, transa com homens e mulheres; é viciado em drogas e age como um típico rebelde. Bree então decide ajudá-lo, leva-o numa viagem de carro com o intuito de devolvê-lo a quem o criou. É então que o roteiro de Tucker atinge seu tom íntimo, pois aproxima esses dois personagens - de extremos tão opostos, mas unidos por laços de sangue - de maneira sensível, tangível. Bree percebe que antes de tentar se enquadrar na sociedade - existe um filho que precisa de cuidados, atenção e de sua própria presença para se manter ajustado. O trunfo no filme é colocar as problemáticas como desajustes familiares, sexualidade, carência e anseios quanto à própria identidade como prioridade. Tanto Bree quanto seu filho Toby são dois seres em busca de algo, tanto que acabam por se amparar. Enquanto cruzam de carro os Estados Unidos - nota-se o tom road-movie intimista - a um destino não tão certo, estes dois vão confrontar suas próprias percepções de mundo e reflexões casuais. Bree é alguém em busca de aceitação e Toby é o garoto desleixado que, por não ter uma educação correta, usa de sua malícia para conseguir sucesso na vida. É um adolescente em maturidade sexual, em conflito consigo próprio: usa do sexo para viabilizar suas satisfações, mas há neste personagem mais sofrimento em sua condição - sofreu violência sexual, por isso cresceu imerso nessas irregularidades que tornaram sua condição libertina. Toby é alguém sem lar, sem raiz - como viabilizar o ajuste? É interessante a dualidade: enquanto Bree, a transexual em busca de aceitação, jamais busca o sexo - seu filho, bissexual hiperativo, condiciona-se neste anseio. Bree sente repulsa pelo seu órgão genital, Toby valoriza o seu.

O foco não é só na condição de sexualidade, mas em argumentar as relações de buscas pelo afeto perdido - amor, sentimento e sensos de sensibilidade. Road-movie existencial? É um filme que articula com precisão problemas reais, sem usar de habituais clichês para favorecer a emoção. Há um tom cru nos diálogos, no aspecto televisivo proporcionado pela montagem simplória. O convencional melodrama é atenuado por toques de humor, ironia e leveza em certas situações do filme - principalmente nas sequências onde a família de Bree (representantes do preconceito, da intolerância quanto a um ser transexual) atua junto com os dois personagens principais. É nítido o cuidado na composição interpretativa de Felicity Huffman (uma mulher que interpreta um homem que quer ser mulher) - desde gestos, posturas, tons de voz. A atriz personifica com maestria o incômodo de uma transexual - no caso dela, a insatisfação de ter um pênis entre as pernas; a voz que tende a afiná-la para não ser reconhecida a verdadeira sexualidade. Sua Bree é um homem de alma feminina. E o filme é imprescindível por atuar como um valor demonstrativo de que existem muitos estigmas reais do preconceito dentro da esfera social. Há indivíduos, independentes de suas escolhas sexuais, repleto de anseios e sonhos incondicionais - e isso independe do que estabelece a sociedade. Eis uma reflexão sobre a modernidade, barreiras sociais - e os dilemas do distúrbio causado pela inadequação entre o aspecto físico e a personalidade.


Transamerica (EUA, 2005)
Direção de Duncan Tucker
Roteiro de Duncan Tucker
Com Felicity Huffman, Kevin Zegers, Fionnula Flanagan, Elisabeth Peña, Graham Greene

Felina Ferina

O filme Nina é um trabalho precisamente rebuscado, de grande efeito estético e um exercício criativo. O longa nacional do pernambucano Heitor Dhalia tem livre inspiração em "Crime e Castigo" do escritor russo Dostoiévski - traça um diálogo e traz referências sutis, contextos e certas situações que remetem à obra. A trama foca em Nina (Guta Stresser), uma jovem gótica bissexual, rebelde e de grande sensibilidade ativa que busca meios de sobrevivência na metrópole desumana de São Paulo. Mas, só esbarra em dificuldades e adversidades tempestivas. Logo no início do filme, observa-se que ela tem grandes distúrbios psico-emocionais. Totalmente imatura, com ímpetos de impulsividade e anti-social. Sem muita perspectiva financeira e sem parentes próximos, vive com muito custo num apartamento cuja proprietária, Dona Eulália (Myriam Muniz), tem prazer em provocar desentendimentos e desmede cobranças constantemente. Com um mal-humor e acidez ranzinza, Eulália condiciona a vida da inquilina num inferno assustador. A senhoria tende a provocar, confiscar o dinheiro que a mãe envia a Nina e até viola a correspondência num ato contra à privacidade. Ela, por dificuldades tanto emocionais quanto financeiras, tende a viver no limite do condicionamento privativo e autoritarismo da velha decrépita. E os desentendimentos são constantes: Eulália tranca a geladeira a cadeado, impede que ela tenha acesso aos alimentos; age com ironias e rispidez e externa sua impaciência grosseira gratuita. Nina se depara com uma atmosfera de crueldade, insensatez e desconforto onde vive. E é na rua, fora do apartamento, onde vive em constante aflição, que ela tende a ser libertina: neo-gótica, universitária falida e artista fracassada, procura amigas prostitutas e traficantes; entre sexo com mulheres e homens, encontra na droga um consolo; sua válvula de escapa são boites frenéticas repletas de sexos promíscuos nos banheiros, beijos a três e amizades ocasionais. Ela precisa do sexo para se libertar?

