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Entre quatro paredes?


Como conter os ímpetos da carne? O ser humano tendo que se mascarar. A sexualidade como repressão. Desejos ocultos, emoldurados sob rígidos falsos moralismos. A angústia de ser plenamente infeliz por conta disto. Não é à toa que este trabalho dirigido por John Huston foi provocativo e muito a frente para sua época, tanto que não obteve sucesso e tornou-se cultuado mais de 40 anos após seu lançamento. Talvez hoje a sociedade esteja mais preparada ou mesmo interessada para absorver um filme que dialoga fortemente sobre a hipocrisia presente no âmbito sulista dos EUA da década de 1950. Baseado no livro de Carson McCullers, O Pecado de Todos Nós, é um cinema que instalou novas vertentes narrativas — em termos de proporções insinuativas e maliciosas — dentro de Hollywood. Por isso, pode-se afirmar que é um trabalho bastante provocador e contundente.

A ação ocorre numa base militar onde moram algumas pessoas, logo após a 2ª Guerra Mundial. Neste terreno tão adornado de mentiras, observamos a trajetória do Major Weldon Penderton (Marlon Brando) que vive um casamento já em frangalhos e tedioso com sua esposa fogosa Leonora (Elizabeth Taylor) — logo de início, John Huston escancara o mórbido e o perigoso local onde as aparências apenas se acentuam. Com uma relação tão formal, fecundam-se segredos entre si. Leonora, sexualmente liberalista, transa com seu vizinho Morris (Brian Keith) em canteiros de amoras; este, por sua vez, negligencia sua esposa Alison (Julie Harris) relegando-a a depressão e sendo vista como uma mulher "perturbada" por todos. Já Weldon, por trás da frieza, austeridade e conservadorismo com que lida com a personalidade altiva e sensual da mulher, é um homossexual enrustido. 

A construção do filme é ousada, ainda que com uma elegância e pequenas sutilezas, mas que se afastam de outros clássicos como Gata em Teto de Zinco Quente, Vidas Sem Rumo ou mesmo Uma Rua Chamada Pecado, obras de Tennessee Williams, obras que mascaravam os contextos mais carnais e referentes à homossexualidade quando adaptados ao cinema. Aqui é o oposto, desde o início John Huston afirma o caráter e as motivações de cada personagem, sem receio, mas com um cuidado para que o público torne-se apenas um voyeur do que é explorado. A intenção não é só descortinar o mundo artificial desses personagens, mas o argumento polêmico se sustenta majoritariamente no desenvolvimento psicológico do Major — o homem passa a sufocar-se quando se sente atraído pelo recruta Williams (Robert Foster), jovem introspectivo que tem o hábito de cavalgar pela região sem roupas, despertando atenção (ou seria desejos?) de todos à sua volta.

Estabelecendo maiores provocações, o roteiro lida com situações maliciosas. O tal recruta nutre um amor platônico por Leonora — diariamente esconde-se em seu quarto, espreitando-a, num típico exercício de voyeurismo. O senso de desejo obsessivo ocorre também com Weldon que imerge numa crise de identidade por conta do tesão que sente pelo soldado. São emocionantes as cenas que Marlon Brando caminha em silêncio na chuva, pensativo, tentando conter os desejos inconfessáveis pelo soldado recruta. Em outro momento, ele chora demonstrando as fragilidades do próprio ser, boa representação do papel do homossexual que sofre com sua condição. Paralelo a isso, há ainda exibição da sensualidade feminina: Elizabeth Taylor exibe o corpo ao caminhar nua na frente de Brando, numa fotografia soturna conceitualmente perfeita em sombras.

Incisivamente, John Huston submete o público em pequenas sequências de delírios homoeróticos e sexualidade — como na cavalgada do recruta nu pelas florestas, sendo observado pelo atento olhar de Wendon, um momento bastante sedutor e que acentua a força da luxúria que a película exala; nas cenas de Leonora admirada pelo recruta enquanto dorme; ou mesmo na subjetiva, mas não menos contundente, passagem em que Wendon pega um papel utilizado pelo recruta, se apossa e o enrola, transformando-o numa espécie de formato fálico. O efeito sensual é bem evidente, mas jamais o filme recorre à vulgaridade ou ao óbvio. Temos um cuidado com o que se propõe.

Robert Forster é o símbolo do efeito libidinal que o filme transpira: tanto Brando, quanto Taylor, sentem tesão por ele. "Todo aprendizado obtido às custas da normalidade é errado e não deveria trazer felicidade.", é dito em certo momento do filme. Há certa reflexão diante da infelicidade ou mesmo insatisfação que demonstram os personagens. Como viver numa vida indesejada? Como atenuar o que a carne tanto quer? O título original Reflections in a Golden Eye é simbolicamente externado através dos olhos “dourados” do recruta voyeur de Foster e também de um franco diálogo dito pelo criado de Julie Harris que pinta um pássaro e comenta que nos olhos dourados dele escondem uma morbidez — metáfora sobre os seres humanos que vivem imersos em suas próprias mentiras podres e desejos reprimidos; em função disso temos a plasticidade técnica e exuberante fotografia em tons de sépia conferindo o dom imagético de acordo com uma narrativa que atingiu maturidade dentro dos padrões de censura de Hollywood. Um clássico necessário.


Reflections in a Golden Eye (EUA, 1967)
Direção de John Huston
Roteiro de Carson McCullers, Chapman Mortimer, Gladys Hill
Com Marlon Brando, Elizabeth Taylor, Robert Forster, Julie Harris

Feminismo vampiresco?


O universo vampiresco sempre executa a sensualidade diante de aspectos da personalidade dos ditos seres da noite. Não é para tanto que Tony Scott estreou com esse senso proeminente no seu Fome de Viver, um trabalho tão autoral e com um posicionamento bastante estético, talvez por isso o filme seja visto como algo peculiar e cultuado por uma parcela cinéfila que buscam trabalhos mais experimentais. Não por ser um filme que utilize do caráter do vampiro, mas a verdade é que esta produção é, na realidade, também uma trama que exemplifica o homoerotismo feminino, além de conferir um olhar quanto às dependências emocionais da humanidade que vivem imersa na solidão e alheia às relações de posse e afeto duradouro. Daí resida o apelo dramático vivido por David Bowie (John Blaylock) que aqui vivencia o tormento de envelhecer rapidamente — o vampiro abalado que viveu há anos sob a custódia e luxúria de uma relação com Catherine Deneuve (Miriam Blaylock), agora amarga o desespero dos "efeitos colaterais" que é permanecer sob o comando da fêmea-imortal. Perturbado, procura a médica Susan Sarandon (Sarah Roberts) para auxílio desta cruel doença. O roteiro é astuto em construir esta noção ao público: há milênios Miriam escolhe um companheiro, na promessa de estar ao seu lado ("Forever and ever"), num rito de austeridade e beleza eterna. Quando a pessoa passa a envelhecer subitamente, logo a vampira parte para a nova vítima que irá de exercer a função de "dama de companhia".

A grande questão desenvolvida é justamente de acordo com a perspectiva da vampira personificada por Catherine Deneuve — nunca o roteiro procura utilizar de elementos vampirescos óbvios para transmitir suas intenções. Não há caixões, não existe temor diante do crucifixo, não precisam andar à noite fugindo do sol. Ainda assim, existe o verniz sombrio diante de uma fotografia cinzenta que captura bem tons escuros e mantém o olhar intimista quanto ao lado melancólico e visivelmente macabro dessa mulher imortal. Contudo, a película acentua o sangue como representação vampírica e que dá todo sentido gótico à obra. Tony Scott torna a elegância de Deneuve em algo mais libidinal ao passo que aproxima sua personagem com a de Susan Sarandon, eis a exploração de algo mais homoerótico e sexual, mas que não deve ser taxado apenas de filme lésbico por emular esse condicionamento.

Por ser um filme de vampiro, é necessária a conceituação da sensualidade que é tão preservada neste ambiente narrativo. É interessante a forma como o roteiro induz a relação de Deneuve com Sarandon — existe aí um interesse mútuo. Por parte da vampira, estabelece a necessidade de criar um vínculo relacional com a outra que tanto lhe apetece. Por parte da médica, há uma espécie de fetiche e atração física já que Miriam transparece uma sensualidade natural. A cena em que ambas conversam, trocam flertes e sucumbem no ato sexual é bastante envolvente e muito bem articulada. Tony Scott não esconde a intenção em exercitar a movimentação dos corpos diante de sua câmera curiosa, esmiuçando os seios femininos, mas, ainda assim, não vulgarizando — o que numa percepção inadequada poderia render um momento desconfortável ou mesmo explícito ao público. Aí reside o misticismo ou o arquétipo básico de que todo vampiro fascina e promove um tesão na humanidade? Temos o retrato óbvio da sensualidade da relação de vampiro com o humano.

O que torna mais sensual é mesmo a plasticidade, Fome de Viver é feito com um dinamismo por ser bem editado e é ousado na estética. É tanto que logo nos primeiros minutos da projeção evidencia a noção de "sexo, sangue e rock" estimulando algo erotizado. Tony Scott exerceu um tom bem provocativo em seu primeiro filme, sem fundamentar algo raso e óbvio — o que veio ocorrer com seus demais feitos "hollywoodianos". Ainda que seja sombrio constantemente — a canção "Bela Lugosi's Dead" de Bauhaus proporciona toda uma atmosfera soturna e densa —, há o apego pela forma dinâmica narrativa em que se sustenta certo apelo nervoso de David Bowie no princípio e na posterior relação de sangue e libido protagonizadas por Deneuve e Sarandon. O filme é ágil e mantém uma dimensão de exercício experimental pelo modo que expressa a montagem e a ousadia de aliar uma condução narrativa que vai do poético ao sinistro — as soluções finais exploram o lado mais macabro que se assemelha a um filme de terror-gótico. Um belo trabalho criativo, sem dúvida.

