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Feminismo vampiresco?


O universo vampiresco sempre executa a sensualidade diante de aspectos da personalidade dos ditos seres da noite. Não é para tanto que Tony Scott estreou com esse senso proeminente no seu Fome de Viver, um trabalho tão autoral e com um posicionamento bastante estético, talvez por isso o filme seja visto como algo peculiar e cultuado por uma parcela cinéfila que buscam trabalhos mais experimentais. Não por ser um filme que utilize do caráter do vampiro, mas a verdade é que esta produção é, na realidade, também uma trama que exemplifica o homoerotismo feminino, além de conferir um olhar quanto às dependências emocionais da humanidade que vivem imersa na solidão e alheia às relações de posse e afeto duradouro. Daí resida o apelo dramático vivido por David Bowie (John Blaylock) que aqui vivencia o tormento de envelhecer rapidamente — o vampiro abalado que viveu há anos sob a custódia e luxúria de uma relação com Catherine Deneuve (Miriam Blaylock), agora amarga o desespero dos "efeitos colaterais" que é permanecer sob o comando da fêmea-imortal. Perturbado, procura a médica Susan Sarandon (Sarah Roberts) para auxílio desta cruel doença. O roteiro é astuto em construir esta noção ao público: há milênios Miriam escolhe um companheiro, na promessa de estar ao seu lado ("Forever and ever"), num rito de austeridade e beleza eterna. Quando a pessoa passa a envelhecer subitamente, logo a vampira parte para a nova vítima que irá de exercer a função de "dama de companhia".

A grande questão desenvolvida é justamente de acordo com a perspectiva da vampira personificada por Catherine Deneuve — nunca o roteiro procura utilizar de elementos vampirescos óbvios para transmitir suas intenções. Não há caixões, não existe temor diante do crucifixo, não precisam andar à noite fugindo do sol. Ainda assim, existe o verniz sombrio diante de uma fotografia cinzenta que captura bem tons escuros e mantém o olhar intimista quanto ao lado melancólico e visivelmente macabro dessa mulher imortal. Contudo, a película acentua o sangue como representação vampírica e que dá todo sentido gótico à obra. Tony Scott torna a elegância de Deneuve em algo mais libidinal ao passo que aproxima sua personagem com a de Susan Sarandon, eis a exploração de algo mais homoerótico e sexual, mas que não deve ser taxado apenas de filme lésbico por emular esse condicionamento.

Por ser um filme de vampiro, é necessária a conceituação da sensualidade que é tão preservada neste ambiente narrativo. É interessante a forma como o roteiro induz a relação de Deneuve com Sarandon — existe aí um interesse mútuo. Por parte da vampira, estabelece a necessidade de criar um vínculo relacional com a outra que tanto lhe apetece. Por parte da médica, há uma espécie de fetiche e atração física já que Miriam transparece uma sensualidade natural. A cena em que ambas conversam, trocam flertes e sucumbem no ato sexual é bastante envolvente e muito bem articulada. Tony Scott não esconde a intenção em exercitar a movimentação dos corpos diante de sua câmera curiosa, esmiuçando os seios femininos, mas, ainda assim, não vulgarizando — o que numa percepção inadequada poderia render um momento desconfortável ou mesmo explícito ao público. Aí reside o misticismo ou o arquétipo básico de que todo vampiro fascina e promove um tesão na humanidade? Temos o retrato óbvio da sensualidade da relação de vampiro com o humano.

O que torna mais sensual é mesmo a plasticidade, Fome de Viver é feito com um dinamismo por ser bem editado e é ousado na estética. É tanto que logo nos primeiros minutos da projeção evidencia a noção de "sexo, sangue e rock" estimulando algo erotizado. Tony Scott exerceu um tom bem provocativo em seu primeiro filme, sem fundamentar algo raso e óbvio — o que veio ocorrer com seus demais feitos "hollywoodianos". Ainda que seja sombrio constantemente — a canção "Bela Lugosi's Dead" de Bauhaus proporciona toda uma atmosfera soturna e densa —, há o apego pela forma dinâmica narrativa em que se sustenta certo apelo nervoso de David Bowie no princípio e na posterior relação de sangue e libido protagonizadas por Deneuve e Sarandon. O filme é ágil e mantém uma dimensão de exercício experimental pelo modo que expressa a montagem e a ousadia de aliar uma condução narrativa que vai do poético ao sinistro — as soluções finais exploram o lado mais macabro que se assemelha a um filme de terror-gótico. Um belo trabalho criativo, sem dúvida.

The Hunger (Reino Unido, 1983)
Direção de Tony Scott
Roteiro de Ivan Davis, James Costigan, Michael Thomas, Whitley Strieber
Com David Bowie, Catherine Deneuve, Susan Sarandon, Dan Hedaya

Incesto poético?



Como falar de sexo sem causar tanto impacto negativo? Há abordagens que, por conta do intuito provocativo, conseguem exercer indisposição em grande parcela do público. Não é o caso deste filme que tem texto adaptado da obra polêmica de Ian McEwan — autor conhecido pelo respeito de seu livro mais aclamado, "Desejo e Reparação", dirigido por Joe Wright em 2007. O Jardim do Cimento é uma produção independente com direção de Andrew Birkin (roteirista de filmes como "Joana D'Arc de Luc Besson" e "Perfume - A História de um Assassino") que também adapta o romance homônimo. Aqui temos o traço da sexualidade obscura, o que muitos condenam como perversão libidinal, já que o filme explora a relação incestuosa de dois irmãos, Jack e Julie — interpretados por Andrew Robertson e Charlotte Gainsbourg que, após o repentino falecimento do patriarca da família de quatro filhos, ainda tem que se confrontar com uma dor maior: a mãe, também doente, falece em seguida, deixando-os desamparados com mais dois irmãos para cuidar. Temos aí uma história marcada por melancolia, dor, superação e motivações de uma sexualidade que permeia toda a narrativa.

Com certa urgência, Andrew Birkin explora rapidamente os personagens dessa família, bem como constrói breves cenas logo no prólogo do filme para ambientar a relação dos pais com os filhos. A construção do roteiro procura envolver o público, primeiramente apresentando a relação rígida do pai (Hanns Zischler) com o filho mais velho Jack — sem muita afetividade, certa indisposição e diálogos que evidenciam o contato problemático. Mostra o papel da mãe (Sinéad Cusack) que tenta estabelecer um bom diálogo entre os filhos. O roteiro não diz os nomes de cada um, apenas são chamados de “pai” e “mãe”, obviamente torna nítido que o que importa nessa trama são os filhos. Ademais, o filme ainda escancara o comportamento sexual de Jack, um garoto que se masturba diariamente escondido no banheiro e se abstém no auxílio doméstico. 

Interessante o posicionamento um tanto libertino e malicioso de Charlotte Gainsbourg — a atriz foi convidada por Andrew Birkin, seu tio, irmão de sua mãe Jane —, conferimos o direcionamento de "tom erótico" que sua personagem exala desde as cenas iniciais em que se mostra como uma garota de forte personalidade, decidida e madura. Gainsbourg confere uma atuação envolvente, forte e precisa como uma adolescente que não mascara as intenções diante do irmão. Temos uma cena significativa, como quando Jack entra no quarto de Julie — Gainsbourg se posiciona de maneira malandra para a câmera, exibindo suas pernas e mostrando uma sensualidade quase inocente, casual, mas o público percebe ali uma forte malícia no ar. Jack e Julie começam uma brincadeira, cócegas, cada um explorando o corpo do outro, é quando abruptamente a situação se converte em algo sexual. Compreende-se que dali para frente o filme vai mostrar a aproximação desses irmãos nesse sentido.

Com muita sensibilidade, cuidado, como um olhar intruso diante das intimidades dessa família, Andrew Birkin apresenta esses irmãos tendo que superar a dor da perda dos pais. A atração de Jack e Julie torna-se constante, inúmeras cenas exploram esse contexto de indução sexual e provável envolvimento dos dois. À eminência de uma relação de incesto, o público imerge no cotidiano dos dois, nos diálogos bem naturais — Gainsbourg e Robertson captam bem as tonalidades das personalidades de seus personagens tão díspares; ironicamente se relacionam numa espécie de amor e ódio, uma mistura de atração e repulsa. O olhar de “narrador” é ditado por Jack em off, desnudando um pouco desse personagem e recriando o universo íntimo de sua família. Há ainda espaço para debater o caso de sexualidade confusa na infância, através do irmão caçula que apresenta anseios femininos e gosta de se vestir como uma garota, simulando ser uma “dona de casa”. Tudo colocado com um certo tom poético e sensível sempre, para não causar perturbação.

O Jardim de Cimento não tem apela para o moralismo, muito menos condena seus personagens, apenas há a exposição natural da sexualidade entre quatro paredes e de uma trama familiar que pode acontecer com qualquer um. O filme nos mostra um retrato de juventude da década de 70, pós uma revolução sexual da década anterior, valendo-se a predisposição à liberdade dos anseios, emoldurando o retrato juvenil que não se condiciona ao puritanismo familiar. Sob uma melancólica sonoridade proposta pela trilha de Ed Shearmur, é inevitável que o pequeno trabalho cinematográfico não seja mais que fundamental. Ainda mais com uma trama tão ousada e que, se mal aproveitada, poderia render maiores desconfortos e indisposições.


The Cement Garden (Irlanda, 1993)
Direção de Andrew Birkin
Roteiro de Andrew Birkin, baseado no livro de Ian McEwan 
Com Charlotte Gainsbourg, Andrew Robertson, Sinéad Cusack

Cárcere de desejos?