Eis o universo underground vivenciado pela protagonista do filme: entre transas sexuais com estranhos, conversas existenciais com prostitutas e alimentando-se de lanches em bares de pé de escada. Sem dinheiro, tende a estar predestinada à incerteza: seria necessário prostituir-se para viver? E é neste quadro de sobrevivência que se compreende o caos: ela passa a demonstrar crises mentais, ao passo que desenvolve uma relação de ódio e sufoco com a inquilina. Sua insatisfação beira à ira compulsória, tanto que ela passa a ter desejo de cometer um assassinato para se livrar da tensão relacional com a senhora Eulália. Eis aí a proximidade com o universo de Dostoiévski: Nina é esquizofrênica, sofre de alucinações constantes e, aos poucos, não consegue mais atenuar seu descontrole psíquico - o que atira numa densa trajetória de problemas de relacionamento com as pessoas, num progresso de paranóia e crises inabaláveis de depressão. À beira do precipício da própria ausência da existência, ela mostra-se desequilibrada e é tragada pela sua loucura: passa a ter visões, acha que é perseguida e até acredita que matou Eulália num acesso de fúria. Será que houve, de fato, um crime? Ou seria apenas uma ilusão de sua consciência desequilibrada?

O roteiro escrito por Dhalia e Marçal Aquino pauta essa relação da percepção de Nina: ora ela caminha na superfície da realidade, ora ela permeia imersa na configuração de sua própria loucura intensificada. Torturada psicologicamente pela velha, e sempre sob os efeitos das drogas, Nina entra num mundo de ilusões e em certo momento não sabe mais o que é realidade e o que não é. A raiva dela em relação à Dona Eulália é descarregada/extravasada em seus desenhos (estilo mangás japoneses), que simbolicamente mostram o ódio daquela por esta. Envolvida nos fantasmas de seu inconsciente, envolvida num crime que acredita ter cometido, será ela punida? Cenas de um assassinato não saem de sua cabeça, e ela leva em frente essa loucura. Mas como conseguirá conviver com a culpa? O roteiro foca nessa atmosfera perceptiva da garota que é refém de sua própria consciência - no tormento de não saber livrar-se do pecado e do conflito existencial. E o longa é todo sob seu ponto de vista. A opressão dela não vem do ambiente externo, mas sim de sua própria mente. A direção de Dhalia extrai uma atuação talentosa de Guta Stresser: totalmente concentrada, personifica a densidade da personagem. E Myriam Muniz domina todas as cenas, numa caracterização assustadora. Tecnicamente bem concebido, a trilha sonora envolvente de Antônio Pinto promove um clima sensível e denso ao filme - repleto de loops de música instrumental, como uma espécie de delírio sonoro da paranóia de Nina, repetindo à exaustão. Os delírios da protagonista são concebidos em forma de animação, trabalho feito pelo desenhista Lourenço Mutarelli. Há uma edição ágil e direção de arte ousada de Akira Goto e Guta Carvalho. A bela fotografia prioriza tons soturnos e tinge tudo com sombras, um primoroso trabalho estético que prioriza um apuro visual gótico.

A experimentação da narrativa, a criatividade e a estética auxiliam na concepção deste filme eficiente. Participações rápidas, mas não menos importantes, de Wagner Moura, Selton Mello, Lázaro Ramos, Matheus Nachtergaele, Renata Sorrah e Guilherme Weber fortalecem o filme. Por pautar questões de sexualidade, solidão e loucura. Na nuance da realidade com a ficção - o sentimento da protagonista é evidenciado. Inquietante filme com ponto de vista maniqueísta do que se vive hoje, onde o bem e o mal se confundem bem como os entraves da realidade e imaginação. Para quem gosta de obscurantismo e psicopatia, é um prato cheio: uma atmosfera bizarra, desoladora e demente perpassa todo o filme. Um longa cyber-punk-gótico, por ser cheio de referências à estética do zine, HQ e contracultura, mas sempre com um olhar "negro" sobre as possibilidades dessas linguagens. Ótimo drama psicológico.