The Hunger (Reino Unido, 1983)
Direção de Tony Scott
Roteiro de Ivan Davis, James Costigan, Michael Thomas, Whitley Strieber
Com David Bowie, Catherine Deneuve, Susan Sarandon, Dan Hedaya

Melancolia homossexual


“Ser homossexual é viajar por uma pista cheia de obstáculos. Porque as pessoas procuram maneiras e sempre podem arruinar a sua vida. A dificuldade da sociedade em compreender a sexualidade.” A agrura de ser gay. A falta de respeito. O preconceito como o estigma do destino. Este contundente filme do final da década de 1970 é um trabalho que destranca as perspectivas da homoafetividade. Poucas foram as produções que, até então, procuravam esmiuçar as problemáticas que envolvem o universo queer. Dirigido por um então desconhecido Wolfgang Petersen, cineasta alemão que hoje é mais lembrado por produções de apelos de ação e aventura, é um filme bastante singelo e emocional. A Consequência teve êxito discreto na Europa quando foi lançado, mas tornou-se cultuado posteriormente, principalmente após o lançamento em DVD.  Mais que um debate sobre o as questões da homossexualidade, este filme introduz elementos muito mais provocativos e de sensibilização humanística.

Com um olhar bem provocativo, o filme apresenta ao público a característica principal que é o romance homossexual. Martin (Jürgen Prochnow) é um ator suíço que é condenado a cumprir uma pena por ter se envolvido sexualmente com um menor de idade. Logo de início, o roteiro evidencia o caráter sensual e até libidinoso deste indivíduo, na forma como evidencia seu jeito de ser em diálogos e atitudes. É um homem que não esconde que é gay e, por isso, recebe a indisposição social — além da polêmica de ser visto como pervertido, já que teve um caso com um rapaz de apenas 15 anos de idade. O roteiro preocupa-se em mostrar um pouco da personalidade deste ser dentro da prisão, sua ocupação em produzir e atuar em uma peça de teatro feita dentro da instituição para apresentação aos familiares. É durante os ensaios que vem a conhecer o filho do carcereiro, Thomas Manzoni (Ernst Hannawald). 

Wolfgang Petersen não se inibe em ser objetivo na aproximação carnal destes dois homens. Martin torna-se objeto de tesão e “paixonite” diante de um frágil e aparentemente virginal Thomas. A aproximação dos dois é muito bem construída, através da forma como ambos se conhecem durante os ensaios, nos olhares maliciosos de Thomas para o outro ou mesmo quando este indaga sobre a sexualidade de Martin num ato que precede ao flerte. O público já sente ali um provável romance sendo despertado, conquistado, algo provável já que é estimulado aos poucos.  É então que o roteiro investe na relação de maneira mais incisiva. Thomas se insinua afetivo e sexualmente para Martin — o garoto se esconde dentro da cela e se mostra disposto a passar uma noite com o prisioneiro, é então que o filme articula seu posicionamento romântico e atesta o prelúdio de um envolvimento que há de ser problemático e carregado de dor.

Não só a polêmica em levantar a bandeira para uma relação homoafetiva, em pleno fim da década, foi um ato de coragem por parte de Wolfgang Petersen. O filme não elucida somente o posicionamento carnal de dois homens — mas, é uma reflexão bastante reveladora em termos sobre a dificuldade em se aceitar-se como homossexual dentro de uma sociedade predatória e cheia de falsos conservadorismos, tabus e receios. O filme mostra o conflito que ocorre a partir do momento em que o “garoto de família” Thomas revela sua intenção de viver ao lado de alguém do mesmo sexo, criando um conflito dentro dos pilares do machismo e patriarcalismo discriminatórios, além de receber o “estigma na pele” que todo gay há de sofrer: é possível um homossexual amar e ser amado? Viver socialmente tranquilo com o outro?

A discussão sobre as dificuldades da homossexualidade vai além. O filme mostra a conturbada relação de Martin e Thomas — se o primeiro representa o homossexual livre de seu destino, o segundo sofre pelas consequências de suas escolhas, daí o tal sentido do título. Wolfgang Petersen, então, vai além e coloca o verniz agressivo da realidade ou mesmo pessimismo: Thomas é mandado para uma instituição psiquiátrica e vem a sofrer todos tipos de maus-tratos, do psicológico ao físico. O filme torna-se bem mais denso com isso,  o que parecia uma história de amor gay, torna-se uma crítica à essa condição.

Com uma dinâmica bem eficaz, atuações emocionais e intensas do par central — tanto Jürgen Prochnow quanto Ernst Hannawald mantêm uma bela química em cena, defendendo bem seus personagens e convicções da “linguagem de mundo gay” —, o filme é rico em diálogos e promove uma boa reflexão social. Acima de tudo, o discurso sobre as ofensas da sociedade contra à comunidade homossexual. E Wolfgang Petersen, ciente da importância de seu filme, propôs uma direção cheia de cuidados, com muitos closes estampados nas faces dos dois protagonistas, talvez para captar não só o sofrimento, mas a emoção que assume um lado genuinamente real, sem adornos e tons melodramáticos. Sob uma fotografia em preto e branco, o filme é, de fato, um trabalho que envolve.


Die Konsequenz (ALE, 1977)

Direção de Wolfgang Petersen
Roteiro de Alexander Ziegler
Com  Jürgen Prochnow, Ernst Hannawald, Werner Schwuchow 

Cárcere de desejos?


Hector Babenco sempre vai ser lembrado por esse expressivo e controverso trabalho aqui. Adaptado do livro de Manuel Puig, o melancólico O Beijo da Mulher-Aranha traz uma interessante produção reflexiva. Foi totalmente filmado no Brasil, com elenco brasileiro de suporte e dois astros estrangeiros. O idioma é em inglês, daí percebe-se a forte distribuição que ocorreu e o filme conseguiu obter um retorno eficaz. Eis a história de dois prisioneiros imersos na solidão, no desespero e na angústia de uma prisão. Raul Julia interpretando Valentin, o jornalista preso por suas convicções políticas, ideologias e percepções de mundo. E o outro é um homossexual preso por ter feito sexo com um menor de idade, marcado pela frustração de uma sociedade que não o aceita, de viver preso dentro de um corpo de homem, na ânsia por amar e ser amado; e ser uma mulher de fato. Molina, interpretado magistralmente por um William Hurt inspirado, é daqueles ícones já feitos para ser imortalizado na cinematografia. Um personagem contundente, complexo, cheio de nuances. O Oscar de melhor ator não foi à toa. 

Babenco é cuidadoso na direção, pois procura trazer ao público um pouco da complexidade psicológica e comportamental desses dois homens trancafiados dentro de uma cela. Dois seres humanos tão díspares, imersos numa dolorosa realidade, tendo que se confrontar verbal e emocionalmente. O ponto mais cativante e envolvente deste filme é justamente na forma como roteiro lida com as perspectivas pessoais de Valentin e Molina. No limite do ódio ou mesmo de um sentimento gradual de amizade que nasce entre eles — ou seria um amor não compreendido? —, percebemos ali que o ponto de discussão é mesmo o confronto sociológico e humanístico que o texto narrativo quer abordar. Através de diálogos fortes dos dois, bastante íntimos e de extrema sensibilidade, nos tornamos próximos das realidades de cada um. 

A crítica ou mesmo caracterização à homossexualidade é perceptível através da personificação de Molina que exerce o tom da sexualidade no filme. Hurt expressa bem o homem que sofre pela condição de ser gay, de ter que se assumir e ser aceito numa sociedade mórbida e predatória, cheia de preconceitos. O filme fundamenta muito bem a trajetória deste homem, desde fora da prisão com seus casos e idealizações libidinais — em especial quando narra seu passado ao desejar sexualmente um garçom (interpretado por Nuno Leal Maia) e a típica frustração de nunca encontrar o “homem perfeito” que o satisfaça. A maneira como o filme nos coloca a par da intimidade e do caráter motivacional da homossexualidade de Molina é bem instigante. Ora ele é extremamente excêntrico, principalmente quando travestido; ora age como um homem introspectivo, contido e gentil.

E há também o contexto político através do Valentin, o indivíduo altruísta que quer modificar o plano da corrupção de mundo através de suas lutas, preocupado com o mundo, cheio de ideais. Em contrapartida, o filme transparece a personalidade forte e uma masculinidade proeminente deste indivíduo, particularmente aos olhos de Molina, numa representação de virilidade e testosterona. Já Hurt concentra seus trejeitos afeminados, gestos delicados e uma fragilidade condizentes com o tom feminino de Molina que se opõe ao outro colega de cela. O reflexo destes dois homens, vistos como "transgressores da sociedade", são um dos pontos mais reflexivos do filme. E há também a leve malícia presente, na forma como a narrativa arquiteta a aproximação de ambos que converge numa disposição de afeto e até de leve tensão sexual. E Babenco os coloca como seres humanos, dotados de sensibilidade, ainda que na triste condição de "imorais", já que é um belo retrato de mundo. 

