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Incesto poético?



Como falar de sexo sem causar tanto impacto negativo? Há abordagens que, por conta do intuito provocativo, conseguem exercer indisposição em grande parcela do público. Não é o caso deste filme que tem texto adaptado da obra polêmica de Ian McEwan — autor conhecido pelo respeito de seu livro mais aclamado, "Desejo e Reparação", dirigido por Joe Wright em 2007. O Jardim do Cimento é uma produção independente com direção de Andrew Birkin (roteirista de filmes como "Joana D'Arc de Luc Besson" e "Perfume - A História de um Assassino") que também adapta o romance homônimo. Aqui temos o traço da sexualidade obscura, o que muitos condenam como perversão libidinal, já que o filme explora a relação incestuosa de dois irmãos, Jack e Julie — interpretados por Andrew Robertson e Charlotte Gainsbourg que, após o repentino falecimento do patriarca da família de quatro filhos, ainda tem que se confrontar com uma dor maior: a mãe, também doente, falece em seguida, deixando-os desamparados com mais dois irmãos para cuidar. Temos aí uma história marcada por melancolia, dor, superação e motivações de uma sexualidade que permeia toda a narrativa.

Com certa urgência, Andrew Birkin explora rapidamente os personagens dessa família, bem como constrói breves cenas logo no prólogo do filme para ambientar a relação dos pais com os filhos. A construção do roteiro procura envolver o público, primeiramente apresentando a relação rígida do pai (Hanns Zischler) com o filho mais velho Jack — sem muita afetividade, certa indisposição e diálogos que evidenciam o contato problemático. Mostra o papel da mãe (Sinéad Cusack) que tenta estabelecer um bom diálogo entre os filhos. O roteiro não diz os nomes de cada um, apenas são chamados de “pai” e “mãe”, obviamente torna nítido que o que importa nessa trama são os filhos. Ademais, o filme ainda escancara o comportamento sexual de Jack, um garoto que se masturba diariamente escondido no banheiro e se abstém no auxílio doméstico. 

Interessante o posicionamento um tanto libertino e malicioso de Charlotte Gainsbourg — a atriz foi convidada por Andrew Birkin, seu tio, irmão de sua mãe Jane —, conferimos o direcionamento de "tom erótico" que sua personagem exala desde as cenas iniciais em que se mostra como uma garota de forte personalidade, decidida e madura. Gainsbourg confere uma atuação envolvente, forte e precisa como uma adolescente que não mascara as intenções diante do irmão. Temos uma cena significativa, como quando Jack entra no quarto de Julie — Gainsbourg se posiciona de maneira malandra para a câmera, exibindo suas pernas e mostrando uma sensualidade quase inocente, casual, mas o público percebe ali uma forte malícia no ar. Jack e Julie começam uma brincadeira, cócegas, cada um explorando o corpo do outro, é quando abruptamente a situação se converte em algo sexual. Compreende-se que dali para frente o filme vai mostrar a aproximação desses irmãos nesse sentido.

Com muita sensibilidade, cuidado, como um olhar intruso diante das intimidades dessa família, Andrew Birkin apresenta esses irmãos tendo que superar a dor da perda dos pais. A atração de Jack e Julie torna-se constante, inúmeras cenas exploram esse contexto de indução sexual e provável envolvimento dos dois. À eminência de uma relação de incesto, o público imerge no cotidiano dos dois, nos diálogos bem naturais — Gainsbourg e Robertson captam bem as tonalidades das personalidades de seus personagens tão díspares; ironicamente se relacionam numa espécie de amor e ódio, uma mistura de atração e repulsa. O olhar de “narrador” é ditado por Jack em off, desnudando um pouco desse personagem e recriando o universo íntimo de sua família. Há ainda espaço para debater o caso de sexualidade confusa na infância, através do irmão caçula que apresenta anseios femininos e gosta de se vestir como uma garota, simulando ser uma “dona de casa”. Tudo colocado com um certo tom poético e sensível sempre, para não causar perturbação.

O Jardim de Cimento não tem apela para o moralismo, muito menos condena seus personagens, apenas há a exposição natural da sexualidade entre quatro paredes e de uma trama familiar que pode acontecer com qualquer um. O filme nos mostra um retrato de juventude da década de 70, pós uma revolução sexual da década anterior, valendo-se a predisposição à liberdade dos anseios, emoldurando o retrato juvenil que não se condiciona ao puritanismo familiar. Sob uma melancólica sonoridade proposta pela trilha de Ed Shearmur, é inevitável que o pequeno trabalho cinematográfico não seja mais que fundamental. Ainda mais com uma trama tão ousada e que, se mal aproveitada, poderia render maiores desconfortos e indisposições.


The Cement Garden (Irlanda, 1993)
Direção de Andrew Birkin
Roteiro de Andrew Birkin, baseado no livro de Ian McEwan 
Com Charlotte Gainsbourg, Andrew Robertson, Sinéad Cusack

Sexo que nos habita

Somente Pedro Almodóvar para continuar mostrando que dentro do exercício cinematográfico existe a pura arte. Não existe cineasta atual — não desmerecendo tantos outros que criam e recriam, cada um ao seu modo próprio, a argumentação experimental na esfera da cinematografia — com maior poder de criatividade e sustentação humana. Sim, ver um filme de Almodóvar é poder ir de encontro ao lado mais íntimo, sombrio e cruel da existência da humanidade. E o que mais me deixa admirado com esse homem é a única capacidade de recriar em cima de um tema aparentemente “banal”. Entende-se que A Pele que Habito poderia se firmar numa trajetória comum, sem grandes inovações, já que a primeira metade do filme se sustenta num contorno já explorado na sinopse do filme. Ou seja, começamos contemplando esse filme com um determinado olhar e noção de quase tudo ao nosso redor, até quando surpresas vem à tona e o lodo dos seus personagens se esvai da pele, da alma e do corpo. Somos contagiados com tamanha reviravolta que salta aos nossos olhos abismados, antes mesmo de compreender tudo. E é um filme que não se perde diante do quebra-cabeça, pelo contrário, se fortalece. Almodóvar nos instiga com uma narrativa original, repleta de sedução e morbidez extrema.