Nina (Brasil, 2004)
Direção de Heitor Dhalia
Roteiro de Billy Bob Thornton e Tom Eppersom
Com Guta Stresser, Myriam Muniz, Guilherme Weber, Selton Mello,
Wagner Moura, Renata Sorrah, Lázaro Ramos, Matheus Nachtergaele

Homossexualidade Curável?

Não devemos culpar os outros, a culpa reside em nós mesmos. Nada que mereça a salvação é fácil... E eis que o filme Salva me demonstra a premissa da redenção. O foco é na trajetória de Mark, um drogado descuidado com a vida, perdidamente imaturo, abertamente gay e altamente promíscuo. Sua vida é firmada no condicionamento do sexo sem limites - fácil e desprovido de proximidades sentimentais. Tudo é sem sentido, breve, descabido. Sua fuga desesperada por sexo fácil é conseqüente do vazio de sua alma, então ele tem que preencher de alguma maneira. Mark vive de transas furtivas com garotos mais novos, malhados e seu cotidiano é beirado a muito sexo casual. Sexo e drogas pesadas. A catarse ocorre: após uma tarde de sexo com um rapaz, ele tem uma overdose. O irmão, impulsivamente, decide interná-lo numa instituição cristã que promete em 12 passos transformar o jovem gay em hétero. A Casa Gênese seria uma espécie de purificação sexual? Há absurdo maior? O programa de recuperação cristã tem o objetivo de denominar-se especializada em fraquezas sexuais: os pais internam os filhos gays e lá buscam, dentro da doutrina religiosa, um ambiente que tem como intuito "curar" os jovens dessa "doença". Mark entra nessa adequação com muita violência: tem comportamentos de estresse, péssimos modos de educação, é intransigente e sempre está exaltado. Seus modos rústicos e vocabulários de baixo calão (xinga o tempo todo) incomoda a dona da instituição, mas ela parece disposta a lutar pela sua reabilitação. O ser humano pode aprender a direcionar seus desejos? Como canalizar seus impulsos sexuais para outros contextos?

Na instituição, os homossexuais são "reeducados" a canalizar seus ímpetos sexuais ao idealismo da heterossexualidade. O absurdo: aprendem a driblar com suas vontades, fazendo com que acreditem que podem sentir algo ao sexo oposto. Os aprendem que por serem gays estão longe do princípio da imagem de Deus e, conseqüentemente, são imorais e impuros. Portanto, crêem na transformação: livrando-se da homossexualidade, garantem a salvação. A reparação faz parte da purificação: livrando-se do "fator gay", livram-se da culpa e do peso de viver uma vida condenada ao inferno. A instituição ativa, no psicológico dos internos, que é necessário se auto-avaliar, promover essa limpeza sexual. E aceitam como forma de serem reintegrados na sociedade, novamente. Sem vícios, sem medos: ou seja, autônomos em confiança e com uma nova personalidade sexual.

O filme estuda as relações humanas com muita sensibilidade, cuidado e aprofundamento narrativo onde os personagens definem o mosaico de sentimentalidade. Os garotos em busca da "reabilitação para ser curado de sua homossexualidade" reprimem-se a tal ponto de sofrerem diante da própria condição sexual. A dor de amar alguém do mesmo sexo, o desejo árduo que machuca e fere o âmago. O próprio Mark sente o coração destroçado já de tantos calos de vida, repressão e auto-flagelo: o amor é cruel, mas a condição sexual, se não bem aceita, torna-se puro martírio. E acontece o inevitável: Mark apaixona-se por um dos internos, Scott. O amor não é algo fácil, às vezes o ser humano se sacrifica por questões banais. No aprendizado do embalo do sentimento do amor: os erros, as mágoas, as imperfeições e os desejos se misturam. Ainda que a instituição não seja totalmente repressora, dita regras e tem um carinho evidente no tratamento dos internos, mas o absurdo consiste na forma de avaliar a homossexualidade como algo inaceitável em vida. A religião acaba por impor regras repressivas, ainda que não objetivamente.