O recurso cinematográfico ainda traz níveis narrativos ao externar o aspecto "filme dentro do filme". Através de Molina que, para fugir da realidade que o cerca e o fere, prefere imergir em seus contos e suas histórias: Cria, inventa, articula e narra uma espécie de "filme" para Valentin. É então que nos transportamos para uma "realidade alternativa", segundo as visões e imaginações pessoais de Molina, numa história secundária de uma história de amor vivenciada na turbulenta segunda guerra mundial — uma Sonia Braga exagerada e, por vezes, sensualizada, interpretando a "heroína romântica" dessa sub-narrativa, totalmente de acordo com o tom um tanto poético, melodramático e quase caricatural das percepções vistas por Molina. É interessante essa espécie de intertextualidade criada a partir desse senso narrativo, mas o charme e força emocional mesmo se dão por conta dos diálogos e da relação de ambos os prisioneiros. Não só William Hurt aqui está soberbo e hipnótico, mas é bom destacar também o traquejo de Raul Julia e o cuidado com que vai do tom rústico ao "amoroso" de seu personagem. Com uma estética underground e até teatral, o filme não envelheceu, é ainda um exemplo dramático incisivo.


Kiss of the Spider-Woman (BRA, EUA, 1985)
Direção de Héctor Babenco
Roteiro de Leonard Schrader, Manuel (II) Puig
Com William Hurt, Raul Julia, Sônia Braga, Herson Capri, Nuno Leal Maia

Holocausto homossexual


“Bicha não foi feita para amar. Ninguém aceita isso.” Premiado dramaturgo, o norte-americano Martin Sherman escreveu Bent por volta de 1978. O resultado foi um sucesso, tendo sido laureada com o Royal Court Theatre em Londres e encenada em mais de 50 países nos anos posteriores. Vinte anos depois, seu texto foi adaptado por ele mesmo e tendo a direção no comando de Sean Mathias. O filme traz basicamente todos os diálogos e atos principais, além da exímia abordagem provocadora. Mais que um retrato tocante e contundente sobre a Segunda Guerra e o a perseguição de judeus, trata-se de registrar a perseguição sofrida pelos homossexuais que eram torturados e mortos pela Gestapo, em pleno fascínio e ascensão do período nazista. Pouco se sabe, na verdade, sobre como funcionava extermínios aos homossexuais — sabe-se que mais de 50 mil tenham sido executados de maneira perversa. O filme procura esmiuçar esse triste panorama através de alguns personagens homossexuais que condicionam um estudo sobre o horror do holocausto e da intolerância sexual.

Esta adaptação cinematográfica mostra a trajetória de Max (Clive Owen), um homem boêmio e que passa a vida participando de sexo casual com desconhecidos, imerso em encontros e festas, sem apego a um relacionamento sério. Interessante que o filme logo expõe, nos primeiros minutos de exibição, esse caráter "libertino" do protagonista — Max visita uma espécie de cabaré ou reduto liberal LGBT, uma zona noturna em Berlim onde homens e mulheres promovem orgias, peças teatrais ao ar livre com cunho erótico; um típico antro secreto de perversão e libido social. A ambientação de sensualidade e senso homoerótico é logo transposta ao público nessas sequências, inclusive na breve participação de Mick Jagger como um travesti nonsense, irônico e extravagante. 

A problemática narrativa logo se acentua: a caça aos homossexuais. Diante da ascensão do nazismo e do Terceiro Reich, não existia não só judeus livres: nenhum gay poderia viver tranquilo. Hitler decide acabar com todos os "pervertidos sexuais" da cidade, incluso todos que tivessem ligações com patentes da SS ou mesmo frequentadores do tal cabaré. Preso e levado a um campo de concentração de Dachau, Max decide mascarar sua sexualidade ocultando que é gay. 

Ser homossexual naquele local era sinônimo de lixo, um zé-ninguém e o podre humano: seria torturado por qualquer um, até pelos próprios prisioneiros. Por isso, Max prefere usar no peito a estrela amarela, famosa por identificação judia, ao invés de ser "marcado" com um triângulo rosa que servia para restringir o homossexual. É lá que conhece Horst (Lothraire Blutheau), um destemido jovem que se orgulha de sua sexualidade e, por essa condição, vivencia inúmeras torturas psicológicas e humilhações constantes, porém não oculta suas preferências e se vangloria pela sua "marca". Obviamente, existirá uma aproximação entre esses dois e o senso romântico e a tensão sexual irá despertar sentidos intensos nesses dois homens.

Ainda que tenha sido tão ousado e provocador nos primeiros minutos, o cunho sexual explícito é logo convertido num senso mais emocional, poético. A direção de Sean Mathias prioriza os diálogos e ações — levemente teatrais e que não esconde as origens — de seus dois amantes em cena. É interessante ver não só o desejo, mas o sentimento sendo cultivado dentro de uma realidade tão cruel. O filme mostra a dificuldade de Max em lidar com sua sexualidade, tendo que esconder mais por medo de ser descoberto pela Gestapo, afinal existia o perigo de ser rapidamente executado. 

Ademais, há ainda sua relação íntima sendo aflorada sob o caos ao redor, a opressão, os ditames do campo de concentração que impede qualquer manifestação de afeto ou mesmo contato físico — a sequência em que ambos "transam" por meio de palavras e diálogos trocados, simulando o toque ou mesmo o entrosamento carnal, é de uma sensibilidade e erotismo conceituais. Clive Owen e Lothaire Blutheau exprimem o sofrimento de amar e o desejo voraz de dois homens que não podem externar tudo que querem. 

Nota-se que a intenção de mostrar também como os homossexuais lidavam com aquela situação no período de Guerra. Existiam as questões de classes sociais — Ian McKellen faz uma breve participação como tio de Max, um homossexual que, por ter uma boa posição financeira, consegue se manter afastado de problemas e suborna oficiais alemães para ser livre dos campos de concentração. 

Bent também nos mostra como os gays precisam se submeter às situações extremas — como fazer sexo oral com oficiais para obter medicações ou mesmo favores dentro dos sistemas rigorosos e corruptos dos campos de concentrações. É interessante observar esses contextos — não só a relação principal do romance de Max com Horst que, no geral, é o grande aperitivo emocional deste filme. A direção de Sean Mathias é segura, o roteiro aprofunda o caráter e dar complexidade aos personagens e contextos, além da belíssima trilha melancólica orquestrada por Phillip Glass. É um filme de extrema importância para a cinematografia, um trabalho humano.


Bent (EUA, 1997)
Direção de Sean Mathias
Roteiro de Martin Sherman, baseado em seu livro
Com Lothaire Bluteau, Clive Owen, Mick Jagger, Ian McKellen

Desejos sensíveis

As Amizades Particulares é uma obra-prima de sensibilidade, provocação e polêmica. Baseado no livro autobiográfico do escritor francês Roger Peyrefitte, o filme dirigido por Jean Delannoy em 1964 é ironicamente bastante atual. A obra, hoje, é vista como um retrato destemido sobre as transparências da homossexualidade e até pedofilia — contudo, o que fica evidente é que o filme basicamente quis retratar uma história de sentimento e tesão entre dois garotos dentro de um colégio católico rigoroso: o menino de 12 anos, George (Francis Lacombrade) e o adolescente de 16 anos, Alexandre (Didier Haudepin). Na época da fase de produção, o cineasta Delannoy não teve noção do quanto contestador seria a fita. Segundo ele, o filme não tinha a intenção de ser vulgar ou mesmo promover um condicionamento perverso, existia apenas o interesse em exercitar o apreço por algo mais reflexivo. Deve-se, portanto, tornar exposto essa particular condição, bem de acordo com o que vemos durante a duração da película. Contudo, é um trabalho que incisivamente foi à frente do seu tempo por trazer à tona, dentro de sua ideologia narrativa, certas situações e contextos com certas insinuações sensuais.

Antes de explorar essa aproximação e aparente amizade entre os dois protagonistas, o roteiro, com cuidados e sutilezas, expressa o lado libidinoso que acomete alguns dos garotos dentro da instituição religiosa. Na primeira parte do filme, Jean Delannoy apresenta ao público George que inicialmente se mostra interessado pelo colega de classe Lucien (François Leccia) — a sexualidade deste é rapidamente transposta na narração, pois o jovem mantém um “caso secreto” com outro interno e a relação afetiva vem à tona quando cartas são descobertas, contendo mensagens de cunhos sentimentais e desejos proeminentes.

O roteiro logo mostra que, dentro dessa instituição, existem rigores e metodismos religiosos. Um ambiente tenso, claustrofóbico e opressor por conta dos padres que insistem nas confissões diárias — modo veemente de fazer com que as crianças e os adolescentes expressem seus anseios e verdades ocultas para eles. Logo no primeiro ato, fica exposta essas vertentes, quando a problemática verdadeira do filme atinge seu fundamento: George sente-se atraído fortemente por Alexandre, o menino de forte personalidade, carisma e de extrema sensibilidade que encanta a todos; inclusive os padres que parecem permanecer sob hipnose quando o garoto-maroto imerge no ambiente.

Instigante a forma como o filme avança e explora a tal amizade particular de ambos. Sob diálogos naturais, íntimos e de grande beleza poética, os dois esboçam o início de um sentimento ora desnudo de malícia, ora altamente libidinal — obviamente, existe uma preocupação com a sutileza, mas a tensão sexual inevitavelmente é persistente, ainda que o teor de aparência lúdica e pueril do sentimento dos dois sejam mais friccionados. Interessante a coragem de Jean Delannoy em trazer na década de 1960 um tema tão incendiário. Seu olhar é perceptível quando traça sequências de leve aproximação carnal dos dois — como na provocativa seqüência do celeiro — ou mesmo nas trocas de olhares de seus personagens juvenis, na maneira como George não freia seus impulsos e mantém o desejo alerta para o menino Alexandre. Seguramente, o público percebe que há um senso de "amor pueril" ou mesmo uma relação envolta em sentimentos de extrema sensibilidade, porém o caráter sexual é envolvente e não pode ser desprezado.