A atmosfera criada é bem palpável. O sedutor roteiro se sustenta na essência do livro de Thierry Jonquet, “Tarântula”, o próprio Almodóvar promoveu a adaptação. Curiosamente, o filme projeta seus personagens ao público num intricado jogo-complexo até o primeiro ato da projeção da fita. Na primeira metade, a trama percorre o cirurgião plástico Robert Ledgard (Antonio Banderas, possivelmente a melhor interpretação de sua carreira) no qual desenvolve pele artificial que vai ser testada na misteriosa jovem Vera (Elena Anaya, belíssima e surpreendente atuação). A fêmea que é mantida secretamente em sua casa, reclusa e confinada, servida de cobaia aos experimentos do médico. O elo que mantém esses dois indivíduos? O público logo saberá. Sabe-se que Robert perdeu a esposa que o traia e que sua filha também seguiu o mesmo destino trágico da mãe.

Enquanto detalhes maiores são sugestionados ao público, Almodóvar posiciona seu filme num patamar maior, é quando o segundo ato nos atinge de maneira mais chocante. Um filme doentio e experimental? Definitivamente, sim. Nuances, camadas, detalhes e reviravoltas são transformações do filme que atinge com um ritmo mais insano, febril. Torna-se eufórico, um terror-psicológico e um tom mais melodramático que persiste. Roberto Ledgard torna-se alvo de horror, facilmente nos remete à história do Dr.Frankenstein. É Almodóvar provando que sua verve criativa pode trazer ácido-terror dentro da humanização de seus personagens. O público percebe a complexidade moral e perversa da trama quando são inseridos flashbacks para elucidar algo que não estava claro nos primeiros minutos. Interessante como o diretor nos entrega a catarse logo no meio do filme e não prejudica a grandeza da obra.

E falar deste polêmico filme é também se precaver, visto que devemos evitar ao máximo evidenciar o caráter da obra — assim, todo espectador poderá ter o estomago revirado com tantas situações catárticas em menos de duas horas de projeção. Bem verdade, é um filme de estilo novo e fora do eixo habitual do cineasta, não tão quente como os seus maiores clássicos, menos avermelhado, mas, ainda assim, se mantém único pelo traço de abordagem. Conseguimos perceber a mão provocadora do cineasta em diversas cenas, diálogos e ideais — a perversão aqui se faz presente; o fetiche pela discussão da sexualidade e o tom incisivo em evidenciar a malícia/dualidade de seus personagens são nítidos. O feminino aqui é forte, assim como a construção do aspecto masculino dos personagens. Há discussões sobre homossexualidade, a eterna obsessão pelo corpo, pela perversão-sexual tão característica do cineasta em suas aclamadas obras. Almodóvar nos excita com seus elementos de horror e morbidez, mas não deixa de tornar o principal argumento deste filme baseado num contorno sexual, querendo ou não.

A prestação de Marisa Paredes, habitual parceira de Almodóvar, é interessante. Sua personagem é aquela que oferece um tom passível, ainda que dramático. Antonio Banderas, antigo ator-fetiche, confirma que é talentoso e quente quando tem nas mãos um papel bem denso. Valeu a pena o ator voltar a trabalhar com Almodóvar após mais de 20 anos. Ainda assim, é Elena Anaya que preserva a maior responsabilidade, visto que sua personagem é de extrema importância na trama por conta da complexidade apresentada. Engana-se quem afirma que aqui temos um filme anti-Almodóvar, pelo contrário, é perceptível um diretor mais à frente de seu tempo em se preservar e se transformar, ao invés de se mostrar repetente. Afinal, estamos tão cansados de filmes semelhantes, nada melhor que conferir um exercício puramente latente e estético-sensorial que nos brinda com uma sensação dilacerante ao fim, nos deixa catatônico. Obra-prima perturbadora, impactante e contundente.

La Piel que Habito (ESP, 2011)
Direção de Pedro Almodóvar
Roteiro de Pedro Almodóvar
Com: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet.

Juventude Libertária?

Como se expressa a juventude sem sucesso? O que torna um homem inseguro? A falta de perspectiva pode corrompê-lo? Se nada mais der certo representa a crua e contundente realidade do cenário brasileiro — é um estudo humanístico sobre as mazelas sociais, a desesperança pessoal e os conflitos dos incontornáveis distúrbios políticos. Decisivo filme que recobre a juventude sem perspectiva, com suas inseguranças e dificuldades para se vencer numa metrópole predatória. Dirigido com cuidado por José Eduardo Belmonte, é um filme que costura as dores de personagens solitários, onde o tom da perseverança se ausenta para dar vazão a um universo que reina a criminalidade paulistana. O filme centra-se no submundo humano, é através de pequenos, mas não menos profundos, personagens que a trama se evidencia. Léo (Cauã Reymond) é o jornalista que enfrenta problemas financeiros, sem emprego definido e uma vida insatisfeita devido às dívidas exorbitantes; Ângela (Luíza Mariani) divide o apartamento com Léo por quem é sustentada, tem um filho de seis anos e não consegue definir sua vida: depressiva, viciada em drogas e com tendências evidentes de imaturidade; a andrógena Marcin (Caroline Abras) que se veste como homem, lésbica assumida, trafica drogas e mantém uma conturbada relação filial com a travesti Sybelle (Milhem Cortaz); e há o taxista Wilson (João Miguel) que acredita precisar de um psiquiatra para dar sentido a sua vida insípida. O que une esses personagens? Belmonte, com texto co-escrito com Breno Alex e Luis Carlos Pacc, constrói seu recorte de realidade brasileira, através de cada personagem, para promover sua crítica: desprovidos de oportunidades, chances e realizações, esses humanos se unem para praticar golpes. E o perigo é gradual, é quando os delitos tornam-se perigosos. A cinematografia nacional encontra-se na sua melhor atmosfera, esse filme reflete bem o momento deste brilhantismo; no exercício da pós-modernidade que toma novo fôlego através de produção viabilizada por um talentoso diretor.