Hector Babenco sempre vai ser lembrado por esse expressivo e controverso trabalho aqui. Adaptado do livro de Manuel Puig, o melancólico O Beijo da Mulher-Aranha traz uma interessante produção reflexiva. Foi totalmente filmado no Brasil, com elenco brasileiro de suporte e dois astros estrangeiros. O idioma é em inglês, daí percebe-se a forte distribuição que ocorreu e o filme conseguiu obter um retorno eficaz. Eis a história de dois prisioneiros imersos na solidão, no desespero e na angústia de uma prisão. Raul Julia interpretando Valentin, o jornalista preso por suas convicções políticas, ideologias e percepções de mundo. E o outro é um homossexual preso por ter feito sexo com um menor de idade, marcado pela frustração de uma sociedade que não o aceita, de viver preso dentro de um corpo de homem, na ânsia por amar e ser amado; e ser uma mulher de fato. Molina, interpretado magistralmente por um William Hurt inspirado, é daqueles ícones já feitos para ser imortalizado na cinematografia. Um personagem contundente, complexo, cheio de nuances. O Oscar de melhor ator não foi à toa. 

Babenco é cuidadoso na direção, pois procura trazer ao público um pouco da complexidade psicológica e comportamental desses dois homens trancafiados dentro de uma cela. Dois seres humanos tão díspares, imersos numa dolorosa realidade, tendo que se confrontar verbal e emocionalmente. O ponto mais cativante e envolvente deste filme é justamente na forma como roteiro lida com as perspectivas pessoais de Valentin e Molina. No limite do ódio ou mesmo de um sentimento gradual de amizade que nasce entre eles — ou seria um amor não compreendido? —, percebemos ali que o ponto de discussão é mesmo o confronto sociológico e humanístico que o texto narrativo quer abordar. Através de diálogos fortes dos dois, bastante íntimos e de extrema sensibilidade, nos tornamos próximos das realidades de cada um. 

A crítica ou mesmo caracterização à homossexualidade é perceptível através da personificação de Molina que exerce o tom da sexualidade no filme. Hurt expressa bem o homem que sofre pela condição de ser gay, de ter que se assumir e ser aceito numa sociedade mórbida e predatória, cheia de preconceitos. O filme fundamenta muito bem a trajetória deste homem, desde fora da prisão com seus casos e idealizações libidinais — em especial quando narra seu passado ao desejar sexualmente um garçom (interpretado por Nuno Leal Maia) e a típica frustração de nunca encontrar o “homem perfeito” que o satisfaça. A maneira como o filme nos coloca a par da intimidade e do caráter motivacional da homossexualidade de Molina é bem instigante. Ora ele é extremamente excêntrico, principalmente quando travestido; ora age como um homem introspectivo, contido e gentil.

E há também o contexto político através do Valentin, o indivíduo altruísta que quer modificar o plano da corrupção de mundo através de suas lutas, preocupado com o mundo, cheio de ideais. Em contrapartida, o filme transparece a personalidade forte e uma masculinidade proeminente deste indivíduo, particularmente aos olhos de Molina, numa representação de virilidade e testosterona. Já Hurt concentra seus trejeitos afeminados, gestos delicados e uma fragilidade condizentes com o tom feminino de Molina que se opõe ao outro colega de cela. O reflexo destes dois homens, vistos como "transgressores da sociedade", são um dos pontos mais reflexivos do filme. E há também a leve malícia presente, na forma como a narrativa arquiteta a aproximação de ambos que converge numa disposição de afeto e até de leve tensão sexual. E Babenco os coloca como seres humanos, dotados de sensibilidade, ainda que na triste condição de "imorais", já que é um belo retrato de mundo. 

O recurso cinematográfico ainda traz níveis narrativos ao externar o aspecto "filme dentro do filme". Através de Molina que, para fugir da realidade que o cerca e o fere, prefere imergir em seus contos e suas histórias: Cria, inventa, articula e narra uma espécie de "filme" para Valentin. É então que nos transportamos para uma "realidade alternativa", segundo as visões e imaginações pessoais de Molina, numa história secundária de uma história de amor vivenciada na turbulenta segunda guerra mundial — uma Sonia Braga exagerada e, por vezes, sensualizada, interpretando a "heroína romântica" dessa sub-narrativa, totalmente de acordo com o tom um tanto poético, melodramático e quase caricatural das percepções vistas por Molina. É interessante essa espécie de intertextualidade criada a partir desse senso narrativo, mas o charme e força emocional mesmo se dão por conta dos diálogos e da relação de ambos os prisioneiros. Não só William Hurt aqui está soberbo e hipnótico, mas é bom destacar também o traquejo de Raul Julia e o cuidado com que vai do tom rústico ao "amoroso" de seu personagem. Com uma estética underground e até teatral, o filme não envelheceu, é ainda um exemplo dramático incisivo.


Kiss of the Spider-Woman (BRA, EUA, 1985)
Direção de Héctor Babenco
Roteiro de Leonard Schrader, Manuel (II) Puig
Com William Hurt, Raul Julia, Sônia Braga, Herson Capri, Nuno Leal Maia

Holocausto homossexual


“Bicha não foi feita para amar. Ninguém aceita isso.” Premiado dramaturgo, o norte-americano Martin Sherman escreveu Bent por volta de 1978. O resultado foi um sucesso, tendo sido laureada com o Royal Court Theatre em Londres e encenada em mais de 50 países nos anos posteriores. Vinte anos depois, seu texto foi adaptado por ele mesmo e tendo a direção no comando de Sean Mathias. O filme traz basicamente todos os diálogos e atos principais, além da exímia abordagem provocadora. Mais que um retrato tocante e contundente sobre a Segunda Guerra e o a perseguição de judeus, trata-se de registrar a perseguição sofrida pelos homossexuais que eram torturados e mortos pela Gestapo, em pleno fascínio e ascensão do período nazista. Pouco se sabe, na verdade, sobre como funcionava extermínios aos homossexuais — sabe-se que mais de 50 mil tenham sido executados de maneira perversa. O filme procura esmiuçar esse triste panorama através de alguns personagens homossexuais que condicionam um estudo sobre o horror do holocausto e da intolerância sexual.

Esta adaptação cinematográfica mostra a trajetória de Max (Clive Owen), um homem boêmio e que passa a vida participando de sexo casual com desconhecidos, imerso em encontros e festas, sem apego a um relacionamento sério. Interessante que o filme logo expõe, nos primeiros minutos de exibição, esse caráter "libertino" do protagonista — Max visita uma espécie de cabaré ou reduto liberal LGBT, uma zona noturna em Berlim onde homens e mulheres promovem orgias, peças teatrais ao ar livre com cunho erótico; um típico antro secreto de perversão e libido social. A ambientação de sensualidade e senso homoerótico é logo transposta ao público nessas sequências, inclusive na breve participação de Mick Jagger como um travesti nonsense, irônico e extravagante. 

A problemática narrativa logo se acentua: a caça aos homossexuais. Diante da ascensão do nazismo e do Terceiro Reich, não existia não só judeus livres: nenhum gay poderia viver tranquilo. Hitler decide acabar com todos os "pervertidos sexuais" da cidade, incluso todos que tivessem ligações com patentes da SS ou mesmo frequentadores do tal cabaré. Preso e levado a um campo de concentração de Dachau, Max decide mascarar sua sexualidade ocultando que é gay. 

Ser homossexual naquele local era sinônimo de lixo, um zé-ninguém e o podre humano: seria torturado por qualquer um, até pelos próprios prisioneiros. Por isso, Max prefere usar no peito a estrela amarela, famosa por identificação judia, ao invés de ser "marcado" com um triângulo rosa que servia para restringir o homossexual. É lá que conhece Horst (Lothraire Blutheau), um destemido jovem que se orgulha de sua sexualidade e, por essa condição, vivencia inúmeras torturas psicológicas e humilhações constantes, porém não oculta suas preferências e se vangloria pela sua "marca". Obviamente, existirá uma aproximação entre esses dois e o senso romântico e a tensão sexual irá despertar sentidos intensos nesses dois homens.

Ainda que tenha sido tão ousado e provocador nos primeiros minutos, o cunho sexual explícito é logo convertido num senso mais emocional, poético. A direção de Sean Mathias prioriza os diálogos e ações — levemente teatrais e que não esconde as origens — de seus dois amantes em cena. É interessante ver não só o desejo, mas o sentimento sendo cultivado dentro de uma realidade tão cruel. O filme mostra a dificuldade de Max em lidar com sua sexualidade, tendo que esconder mais por medo de ser descoberto pela Gestapo, afinal existia o perigo de ser rapidamente executado. 

Ademais, há ainda sua relação íntima sendo aflorada sob o caos ao redor, a opressão, os ditames do campo de concentração que impede qualquer manifestação de afeto ou mesmo contato físico — a sequência em que ambos "transam" por meio de palavras e diálogos trocados, simulando o toque ou mesmo o entrosamento carnal, é de uma sensibilidade e erotismo conceituais. Clive Owen e Lothaire Blutheau exprimem o sofrimento de amar e o desejo voraz de dois homens que não podem externar tudo que querem. 

Nota-se que a intenção de mostrar também como os homossexuais lidavam com aquela situação no período de Guerra. Existiam as questões de classes sociais — Ian McKellen faz uma breve participação como tio de Max, um homossexual que, por ter uma boa posição financeira, consegue se manter afastado de problemas e suborna oficiais alemães para ser livre dos campos de concentração. 

Bent também nos mostra como os gays precisam se submeter às situações extremas — como fazer sexo oral com oficiais para obter medicações ou mesmo favores dentro dos sistemas rigorosos e corruptos dos campos de concentrações. É interessante observar esses contextos — não só a relação principal do romance de Max com Horst que, no geral, é o grande aperitivo emocional deste filme. A direção de Sean Mathias é segura, o roteiro aprofunda o caráter e dar complexidade aos personagens e contextos, além da belíssima trilha melancólica orquestrada por Phillip Glass. É um filme de extrema importância para a cinematografia, um trabalho humano.