Ademais, a narrativa também percorre um pouco dos hábitos e condicionamentos efetuados dentro da instituição. Compreende-se as ditaduras educacionais, as posturas adotadas pelos padres, a maneira como se utilizava da punição como forma de provocar a culpa nos jovens e, dessa maneira, intitular os atos de arrependimento ou mesmo em algo pior, como alunos expulsos por serem "considerados transgressores ou pervertidos". É a típica lei religiosa daquele período e que, no próprio filme, acaba por fragilizar a relação de George e Alexandre. Fora isso, há ainda um tom dúbio exercido pelo roteiro na maneira como coloca um padre com interesses misteriosos quanto aos garotos — seria apenas o intuito de observar quaisquer atos transgressivos ou o interesse sexual?

Como objeto reflexivo cinematográfico, este é ainda um filme necessário e revelador. O tom narrativo ou mesmo o traquejo interpretativo do corpo do elenco é bem executado — nota-se o esforço da direção minuciosa de Jean Delannoy na maneira como a câmera se posiciona frente às faces, nas atuações dos atores, principalmente o então garoto Didier Haudepin que tem um exercício de interpretação mais vibrante e admirável. É um trabalho dramático de grande proporção emotiva, fatalmente o público sente-se aflito ou mesmo sensibilizado com o que vê — e ainda que a fotografia tenha tons monocromáticos, deparamos com uma realidade ali com cores muito mais quentes, bem de acordo com o mundo de tabus e estigmas que estamos inseridos.

Les Amitiés Particulières (FRA, 1964)
Direção de Jean Delannoy
Roteiro de Jean Aurenche, Pierre Bost
Com Francis Lacombrade, Didier Haudepin, François Leccia

Tórrido Desejo

No fim da década de 1960, o cantor Serge Gainsgourg já era popular por conta de seu vício em álcool, cigarros e constante polêmica em relação a uma vida caracterizada por escândalos sexuais envolvendo orgias e casos tórridos com mulheres. Era perceptível sua vulnerabilidade em dois quesitos — a paixão pela música e o vício no sexo feminino. O apelo libidinal em volta de sua figura na mídia foi potencializada quando casou-se com a então modelo inglesa Jane Birkin (através desse envolvimento nasceu Charlotte Gainsbourg), ambos passaram a produzir diversos discos juntos, além da famosa canção erótica “Je t'aime, moi non plus” — tornou-se febre e encabeçou o topo de paradas de sucessos em rádios no mundo. A mídia mediava essa relação dos dois e creditava como símbolo de explosão do sexo e sentimento. Durante o período que foram casados, justamente esse apelo carnal era algo que mais a mídia trazia à tona. Diversos jornais e revistas faziam questão de explorar o lado mais quente, a prova de que ali existia um envolvimento de proporção sexual sem precedentes — existia a lenda que Gainsbourg tinha um vício imoderado por sexo e que a compulsão era também um problema para o matrimônio. Paralelo a isso, o ator americano Joe Dallesandro era considerado o modelo sexual masculino mais proeminente de vários filmes independentes americanos do século XX, um símbolo fetichista da subcultura gay. Envolveu-se com trabalhos fotográficos de erotismo conceitual e foi muso/galã de Andy Warhol em várias produções dele.

O soft-porn Paixão Selvagem foi uma produção idealizada, musicada e dirigida por Gainsbourg e que gerou bastante polêmica no terreno francês por conta de suas intenções maliciosas, sem tabus; um exercício de sexualidade e desejos obscuros. A película trouxe Jane Birkin e Joe Dallessandro como personificações da sensualidade hormonal, bem condizente com aquele momento onde essas duas figuras eram símbolos perfeitos da sedução na mídia. No filme, Dallessandro é Krassky, um caminhoneiro homossexual que trabalha com seu namorado transportando lixo, Padovan (Hugues Quester). O que parecia uma relação pacífica e também dotada de tédio, torna-se um senso conflituoso quando Krassky depara-se com uma garçonete andrógina numa beira de estrada, Johnny (Birkin). A aparência um tanto masculinizada, misteriosa e tímida da mulher, faz com que Krassky demonstre certo fascínio e admiração por ela, além de um gradual tesão que faz com que seu relacionamento gay gere um curto-circuito. O roteiro não tem receios e é objetivo em logo escancarar esse interesse mútuo de um homossexual por uma mulher de corpo esguio, quase sem seios, cabelos curtos e sem contornos femininos.

O filme é interessante em demonstrar esse calor inicial, já que a primeira metade centra-se mais nas percepções de cada um, para depois promover um exercício mais carnal e de sexualidade violenta na relação tensa que vai desabrochar. Krassky claramente sente desejo por Johhny por conta de sua aparência mais associada à masculinidade — porém, ao passo que o roteiro tende a criar um envolvimento mais íntimo e emocional entre ambos, como na bela seqüência que os dois dançam e se beijam demoradamente ao som de “Je t'aime, moi non plus”, o público percebe que ali possa existir algo que não se centra, apenas, na modulação de um envolvimento carnal. O roteiro traça a gradual sedução do casal desde o primeiro contato até a primeira transa, quando fica evidente que Krassky só conseguirá sentir-se excitado com o sexo anal — obviamente, por ser gay ativo, não consegue sentir nenhum desejo pelo corpo feminino, só tendo prazer através dessa prática sexual, tendo, no caso, a fêmea ali despida e entregue a ele de costas. Daí surge boa parte do desconforto que a obra transmite ao espectador, além da polêmica subversiva por adentrar a um sexo mais selvagem e até masoquista do casal.

Indubitavelmente, o filme não é um estudo sobre um romance de um homossexual com uma hétero, quem espera aqui um traço profundo de envolvimento mais poético e sensível pode se frustrar. A relação de dos dois é de uma frieza carnal absurda, selvagem e ríspida. Muitos questionaram a intenção de Gainsbourg e sua provável falta de tato na maneira como aborda o sexo e os diálogos dos dois, mas o cineasta decide aqui investigar a problemática situação de um envolvimento sexual de duas pessoas tão opostas e de perspectivas divergentes, mas em busca de um orgasmo mútuo. A dificuldade de um homossexual sentir prazer através do sexo com uma mulher, conceito tão abordado já em outros filmes, aqui ganha um contorno mais apelativo já que o roteiro prefere permanecer na fissura do sexo anal — diversas cenas onde Krassky tenta sodomizar Johnny em motéis precários, num processo doloroso já que a moça sofre dores diversas e os gritos são constantes, impossibilitando a consumação total e fazendo com que ambos sejam, constantemente, expulsos dos locais por conta dos “barulhos e gritos” que fazem. E, ironicamente, sentimos que a barreira para o casal viabilizar o amor se condiciona neste aprendizado de coito tão difícil. De fato, é um filme que trata o prazer de maneira mais árdua, cruel e brutal; talvez por isso muitos considerassem a obra um tanto doentia. Não há um tom suave, nem muito menos delicado na aproximação desses amantes.

Com uma premissa tão transgressora e marginal, além de um senso de estética meio "suja" e underground, câmera na mão e cenas onde os atores parecem improvisar — já que os diálogos são fluídos e carregados de uma naturalidade informal —, este filme discute muito bem os traços dos tabus da sexualidade colocando um casal tão improvável numa relação provocativa. Há certos diálogos que beiram à vulgaridade por conta da provocação articulada, mas não é algo que proporcione uma repulsa. Ademais, há ainda espaço para mostrar questões que envolvem a homofobia — o namorado enciumado de Krassky sofre violência física por parte de alguns moradores da localidade — e indagações sobre o papel da submissão feminina. Fica visível que Johnny se submete a uma transa desagradável, a típica demonstração de mulher que aceita servir a um homem egoísta — já que este só quer o sexo dessa forma, sem se preocupar com sua parceira. Mas, no fim, o que fica mais nítido é que não há como sustentar uma relação se o sexo não for tão primário e em sintonia, além de que o sentimento deve ser privilegiado. O filme é objetivo, sem muitos adornos tanto na concepção fotográfica quanto no aspecto do desenvolvimento narrativo, mas é eficaz no que pretende: colocar uma relação tão rude e desprovida de delicadeza. O sexo aqui é um elemento tão necessário, mas o que deixa rastros é como a humanidade ainda sofre pela carência. Filme plenamente controverso, ousado e astuto.

Je t'aime, moi non plus ( FRA, 1976)
Direção de Serge Gainsbourg
Roteiro de Serge Gainsbourg
Com Jane Birkin, Joe Dallesandro, Hugues Quester e Reinhard Kolldehoff

Amores Urbanos

A dor da ilusão, do sonho do amor que não cansa de machucar corações ansiosos, o azedo da vida que preenche de dor almas incansáveis por carinho. O segundo longa-metragem do cineasta Roberto Moreira justifica a ânsia atual que o Cinema Brasileiro sente em diversificar suas abordagens — explora-se aqui o discurso sobre a afetividade, o relacionamento sexual da juventude em meio aos seus desejos e expectativas emocionais. Como compreender as relações de amor e sexualidade? Por que tudo hoje é tão efêmero? Existe amor perdurável? Seres humanos envoltos em descobertas sexuais, busca por alguém que lide com suas fragilidades, questões que envolvem o sexo casual: aqui se encontra o argumento principal que mescla inúmeras problemáticas sem fim. Talvez aí seja o erro principal do morno Quanto Dura O Amor?. O roteiro coescrito por Anna Muylaert — que havia surpreendido com o interessante Durval Discos — carece de profundidade maior já que decide explorar a trajetória íntima de alguns jovens sob o congestionado coração agitado da cidade de São Paulo. A desilusão, a falta de perspectiva, as dúvidas e o pessimismo envolvem a trama de todos, ainda que a sexualidade mostre um papel definitivo nas motivações de cada um.