Como se libertar das armadilhas do destino que pode ser cruel? Como vencer numa cidade que não é fácil e tudo é um redemoinho de vícios, frustrações e agruras? O filme critica a realidade brasileira. Sob a caótica São Paulo, vista com um olhar amargo por Belmonte, é que seus personagens ganham sustância. Se nada mais na vida der certo? Há a chance de burlar o sistema através da criminalidade? Da perda da paciência por um mundo melhor e justo? Belmonte coloca seus personagens aflitos, pois culpam o sistema que limita seus universos sem oportunidades. Com a falta de dinheiro, os males são reforçados. Léo, Marcin e Wilson permitem-se aos golpes às instituições; gradualmente imersos numa teia onde não há escapatória. Roubam pessoas, infiltram-se em meios arriscados para obter grana para uma ilusão de mundo? E como acordar dessa realidade? Belmonte atiça sua câmera na percepção desses personagens que contestam a política; questionam suas fraquezas e envolve-se mais no submundo do crime. Abandonados, descrentes, vivem neste limbo brasileiro onde não há regalias às classes desfavorecidas. O tom frenético da montagem; dos diálogos naturais e do elenco talentoso evidenciam a ousadia deste trabalho cinematográfico. Determinam o grande impacto que causa. A fotografia de André Lavenere captura os tons avermelhados dos ambientes soturnos dos bordéis paulistanos; os close-ups investidos em cenas emocionais e as narrações em off dos personagens principais são pontos positivos.

O tom sexual permeia a trama, através da construção das personalidades e do comportamento provocante dos personagens. A representação da homossexualidade é centrada na figura masculinizada de Marcin, uma garota que expressa sua fisionomia dúbia por ser andrógena; imersa em cenários de uma vida frágil dentro de bares e cabarés onde se alimenta do consumo de drogas e de uma vida precária. O roteiro contorna a maneira como uma garota se adequa ao meio masculino, através de uma postura transgressora e sem trejeitos femininos. E há também a dimensão do aspecto do travesti Sybelle, um homem que mantém seu corpo de mulher, ainda que sua voz seja grave — as representações da androgenia e do transexualismo são aspectos da realidade, universo queer, e é a forma como o filme investe na sua provocação. O submundo é controverso, é sexualmente transgressor. Ora, a ebulição sexual também é característica da juventude indagadora? E Belmonte jamais julga seus personagens subversivos, somente evidencia que todos são humanos e não devem sofrer preconceito. Porém, ainda que os contornos da diversidade sexual sejam evidentes, o filme não se aprofunda neste condicionamento. Ademais, as interpretações surpreendentes de Cauã Reymond e de Caroline Abras produzem momentos emotivos que prefiguram o efeito dramático da narrativa.

É um trabalho que expressa a crise da juventude, ao se desdobrar nas questões das identidades problemáticas e na criminalidade, assim Belmonte ajuda a criar seu filme conscientizador. É interessante como os personagens são ambivalentes, afinal a moralidade é um questionamento bastante relativo. O que torna alguém ruim? Qual o sentido de maldade? Todo ladrão, só por roubar e cometer crimes, deve ser taxado como perverso? A trama envolve ao intensificar um olhar humano, sensível, aos personagens que são, incontornáveis, solitários. E Belmonte mostra que pra amadurecer é preciso sofrimento, talvez por isso o filme converta-se numa visão pessimista da realidade brasileira. Decerto, é um trabalho para acordar a sociedade. Eminentemente político por abarcar uma visão crítica — inclusive, na polêmica seqüência, que o trio decide praticar um assalto e se disfarça atrás de máscaras que reproduzem as feições de Collor, FHC e Sarney. E a trilha de Os Saltimbancos promove uma ponte com a politicagem pós-ditadura e hino das ações criminosas do trio. É possível abdicar dos princípios morais e afrouxar os valores próprios apenas para tentar vencer? Ainda que exista uma linha tênue entre o caminho da lei e da criminalidade, deve-se pensar na manutenção da ética incorporada à identidade, pois essa jamais deve ser extraída. Pequena obra-prima do cinema nacional. "Todos juntos somos fortes, não há nada a temer".