Bent (EUA, 1997)
Direção de Sean Mathias
Roteiro de Martin Sherman, baseado em seu livro
Com Lothaire Bluteau, Clive Owen, Mick Jagger, Ian McKellen

Amor pós sexo


Hector Babenco já concebeu trabalhos mais polêmicos como o premiado O Beijo da Mulher-Aranha (William Hurt levou o Oscar por interpretar um prisioneiro político homossexual), Pixote ou Carandiru. Neste filme aqui sua intenção é promover um recorte dos relacionamentos amorosos conturbados e dotados de dependências emocionais. Baseado no livro homônimo do argentino Alan Pauls, O Passado é um conto melancólico e psicológico de paixão e desejo. O roteiro explora a forma como inúmeros casais não conseguem se adaptar emocionalmente com a perda do antigo vínculo. A terrível realidade quando o amor transforma-se no tédio, no azedo cotidiano, numa vida sem libido. É o caso perfeito aqui a ser discutido, a separação como elemento de preocupação humana. Como lidar quando alguém que você conviveu durante anos simplesmente decide te abandonar? E, pior, e se existe ainda sentimento e certo apego — ou desejo — ainda evidente? O foco da trama é no tradutor Rimini (Gael García Bernal), o típico homem galante, que adora sexo, repleto de hormônios definidos, usuário constante de drogas. O filme percorre a perspectiva deste indivíduo de maneira íntima, numa narrativa que, ainda que lenta, mantém um cuidado maior com seus personagens, por conta do olhar atento e até da provocação que se torna o elo ideal pra discussão de temáticas: o sexo, o louco-amor, a carência afetiva.

No princípio, temos a quebra de uma relação de 12 anos de Rimini com Sofia (Analía Couceyro, a interpretação mais elétrica do filme), é esse sentido que coloca todo o tom narrativo. Após a separação do casal — entende-se que eram pessoas conectadas, de grande amizade e sintonia sexual —, o jovem procura lidar com a nova vida e parte em busca de mudanças. O filme mostra com objetividade que há uma aflição, uma dependência de Sofia em relação à figura do ex-marido. Babenco escancara que ali há um casamento mal-desfeito, o princípio de crueldade e amor obsessivo que vai permear toda a projeção dos acontecimentos.

Aqui há o retrato de uma mulher que, sentindo-se rejeitada, parte para a busca da conquista do homem que galgou novos rumos — Sofia preserva seu ciúme imoderado e o desejo de reconquistar Rimini. Quando este se envolve com outra mulher — Vera (Mariana Anghileri), uma sensual modelo folgosa —, Sofia exerce sua fúria e imerge no seu caminho, disposta a mostrar que Rimini ainda é seu. É então que o traço de amor violento é muito bem delineado no roteiro ao colocar a vida de um indivíduo sendo desestruturada por conta de uma mulher que não aceitou a rejeição.

Basicamente, O Passado explora a trajetória do personagem de Gael García Bernal após a separação. Rimini é o homem cansado de um casamento morno, para tanto parte em busca de novas experiências sexuais e maiores sensações através do vício com a cocaína e encontros mais quentes com mulheres permissivas. O roteiro nos traz um modelo de homem que não consegue atenuar a libido — após a breve relação com Vera, surge outra fêmea no parâmetro, Carmen (Ana Celentano, excelente atuação), colega de profissão que mexe com seus instintos libidinais e logo promove um condicionamento perfeito: uma relação voltada à intelectualidade e fetiche.

É então que Babenco explora bem o caráter sensual de seu filme nas cenas quentes que mostra que Rimini não consegue ficar sem sexo diário, nem muito menos despreza novos flertes com outras garotas. Além disso, o roteiro traça maior problemática ao colocar a possibilidade deste homem reestruturar-se com uma nova mulher e ter um filho — motivo de polêmica que vai fazer com que Sofia entre em voga, novamente. Analía Couceyro exibe uma atuação emocional, agressiva e transtornada como essa mulher que até se humilha sexualmente para ter alguém que tanto se viciou. E é justamente suas cenas que caracterizam uma concepção mais ágil e densa, além de estabelecer a sexualização: o público percebe a malícia e vulnerabilidade de Sofia que sempre se insinua para Rimini.

Constantemente, a trama tenta dialogar como é complicado um ser humano desvincular-se de alguém que conviveu tanto tempo, de um casamento antigo. É uma história de amor obsessivo que já fora muito debatida em outras abordagens, mas aqui encontra um bom apelo realístico e sem contornos melodramáticos, ainda que o filme tenha certas situações de extrema indisposição pro personagem Rimini. Gael García Bernal assume um tom mais introspectivo, calado, mas de fortes ações em momentos onde seu personagem verbaliza bem o tormento que é ter, na cola, uma mulher que traz à tona seu passado e o aprisiona num calabouço de tragédia com situações colocadas no seu destino.

Nota-se, ainda, o apelo sutil da sensualidade deste ator — afinal, seu personagem é o centro de tesão de muitas mulheres durante o decorrer das ações narrativas. Por isso, inúmeros planos-sequências enquadram cenas de sexo onde as mulheres aparecem despidas e dispostas a montar e mordiscar o corpo de Rimini, num exercício de coito dominador do fetiche. Por sinal, o público mais conservador pode se indignar com a maneira como o filme mostra as mulheres mais permissivas ao sexo-livre, à transa sexual e sem amarras, num quase senso de vulgarização do papel feminino. Ainda assim, Hector Babenco sabe transpor essa atmosfera de “gente como a gente”, verticalizando as ânsias do sexo e da busca pela “felicidade almejada” do protagonista, enquanto se refletem as noções de amor destrutivo, de como é necessário lidar quando o sentimento acaba e deve ser respeitado. Interessante o trabalho de composição de diálogos, já que o próprio cineasta, na ocasião de lançamento deste filme, disse que o livro de Alan Pauls parecia ser intransponível por tratar-se de uma linguagem de silêncios, divagações e percepções mais existenciais da sensibilidade humana. O resultado é competente, ainda que pequeno, mas que cumpre seu princípio de retratação de mundo relacional firmado em amor doentio. 


El Pasado (Argentina, Brasil, 2007)
Direção de Hector Babenco
Roteiro de Hector Babenco, Marta Góes, baseado no livro de Alan Pauls
Com Gael García Bernal, Analía Couceyro, Ana Celentano, Mariana Anghileri

Estranhos desejos

Diversos filmes colocam a prática do voyeurismo em voga, ao traçar na narrativa a maneira como certos personagens buscam o prazer sexual através do interesse e da observação de outras pessoas. Olhar do Desejo é um pequeno trabalho do diretor David Mackenzie — também já havia realizado um filme sobre a obsessão sexual, “Paixão sem Limites” — que aqui coloca uma trama não tão concentrada de malícia ou polêmica dramática, ainda que com um senso mais transgressivo sob o verniz da leveza juvenil. Na verdade, esta produção baseia-se no livro Peter Jink e tem elementos de suspense, drama e certo humor negro. Hallam Foe (Jamie Bell) representa esse senso voyeur, é um adolescente que se torna agressivo e intolerante com todo mundo após o falecimento da mãe. Indisposto com a situação, vive em conflito e distanciamento com o pai, além de acreditar que sua mãe, na realidade, foi assassinada por sua madrasta Verety (Claire Forlani), ao invés de ter se afogado após uma overdose de comprimidos pra dormir. Na antiga e imponente residência escocesa onde vive num seio de constante conflito familiar, Hallam prefere se ausentar e passa horas dentro de seu mundo particular, uma casa na árvore. É lá que seu hábito preferido é transposto ao público: espionar com seus binóculos a vida alheia. Nota-se que existe neste jovem críticos conflitos íntimos, insatisfações e nítidas inquietações psicológicas.

Logo no princípio do filme fica evidente que Hallam não tem uma necessidade/satisfação sexual através do voyeurismo, existe ali uma maneira própria de estabelecer um contato de seu mundo com os outros. Olhar a vida alheia através dos binóculos é um conforto pra ele. Quando cresce a paranóia de que sua mãe foi vítima de um crime calculado, o garoto entra em conflito maior com seu pai e madrasta — é então que o filme assume um lado mais perverso ao incutir a dúvida na cabeça do público quando Verety dialoga de maneira dúbia e provoca a dúvida se, de fato, executou o crime que tanto inquieta o garoto. E logo a provocação da sexualidade invade a tela: numa cena de discussão, Hallam é assediado pela madrasta que o bulina, excitando-o. Ambos transam e logo a culpa invade o coração do jovem que decide sair de casa e parte para Edimburgo, em busca de uma vida mais pacífica. É então que o roteiro mostra seu objetivo: por ironia do destino ou não, uma jovem transeunte de forte semelhança física com sua mãe intriga Hallam.

Partimos para um contorno narrativo mais misterioso ao colocar Kate (Sophia Myles) como alvo de fascínio deste jovem. Hallam decide seguir todos os passos da garota, descobre onde ela trabalha e lá consegue um emprego como auxiliar de cozinha no hotel onde ela atua profissionalmente, eis a forma de tornar-se próximo dessa mulher que o perturba e causa inquietação — o filme parte para o aspecto do voyeurismo ao colocar Hallam na cola dessa mulher, escalando prédios da cidade para espioná-la, precrustando cada passo íntimo, inclusive observando-a da janela de fora de sua casa. Indagações são plausíveis: existe ali uma ligação maior que admiração? Seria uma espécie de “Complexo de Édipo”? A indução da sensualidade é caracterizada mais quando esse estranho garoto passa a ter ânsia em consumir cada átomo da presença da mulher. Por sua vez, a maneira como Hallam depende dos seus binóculos demonstra uma forma de dependência, talvez uma espécie de fuga para lidar com tamanha solidão, carência e morte/perda de sua mãe. Vemo-lo observando também as intimidades sexuais de Kate, suas transas noturnas selvagens com um homem casado (Jamie Sives); a curiosidade como um ponto de pecado. Hallam imerge num total interesse de desvendar os segredos libidinais dessa mulher que se torna sua obsessão de vida.