A narrativa recorta as vidas desses indivíduos, todos habitantes do mesmo edifício que fica na esquina das avenidas Paulista e Angélica. São várias histórias que caminham com um mesmo foco problemático, a carência-sexual. Há Marina (Sílvia Lourenço), a aspirante atriz que se muda para São Paulo em busca de realização profissional e acaba se apaixonando por uma cantora de boate, Justine (Danni Carlos); há a advogada bem-sucedida Suzana (Ana Clara Spinelli) que se sente solitária, mantém um segredo e passa a ter um caso com Gil (Gustavo Machado); Jay (Fábio Herford), escritor de um livro só, romântico ao extremo, se liga a uma prostituta (Leilah Moreno) interesseira que só quer dinheiro e sexo sem nenhuma condição afetiva; e temos Nuno (Paulo Vilhena), o namorado de Justine que rivaliza a relação dela com Marina prometendo conflitos incansáveis. Em 80 minutos, o roteiro parece aflito em querer mostrar cada personagem, suas vivências, suas atitudes, mas é fraco por conta de uma superficialidade absurda. Os diálogos são pobres, tornando o filme insosso. A direção não consegue se ajustar ao inseguro elenco que não mantém um ritmo evidente em cenas desconexas, desajustadas. O que parecia um panorama amoroso-sexual torna-se uma abordagem insatisfatória.

A melancolia permeia todo o filme que mantém seus personagens sob uma fotografia de tons azulados, vermelhos e o sol da Av. Paulista. Em meio aos anseios de cada um, o público pode até se envolver com a certa urgência do roteiro explorar a sexualidade. O cineasta Roberto Moreira investe na beleza exótica da cantora Danni Carlos, por sinal as melhores cenas do filme ficam a cargo de sua caracterização e sequências onde pode cantar canções melódicas, talvez o único ponto alto daqui. A relação lésbica da personagem é explorada — Justine é bissexual, vive uma relação conturbada com o personagem do Paulo Vilhena e mantém uma forte atração por Marina, a aparente personagem "mais principal" do filme. Há cenas de sexo, há uma câmera que expressa o tesão das duas mulheres no decorrer do longa, mas o roteiro não consegue trazer maiores compromissos.

Em contrapartida, o roteiro traz bons pontos como as reflexões que os relacionamentos atuais trazem: por que o ser humano é tão carente de amor e sexo? É possível construir uma relação sólida? A visão pessimista do filme parece responder quando situa o poeta Jay tentando de todas as formas conquistar a prostituta fútil, sem caráter, que só quer dinheiro — Leilah Moreno mantém a sensualidade de uma mulher que simboliza o papel rigoroso de alguém que só transa por dinheiro, só ama sob essa condição também. Infelizmente, o público não se envolve melhor, já que tudo é objetivo e sem maiores aprofundamentos. E o segredo da personagem Suzana é o recurso encontrado no roteiro para promover mais uma discussão acerca da sexualidade contemporânea, mas é frágil e nem Moreira sabe causar certa comoção maior em torno de uma situação que poderia render maiores contornos emotivos. Há cenas que a direção parece ser inexistente, gerando um desconforto em quem assiste. Ainda assim, de longe, Maria Clara Spinelli é a cereja talentosa do bolo indispensável que é este filme, visto que sua atuação é bem natural e possui carisma. A lamentar o resultado oferecido pelo cineasta que despontou na cinematografia brasileira com o excelente Contra Todos, onde a originalidade e o caráter reflexivo tinham muito mais textura que esse filme vago aqui.

Quanto dura o amor? (2009, BRA)
Direção de Roberto Moreira
Roteiro de Roberto Moreira e Anna Muylaert
Com Silvia Lourenço, Danni Carlos, Paulo Vilhena, Maria Clara Spinelli, Leilah Moreno

Sobre tesão e religião

A esfera homoafetiva cinematográfica ganha maior força, é perceptível que há uma intimidade melhor com as tramas, sem a superficialidade tão habitual em trabalhos que preferiam exteriorizar uma percepção caricata. Felizmente, inúmeros filmes de cunho gay vem tendo maior reconhecimento também — não só, bom destacar, pelas comunidades afins. Pecado da Carne é um belo exemplo de trabalho refinado, talvez um dos filmes mais provocativos já que traz nele reflexões bem condizentes com a atualidade; aqui nesse caso há o conflito da relação da homossexualidade com a religião, preceitos bastante latentes no que diz respeito às divergências de opiniões. Lançado no Brasil com o selo Filmes do Mix, nascido do Festival GLS Mix Brasil, a fita foi bem divulgada em salas de artes. O singelo filme israelense dirigido com minúcia por Haim Tabakman retrata o envolvimento de dois homens de uma comunidade judaica tradicionalista e ultraortodoxa na cidade de Jerusalém. Aaron Fleishman (Zohar Strauss), é o pai de uma família de 4 filhos resultado de um casamento encomendado. Após a morte do pai, passa a comandar o açougue herdado. É quando seu destino já demonstra a catarse: com a chegada do jovem Ezri (Ran Danker), que sem trabalho e lugar para viver se dispõe a trabalhar com ele, é que o filme atinge seu nível de comprometimento, o anúncio de todo o conflito. Como controlar os ímpetos carnais? Aaron passa a ser perseguido pelos companheiros da sinagoga que veem a aproximação dele com o Ezri como algo pecaminoso, a tal dita "sedução do mal". O que parecia um mundo pacífico, sem agitações, ganha forma com o gradual desejo que Aaron sente pelo novo amigo.

O filme é extremamente maduro em não ter pressa, prefere respirar as motivações dos personagens com um ritmo mais lento, porém atento às reações de cada um. Não é que seja tedioso, mas respeita os momentos dos seus personagens. A crescente intimidade de Aaron com Ezri ganha traços mais conturbados quando compreendemos que há dificuldades para eles viverem o que sentem. Não é só a barreira da homossexualidade que vem à tona, mas princípios da religião e discussões da cultura judaica. O roteiro de Merav Doster percorre as aflições desses dois indivíduos que não conseguem mais permanecer em recusas. A sinceridade do roteiro trata com dignidade a relação dos dois, sem que haja a forte tendência ao melodrama. Uma cena bonita e que mostra bem o sentido do filme é quando Aaron é confrontado pelo rabino, declarando que se sentia morto antes de conhecer Ezri.

Além da elegância com que trata este delicado tema, há uma leve sensualidade externada nas cenas onde há o tom do desejo, quando a paixão dos dois já não consegue se retrair. Mas, a provocação é evidente quando trata de questões mais extremas, como no perigoso caso tórrido dos dois que parece condenar a família de Aaron em punições. Há ainda discussões sobre homofobia, já que Ezri é alvo de comentários na comunidade que o discrimina abruptamente. Inúmeras discussões sobre as crenças de cada um são postas à mesa com rigor — deve-se abdicar de uma religião pelo desejo? O que faz uma paixão entre dois do mesmo sexo ser reconhecida como um pecado perante a religião? Por que se privar tanto de algo que acaba por ser uma felicidade duradoura? Perguntas estas são acometidas enquanto vivencia-se os conflitos de Aaron, um indivíduo preso em suas tradições religiosas sem conseguir se rebelar perante uma vida de anseios por seu objeto de tesão.

O público provavelmente sente-se aflito nas cenas onde os amantes passam dias trancafiados no quarto do açougue entregues ao tal "pecado da carne" do título brasileiro, no desespero de serem descobertos, mas ansiosos por aproveitarem cada segundo de prazer. Levantando tabus sem que consiga ferir a comunidade judaica, já que há sensos bastantes polêmicos neste filme, o diretor é sensato em conduzir a relação de desejo e amor dos dois protagonistas com um olhar bem humano. Sua câmera parece estagnada, prefere deixar que os atores em cenas se movimentem dando um ar mais naturalizado, realismo puro.

A química de Danker com Shtrauss é bem delineada, decerto foi uma bela escolha esses dois atores — interessante que o primeiro passa uma imagem mais sexual de seu personagem, de acordo com a personalidade mais passional dele; e o outro é mais introspectivo, fechado, de atos tolhidos e falas pequenas, já que é um homem vencido pela vida que nunca quis para si, tendo que retrair-se sexualmente. A direção intercala momentos silenciosos e outros de olhares apoiados de diálogos que extravasam a intensidade do tema em questão, um belo trabalho que mexe mesmo após o término da projeção. Uma pequena obra de grande proporção reflexiva, sem dúvida.

Einaym Pkuhot (Israel/ Alemanha/França, 2009)
Direção de Haim Tabakman
Roteiro de Merav Doster
Com Zohar Shtrauss, Ran Danker, Tinkerbell, Tzahi Grad, Isaac Sharry

O amor não tem cor?