Se nada mais der certo (BRA, 2009)
Direção de José Eduardo Belmonte
Roteiro de Belmonte, Breno Alex e Luis Carlos Pacca
Com Cauã Reymond, João Miguel, Caroline Abras, Luiza Mariani, Adriana Lodi, Murilo Grossi, Milhem Cortaz

Macabra sedução psicológica

O Silêncio dos Inocentes definiu os pilares da morbidez humana num thriller psicológico pungente, denso. O filme estabeleceu uma nova percepção à intimidade psicótica, ao âmbito da atmosfera misteriosa de um serial-killer. Adaptado do livro de Thomas Harris, recebeu o tratamento cuidadoso da direção visceral de Jonathan Demme. A trama foca na aspirante a agente do FBI, Clarice Starling (Jodie Foster) — seu desejo é fazer parte da equipe do Departamento de Estudos de Comportamento com o renomado Dr. Crawford (Scott Glenn). Então é incumbida de traçar um perfil psicológico de um psicopata detido há anos, o psiquiatra canibal Hannibal Lecter (Anthony Hopkins). A relação de ambos se sustenta num jogo perigoso, dúbio e intenso de diálogos afiados. Lecter promete conceber informações sobre Buffalo Bill (Ted Levine), um serial-killer que rapta mulheres para devolver os corpos, dias após, esfolados. Introduz-se um estranho relacionamento entre a agente e o canibal. E é nesse sentido que o filme garante o seu melhor argumento. O que há de tão aterrorizante e fascinante em Lecter que atrai a atenção de Clarice? Como se sustentará o embate psicológico desses dois? Sob uma esfera de suspense intimista macabro, com leve tom dramático, o filme é ainda mais assustador por tecer contextos da psicopatia, traumas de infância, canibalismo e também transexualismo. O tom de perseguição policial é condicionado a segunda posição, a trama psicológica do par central é prioritária, condicionamento excitante.

É instigante observar o quão provocativo é o roteiro, pois ele converte a perversão sutil em evidenciar uma química-sexual do entrosamento gradual entre Clarice Starling e Hannibal Lecter. É um delírio macabro existir uma intimidade maior de um psicótico canibal com uma agente? A relação de ambos se sustenta na dualidade de comportamentos, personalidades. Existe em Lecter um dom de manipular psicologicamente as pessoas, para tanto ele consegue penetrar no universo de Clarice — usa dos traumas dela de infância, como a morte do pai, para obter uma aproximação maior. Enquanto a agente ansia por informações que a ajude capturar o serial-killer à solta, ela própria manifesta sua fragilidade em conversas íntimas estabelecidas por Lecter. O roteiro figura seu foco argumentativo em cenas de diálogos dos dois, particularmente é a maneira de providenciar o senso psicológico que o filme traça ao longo de sua duração. O esqueleto principal centra-se na maneira como se providencia a aproximação de Lecter com Clarice. O que será que nele fascina tanto para tentar seduzi-la com palavras irônicas? Lecter desnuda a aparente fragilidade e segurança de Clarice, torna-se o mentor dela, desconstrói a moça a ponto dela mesma permitir-se aos seus jogos estranhos. Quid pro quo.

Interessante que Lecter assusta pela frieza com que exerce sua transparência comportamental psicótica, mas ainda assim exerce um certo cavalheirismo diante de Clarice — é nesse sentido que ambos se prestam a uma relação que é só fortalecida pela troca de diálogos. Lecter capta os tons íntimos de Clarice, deflora sua infância e a torna mais segura para atuar no seu terreno profissional. Ela percebe a tônica irônica, sádica e obscura do homem que perfura sua alma. Hannibal é aliado e também serpente capataz no terreno da agente Starling, mas é seu poder persuasivo que prevalece. E Jonathan Demme extrai os jogos manipulativos do canibal com as interferências femininas da agente, num exercício intrigante, avassalador. Os diálogos são sempre invasivos, ardilosos.

O tom da sexualidade reveste o tenso roteiro. Há na construção de Lecter um artifício malicioso: o personagem tenta seduzir Clarice de diversas maneiras, com palavras libidinosas, provocações ou diante de seu incisivo olhar felino que indaga a moça com questionamentos do passado. Há o desenvolvimento da situação do personagem serial-killer Buffalo Bill, um homem em desacordo com sua condição masculina, homossexual, insatisfeito com o corpo e forma física, planeja construir uma segunda pele feminina, servindo-se das peles de suas vítimas — inclusive a vítima recente Catherine Martin (Brooke Smith), filha de uma senadora, que permanece aprisionada num poço aberto construído dentro de sua velha casa. O roteiro evidencia esse ser que utiliza-se do transexualismo como forma de prazer; sua psicopatia direciona-se à mulheres que ele gostaria de ser — o universo mórbido de um psicopata é expressa no roteiro que exerce um recorte da prática, hábito e comportamento ardiloso de um ser humano perverso, doente por essa condição. Interessante que todos personagens transparecem um desconforto na presença de Lecter, mas seu dom na oratória consegue provocar intimidações; bem verdade, é um ser que atrai pelo seu lado obscuro, maníaco. E é sua inteligência que proporciona a garantia da manipulação masculina ao universo frágil de Clarice, numa espécie de "sessão terapêutica", ele consegue promover a sedução hipnótica sobre a agente do FBI. Deliciosamente ele é seu psicólogo particular e ela o venera, típica devassa questionadora, viciada no seu jogo subversivo. Eis a ironia? Lecter é o único personagem dominador na trama. Em função desse senso que, talvez, Clarice encontre um interesse em manter sua ligação ocasional com ele.

Decerto, o maior charme do filme seja a dimensão psicológica estabelecida por Jodie Foster e Anthony Hopkins — as cenas concebidas por ambos atingem o ápice do talento, impressiona na caracterização de dois personagens tão dependentes e antagônicos (Oscar de Atriz e Ator, evidentemente). A câmera incisiva de Jonathan Demme prefigura o efeito ao conceber tomadas em close-up nas faces dos dois, através da troca de diálogos densos (interessante como são tão próximos, ainda que afastados pelo vidro/grades que os separa). A sintonia de ambos contribui para a esfera tão sedutora, hipnótica e assustadora que o filme conceitua. Mais que um retrato sobre a crueldade mórbida do universo serial-killer, é a discussão sobre o poder do diálogo humano sobre o outro. Um exercício da obscuridade humana, com tom discreto de filosofia grotesca psicológica que se torna insolúvel. O ambiente amedrontador dos assassinatos e das jaulas de Lecter intimida. Howard Shore completa a teia da psicose conceitual com sua trilha sonora, intensamente sinistra, que percorre a artéria densa do suspense da película. É um filme que promove boas reflexões, ainda que o tom psicológico seja instigante há nele uma concepção da atrocidade da violência humana que fica subtendida, incondicionalmente. E Lecter representa o que há de mais astuto e obscuro da humanidade. Eis um thriller astuto em sofisticação, simbólico e amplamente cativante.