Ao invés de assumir um lado de thriller, por conta do mistério que envolve a morte da mãe de Hallam, David Mackenzie prefere tornar lúcida a relação que envolve esse garoto com seu objeto de desejo. No segundo ato da narrativa, a noção de “romance” é externado, ainda mais por conta da boa química interpretativa providenciada por Jamie Bell e Sophia Myles — além de aprender a trabalhar o luto e superar certos traumas e nítidas fragilidades comportamentais, Hallam percebe que sua relação com Kate é muito mais emocional e afetiva. E é justamente esse provável envolvimento desses dois personagens que reveste a trama com um senso mais dramático também. Ao fundo, uma trilha sonora elétrica com canções de Franz Ferdinand e do Sons And Daughters criam uma atmosfera bem juvenil, mas dinâmica, afinal não é um filme de clima mais denso. Os aspectos mais simbólicos do filme é destacar a juventude tão carente, propensa ao desejo, em busca de atenção e afeto para sobreviver. A lamentar, somente, por o filme ser curto e não aprofundar-se mais nas questões psicológicas de Hallam — ainda assim, interessante ver Bell como um garoto com suas inseguranças e no limite da sutileza da sensualidade, o típico garoto com os hormônios à flor da pele.

Hallam Foe (EUA, 2007)
Direção de David Mackenzie
Roteiro de Ed Whitmore E David Mackenzie, Baseado Em Livro De Peter Jinks
Com Jamie Bell, Sophia Myles, Jamie Sives, Claire Forlani

Tórrido Desejo

No fim da década de 1960, o cantor Serge Gainsgourg já era popular por conta de seu vício em álcool, cigarros e constante polêmica em relação a uma vida caracterizada por escândalos sexuais envolvendo orgias e casos tórridos com mulheres. Era perceptível sua vulnerabilidade em dois quesitos — a paixão pela música e o vício no sexo feminino. O apelo libidinal em volta de sua figura na mídia foi potencializada quando casou-se com a então modelo inglesa Jane Birkin (através desse envolvimento nasceu Charlotte Gainsbourg), ambos passaram a produzir diversos discos juntos, além da famosa canção erótica “Je t'aime, moi non plus” — tornou-se febre e encabeçou o topo de paradas de sucessos em rádios no mundo. A mídia mediava essa relação dos dois e creditava como símbolo de explosão do sexo e sentimento. Durante o período que foram casados, justamente esse apelo carnal era algo que mais a mídia trazia à tona. Diversos jornais e revistas faziam questão de explorar o lado mais quente, a prova de que ali existia um envolvimento de proporção sexual sem precedentes — existia a lenda que Gainsbourg tinha um vício imoderado por sexo e que a compulsão era também um problema para o matrimônio. Paralelo a isso, o ator americano Joe Dallesandro era considerado o modelo sexual masculino mais proeminente de vários filmes independentes americanos do século XX, um símbolo fetichista da subcultura gay. Envolveu-se com trabalhos fotográficos de erotismo conceitual e foi muso/galã de Andy Warhol em várias produções dele.

O soft-porn Paixão Selvagem foi uma produção idealizada, musicada e dirigida por Gainsbourg e que gerou bastante polêmica no terreno francês por conta de suas intenções maliciosas, sem tabus; um exercício de sexualidade e desejos obscuros. A película trouxe Jane Birkin e Joe Dallessandro como personificações da sensualidade hormonal, bem condizente com aquele momento onde essas duas figuras eram símbolos perfeitos da sedução na mídia. No filme, Dallessandro é Krassky, um caminhoneiro homossexual que trabalha com seu namorado transportando lixo, Padovan (Hugues Quester). O que parecia uma relação pacífica e também dotada de tédio, torna-se um senso conflituoso quando Krassky depara-se com uma garçonete andrógina numa beira de estrada, Johnny (Birkin). A aparência um tanto masculinizada, misteriosa e tímida da mulher, faz com que Krassky demonstre certo fascínio e admiração por ela, além de um gradual tesão que faz com que seu relacionamento gay gere um curto-circuito. O roteiro não tem receios e é objetivo em logo escancarar esse interesse mútuo de um homossexual por uma mulher de corpo esguio, quase sem seios, cabelos curtos e sem contornos femininos.

O filme é interessante em demonstrar esse calor inicial, já que a primeira metade centra-se mais nas percepções de cada um, para depois promover um exercício mais carnal e de sexualidade violenta na relação tensa que vai desabrochar. Krassky claramente sente desejo por Johhny por conta de sua aparência mais associada à masculinidade — porém, ao passo que o roteiro tende a criar um envolvimento mais íntimo e emocional entre ambos, como na bela seqüência que os dois dançam e se beijam demoradamente ao som de “Je t'aime, moi non plus”, o público percebe que ali possa existir algo que não se centra, apenas, na modulação de um envolvimento carnal. O roteiro traça a gradual sedução do casal desde o primeiro contato até a primeira transa, quando fica evidente que Krassky só conseguirá sentir-se excitado com o sexo anal — obviamente, por ser gay ativo, não consegue sentir nenhum desejo pelo corpo feminino, só tendo prazer através dessa prática sexual, tendo, no caso, a fêmea ali despida e entregue a ele de costas. Daí surge boa parte do desconforto que a obra transmite ao espectador, além da polêmica subversiva por adentrar a um sexo mais selvagem e até masoquista do casal.

Indubitavelmente, o filme não é um estudo sobre um romance de um homossexual com uma hétero, quem espera aqui um traço profundo de envolvimento mais poético e sensível pode se frustrar. A relação de dos dois é de uma frieza carnal absurda, selvagem e ríspida. Muitos questionaram a intenção de Gainsbourg e sua provável falta de tato na maneira como aborda o sexo e os diálogos dos dois, mas o cineasta decide aqui investigar a problemática situação de um envolvimento sexual de duas pessoas tão opostas e de perspectivas divergentes, mas em busca de um orgasmo mútuo. A dificuldade de um homossexual sentir prazer através do sexo com uma mulher, conceito tão abordado já em outros filmes, aqui ganha um contorno mais apelativo já que o roteiro prefere permanecer na fissura do sexo anal — diversas cenas onde Krassky tenta sodomizar Johnny em motéis precários, num processo doloroso já que a moça sofre dores diversas e os gritos são constantes, impossibilitando a consumação total e fazendo com que ambos sejam, constantemente, expulsos dos locais por conta dos “barulhos e gritos” que fazem. E, ironicamente, sentimos que a barreira para o casal viabilizar o amor se condiciona neste aprendizado de coito tão difícil. De fato, é um filme que trata o prazer de maneira mais árdua, cruel e brutal; talvez por isso muitos considerassem a obra um tanto doentia. Não há um tom suave, nem muito menos delicado na aproximação desses amantes.

Com uma premissa tão transgressora e marginal, além de um senso de estética meio "suja" e underground, câmera na mão e cenas onde os atores parecem improvisar — já que os diálogos são fluídos e carregados de uma naturalidade informal —, este filme discute muito bem os traços dos tabus da sexualidade colocando um casal tão improvável numa relação provocativa. Há certos diálogos que beiram à vulgaridade por conta da provocação articulada, mas não é algo que proporcione uma repulsa. Ademais, há ainda espaço para mostrar questões que envolvem a homofobia — o namorado enciumado de Krassky sofre violência física por parte de alguns moradores da localidade — e indagações sobre o papel da submissão feminina. Fica visível que Johnny se submete a uma transa desagradável, a típica demonstração de mulher que aceita servir a um homem egoísta — já que este só quer o sexo dessa forma, sem se preocupar com sua parceira. Mas, no fim, o que fica mais nítido é que não há como sustentar uma relação se o sexo não for tão primário e em sintonia, além de que o sentimento deve ser privilegiado. O filme é objetivo, sem muitos adornos tanto na concepção fotográfica quanto no aspecto do desenvolvimento narrativo, mas é eficaz no que pretende: colocar uma relação tão rude e desprovida de delicadeza. O sexo aqui é um elemento tão necessário, mas o que deixa rastros é como a humanidade ainda sofre pela carência. Filme plenamente controverso, ousado e astuto.

Je t'aime, moi non plus ( FRA, 1976)
Direção de Serge Gainsbourg
Roteiro de Serge Gainsbourg
Com Jane Birkin, Joe Dallesandro, Hugues Quester e Reinhard Kolldehoff

Sexo sem compromisso

Por que o sexo casual é algo tão evidente na sociedade atual? O que torna o sexo mais prazeroso entre seres humanos desconhecidos? É compreensível a necessidade de a cinematografia tentar desvendar as situações que envolvem as relações da humanidade através da sexualidade, do envolvimento casual sem amarras e do instinto libidinal que faz com que a concepção de sentimento seja algo secundário. Várias abordagens já souberam explorar posicionamentos sobre relações que se desenvolvem através de transas aparentemente efêmeras ou mesmo o “sexo de uma noite” que acaba por provocar um sentimento gradual afetando essa relação que demonstrava se restringir ao coito, ao prazer imoderado. Baseado no “Entre Sabanas” do mesmo diretor colombiano Gustavo Nieto Roa, Entre Lençóis é uma tentativa frustrada de mostrar o encontro de dois indivíduos em busca de sexo num motel qualquer. Este frágil longa-metragem tem semelhanças nítidas com duas produções estrangeiras, “Um Quarto em Roma” de Julio Medem (que coloca duas mulheres lésbicas perdidamente fascinadas pelo sexo num quarto luxuoso) e “Na Cama”, produção chilena de Matias Bize. Reynaldo Gianecchini e Paola Oliveira personificam o típico casal que se conhece por acaso numa noite qualquer — uma boate no coração boêmio do Rio de Janeiro —, e logo partem para um encontro íntimo num motel em busca de sexo. E é dentro desse ambiente que a narrativa se desenvolve.

Todo articulado dentro do mesmo local, o filme mostra o encontro explosivo da libido deste casal. Roberto e Paula, ambos comprometidos e com vidas tão díspares. Ele, recém abalado por uma relação problemática com a esposa que vive há três anos. Ela, prestes a se casar com o homem aparentemente ideal. Logo no início, é visível a intenção do roteiro Renê Belmonte (Se Eu Fosse Você, Sexo com Amor?): apresentar essa condição sexual de ambos. Hormônios em ebulição, beijos calorosos, logo uma transa dotada de sensualidade, o casal não se preocupa em esconder a intenção maliciosa nos primeiros minutos do filme. Talvez aí resida o apelo da produção, já que traz os globais Reynaldo Gianecchini e Paola Oliveira despidos e em apelos mais libidinais, corpos nus e momentos onde a câmera pareça só se preocupar em destacar cada detalhe da beleza física desses dois atores.