Os internos sofrem a dor de não extravasarem o desejo, tendo o calor do corpo em chamas de tesão, mas sem pôr em ebulição o que sente. Mark continua desejando ardentemente seu amigo Scott, e ele corresponde a esse desejo sentimental. O conflito acentua-se: como viver este sentimento que insiste em transformar tudo? Mark é podado, acaba por se sentir recluso e descontente. A religiosidade enfatiza uma relação de submissão, auto-punição: amar um homem? Jamais. Enquanto vivencia o próprio amadurecimento nele mesmo, passa a se questionar e a dúvida persegue: o que é felicidade, afinal? Viver sob os "princípios de Deus" ou largar tudo pelo amor ardente e fugir com Scott? O que prevalece nessas horas? Eis os dilemas. O amor está acima de tudo? A intensa relação de Mark com Scott confronta a própria dona da instituição, confronta a própria verdade neles mesmos.

O filme tem uma direção objetiva sincera de Robert Cary, auxiliada pela montagem crua, bem seca e com uma fotografia que prioriza closes das expressões dos atores, bem como da paisagem da instituição de reabilitação. A trilha sonora de Jeff Cardoni é serena, discreta. O interessante do roteiro de Robert Desiderio é intercalar momentos sem nenhum diálogos e outros bastante intensificados de falas, gestos dinâmicos dos atores. O ator Chad Allen conduz seu Mark com muita vibração interpretativa, além da singela atuação de Robert Grant como Scott. Um bom recurso e grande sacada da linguagem do roteiro é utilizar depoimentos dos personagens, ao decorrer do desenvolvimento narrativo, contextualizando o psicológico íntimo e também um pouco da vida de cada um. Espécie de confessionário dos personagens. O filme tende a ser um alerta: todos os indivíduos merecem ser convictos sexualmente, lutar por direitos iguais. A religiosidade nada tem a ver com o ser ou não gay. Um filme sensivelmente reflexivo.

Save Me (EUA, 2007)
Direção de Robert Cary
Roteiro de Robert Desiderio
Com Chad Allen, Robert Gant, Judith Light, Stephen Lang

Entorpecente nauseante?

Sonhos são destroçados, despedaçados e cruelmente dissipados no imbatível Réquiem para um sonho: o universo do enredo aborda a trajetória de quatro personagens predestinados ao inferno de vida. Dos sonhos ao ápice da loucura da degradação humana. São quatro pessoas que vivenciam os efeitos selvagens das drogas, perdem a própria identidade e perspectiva de vida após afundar nos caminhos tortuosos do vício. Os personagens contextualizados à perdição: Sara, viciada em comprimidos para emagrecer e, assim, aparecer no talk show de televisão; seu filho Harry que se droga e trafica heroína com a namorada, Marion; e Tyrone que é o parceiro do casal no mundo do vício dos narcóticos - os quatro são personificados por Ellen Burstyn, Jared Leto, Jennifer Connelly e Marlon Wayans. A direção de Darren Aronofsky é precioso drama barra-pesada: determina interpretações soberbadas, inspiradas e impactantes. É um soco no estômago, pois é um trabalho cinematográfico puramente visceral, brutal e realista. As imagens são violentas por serem densas, concebidas pelo roteiro carregado de desespero expressivo. Preparado para revirar seu estômago por completo? A estrutura conceitual e narrativa do filme são construídas em cima do processo de autodestruição pelo qual vivenciam os protagonistas, não existe trama paralela. O sonho, a felicidade e depois a ruína. Simples assim! Vivenciar este filme não é simples, necessita de tranquilidade. Há cenas que pode deixar qualquer um em frangalhos, com um misto de tristeza e mal-estar - você pode ir a nocaute, rapidamente. Réquiem para um sonho nasceu para chocar, agredir e, obviamente, determinar uma reflexão: a que ponto o vício pode levar um ser humano? Como manter o discernimento diante do caos? Como combater um vício que degrada até a própria alma? É absurdamente fácil, para quem assiste, ir ao inferno juntamente com os personagens tamanho o impacto. É tão atordoante que há momentos quase insuportáveis. O filme preza pela edição e montagem dinâmicas, rápidas e entrecortadas - auxiliada pela trilha sonora experimental, executada com violoncelos, que capta bem cada contexto das cenas angustiantes, enfatiza bem a melancolia dos personagens, provoca tensão, náuseas e tira o fôlego. A câmera violenta e nervosa de Darren Aronofsky leva até as últimas consequência, em ritmo ultra-acelerado. Os vícios? Não só as drogas, mas também a TV, dinheiro - afinal tudo pode tornar-se entorpecente e, mais facilmente, pessoas são suscetíveis a embarcar neste inferno diante da solidão. Após os últimos dez minutos finais, é difícil sair do estado de paralisia proporcionado pelo filme. Eis o supra-sumo da perfeição. Entre no submundo da vida de um viciado: resista ao choque, se for capaz.

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