Como viver a própria sexualidade que quer explodir? E como dar vazão ao desejo num espaço onde a homofobia impera ao lado da hipocrisia religiosa? Cada vez mais, a comunidade gay consegue sustentar seu discurso à favor da liberdade de expressão — sexual, identidade e idealista — dentro de uma sociedade ainda repressora. Filhos de Deus (lançado também com o ridículo título Amantes do Caribe) é mais uma prova cinematográfica resultante deste processo — gradual, diga-se de passagem — que quer combater os eternos tabus sociais que jamais se apagam. Como entender as relações entre dois homens? O que fazer para a sociedade reparar seus atos de crueldade e preconceito perante homossexuais? Mais que um estudo sobre os percalços, anseios e motivações da predestinação queer, este filme impressiona por apresentar um tocante, não menos realista, amor interracial entre dois homens. Aqui a narrativa centra-se nas belas praias das Bahamas, conhecemos Johnny (Johhny Ferro), um artista introvertido que sofre bullying dos moradores locais por conta de seu comportamento considerado esquisito e pela sua opção sexual. O jovem não consegue viver tranquilo já que sofre por conta de sua sexualidade, então se firma na negação e foge de maiores contatos afetivos para não se frustrar. Ao vivenciar uma crise de inspiração, o artista é aconselhado por sua professora a passar uma temporada na Ilha de Eleuthera, no intuito de recuperar o fôlego da criatividade. Ao conhecer o atleta Romeo (Stephen Tyrone Williams), seu destino muda, é quando o sentido mais dramático do roteiro evidencia seu caráter principal: existe uma atração sexual inevitável entre os protagonistas, um sentimento que pode provocar uma violenta catarse nas vidas de cada um. Mas, o filme apenas não se resume a esse senso, há mais discussões polêmicas por aí.

O diretor Kareem Mortimer conduz com muita atenção a trajetória de amor, desejo e estranheza de seus dois garotos. Interessante que a personalidade de Johnny é bem diferente de Romeo, mas ambos vivenciam os tormentos de uma repressão sexual visto que a sociedade eterniza uma indisposição aos seus impulsos libidinais e existenciais. Se Johnny busca a si mesmo nas ruas de Nassau, é Romeo que sofre por conta da família que insiste em providenciar um casamento com uma antiga namorada. É a típica discussão que prevalece neste sentido: o homem que tem que mascarar sua sexualidade para se enquadrar socialmente, ainda mais quando a sociedade costuma cobrar casamentos heterossexuais e filhos. E Mortimer mostra a relação de Johnny e Romeo bastante trágico e proibido, desde o começo. A cena que ambos dançam, corpos nus, sem música, apenas no embalo do calor dos corpos, é um dos momentos mais bonitos já concebidos na representação da cinematografia homoafetiva.

Paralelo aos personagens principais, há ainda subtramas que sustentam o apelo militante contra ao preconceito ao homossexual. Há Lena (Margaret Laurena Kemp, atuação notável), casada com um pastor homofóbico que, na verdade, é um gay enrustido que se envolve sexualmente com garotos secretamente — contundente a postura dessa personagem que vivencia o tormento de uma vida mascarada, além de apresentar intolerância religiosa contra à homossexualidade, podando até seu filho que, ainda criança, já apresenta um “comportamento suspeito” que ela acredita ser condizente com o caráter homossexual.

O roteiro de Mortimer tem uma forte discussão sobre a homofobia, por isso insere inúmeros diálogos bem reflexivos que induz o espectador a pensar sobre essas questões. Mas, o que torna mais admirável é a química sensual e interpretativa do par central, por sinal bem caracterizado pelos atores Johhny Ferro e Stephen Tyrone Williams que sustentam o apelo da libido, do amor e da barreira que dificulta a relação de apenas dois homens que queriam viver um para o outro. Sob o véu das questões raciais, homoafetivas e das intolerâncias religiosas, este é um trabalho que acaba por tocar nas feridas sociais sem medo. E só por promover essa reflexão já vale uma conferida.

Children of God (EUA, 2010)
Dirigido por Kareem Mortimer
Escrito por Kareem Mortimer
Com Johnny Ferro, Stephen Tyrone Williams, Sylvia Adams

Diário de um prostituto?

Como se sustenta a prostituição gay? Como funciona o sexo feito pelo dinheiro? Qual a dinâmica que se estabelece entre os prostitutos e seus clientes? Grande estudioso do universo da homossexualidade e conhecedor sobre a natureza dos “profissionais do sexo”, o cineasta John Graham desenvolveu um provocador roteiro que desnuda o universo da prostituição masculina. Selecionado em diversos festivais de cinema LGBT nos Estados Unidos, Garoto de Programa é um trabalho realista e polêmico que decide investigar as vivências da juventude que se presta ao sexo apenas pelo dinheiro. Tão preciso quanto o já clássico “Garotos de Programa” de Gus Van Sant, essa produção tem mais substância e sensualidade que o tão falado “Bruna Surfistinha”, por exemplo. Ao personificar também as relações sexuais gays, o filme acaba por trazer à tona várias questões pungentes que agem como um forte sentido de reflexão humana. Com um roteiro bem articulado, ousado e que decide, sem medo algum, explicitar as relações de sexo pago, Graham acaba por exercer uma jornada de psicossexualidade que vai além. A ação se centra durante uma noite de atendimento de um michê (Ben Bonenfant), num único prédio — chamado por um dos personagens como o local “mais gay da rua mais sexual da cidade”. Acompanhamos o jovem, típico estereótipo sexual dos sonhos, já que é libidinoso, sensual e masculinizado. O que parecia ser apenas uma única noite de serviço torna-se um emaranhado de situações sexuais, já que o michê acaba por transitar entre diversos apartamentos do mesmo prédio, envolvendo-se com vários homens de diferentes personalidades.

Verbalmente e visualmente sedutor, o filme acompanha bem de perto a jornada sexual noturna do michê dentro do prédio sob uma forte tempestade. O interessante é que ele não se limita aos enquadramentos eróticos, apenas, das transas — evidentemente, várias são as cenas que sustentam o teor homoerótico da película, visto que há um tom bem realístico em pontuações de sexo oral e sodomia praticada pelo michê com seus clientes. Várias cenas de nudez, a câmera demoradamente nos corpos dos homens, o olhar penetrando os atos sexuais que podem até constranger um espectador despreparado. Mas, o filme não se limita nesse sentido, acaba por tratar, já que tem uma linguagem bem íntima com seus personagens, elementos de reflexão da própria moral do protagonista. Por que um jovem tão novo decidiu se prostituir? O que faz uma pessoa viver no vício do dinheiro ganho pelo sexo com um desconhecido?

Enquanto se envolve com seus clientes, o michê — que não sabemos a real identidade, já que “troca” de nomes a todo instante — aparenta ser um indivíduo que gosta de transar com desconhecidos, viciado nas “transas do acaso”, sem nenhum indício de apego sentimental com ninguém ainda que seja bem carinhoso com eles. E John Graham, cuidadosamente, explora a personalidade do michê que acaba por misturar-se com o universo de cada cliente que vem experimentar seu corpo. O prostituto torna-se uma espécie de ouvinte das confidências de seus clientes que divide com ele seus dramas, solidão, anseios e dúvidas reais.

E a linguagem do filme é bem direta, íntima e vai fundo no universo da prostituição através deste único protagonista. Admirável a maneira como o roteiro acaba por acentuar estereótipos de pessoas comuns imersas nas relações casuais, dos redutos homossexuais, das comunidades sexuais obscuras. Há um cliente que nunca conseguiu esquecer o primeiro amor de adolescência; há um outro que se entrega ao vício da cocaína, leva uma vida com a prática do sexo e o uso imoderado de bebidas; há o homofóbico casado que procura o michê para realizar suas fantasias secretas, mas sofre por conta dos desejos que sente — compreende-se aqui o universo dos enrustidos, dos que tentam mascarar suas verdadeiras opções sexuais, sem sair do armário. E o filme mostra muito bem esse sentido da homofobia através de um personagem que se envolve com o michê, numa seqüência de sexo bem desconfortável, por sinal.

Ademais, John Graham também insere inúmeros diálogos reflexivos que faz com que o jovem insaciável michê acabe por olhar para si mesmo, é quando aqui o sexo deixa de ser apenas um exercício para virar um elemento de desconstrução de seu personagem. O michê eficiente, sexualmente disposto, acaba por questionar sentidos de sua vida, do sentimento, reflete perspectivas pessoais. Surpreendente, o filme usa da prostituição gay masculina para preservar uma reflexão de mundo e é neste sentido que a obra torna-se mais indispensável. E só por pegar um tema já famigerado e incluir elementos mais provocadores, a película tem sua força. A direção é extremamente segura, pontual. O cineasta limita seus personagens em quartos escuros ou salas com fotografia que prioriza tons de vermelho e azul. Os diálogos sinceros e efusivos são apoiados pela trilha do cantor americano Jay Brannan que já é recorrente no cinema queer. O jovem ator Ben Bonenfant concebe uma atuação sensual, convincente como um prostituto de fortes apelos libidinais e total carisma em cena.

Strapped (EUA, 2010)
Direção de John Graham
Roteiro de John Graham
Com Ben Bonenfant, Nick Frangione, Artem Mishin

Sentimentos com desejos

Difícil fazer valer todos os sentimentos, desejos e vontades próprias numa sociedade que acaba por julgar. E o que fazer quando o que sente é algo que parece ser uma afronta à natureza da humanidade? Como conter um profundo desejo que teima em dilacerar os preceitos da moralidade? O curta O Amor Contra o Destino agiu com vigorosa polêmica quando lançado ao colocar dois jovens irmãos perdidamente apaixonados. Dirigido e roteirizado por James Burkhammer, a trama centra-se no subúrbio americano onde Darren (J.B. Ghuman Jr.) e Connor (Marshall Allman) crescem sob o teto de rigores familiares — todos os dois rapazes, desde pequenos, receberam uma educação sem muita afetividade por parte do pai que preferia agir com enérgica severidade e intransigência. Ainda que sem uma aliança tão íntima com os pais, os dois irmãos uma sintonia transparente. Mas, o que parecia uma cumplicidade incondicional familiar, torna-se um estranho desejo que proporciona boa dose de confusão mental em cada um ao se tornarem adolescentes. A partir desse senso polêmico que o filme é direcionado, com urgência e sem procurar esmiuçar muito sentidos existenciais. Darren e Connor não conseguem mais conter o que sentem, no limiar da confusão amorosa e tensão sexual.