The Silence of the Lambs (EUA, 1991)
Direção de Jonathan Demme
Roteiro de Ted Tally, baseado no livro de Thomas Harris
Com Anthony Hopkins, Jodie Foster, Scott Gleen, Ted Levine

Sexy Musical

A paixão frenética pulsa no filme Os Boêmios, adaptação do famoso musical escrito por Jonathan Larson, baseado na ópera italiana La Bohème, de Giacomo Puccini. A direção para a adaptação cinematográfica é de Chris Columbus que consegue manter um foco altamente emocional, dinâmico e confiante na produção. É definitivamente um musical vibrante, surpreende por proporcionar uma bela atmosfera sonora somada à verve interpretativa da química do elenco. O filme narra a vida de uma comunidade juvenil residente numa casa, na zona leste de Nova Iorque - são 8 jovens que se envolvem na boêmia da modernidade do East Village. Há Mark Cohen (Anthony Rapp), um cineasta que necessita concluir seu filme, ele é apaixonado por sua ex-namorada Maureen Johnson (Idina Menzel - mas ela trocou a relação quando assumiu sua homossexualidade e foi viver com a advogada Joanne Jefferson (Tracie Thoms). Mark divide seu quarto com Roger Davis (Adam Pascal), um viciado em drogas e que porta o vírus HIV. Ele conhece Mimi Marquez (Rosario Dawson), uma sensual dançarina com tendências masoquistas que mora com Tom Collins (Jesse L. Martin) - este sente, posteriormente, inicia uma relação com o transexual Angel (Wilson Jermaine Heredia). O que torna pessoas tão distintas próximas? O elo de amizade, a sentimentalidade que evolui ao passo que amadurece uma sintonia grupal, é através desses personagens que o roteiro pauta contextos de sexualidade, revolução comportamentais e problemáticas da solidão, envolvimento com drogas e preconceitos sociais diante da AIDS. O filme exerce um ritmo ágil, através da linguagem adotada é que os personagens expressam suas opiniões, anseios e desejos. O roteiro de Stephen Chbosky alia-se das canções (que, por sinal, são constantes e consumam com vigor quase todo o aspecto da narrativa) para verbalizar as representações de jovens que lutam para conseguir se integrar numa sociedade tão predatória, insensível e conservadora. Como estabelecer um elo contra essa limitação imposta pela sociedade? Como lidar com dificuldades financeiras também?

É um belíssimo trabalho que acentua sua febre em canções interpretadas pelo grupo principal, tornando um trabalho digno que transpira energia. É interessante que o filme cumpre com sua premissa em apresentar o cotidiano de jovens que se misturam em poder da vaidade, da casualidade do sexo e da cumplicidade de uma amizade. O filme consegue ser tangível por lidar com problemas bastante reais - a esfera da homossexualidade, da maneira como jovens tendem a sair de casa mais cedo por não terem, dentro do seio familiar, o respeito às opções sexuais. É nítido que todos os 8 jovens representam, obviamente, esses arquétipos de desajustes - mas, serve como, também, uma maneira evidente de expressar a eterna carência juvenil no período da puberdade. E, com bastante ousadia, o filme lida com esses sensos que fazem parte do submundo social. E ainda traz um olhar delicado, acima de tudo humanitário sobre a realidade dos portadores de HIV - praticamente quase todos os personagens do filme trazem esse aspecto. E têm que lidar com a doença, com as fragilidades, com os traumas que a vida exerce. Como entender que a vida pode ser breve? Os jovens questionam essa brevidade, o tempo todo. É emocionante como eles, ainda que acometidos pelos vícios e doenças, não perdem tempo em viver tudo de uma vez - sugam a vida, são eufóricos e externam a libido. Evocam um espírito de festa que simbolizam sua intensidade por viver. E o arrependimento dos erros? E o amadurecimento torna-se plausível depois. Mas, AIDS torna-se um assombro à resolução dos sonhos - como viver sem medo da morte? Como conseguir realizar tudo que se quer? Os jovens em sua forma enérgica jamais querem ser operários de um sistema - mas, vozes ativas de vidas escolhidas.

Através de canções - que, como em todos os musicais, funcionam como diálogos reais, os personagens comungam com a própria existência da liberdade sexual. O tom sensual do filme é provocativo, visto que são personagens na ebulição da sexualidade - a libido explode, é perceptível sentir cada orgasmo em muitas canções expressas. A passionalidade é extensa. Há também canções de amor, de revolta, de tristeza. São jovens à margem do sistema, numa epidemia, até então, fora de controle - no fim da década de 80, a AIDS tornou-se notória e o desespero era grande. O filme mostra também uma juventude que não acata tudo que a sociedade impõe. Por isso, os 8 personagens, representam pessoas que mostram o que desejam: há um casal lésbico em constante trajetória de ciúme, tesão e desentendimento (Joanne e Maureen); há o casal heterossexual (Mimi e Roger) que tentam lidar com as diferenças, além do aflorar do sentimento; há o homossexual que se depara com um amor platônico de grande sensibilidade pelo drag-queen (Tom e Angel). Enquanto explodem as camadas sexuais, sentimentais e relacionais de cada um - o filme se mantém bastante prazeroso. Todos os personagens cantam, dançam e se exibem de maneira expressiva - poucos musicais tem esse ritmo efervescente. Este consegue agir pelo tom sempre emocional. É instigante como os personagens são libertários, hiperativos, inquietam-se com suas vidas a ponto de querer viver sem limites. Toda cura para todo mal? Ainda que certas situações vividas por eles possam gerar controvérsias, são personagens cativantes.