Logo após o frisson inicial, o roteiro parte para a “busca da intimidade verborrágica” do casal. Concentram-se aí as fragilidades expostas, os anseios, cada um dialogando sobre suas vidas, é a forma de apresentar um pouco desses personagens ao público. Percebe-se que Roberto e Paula sustentam uma vida de insatisfações e logo demonstram que o ardor carnal é apenas o ponto de partida para um divã entre quatro paredes, sob as fronhas, dentro do quarto que é o terreno onde acabam por se descobrir e se relacionar. Mas, não pense que, ainda que com uma intenção interessante, o filme saiba se sustentar. Pelo contrário, após os vinte minutos iniciais, promovem-se aí diálogos bastante medíocres e que — além de não causar reflexões maiores ou que se aprofunde mais no caráter/personalidade de cada um deles — soam artificiais ao extremo. Visivelmente, o roteiro peca pelo excesso de tons exagerados e até na maneira um tanto precipitada que coloca o casal do sexo-tórrido ao devaneio-amoroso.

Ironicamente, faltam sensualidade e ousadia na estética da sexualidade imagética do filme. Ainda que os atores apareçam despidos e as cenas de beijo e transas sejam efetivas, visivelmente a direção de Gustavo Nieto Roa aborrece o público que procura algo mais fetichista, agressivo e que tenha um tom mais realista. Ora, se os atores aceitam expor o corpo de forma tão intensa e até apelativa, por que se privar em mostrar algo mais provocativo visualmente? A câmera percorre, mas aparenta receios. De tudo isso, destaca-se as discussões sobre carências eternas da humanidade, a forma como todo ser humano idealiza no desconhecido não só o sexo mais prazeroso como o sentimento mais perfeito, além de indagações sobre questões que envolvem fidelidade e sensos de sinceridade e sentidos da vida — mas esses elementos não tornam o aspecto cênico mais cativante.

A direção é apática e não tem coragem em expor o casal em algo mais libidinal, ou seja, falta “coreografia” nas cenas de sexo, tudo acaba sendo bem falso, sem pimenta e recatado. A sensação é de perceber cenas de sexo mecânicas, ensaiadas. Você enxerga que os atores ali se movimentam sem uma liberdade mais instintiva sexualmente. Há sequências isoladas que poderiam funcionar, mas são intragáveis, como, por exemplo, o momento onde Paula decide fazer um strip-tease pra Roberto — a intenção de proporcionar uma sensualidade escorre pelo ralo, o tom de humor é visível e a cena gera um desconforto. Até a primeira transa dos dois fragiliza mais ainda a noção de sensualidade, portanto a película nem deve ser classificada como soft-porn, seria mais fácil dizer que é um “filme assexuado”, sem erotismo.

A sensação é que o roteiro também é uma barreira, já que os diálogos não são equilibrados e enfraquecem o interesse do público da metade ao final. Há cenas que ambos os atores convencem, há uma química bem concreta, mas a artificialidade do roteiro faz com que o resultado seja bem comprometedor. Diálogos pobres, frases de efeito e excessos de closes nos atores são artifícios constantes. Problemas de direção são somados a uma péssima edição, fotografia e uma trilha sonora que manifesta um tom amador a tudo. O aspecto televisivo é visível. Infelizmente, o que poderia render uma jornada ao microcosmo da sexualidade, termina sendo um filme perecível e constrangedor.

Entre Lençóis (BRA, 2009)
Direção de Gustavo Nieto Roa
Roteiro de Renê Belmonte
Com Reynaldo Gianecchini, Paola Oliveira

Sexo ardente

Há quase vinte anos, Madonna potencializava sua fama ao lançar o conceito de sensualidade pop-musical com o álbum Erotica. A cantora quebrava as barreiras ao expressar nas letras, melodias e clipes de suas canções questões sobre a feminilidade e o poder de liberdade sexual. O álbum ganhou admiração maior por parte de comunidades homossexuais, pois enxergava ali um testamento contra a hipocrisia, puritanismo e preconceito. Madonna provocou e polemizou ainda mais ao lançar o livro "Sex", exibindo-se em fotos picantes e sensuais — o conceito deste trabalho era como uma consequência do trabalho feito no Erótica, espécie de adendo. A cantora causou controvérsia e gozava de sua maior exposição, mostrando claramente que a imagem de erotismo era algo intrínseco a sua figura pública. Aproveitando-se dessa maior nitidez da fama viabilizada através da sensualidade, o cineasta Uli Edel a convidou para personificar a luxúria em seu novo trabalho. O objetivo era promover um espetáculo libidinoso e o maior mérito seria conceber cenas de nudez e sexo-selvagem sem nenhum traço de censura. O soft-porn Corpo em Evidência foi lançado na busca por mais um sucesso proveniente desse senso de malícia da cantora. Não teve nítida bilheteria de público, porém incutiu o choque em vários países onde foi lançado, ainda que a censura tenha sido alimentada já que o Brasil, por exemplo, tenha classificado o filme como “impróprio para menores de 18 anos”.

A trama coloca Madonna como a principal suspeita num crime inusitado. Quando um milionário é encontrado morto em sua cama, as acusações caem sobre Rebecca Carlson (Madonna), a amante que aparece em imagens de sexo gravadas numa fita de vídeo. Levada ao júri, a acusação alega que o homem fornicou até a morte — vítima de ataque cardíaco conseqüente de sexo imoderado. É então que entra o advogado Frank Dulaney (William Dafoe), um homem que acredita na inocência de Rebecca, investe sua força para defendê-la. Sob esses sensos óbvios, a trama coloca a típica questão de um crime e retratação do tribunal para promover seu intuito: evidenciar, ao máximo, o caráter dúbio e sexualizado dessa protagonista. Obviamente, Rebecca envolve-se num jogo de sedução com Frank, tornando o posicionamento policial do roteiro em segundo plano. O texto de Brad Mirman é bastante frágil e não tem receio em concentrar sua intenção erótica, tornando combustão da narrativa o apelo carnal que situa o prazer como centro de tudo.

Corpo em Evidência é o plano perfeito para executar a força da sensualidade de Madonna em cena. Ora, se como atriz dramática ela demonstra insegurança e deslizes por conta de uma artificialidade interpretativa, é nas seqüências onde potencializa seus dons libidinais é que consegue sustentar o teor hipnótico. O público mais conservador pode se chocar com certas situações expressas no filme, já que o envolvimento de Frank com Rebecca condiciona-se num jogo de sedução no limite da violência e da transgressão sexual — logo sabemos que Rebecca é uma mulher viciada em sexo, perversão e sadomasoquismo. E através disso que o filme se afirma com cenas carregadas de malícias em busca da atração do público que procura um filme dotado de pecado, malícia e sexualidade mais marginal. E há ainda espaço para a colocação do elemento traição: Frank é casado com uma mulher pacata (Julianne Moore) e o casamento é colocado em jogo em função de seu caso tórrido com sua cliente.

Ainda que se afirme num discurso bem superficial, já que a tônica do suspense aqui é pouco proveitosa — o roteiro mostra o julgamento de Rebecca e fatos são explorados como forma de tornar dúbias sua intenção ou não de assassinato —, Uli Edel é astuto na conservação do tom sexual que seu filme precisa impor ao público. Inúmeras cenas exploram o corpo nu de Madonna, sob uma fotografia sempre na cor avermelhada, a câmera curiosa percorrendo cada parte do corpo em close, isenta de inibição. Rebecca representa uma mulher livre de repressões, por isso é permissiva a sua libertinagem e detesta o que há de mais conservador no terreno do ato sexual. E o filme mostra essa mulher livre de tabus, predestinada aos múltiplos orgasmos, em busca do sexo mais intenso possível. Daí se introduz cenas de sexo efervescentes dela com Frank — Madonna e William Dafoe comandam seqüências pontuadas de perversão, bem carnais e sem timidez. Não é à toa que a famosa seqüência é quando os dois transam à meia-luz: Madonna derrama a cera quente da vela sob o corpo de Dafoe que geme de prazer, dominado pelo sexo agressivo de uma fêmea lasciva. Este momento é tido como símbolo fetichista por muitas pessoas; de fato é uma cena icônica que caracteriza bem a colocação de um coito mais animal, despudorado. São momentos bem provocadores e que é preciso coragem por parte dos atores para poder convencer já que o grau de “realismo sexual” é ousado — e o roteiro ainda brinca com situações, como na cena onde Rebecca masturba Frank dentro de um elevador lotado.

Pode-se dizer que seja um filme satisfatório, somente, no quesito de sua personalidade sexual. Porém, a direção é morna e distante, além do roteiro ser bem característico dos principais filmes de suspense rasos televisivos. Madonna convence no papel de mulher libertina, sexo quente e atitudes masoquistas — mas nem mesmo o roteiro consegue dimensionar uma maior complexidade, tornando sua caracterização e motivações no limite da superficialidade. William Dafoe é um ator dedicado, surpreende até pela atitude erotizada que se permite, apesar do filme todo ser mais um apelo para Madonna mostrar sua disposição fetichista. Contudo, não é uma obra necessária, é perceptível que até envelheceu ao longo dos anos. Um trabalho orgasmático, mas que não deixa marcas no corpo da cinematografia.