Falar de sexualidade sob a perspectiva homossexual no cinema torna-se, cada vez mais, permissivo. Diante da turbulência de manifestações à favor do direito da diversidade sexual, da necessidade da quebra dos tabus e do direito à voz ativa que cansou de brigar contra preconceitos — a expressão de comportamento da homossexualidade é perseverante. Porém, é difícil expressar esse senso quando se mistura aí o contexto do incesto. A polêmica desse filme é voltada basicamente a essa questão, visto que diversas obras já problematizaram o “amor impossível entre dois homens”. Felizmente, a proposta aqui é bastante envolvente por ter uma objetividade na transparência dos sentimentos dos seus personagens. Tanto Darren quanto Connor não escondem, logo de cara, o desejo absurdo que sentem um pelo outro — a cena em que Darren dialoga sobre suas insatisfações juvenis, para depois roubar um beijo precipitado em Connor, evidencia a pressa que o diretor Burkhammer tem em extremar as posições libidinais de seus garotos. O tesão é latente, por isso o roteiro cumpre o método de tornar esse contexto visível ao olhar do público. Eis a pressa da juventude, quase sempre passional, que não consegue reprimir seus desejos, ainda que a sociedade tente mascarar tudo em sua volta.

O filme procura mostrar como é doloroso para o ser humano se descobrir sexualmente, mais ainda quando o objeto de desejo é, irrevogavelmente, alguém do mesmo sangue. Como lidar com uma situação tão improvável assim? Corajoso roteiro que não nega os tormentos afetivos dos dois jovens que preferem viver juntos, fazem sexo constantemente e vivenciam o sentimento à flor da pele dentro da redoma de sua casa. Darren e Connor escondem-se da sociedade preconceituosa dentro do quarto, é lá que preferem viver suas carícias, seus sentimentos mais ardorosos e seus sonhos. Fora da intolerância do mundo externo, os jovens buscam o conforto mútuo, experimentam o que o coração anseia. E James Burkhammer aproveita-se da intimidade e talento de Ghuman Jr. com Marshall Allman para promover rápidas passagens de nudez, diálogos homoafetivos e nítida química sexual entre os dois. É compreensível entender que esse curta conseguiu ser premiado em diversos festivais na época de lançamento, é um trabalho autêntico que prioriza os sensos afetivos e carnais do público queer. É natural também que boa parcela da comunidade homossexual tenha mais interesse, por conta da plena identificação com as motivações do casal. Mas, a produção merece ser experimentada por todos, sem julgamentos ou intolerância. Ademais, é um exímio representante do universo sentimental onde prevalece uma icônica história de “amor impossível” que acaba por fascinar quem assiste. Por ser um curta, muito fica subtendido, mas é evidente que a intenção foi promover mesmo uma reflexão do que tornar todos os fatos abertos. Sem dúvida, uma abordagem instigante.

Starcrossed (EUA, 2005)
Direção de James Burkhammer
Roteiro de James Burkhammer
Com J.B. Ghuman Jr., Marshall Allman, John Wesley Shipp

Coração Louco

A relação de dependência afetiva é um contexto bastante evidente na sociedade. Se dentro desse cenário moderno de relações casuais, sem amarras e compromissos, existe a presença da liberdade individual — muitos ainda preferem manter um elo de exclusividade com o outro. Mas, o ser humano ainda peca pelo excesso, exagera ao se afeiçoar por um desconhecido que mal convive e acredita que encontrou a paixão ideal para toda a vida. Este filme discursa sobre a obsessão de um sentimento que leva à loucura, do desatino de uma pessoa que se ampara na personalidade de outra para sobreviver, do tesão-louco que faz com que alguém não sinta mais prazer na vida quando se ausenta do seu objeto de fetiche. Em Colega de Quarto existe o típico conflito adolescente, não muito diferente de outros filmes por aí do mesmo estilo, porém o argumento torna-se realista, até provocador. Sara (Minka Kelly) é a jovem estudante desejada por todos os homens, a típica mulher que atrai os olhares quando entra no ambiente. Sua sensualidade natural é tanta que capta atenção de sua colega de quarto da universidade, a misteriosa Rebecca (Leighton Meester), que logo se mostra uma eficiente amiga. Mas é óbvio que dessa pseudo-camaradagem e muita gentileza, esconde ali uma necessidade oculta. Logo no começo do filme, o diretor Christian E. Christiansen não atenua a tensão que se torna gradual — a tal colega demonstra ter intenções perversas, um grau preocupante de crueldade mórbida, além de certa fixação homoafetiva por Sara. Exercita-se, então, um jogo de segundas intenções com contornos de psicopatia que periga todos ao redor, inclusive o novo namorado de Sara, Stephen (Cam Gigandet). Como não desconfiar de alguém que age de má-fé? Há pessoas que não desconfiam das intenções dissimuladas de outros e passam a ser manipuladas.

Há duas problemáticas provocantes no discurso desta película. A primeira tange ao posicionamento da psicopatia. Rebecca representa bem a típica garota desequilibrada que faz tudo para manipular e obter seu foco de desejo. Cria situações, dissimula sua aparência frágil, mas esconde uma personalidade mórbida tão conhecida em outros filmes representativos de psicopatas. Os diálogos e as situações que a garota cria para sustentar sua obsessão refletem bem as características padrões e motivacionais de seres que mantêm esse tipo de comportamento. Rebecca oculta suas intenções para Sara, mas é percebida pelos outros — não só o namorado de Sara, como seus demais amigos, passam a perceber que, por trás da aparência angelical da garota, existe uma personalidade diabólica, inconstante e sem limites. O potencial de suspense se alia de sustos e diálogos tensos, além da câmera de Christiansen que focaliza nos olhares mórbidos e na face aterrorizante de Rebecca em quando revela ser uma pessoa de personalidade fria. A cena em que ela tem um orgasmo ao conversar, por telefone, com o ex-namorado de Sara, mostra bem o quão irracional pode ser uma pessoa quando nutre uma obsessão por outra. E é também um olhar sobre o lesbianismo que é uma característica provocadora do roteiro.

O filme segue nesse ritmo de suspense, mas aproveita-se do apreço libidinal do trio central. Obviamente, para tornar a malícia ainda mais transparente para o público. A segunda questão problemática tange à homoafetividade. Rebecca, além de apresentar comportamentos suspeitos, sente-se atraída sexualmente por Sara — o tom da homossexualidade revela-se nas sequências onde a psicótica jovem direciona sua libido feminina, repleta de desejos e vontades. Rebecca anseia possuir, afetivo e sexualmente, a colega Sara, para tanto, promove inúmeras situações manipulativas-maliciosas para garantir um contato mais próximo, talvez no intuito de tornar seu objeto de desejo mais íntimo do seu universo. Onde surgiu tanto desejo? Será que, além do obscuro comportamento doentio, há uma garota que reprimia sua opção sexual? O roteiro mostra essas intenções libidinais enquanto fomenta a tensão na psicose de Rebecca. A presença interpretativa de Minka Kelly, que representa muito bem o papel de uma garota responsável e delicada, é o contraste perfeito para a dualidade de Leighton Meester — essa empresta seus olhares, os tons e trejeitos, típicos de uma fêmea perversa e no cio, a ponto de devorar sua presa! O raso roteiro, apesar de delinear muito bem situações juvenis, peca por não aproveitar o romance heterossexual de Sara com Stephen, mas a presença de Caiam Gigandet é proposital para atrair a parcela feminina do público que vai atrás de sensualidade masculina, visto que este ator transparece boa virilidade em cena. É um filme que quis criar uma situação de homoafetividade feminina com dose cavalar de psicopatia. Não é excepcional, mas vale um orgasmo.

The Roommate (EUA, 2011)
Direção de Christian E. Christiansen
Roteiro de Sonny Mallhi
Com Leighton Meester, Minka Kelly, Cam Gigandet, Alyson Michalka

Intimidades do amor

A superficialidade ou mesmo estereotipação do universo homossexual são habituais em diversos discursos cinematográficos da esfera LGBT. O cinema queer opta por escrever linhas narrativas onde homens apenas executem sua libido, reflexo da testosterona irrefreável. As lentes recorrem aos ângulos que traçam tramas onde o sexo parece ser a única preocupação no território gay — mas o que falar da afetividade que é uma característica sempre a ser discutida? O que torna De Repente, Califórnia um filme único é justamente no seu contorno mais visível: a homoafetividade sem nenhuma afetação. Eleito o melhor filme pelo público no Festival Mix Brasil de Cinema da Diversidade Sexual de 2007, a película apenas quer ser natural, pois centraliza a problemática que acaba por ser a mais tenebrosa da humanidade: a dificuldade em viver um amor de verdade, neste caso o romance se restringe ao senso homossexual. Jonah Markowitz dirige e roteiriza sua idealização de “amor impossível” entre dois homens, como poucos filmes já mostraram. A trama oculta todos os clichês comuns de filmes gays, ausenta-se os comportamentos afetados ao colocar o confronto amoroso — e também sexual — de dois homens que apenas sentem-se atraídos.