O aspecto musical do filme é da esfera da realidade - os personagens cantam no próprio âmbito real, não imaginam que estão em outro plano. Através das músicas, nota-se um partido à favor da sexualidade libertária - um catálogo de ideias, sabores e atitudes. Há nas letras das músicas os anseios de uma sociedade que precisa ser mais livre, sem medos, isenta de tabus irremediáveis. Nota-se que os jovens, além da intensa insatisfação contínua que sentem pela vida, gritam pela própria chance de viver como querem - afinal, não se deve questionar o desejo de escolha sexual e também de vida que decidiram para eles. Há uma naturalidade em abordar as ações impulsivas de comportamentos sexuais: a homossexualidade é vista como natural por todos, ainda que cause a alguns preconceitos evidentes. O personagem Angel representa o aspecto que a sociedade considera mais "destoante", o transexualismo. E ele é um personagem bastante expressivo - tanto no teor melodramático, quanto no humor acentuado em algumas cenas. A direção de Columbus conseguiu tornar o filme bastante harmônico, coeso. Há cenas sensuais, mas há bastante tristeza amorosa também exposta. E as músicas grudam na mente, facilmente. Os personagens não parecem coreografados em cena, mas concebem uma bela química-sexual-musical que viabiliza uma articulada dinâmica - é a misê-en-scène bem proposta através do ótimo timing do cast. Empolga, ousa, vicia. É rock, é blues e pop music que concebem sustância às cenas. Em suma, são jovens que tentam se buscar - sentimento, existencialmente. Eis um apetitoso musical que deve ser degustado por todos.

Rent (EUA, 2005)
Direção de Chris Columbus
Roteiro de Stephen Chbosky, baseado em musical de Jonathan Larson
Com Anthony Rapp, Adam Pascal, Rosario Dawson, Jesse L. Martin, Wilson Jermaine Heredia, Idina Menzel, Tracie Thoms, Taye Diggs

Sensibilidade Sexual

O cinema exerce a possibilidade de mostrar a exploração do preconceito homossexual, através da reprodução das tragédias da realidade para a esfera do âmbito da narrativa cinematográfica. Meninos Não Choram é um tocante e sensível trabalho que trata a representação do transexualismo. A obra conta a verdadeira história de Teena Brandon (Hilary Swank), uma garota que tem conflitos de identidade sexual e, em função disso, decide se vestir como homem - troca a sua identidade para Brandon Teena - para dar vazão aos seus desejos, anseios e vontades intrínsecas. Para evitar o preconceito e negação da sociedade, adota a nova identidade como forma de se sentir aceita. Assim, assume seu lado masculino, passa a agir como homem e galanteia garotas: beija mulheres, envolve-se com amigos homens, adota o comportamento masculino. Quando descobrem sua verdadeira sexualidade, Brandon foge para uma pequena cidade do Nebraska e lá acredita que terá liberdade para afirmar sua identidade sexual. Lá conhece um grupo de aventureiros rebeldes e acaba-se apaixonando por Lana (Chloë Sevigny), integrante dessa turma. O que fazer para que ninguém desconfie de quem realmente é? Até que ponto é válida uma mentira em função de anseios próprios? A sexualidade corresponde ao que o corpo expressa? A diretora Kimberly Pierce concebe uma íntima trajetória de uma jovem que joga com sua imagem e sexualidade, conquistando outra identidade. Como entender que a alma não corresponde o que o corpo exterioriza? Como driblar os preconceitos que insistem em prevalecer diante da sociedade predatória? O filme expõe essa discussão de uma jovem em busca da própria aceitação de sua sexualidade. O cinema, assim como outros ramos da arte e da comunicação, tornou-se um meio importante na construção de identidades. Mais do que um âmbito de construção de identidade na contemporaneidade, o cinema também reflete a realidade social, contribuindo para o exercício da crítica e da problematização social.

Em Falls City, Brandon consegue se passar por homem - sem que ninguém, inicialmente, desconfie. Com sua postura masculinizada, gestos e roupas de homem, constrói uma verdadeira farsa para si e para todos com quem convive. Transvestida de garoto, relaciona-se socialmente. Então, ganha a amizade de todos - inclusive por Lana, por quem passa a nutrir um absurdo desejo e corresponde afeto, carinho. O tesão irrefreável prevalece a todo tempo, ainda que a verdadeira identidade de Brandon pode ser descoberta rapidamente, visto que ela tenta de todas as formas omitir seu passado e mascara-se comportamentalmente. E o roteiro esmiuça essa integração dessa jovem que se condiciona a uma vida que se direciona à ilusão - Brandon sabe que seu segredo pode vir à tona, mas não consegue desvencilhar-se de suas vontades, atitudes e mentiras. Passa a namorar Lana, imerge no cotidiano da família dela. Sua espontaneidade, personalidade e comportamento conseguem atrair a todos - além de exercer um fascínio hipnótico em Lana. Então, o namoro ganha força a tal ponto que Brandon não pensa em retornar à sua cidade de origem. Como fazer com que ninguém saiba sua verdadeira identidade feminina? A problemática invade quando o segredo vem à tona em proporções trágica, invade a todos e tudo é colocado ao fogo. Enquanto as mentiras corroem o universo ilusório de Brandon, o filme culmina no desespero dramático - recheado de cenas tensas, fortes e densas.