Body of Evidence (EUA, 1993)
Direção de Uli Edel
Roteiro de Brad Mirman
Com Madonna, William Dafoe, Joe Mantegna, Anne Archer, Julianne Moore

Sexo que nos habita

Somente Pedro Almodóvar para continuar mostrando que dentro do exercício cinematográfico existe a pura arte. Não existe cineasta atual — não desmerecendo tantos outros que criam e recriam, cada um ao seu modo próprio, a argumentação experimental na esfera da cinematografia — com maior poder de criatividade e sustentação humana. Sim, ver um filme de Almodóvar é poder ir de encontro ao lado mais íntimo, sombrio e cruel da existência da humanidade. E o que mais me deixa admirado com esse homem é a única capacidade de recriar em cima de um tema aparentemente “banal”. Entende-se que A Pele que Habito poderia se firmar numa trajetória comum, sem grandes inovações, já que a primeira metade do filme se sustenta num contorno já explorado na sinopse do filme. Ou seja, começamos contemplando esse filme com um determinado olhar e noção de quase tudo ao nosso redor, até quando surpresas vem à tona e o lodo dos seus personagens se esvai da pele, da alma e do corpo. Somos contagiados com tamanha reviravolta que salta aos nossos olhos abismados, antes mesmo de compreender tudo. E é um filme que não se perde diante do quebra-cabeça, pelo contrário, se fortalece. Almodóvar nos instiga com uma narrativa original, repleta de sedução e morbidez extrema.

A atmosfera criada é bem palpável. O sedutor roteiro se sustenta na essência do livro de Thierry Jonquet, “Tarântula”, o próprio Almodóvar promoveu a adaptação. Curiosamente, o filme projeta seus personagens ao público num intricado jogo-complexo até o primeiro ato da projeção da fita. Na primeira metade, a trama percorre o cirurgião plástico Robert Ledgard (Antonio Banderas, possivelmente a melhor interpretação de sua carreira) no qual desenvolve pele artificial que vai ser testada na misteriosa jovem Vera (Elena Anaya, belíssima e surpreendente atuação). A fêmea que é mantida secretamente em sua casa, reclusa e confinada, servida de cobaia aos experimentos do médico. O elo que mantém esses dois indivíduos? O público logo saberá. Sabe-se que Robert perdeu a esposa que o traia e que sua filha também seguiu o mesmo destino trágico da mãe.

Enquanto detalhes maiores são sugestionados ao público, Almodóvar posiciona seu filme num patamar maior, é quando o segundo ato nos atinge de maneira mais chocante. Um filme doentio e experimental? Definitivamente, sim. Nuances, camadas, detalhes e reviravoltas são transformações do filme que atinge com um ritmo mais insano, febril. Torna-se eufórico, um terror-psicológico e um tom mais melodramático que persiste. Roberto Ledgard torna-se alvo de horror, facilmente nos remete à história do Dr.Frankenstein. É Almodóvar provando que sua verve criativa pode trazer ácido-terror dentro da humanização de seus personagens. O público percebe a complexidade moral e perversa da trama quando são inseridos flashbacks para elucidar algo que não estava claro nos primeiros minutos. Interessante como o diretor nos entrega a catarse logo no meio do filme e não prejudica a grandeza da obra.

E falar deste polêmico filme é também se precaver, visto que devemos evitar ao máximo evidenciar o caráter da obra — assim, todo espectador poderá ter o estomago revirado com tantas situações catárticas em menos de duas horas de projeção. Bem verdade, é um filme de estilo novo e fora do eixo habitual do cineasta, não tão quente como os seus maiores clássicos, menos avermelhado, mas, ainda assim, se mantém único pelo traço de abordagem. Conseguimos perceber a mão provocadora do cineasta em diversas cenas, diálogos e ideais — a perversão aqui se faz presente; o fetiche pela discussão da sexualidade e o tom incisivo em evidenciar a malícia/dualidade de seus personagens são nítidos. O feminino aqui é forte, assim como a construção do aspecto masculino dos personagens. Há discussões sobre homossexualidade, a eterna obsessão pelo corpo, pela perversão-sexual tão característica do cineasta em suas aclamadas obras. Almodóvar nos excita com seus elementos de horror e morbidez, mas não deixa de tornar o principal argumento deste filme baseado num contorno sexual, querendo ou não.

A prestação de Marisa Paredes, habitual parceira de Almodóvar, é interessante. Sua personagem é aquela que oferece um tom passível, ainda que dramático. Antonio Banderas, antigo ator-fetiche, confirma que é talentoso e quente quando tem nas mãos um papel bem denso. Valeu a pena o ator voltar a trabalhar com Almodóvar após mais de 20 anos. Ainda assim, é Elena Anaya que preserva a maior responsabilidade, visto que sua personagem é de extrema importância na trama por conta da complexidade apresentada. Engana-se quem afirma que aqui temos um filme anti-Almodóvar, pelo contrário, é perceptível um diretor mais à frente de seu tempo em se preservar e se transformar, ao invés de se mostrar repetente. Afinal, estamos tão cansados de filmes semelhantes, nada melhor que conferir um exercício puramente latente e estético-sensorial que nos brinda com uma sensação dilacerante ao fim, nos deixa catatônico. Obra-prima perturbadora, impactante e contundente.

La Piel que Habito (ESP, 2011)
Direção de Pedro Almodóvar
Roteiro de Pedro Almodóvar
Com: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet.

O amor não tem cor?

Como viver a própria sexualidade que quer explodir? E como dar vazão ao desejo num espaço onde a homofobia impera ao lado da hipocrisia religiosa? Cada vez mais, a comunidade gay consegue sustentar seu discurso à favor da liberdade de expressão — sexual, identidade e idealista — dentro de uma sociedade ainda repressora. Filhos de Deus (lançado também com o ridículo título Amantes do Caribe) é mais uma prova cinematográfica resultante deste processo — gradual, diga-se de passagem — que quer combater os eternos tabus sociais que jamais se apagam. Como entender as relações entre dois homens? O que fazer para a sociedade reparar seus atos de crueldade e preconceito perante homossexuais? Mais que um estudo sobre os percalços, anseios e motivações da predestinação queer, este filme impressiona por apresentar um tocante, não menos realista, amor interracial entre dois homens. Aqui a narrativa centra-se nas belas praias das Bahamas, conhecemos Johnny (Johhny Ferro), um artista introvertido que sofre bullying dos moradores locais por conta de seu comportamento considerado esquisito e pela sua opção sexual. O jovem não consegue viver tranquilo já que sofre por conta de sua sexualidade, então se firma na negação e foge de maiores contatos afetivos para não se frustrar. Ao vivenciar uma crise de inspiração, o artista é aconselhado por sua professora a passar uma temporada na Ilha de Eleuthera, no intuito de recuperar o fôlego da criatividade. Ao conhecer o atleta Romeo (Stephen Tyrone Williams), seu destino muda, é quando o sentido mais dramático do roteiro evidencia seu caráter principal: existe uma atração sexual inevitável entre os protagonistas, um sentimento que pode provocar uma violenta catarse nas vidas de cada um. Mas, o filme apenas não se resume a esse senso, há mais discussões polêmicas por aí.

O diretor Kareem Mortimer conduz com muita atenção a trajetória de amor, desejo e estranheza de seus dois garotos. Interessante que a personalidade de Johnny é bem diferente de Romeo, mas ambos vivenciam os tormentos de uma repressão sexual visto que a sociedade eterniza uma indisposição aos seus impulsos libidinais e existenciais. Se Johnny busca a si mesmo nas ruas de Nassau, é Romeo que sofre por conta da família que insiste em providenciar um casamento com uma antiga namorada. É a típica discussão que prevalece neste sentido: o homem que tem que mascarar sua sexualidade para se enquadrar socialmente, ainda mais quando a sociedade costuma cobrar casamentos heterossexuais e filhos. E Mortimer mostra a relação de Johnny e Romeo bastante trágico e proibido, desde o começo. A cena que ambos dançam, corpos nus, sem música, apenas no embalo do calor dos corpos, é um dos momentos mais bonitos já concebidos na representação da cinematografia homoafetiva.

Paralelo aos personagens principais, há ainda subtramas que sustentam o apelo militante contra ao preconceito ao homossexual. Há Lena (Margaret Laurena Kemp, atuação notável), casada com um pastor homofóbico que, na verdade, é um gay enrustido que se envolve sexualmente com garotos secretamente — contundente a postura dessa personagem que vivencia o tormento de uma vida mascarada, além de apresentar intolerância religiosa contra à homossexualidade, podando até seu filho que, ainda criança, já apresenta um “comportamento suspeito” que ela acredita ser condizente com o caráter homossexual.

O roteiro de Mortimer tem uma forte discussão sobre a homofobia, por isso insere inúmeros diálogos bem reflexivos que induz o espectador a pensar sobre essas questões. Mas, o que torna mais admirável é a química sensual e interpretativa do par central, por sinal bem caracterizado pelos atores Johhny Ferro e Stephen Tyrone Williams que sustentam o apelo da libido, do amor e da barreira que dificulta a relação de apenas dois homens que queriam viver um para o outro. Sob o véu das questões raciais, homoafetivas e das intolerâncias religiosas, este é um trabalho que acaba por tocar nas feridas sociais sem medo. E só por promover essa reflexão já vale uma conferida.

Children of God (EUA, 2010)
Dirigido por Kareem Mortimer
Escrito por Kareem Mortimer
Com Johnny Ferro, Stephen Tyrone Williams, Sylvia Adams

Diário de um prostituto?

Como se sustenta a prostituição gay? Como funciona o sexo feito pelo dinheiro? Qual a dinâmica que se estabelece entre os prostitutos e seus clientes? Grande estudioso do universo da homossexualidade e conhecedor sobre a natureza dos “profissionais do sexo”, o cineasta John Graham desenvolveu um provocador roteiro que desnuda o universo da prostituição masculina. Selecionado em diversos festivais de cinema LGBT nos Estados Unidos, Garoto de Programa é um trabalho realista e polêmico que decide investigar as vivências da juventude que se presta ao sexo apenas pelo dinheiro. Tão preciso quanto o já clássico “Garotos de Programa” de Gus Van Sant, essa produção tem mais substância e sensualidade que o tão falado “Bruna Surfistinha”, por exemplo. Ao personificar também as relações sexuais gays, o filme acaba por trazer à tona várias questões pungentes que agem como um forte sentido de reflexão humana. Com um roteiro bem articulado, ousado e que decide, sem medo algum, explicitar as relações de sexo pago, Graham acaba por exercer uma jornada de psicossexualidade que vai além. A ação se centra durante uma noite de atendimento de um michê (Ben Bonenfant), num único prédio — chamado por um dos personagens como o local “mais gay da rua mais sexual da cidade”. Acompanhamos o jovem, típico estereótipo sexual dos sonhos, já que é libidinoso, sensual e masculinizado. O que parecia ser apenas uma única noite de serviço torna-se um emaranhado de situações sexuais, já que o michê acaba por transitar entre diversos apartamentos do mesmo prédio, envolvendo-se com vários homens de diferentes personalidades.