A exploração afetiva é um critério primordial neste filme. Mas não deixa de ser explorada também a dimensão libidinosa, pois os dois homens envolvem-se nesse senso de atração. Existe a tensão do desejo da carne, existe o afeto íntimo. E Markowitz prefere tratar seus dois amantes como homens-másculos, sem as máscaras de estereótipos que condicionam gays a apenas representações afetadas — aqui vemos gays que praticam esportes habituais ao “universo hetero”, o surf. Aqui há homens que são enérgicos, de comportamento que expressa bem o grau de virilidade. Zach (Trevor Wright) é um garoto que tem que cuidar de uma família problemática. Administra as ausências maternas da irmã Jeanne (Tina Holmes), jovem negligente que prefere priorizar seus casos amorosos a cuidar do filho, e cuida do sobrinho Cody que o enxerga como um pai verdadeiro. Em toda sua vida, sempre se relacionou com garotas, sendo o último namoro ainda bastante marcante. Quando conhece Shaun (Brad Rowe), um escritor que volta para casa dos pais para escrever o próximo livro, é que seu destino sofre a catarse. Ambos tornam-se companheiros de surf, amizade crescente e um envolvimento revelador. Como conter os desejos que uma vida nunca apresentou? A amizade de Zach com Shaun gradua-se numa intimidade que nem mesmo eles entendem, é quando a libido é despertada por algo maior: um sentimento capaz de mudar tudo e a todos. A expressão de sua homossexualidade se torna o catalisador de todas as suas transformações. Zach percebe que o universo masculino é atraente e provoca variantes desejos.

O titulo original do filme tem muito mais sentido — “Shelter” significa abrigo. E é justamente esse sentido: Zach encontra em Shaun um conforto, um alicerce, um suporte. O amor é um abrigo que o acolhe, a proteção para todas suas dores humanas. É possível conter um desejo que parece transbordar de puro sentimento? Quando as sensações se confundem é que o ser humano mais vive em conflito — como representante militante sobre universo homossexual, é óbvio que este filme trata também das dificuldades de um homem aceitar-se na condição de homossexual, sem afetação alguma. Zach tem que enfrentar não só sua família, mas seu próprio interior que despreza esse sentimento que nunca havia explorado. Interessante que o roteiro é cuidadoso em mostrar como se fundamenta, e até inevitável é, a atração entre os dois — sequências de diálogos íntimos que contornam os olhares, a exploração da convivência, para depois externar a libido que é incontrolável. A primeira vez que ambos se beijam é natural, pura ternura, mas demonstra bem a química de desejo que esses dois homens vivenciam. A partir disso, inicia-se um discurso onde Zach tem que lutar contra privações, visto que há não só um desejo, mas um amor que é capaz de elevar suas percepções para um novo mundo. E o filme pontua a maneira como, quase sempre, o homossexual acaba por se auto-flagelar; a se punir por algo que sente, à beira do medo de ser descoberto pela sociedade predatória. Mas, como reprimir um tesão que nunca atenua? E como não se anular pelos preconceitos externos?

Ao contrário do que se espera, o filme não se concentra em diversas sequências de sexo. Porém, as que existem provocam, por conta do realismo e da forte propulsão maliciosa dois atores em cena. Tanto Trevor Wright como Brad Rowe não parecem tímidos nos diálogos íntimos, em beijos emotivos ou mesmo na cena onde transam pela primeira vez, momento que evidencia bem a tensão selvagem orgástica dos dois. Não é apelativo, mas é sensual. O que torna esse filme ainda mais justo com o universo homossexual é que ele lida bem com as dores, mas também com os prazeres adquiridos por essa sociedade homossexual que enfrenta o preconceito social, a aceitação íntima também. A direção de Jonah Markowitz prefere que os atores direcionem suas cenas, sem nenhuma ousadia estética, somente a da excelente harmonia interpretativa. Tanto os dois protagonistas como o restante do elenco pontuam muito bem as sensações, percepções e contextos humanos da diversidade sexual. A questão da homofobia é apresentada também aqui. Mais que uma discussão sobre problemáticas da opção sexual, é uma trama que aponta como é necessário escolhas — afinal, através delas, que destinos podem ser transformados a todo instante. Eis um exercício cinematográfico que desmistifica a concepção de homossexualidade como algo só trágico, afetado ou depressivo. Um filme sensível, íntegro e autêntico.

Shelter (EUA, 2007)
Direção de Jonah Markowitz
Roteiro de Jonah Markowitz
Com Trevor Wright, Brad Rowe, Tina Holmes, Jackson Wurth

Amor além da vida?

A dolorosa realidade, o tormento de não poder expressar os sentimentos verdadeiros, o desejo que deve ser ocultado diante de uma sociedade que julga. Como lidar com uma vida firmada nas aparências, onde as vontades são substituídas por máscaras — afinal, ainda há preconceito social perante aos homossexuais, algo que ainda perdura e prevalece no terreno humano. Sob essa perspectiva, em Contra Corrente, o diretor Javier Fuentes-León, conduz sua delicada e sensível abordagem dentro de uma vila de pescadores no Peru. É lá, dentro deste meio rígido de tradições culturais e costumes que beiram ao conservadorismo, que se encontra Miguel (Cristian Mercado), à espera de seu primeiro filho, num casamento acomodado com Mariela (Tatiana Astengo). Secretamente, às escondidas de todos, o pescador mantém um tórrido caso de amor com um pintor forasteiro que se muda para o vilarejo, Santiago (Manolo Cardona). Como manter esse caso secreto, ainda que aceso, diante de uma paixão que teima não se calar? O que parecia um filme que explora um caso sexual de um homem com outro, em meio ao medo de ser descoberto por todos, ganha uma nova visão quando o elemento sobrenatural é inserido na trama — um grave acidente mata Santiago no mar. É então que Miguel, constantemente, passa a receber o espírito do seu amante Santiago que, de alguma maneira, não consegue se libertar do plano terreno.

O filme centraliza sua narrativa, inicialmente, no envolvimento amoroso-sexual de Miguel com seu amante Santiago — a disposição homoafetiva é bem delineada logo no início do filme, pois coloca o casal em constantes encontros casuais, como forma de apresentar o quão passional e intenso é essa relação. O diretor Fuentes Léon questiona a maneira como existe a dificuldade de um homem se aceitar, sexual e plenamente como é. Miguel é o indivíduo que vive um casamento de aparência; não consegue se livrar dos condicionamentos padrões de uma sociedade que costuma "punir" e não enxerga com bons olhos a relação de alguém com outro do mesmo sexo. Ainda mais numa vila de pescadores, como deixa claro o roteiro, onde o preconceito existe e não só os personagens masculinos — como as mulheres também — exibem-se em suas indisposições à homossexualidade. Após a morte por afogamento de Santiago, o filme exerce um tom mais romântico, e até lúdico, pois foca numa relação homoafetiva despropositada de estereótipos, quando os dois passam a conviver de maneira mais livre — já que Santiago é um espírito e não pode ser visto por ninguém.

A forte presença sexual dos dois atores em cena permite uma atmosfera sensual, mas o filme é, em seu objetivo central, uma trama de amor homossexual. Cristian Mercado eleva com precisão a sua confusão em não saber lidar com os ímpetos do desejo por outro homem, bem como em ver seus anseios enrustidos diante de uma sociedade que retrai tudo que ele quer ser. Há uma química bem convincente de Mercado com Manolo Cardona — evidente nas cenas de nudez; na sequência de sexo ou nos beijos afetivos. Por mais que o diretor invista nos momentos homoafetivos, na crescente ebulição carnal dos personagens, o filme não esconde seu verniz romântico — é uma trama que busca entender os caminhos tortuosos de dois homens que apenas querem se amar, sem esconder seus sentimentos. Não há erotismo barato, mas sim um roteiro que prioriza as essências de cada personagem, é tudo muito bem explorado. A atriz Tatiana Astengo também se destaca, pela força emotiva de sua personagem, como Mariela, que representa a mulher que tem que lidar com as descobertas da sexualidade do marido.

A força dos diálogos que propõe a reflexão sobre os sentidos humanos; das escolhas diante das opções sexuais e da necessidade de priorizar o sentimento — são pontuados pelos personagens. Mais ainda por Santiago, já que ele provoca, não só sexualmente, a necessidade em Miguel saber lidar com suas escolhas e reconhecer seus próprios sentidos. Saber o que deseja, conhecer o amor, escolher seu destino — jamais viver enrustido! O diretor valoriza esses sensos. A cena onde os dois amantes dialogam, na entrada de uma caverna na praia, para logo depois transarem na areia, é cuidadosa, de extrema beleza emocional. A transparência de sentimentos é priorizada neste filme, Javier Fuentes-León não esconde que lida com seus personagens com um olhar mais intimista, talvez por isso o filme seja construído com inúmeros closes-up que aproximam Miguel e Santiago do público. A fotografia exibe tons ensolarados que privilegia a exuberância da beleza natural da costa peruana onde as cenas foram rodadas. Boa trilha sonora também de Selma Mutal Vermeulen. Premiado em importantes festivais de cinema — ganhou o prêmio popular em Sundance —, inclusive o de Melhor Longa no "18º Festival Mix Brasil de Cinema da Diversidade Sexual" em São Paulo, é um trabalho atual representativo que deve ser apreciado.

Contracorriente (Peru, 2009)
Direção de Javiér Fuentes-León
Roteiro de Javiér Fuentes-León
Com Cristian Mercado, Manolo Cardona, Tatiana Astengo

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