Sem estereótipos, o roteiro de Pierce é uma profunda imersão psicossocial, insere a quebra de tabus. Ademais, mostra como a personagem incomoda-se com sua condição. Diversas performances são realizadas por Brandon, num jogo de esconder o que é visível e correspondente ao feminino, e sobressaltar alguns elementos do corpo masculino: Seus seios são enfaixados, o ciclo menstrual é ocultado por um absorvente interno, na tentativa de eliminar qualquer vestígio do fluxo menstrual. Veste uma cueca, que é preenchida com uma meia para dar o volume semelhante ao de um pênis - além de ter sempre em sua mochila um artificial. O filme pauta a condição de um ser humano que se auto-indentifica com distúrbio e crise sexual - inclusive, ela não se vê como lésbica. Mas sim, como um homem. Encara seu sexo biológico com angústia, desordem, aflição. É tanto que nos atos sexuais com Lana, esconde seu corpo para que ela não veja - então, usa próteses de pênis para proporcionar prazer à companheira. Jamais se permite ser tocada, nota-se em Brandon a negação do próprio corpo feminino, não se aceita. Não há possibilidade de fazer uma avaliação e posterior cirurgia, pois não tem condições financeiras. Então, vive numa eterna disputa com seu corpo sexualizado. Ela, irremediavelmente, oculta todo e qualquer traço cultural que faça referência à feminilidade. No esforço pela aceitação, age submetida ao sistema social de machismo, onde o elemento da virilidade é uma concreta ânsia. É durante este período que Brandon passa a atuar mascarando sua identidade real, assumindo o jogo de duplicidade física e afetiva. O grande fio de condução da história é a dramática negação dela em aceitar sua verdadeira sexualidade diante de um ambiente preconceituoso. Sua negação arriscada reflete o medo e ingenuidade que a garota parece sentir frente a um mundo cruel e bruto, que evita qualquer explicação ou entendimento.

É um filme que fere por ter uma linguagem crua, sincera e bem emocional - os personagens são delineados com nuances psicológicas, comportamentos bastante realistas e tudo é bem tangível. Hilary Swank compõe uma personificação interpretativa avassaladora, impressionante e intensa - o misto da delicadeza, da maneira como com um olhar caracteriza toda a personalidade de Brandon, é um assombro. A atriz, com sua androgenicidade, linhas marcantes e tom de voz, incorpora a personagem com puro talento caloroso. E Chloë Sevigny exerce um domínio irrepreensível, ao seu lado - a química sexual é evidente, em cenas de beijos sensuais e transas quentes. A nudez erótica é externada no corpo de Sevigny, bem como na língua de Swank percorrendo teus contornos. O filme também é uma crítica à juventude rebelde, sem perspectivas, onde o sentido deslocado ganha contornos sobre os próprios sensos de caráter - os personagens, amigos de Lana, formado por John (Peter Sarsgaard), Tom (Brendan Sexton III), Kate (Alison Folland) e Candace (Alicia Goranson) representam estes indivíduos dotados de preconceito e transgressão. Neurótico-moralistas, são símbolos da própria sociedade que ofende, agridem e ferem com artifícios brutais pessoas homossexuais. É doloroso, é até melancólico, mas serve como um grito à sociedade, ainda, limitada em certos rigores de ignorância, egoísmo e preconceitos incondicionais. A homofobia é um argumento do roteiro também, pois mostra como Brandon sofreu na pele a barbaridade do grau de violência homofóbica presente na idelogia machista. É absurdo como inúmeros seres manifestam suas atitudes preconceituosas com doses cavalares de agressividade em espiral crescente de violência. Pungente filme que verbaliza sobre a crueldade de mundo, mas também demonstra uma pessoa que sabia o valor de amar.

Boys Don't Cry (EUA, 1999)
Direção de Kimberly Peirce
Roteiro de Kimberly Peirce e Andy Bienan
Com Hilary Swank, Chloë Sevigny, Peter Sarsgaard, Brendan Sexton III, Alicia Goranson, Alison Folland

Identidades Sexuais

O trabalho da direção e roteiro do estreante Duncan Tucker concebe um pequeno recorte de realidade, sincero retrato humanístico sobre a sexualidade de um contexto social ultra-conservador - a sociedade norte-americana. Transamérica relata os conflitos em relação ao corpo e a maneira como se relaciona com ele. Analisa a relevância das normas socioculturais na aceitação ou repulsa de uma das formas de identificação queer, o transexual. A narrativa centra-se na história de Bree Ozbourne (Felicity Huffman) - registrado como Stanley Schupack -, uma educada e conservadora transexual que deseja fazer a operação de mudança de sexo, a fim de se sentir realizada por completo. Obviamente, a classificação de homossexual é incorreta para alguém como Bree, pois o problema tem reconhecidamente uma causa genética. Como estar mais satisfeita consigo mesma? A um passo de se submeter ao processo de transformação, o destino determina a catarse: Bree descobre que tem um filho de 17 anos, Toby (Kevin Zegers). Ele é fruto de um antigo relacionamento seu com uma mulher no período de colegial - na época que ainda vivia com corpo, mente e atitudes de um homem comum. Como aceitar essa reviravolta na vida? Como resolver as inesperadas surpresas que o cotidiano exerce? Bree tenta ignorar o filho, porém a psicóloga que deve liberar a cirurgia se recusa a autorizá-la sem que ela se acerte com seu passado. Antes de resolver seus próprios problemas das questões sexuais, deve solucionar suas pendências familiares. É então decide procurar o filho. O trabalho de Tucker viabiliza um tocante e também controverso ato de sensibilidade ao humanizar os personagens em busca de suas próprias esperanças, limitações e fragilidades íntimas.