Verbalmente e visualmente sedutor, o filme acompanha bem de perto a jornada sexual noturna do michê dentro do prédio sob uma forte tempestade. O interessante é que ele não se limita aos enquadramentos eróticos, apenas, das transas — evidentemente, várias são as cenas que sustentam o teor homoerótico da película, visto que há um tom bem realístico em pontuações de sexo oral e sodomia praticada pelo michê com seus clientes. Várias cenas de nudez, a câmera demoradamente nos corpos dos homens, o olhar penetrando os atos sexuais que podem até constranger um espectador despreparado. Mas, o filme não se limita nesse sentido, acaba por tratar, já que tem uma linguagem bem íntima com seus personagens, elementos de reflexão da própria moral do protagonista. Por que um jovem tão novo decidiu se prostituir? O que faz uma pessoa viver no vício do dinheiro ganho pelo sexo com um desconhecido?

Enquanto se envolve com seus clientes, o michê — que não sabemos a real identidade, já que “troca” de nomes a todo instante — aparenta ser um indivíduo que gosta de transar com desconhecidos, viciado nas “transas do acaso”, sem nenhum indício de apego sentimental com ninguém ainda que seja bem carinhoso com eles. E John Graham, cuidadosamente, explora a personalidade do michê que acaba por misturar-se com o universo de cada cliente que vem experimentar seu corpo. O prostituto torna-se uma espécie de ouvinte das confidências de seus clientes que divide com ele seus dramas, solidão, anseios e dúvidas reais.

E a linguagem do filme é bem direta, íntima e vai fundo no universo da prostituição através deste único protagonista. Admirável a maneira como o roteiro acaba por acentuar estereótipos de pessoas comuns imersas nas relações casuais, dos redutos homossexuais, das comunidades sexuais obscuras. Há um cliente que nunca conseguiu esquecer o primeiro amor de adolescência; há um outro que se entrega ao vício da cocaína, leva uma vida com a prática do sexo e o uso imoderado de bebidas; há o homofóbico casado que procura o michê para realizar suas fantasias secretas, mas sofre por conta dos desejos que sente — compreende-se aqui o universo dos enrustidos, dos que tentam mascarar suas verdadeiras opções sexuais, sem sair do armário. E o filme mostra muito bem esse sentido da homofobia através de um personagem que se envolve com o michê, numa seqüência de sexo bem desconfortável, por sinal.

Ademais, John Graham também insere inúmeros diálogos reflexivos que faz com que o jovem insaciável michê acabe por olhar para si mesmo, é quando aqui o sexo deixa de ser apenas um exercício para virar um elemento de desconstrução de seu personagem. O michê eficiente, sexualmente disposto, acaba por questionar sentidos de sua vida, do sentimento, reflete perspectivas pessoais. Surpreendente, o filme usa da prostituição gay masculina para preservar uma reflexão de mundo e é neste sentido que a obra torna-se mais indispensável. E só por pegar um tema já famigerado e incluir elementos mais provocadores, a película tem sua força. A direção é extremamente segura, pontual. O cineasta limita seus personagens em quartos escuros ou salas com fotografia que prioriza tons de vermelho e azul. Os diálogos sinceros e efusivos são apoiados pela trilha do cantor americano Jay Brannan que já é recorrente no cinema queer. O jovem ator Ben Bonenfant concebe uma atuação sensual, convincente como um prostituto de fortes apelos libidinais e total carisma em cena.

Strapped (EUA, 2010)
Direção de John Graham
Roteiro de John Graham
Com Ben Bonenfant, Nick Frangione, Artem Mishin

Intimidades do amor

A superficialidade ou mesmo estereotipação do universo homossexual são habituais em diversos discursos cinematográficos da esfera LGBT. O cinema queer opta por escrever linhas narrativas onde homens apenas executem sua libido, reflexo da testosterona irrefreável. As lentes recorrem aos ângulos que traçam tramas onde o sexo parece ser a única preocupação no território gay — mas o que falar da afetividade que é uma característica sempre a ser discutida? O que torna De Repente, Califórnia um filme único é justamente no seu contorno mais visível: a homoafetividade sem nenhuma afetação. Eleito o melhor filme pelo público no Festival Mix Brasil de Cinema da Diversidade Sexual de 2007, a película apenas quer ser natural, pois centraliza a problemática que acaba por ser a mais tenebrosa da humanidade: a dificuldade em viver um amor de verdade, neste caso o romance se restringe ao senso homossexual. Jonah Markowitz dirige e roteiriza sua idealização de “amor impossível” entre dois homens, como poucos filmes já mostraram. A trama oculta todos os clichês comuns de filmes gays, ausenta-se os comportamentos afetados ao colocar o confronto amoroso — e também sexual — de dois homens que apenas sentem-se atraídos.

A exploração afetiva é um critério primordial neste filme. Mas não deixa de ser explorada também a dimensão libidinosa, pois os dois homens envolvem-se nesse senso de atração. Existe a tensão do desejo da carne, existe o afeto íntimo. E Markowitz prefere tratar seus dois amantes como homens-másculos, sem as máscaras de estereótipos que condicionam gays a apenas representações afetadas — aqui vemos gays que praticam esportes habituais ao “universo hetero”, o surf. Aqui há homens que são enérgicos, de comportamento que expressa bem o grau de virilidade. Zach (Trevor Wright) é um garoto que tem que cuidar de uma família problemática. Administra as ausências maternas da irmã Jeanne (Tina Holmes), jovem negligente que prefere priorizar seus casos amorosos a cuidar do filho, e cuida do sobrinho Cody que o enxerga como um pai verdadeiro. Em toda sua vida, sempre se relacionou com garotas, sendo o último namoro ainda bastante marcante. Quando conhece Shaun (Brad Rowe), um escritor que volta para casa dos pais para escrever o próximo livro, é que seu destino sofre a catarse. Ambos tornam-se companheiros de surf, amizade crescente e um envolvimento revelador. Como conter os desejos que uma vida nunca apresentou? A amizade de Zach com Shaun gradua-se numa intimidade que nem mesmo eles entendem, é quando a libido é despertada por algo maior: um sentimento capaz de mudar tudo e a todos. A expressão de sua homossexualidade se torna o catalisador de todas as suas transformações. Zach percebe que o universo masculino é atraente e provoca variantes desejos.

O titulo original do filme tem muito mais sentido — “Shelter” significa abrigo. E é justamente esse sentido: Zach encontra em Shaun um conforto, um alicerce, um suporte. O amor é um abrigo que o acolhe, a proteção para todas suas dores humanas. É possível conter um desejo que parece transbordar de puro sentimento? Quando as sensações se confundem é que o ser humano mais vive em conflito — como representante militante sobre universo homossexual, é óbvio que este filme trata também das dificuldades de um homem aceitar-se na condição de homossexual, sem afetação alguma. Zach tem que enfrentar não só sua família, mas seu próprio interior que despreza esse sentimento que nunca havia explorado. Interessante que o roteiro é cuidadoso em mostrar como se fundamenta, e até inevitável é, a atração entre os dois — sequências de diálogos íntimos que contornam os olhares, a exploração da convivência, para depois externar a libido que é incontrolável. A primeira vez que ambos se beijam é natural, pura ternura, mas demonstra bem a química de desejo que esses dois homens vivenciam. A partir disso, inicia-se um discurso onde Zach tem que lutar contra privações, visto que há não só um desejo, mas um amor que é capaz de elevar suas percepções para um novo mundo. E o filme pontua a maneira como, quase sempre, o homossexual acaba por se auto-flagelar; a se punir por algo que sente, à beira do medo de ser descoberto pela sociedade predatória. Mas, como reprimir um tesão que nunca atenua? E como não se anular pelos preconceitos externos?

Ao contrário do que se espera, o filme não se concentra em diversas sequências de sexo. Porém, as que existem provocam, por conta do realismo e da forte propulsão maliciosa dois atores em cena. Tanto Trevor Wright como Brad Rowe não parecem tímidos nos diálogos íntimos, em beijos emotivos ou mesmo na cena onde transam pela primeira vez, momento que evidencia bem a tensão selvagem orgástica dos dois. Não é apelativo, mas é sensual. O que torna esse filme ainda mais justo com o universo homossexual é que ele lida bem com as dores, mas também com os prazeres adquiridos por essa sociedade homossexual que enfrenta o preconceito social, a aceitação íntima também. A direção de Jonah Markowitz prefere que os atores direcionem suas cenas, sem nenhuma ousadia estética, somente a da excelente harmonia interpretativa. Tanto os dois protagonistas como o restante do elenco pontuam muito bem as sensações, percepções e contextos humanos da diversidade sexual. A questão da homofobia é apresentada também aqui. Mais que uma discussão sobre problemáticas da opção sexual, é uma trama que aponta como é necessário escolhas — afinal, através delas, que destinos podem ser transformados a todo instante. Eis um exercício cinematográfico que desmistifica a concepção de homossexualidade como algo só trágico, afetado ou depressivo. Um filme sensível, íntegro e autêntico.