Bree tem disforia sexual, não se aceita na condição de homem - portanto, preocupa-se e sente desconforto com seu corpo que ainda detém resquícios dos traços masculinos. A sua identidade sexual é plenamente estabelecida ao seu senso de sensações, sente-se como uma mulher repleta de características próprias e toda sua percepção psicológica é consciente: tem a sensação de ter ciclos hormonais femininos, age instintivamente como uma mulher e seu corpo é resultado dessa construção de suas preferências. O corpóreo é uma extensão - vê-se mulher, necessita de todos os arquétipos necessários para essa identificação. Por isso, veste-se como qualquer mulher, maqueia-se e necessita de seios para aproximar da esfera da realidade e modelo padrão feminino. Como qualquer transexual, Bree deixa um sexo pelo outro - abandona todos atributos de um sexo em função das aparências de um outro. Bem verdade, essa transformação física - a operação em si - é apenas uma mudança que deve ser entendida como transformação de "fachada", visto que o ser tem uma nova aparência dado ao seu novo aspecto exterior. Diferente do homossexual e do travesti (este alia-se de um estereótipo temporário de homem ou mulher, mas não muda permanentemente sua condição sexual), o transexual não aceita sua condição de nascimento. Há uma inadequada disfunção entre a anatomia dele com seu "sexo psicológico". A crise na identidade é comum. Daí, a necessidade de mudar de sexo e reivindicação de novo nome, retificando a certidão de nascimento. Bree representa um indivíduo que possui uma identidade de gênero diferente ao designado pelo seu nascimento, ela tem a convicção de pertencer a um sexo e possuir genitais opostos ao sexo que psicologicamente se pertence. Por isso, ansia viver e ser aceita como deseja.

Além de pautar a condição do transexual, o filme coloca questões emocionais: Bree percebe que, antes de mudar sua vida, necessita lidar com a nova situação que se instalou - o que fazer com o filho? A relação inicial que tem com Toby é superficial, visto que ela não diz que de fato é seu pai. Contudo, ao conhecer o garoto, percebe que ele é um ser totalmente transgressor, sem um eixo de moralidade - prostitui-se para conseguir dinheiro; promíscuo, transa com homens e mulheres; é viciado em drogas e age como um típico rebelde. Bree então decide ajudá-lo, leva-o numa viagem de carro com o intuito de devolvê-lo a quem o criou. É então que o roteiro de Tucker atinge seu tom íntimo, pois aproxima esses dois personagens - de extremos tão opostos, mas unidos por laços de sangue - de maneira sensível, tangível. Bree percebe que antes de tentar se enquadrar na sociedade - existe um filho que precisa de cuidados, atenção e de sua própria presença para se manter ajustado. O trunfo no filme é colocar as problemáticas como desajustes familiares, sexualidade, carência e anseios quanto à própria identidade como prioridade. Tanto Bree quanto seu filho Toby são dois seres em busca de algo, tanto que acabam por se amparar. Enquanto cruzam de carro os Estados Unidos - nota-se o tom road-movie intimista - a um destino não tão certo, estes dois vão confrontar suas próprias percepções de mundo e reflexões casuais. Bree é alguém em busca de aceitação e Toby é o garoto desleixado que, por não ter uma educação correta, usa de sua malícia para conseguir sucesso na vida. É um adolescente em maturidade sexual, em conflito consigo próprio: usa do sexo para viabilizar suas satisfações, mas há neste personagem mais sofrimento em sua condição - sofreu violência sexual, por isso cresceu imerso nessas irregularidades que tornaram sua condição libertina. Toby é alguém sem lar, sem raiz - como viabilizar o ajuste? É interessante a dualidade: enquanto Bree, a transexual em busca de aceitação, jamais busca o sexo - seu filho, bissexual hiperativo, condiciona-se neste anseio. Bree sente repulsa pelo seu órgão genital, Toby valoriza o seu.

O foco não é só na condição de sexualidade, mas em argumentar as relações de buscas pelo afeto perdido - amor, sentimento e sensos de sensibilidade. Road-movie existencial? É um filme que articula com precisão problemas reais, sem usar de habituais clichês para favorecer a emoção. Há um tom cru nos diálogos, no aspecto televisivo proporcionado pela montagem simplória. O convencional melodrama é atenuado por toques de humor, ironia e leveza em certas situações do filme - principalmente nas sequências onde a família de Bree (representantes do preconceito, da intolerância quanto a um ser transexual) atua junto com os dois personagens principais. É nítido o cuidado na composição interpretativa de Felicity Huffman (uma mulher que interpreta um homem que quer ser mulher) - desde gestos, posturas, tons de voz. A atriz personifica com maestria o incômodo de uma transexual - no caso dela, a insatisfação de ter um pênis entre as pernas; a voz que tende a afiná-la para não ser reconhecida a verdadeira sexualidade. Sua Bree é um homem de alma feminina. E o filme é imprescindível por atuar como um valor demonstrativo de que existem muitos estigmas reais do preconceito dentro da esfera social. Há indivíduos, independentes de suas escolhas sexuais, repleto de anseios e sonhos incondicionais - e isso independe do que estabelece a sociedade. Eis uma reflexão sobre a modernidade, barreiras sociais - e os dilemas do distúrbio causado pela inadequação entre o aspecto físico e a personalidade.


Transamerica (EUA, 2005)
Direção de Duncan Tucker
Roteiro de Duncan Tucker
Com Felicity Huffman, Kevin Zegers, Fionnula Flanagan, Elisabeth Peña, Graham Greene

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