Shelter (EUA, 2007)
Direção de Jonah Markowitz
Roteiro de Jonah Markowitz
Com Trevor Wright, Brad Rowe, Tina Holmes, Jackson Wurth

Diários de uma prostituta

É possível alguém apenas querer viver do lucro que seu corpo possibilita? O que motiva uma mulher a optar por esse “caminho de vida fácil”? Compreensível que o filme Bruna Surfistinha, baseado no livro O Doce Veneno do Escorpião, tivesse o mesmo sucesso exorbitante. A história já é conhecida por todos, não é segredo algum. Marcus Baldini aqui estreia na direção, demonstrando claramente sua intenção: tornar nítido a sexualidade dessa figura que causou tanta atração na sociedade — querendo ou não, até para os puritanos-de-plantão, Rachel Pacheco, nome de batismo, conseguiu usar da mídia para provocar/direcionar os refletores para sua decisão de vida. E conseguiu deixar todo mundo interessado. Tornou-se prostituta porque quis. Escolheu ganhar dinheiro através do sexo por vontade própria. Tornou-se a Bruna Surfistinha famosa. Novidade o argumento não é, existem tantas histórias semelhantes, reais e ficcionais, a grande sacada em questão é uma: nenhuma outra prostituta havia usado de um blog para mostrar com detalhes suas experiências sexuais; seus fetiches, seus desejos, seus programas tão expostos. E é exatamente esse sentido que o filme decide tornar explícito. Sem se preocupar muito em aprofundar as motivações psicológicas e motivacionais, a película apenas retrata a decisão da garota que abandona uma vida de classe-média para emergir no mundo da prostituição, do limbo ao topo.

O longa não detalha muito da vida familiar de Rachel Pacheco, apenas preocupa-se em contornar sua mudança para Bruna Surfistinha — da quase tímida-virginal, introspectiva e inocente do começo, à posição catártica de determinismo e fulgor libidinal ao fim. É interessante a maneira como o roteiro peca por não explorar as motivações da personagem-real — por que uma moça procura se prostituir apenas para “não querer depender de ninguém”? -, porém, consegue instigar por mostrar a dualidade e processo de transformação de uma garota que, inicialmente, demonstrava apatia, desconforyo e insegurança no sexo, mas que depois explode como um furacão sexual, repleta de malícia e determinação. O filme experimenta a trajetória de Bruna que, com seus 18 anos de idade, vivencia a natureza da prostituição por livre-arbítrio.

A ousadia da direção de Marcus Baldini apenas foca nas inúmeras transas sexuais da prostituta — ainda que não seja explícito, o sexo é muito bem fundamentado na trama, porém menos agressivo/cru que no livro que fora adaptado. O resultado são sequências de cenas de sexo oral, sodomia e simulações de penetração que são intercaladas com a narrativa em off da protagonista. A segurança da direção não vulgariza, mas as cenas atingem boa sensualidade e são fortes. De trajetória publicitária, Baldini acentua sua segurança no visual ao articular mais a provocação libidinal nas imagens do que nos diálogos. Relevante a cena do primeiro programa feito por Bruna no bordel, onde a câmera foca apenas no seu rosto e, ao fundo, seu primeiro cliente, interpretado por Cássio Gabus Mendes, executa sua penetração anal selvagem sem muita afetividade — a cena mostra bem o desconforto da mulher que, dali pra frente, teria toda sua vida modificada por conta de sua decisão. Sem levantar uma bandeira de que a prostituição é algo pecaminoso ou prejudicial, ainda assim o filme mostra que é uma vida que conserva inúmeras dificuldades, percalços.

A interpretação concentrada de Deborah Secco é capaz de humanizar, torna tudo envolvente. A atriz sabe muito bem explorar suas nuances ao personificar a inocência e fragilidade do primeiro ato do filme, bem como ao elevar a sensualidade que sua personagem pede. Secco empresta seu corpo, sua voz e malícia até com o olhar — há uma entrega total, principalmente, nas cenas que são impregnadas de sexo, muitas por sinal, que o filme procura explicitar. Há nudez frontal e de diversos ângulos, apelo sensual e boa condução interpretativa nos momentos de transas sexuais. Ainda que não seja forte o erotismo, convence! E o tom emocional torna-se evidente quando Bruna passa a viciar-se em drogas, a cocaína — é quando a atriz se mostra ainda mais competente com os momentos de sofrimento e auto-flagelação. A ótima trilha sonora de Tejo Damasceno e André Lucarelli é sensual, ágil e ajuda na narrativa orgástica da protagonista. Contudo, ainda que explícita sexualmente na mídia, Bruna ainda é um mistério. E pelo filme, jamais dá pra entender o porquê de uma garota, que poderia ter tudo, não se ajustar tanto a sua vida comum a ponto de se realizar na prostituição. É perceptível que houvesse o gosto pelo sexo, o prazer, a satisfação em ser garota de programa. Talvez, até fosse ninfomaníaca. Porém, o roteiro não dá margem a maiores discussões sobre isso. Apenas mostra uma mulher que queria quebrar as amarras do tradicionalismo, viver sem preconceitos, no gosto pela liberdade e libertinagem sexual...

Bruna Surfistinha (BRA, 2010)
Direção: Marcus Baldini
Roteiro: José de Carvalho, Homero Olivetto, Antônia Pellegrino – Baseado no livro O Doce Veneno do Escorpião, de Raquel Pacheco e Jorge Tarquini
Com Deborah Secco, Cássio Gabus Mendes, Cristina Lago, Drica Moraes, Fabiula Nascimento, Guta Ruiz

Amor além da vida?

A dolorosa realidade, o tormento de não poder expressar os sentimentos verdadeiros, o desejo que deve ser ocultado diante de uma sociedade que julga. Como lidar com uma vida firmada nas aparências, onde as vontades são substituídas por máscaras — afinal, ainda há preconceito social perante aos homossexuais, algo que ainda perdura e prevalece no terreno humano. Sob essa perspectiva, em Contra Corrente, o diretor Javier Fuentes-León, conduz sua delicada e sensível abordagem dentro de uma vila de pescadores no Peru. É lá, dentro deste meio rígido de tradições culturais e costumes que beiram ao conservadorismo, que se encontra Miguel (Cristian Mercado), à espera de seu primeiro filho, num casamento acomodado com Mariela (Tatiana Astengo). Secretamente, às escondidas de todos, o pescador mantém um tórrido caso de amor com um pintor forasteiro que se muda para o vilarejo, Santiago (Manolo Cardona). Como manter esse caso secreto, ainda que aceso, diante de uma paixão que teima não se calar? O que parecia um filme que explora um caso sexual de um homem com outro, em meio ao medo de ser descoberto por todos, ganha uma nova visão quando o elemento sobrenatural é inserido na trama — um grave acidente mata Santiago no mar. É então que Miguel, constantemente, passa a receber o espírito do seu amante Santiago que, de alguma maneira, não consegue se libertar do plano terreno.

O filme centraliza sua narrativa, inicialmente, no envolvimento amoroso-sexual de Miguel com seu amante Santiago — a disposição homoafetiva é bem delineada logo no início do filme, pois coloca o casal em constantes encontros casuais, como forma de apresentar o quão passional e intenso é essa relação. O diretor Fuentes Léon questiona a maneira como existe a dificuldade de um homem se aceitar, sexual e plenamente como é. Miguel é o indivíduo que vive um casamento de aparência; não consegue se livrar dos condicionamentos padrões de uma sociedade que costuma "punir" e não enxerga com bons olhos a relação de alguém com outro do mesmo sexo. Ainda mais numa vila de pescadores, como deixa claro o roteiro, onde o preconceito existe e não só os personagens masculinos — como as mulheres também — exibem-se em suas indisposições à homossexualidade. Após a morte por afogamento de Santiago, o filme exerce um tom mais romântico, e até lúdico, pois foca numa relação homoafetiva despropositada de estereótipos, quando os dois passam a conviver de maneira mais livre — já que Santiago é um espírito e não pode ser visto por ninguém.

A forte presença sexual dos dois atores em cena permite uma atmosfera sensual, mas o filme é, em seu objetivo central, uma trama de amor homossexual. Cristian Mercado eleva com precisão a sua confusão em não saber lidar com os ímpetos do desejo por outro homem, bem como em ver seus anseios enrustidos diante de uma sociedade que retrai tudo que ele quer ser. Há uma química bem convincente de Mercado com Manolo Cardona — evidente nas cenas de nudez; na sequência de sexo ou nos beijos afetivos. Por mais que o diretor invista nos momentos homoafetivos, na crescente ebulição carnal dos personagens, o filme não esconde seu verniz romântico — é uma trama que busca entender os caminhos tortuosos de dois homens que apenas querem se amar, sem esconder seus sentimentos. Não há erotismo barato, mas sim um roteiro que prioriza as essências de cada personagem, é tudo muito bem explorado. A atriz Tatiana Astengo também se destaca, pela força emotiva de sua personagem, como Mariela, que representa a mulher que tem que lidar com as descobertas da sexualidade do marido.

A força dos diálogos que propõe a reflexão sobre os sentidos humanos; das escolhas diante das opções sexuais e da necessidade de priorizar o sentimento — são pontuados pelos personagens. Mais ainda por Santiago, já que ele provoca, não só sexualmente, a necessidade em Miguel saber lidar com suas escolhas e reconhecer seus próprios sentidos. Saber o que deseja, conhecer o amor, escolher seu destino — jamais viver enrustido! O diretor valoriza esses sensos. A cena onde os dois amantes dialogam, na entrada de uma caverna na praia, para logo depois transarem na areia, é cuidadosa, de extrema beleza emocional. A transparência de sentimentos é priorizada neste filme, Javier Fuentes-León não esconde que lida com seus personagens com um olhar mais intimista, talvez por isso o filme seja construído com inúmeros closes-up que aproximam Miguel e Santiago do público. A fotografia exibe tons ensolarados que privilegia a exuberância da beleza natural da costa peruana onde as cenas foram rodadas. Boa trilha sonora também de Selma Mutal Vermeulen. Premiado em importantes festivais de cinema — ganhou o prêmio popular em Sundance —, inclusive o de Melhor Longa no "18º Festival Mix Brasil de Cinema da Diversidade Sexual" em São Paulo, é um trabalho atual representativo que deve ser apreciado.

Contracorriente (Peru, 2009)
Direção de Javiér Fuentes-León
Roteiro de Javiér Fuentes-León
Com Cristian Mercado, Manolo Cardona, Tatiana Astengo

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