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Sensualidade clássica?


O tesão cria dependência? Dita regras e direciona o modo de vida? Como entender o sexo do ponto de vista psicótico? O que caracteriza o desejo violento? O ser humano consegue ser ardiloso no que tange as suas ânsias libidinais. Algumas respostas dessas indagações podem ser executadas através do clássico e polêmico livro de Vladimir Nabokov adaptado por Stanley Kubrick em 1962. A história de provocação sensual, indícios marcantes de conflitos sentimentais e carência afetiva, tornou-se sinônimo de perversão quando potencializou maior provocação ao abordar questões como pedofilia e transgressão sexual. Com um material tão denso e de temática delicada, Kubrick praticamente teve problemas na condução — o roteiro foi reescrito para se enquadrar na censura e nos padrões aceitáveis dos "códigos morais hollywoodianos", fundamentando a sutileza no corpo erótico tão condicionado no cerne literário. Lolita mostra a trajetória de um professor europeu recém chegado aos Estados Unidos Humbert Humbert (James Mason) que se instala num quarto alugado na mansão de uma viúva solitária, Charlotte (Shelley Winters). Ao conhecer a filha dela, Lolita (Sue Lyon), de 15 anos de idade, o homem fica fascinado. É então que, no intuito de aproximar-se mais da garota, Humbert casa-se com Charlotte e, assim, inicia um envolvimento que acaba por providenciar inúmeras problemáticas na família. Nota-se aí o apelo para a obsessão, o grau de distúrbios emocionais, já que o professor passa a nutrir um sentimento intenso e destrutivo, além de sentir-se atraído sexualmente pela jovem.

Inevitavelmente, diante de tanta censura e imposição por parte dos estúdios, Kubrick realiza um filme bastante polido e de grande formalidade. Prima mais pelo tom psicológico. Não há o verniz erótico, ao invés disso, posicionamentos sexuais são subtendidos constantemente e, ainda que atenuados, o público percebe este teor na narrativa. Através de uma metragem longa (o filme tem 152 minutos), o livro consegue ser bem adaptado, porém a forte carga sexual e as inúmeras insinuações ou mesmo a exploração carnal tão bem arquitetada por Nabokov em seu livro é extremamente suave durante a projeção.

Veemente, nota-se que a abordagem “imoral” do professor com a ninfeta é modificada — se no livro Lolita tinha 12 anos, no filme temos uma “quase-mulher” de 15 anos. Sue Lyon personifica essa garota com leve malícia, poucos diálogos que impõe sua personalidade dúbia e que dificilmente convence como algo mais libidinal. Porém, Kubrick investe num certo cinismo, ironia e sutilezas sensuais veladas, tentando burlar o sistema, captando bem a atmosfera do livro e coloca a jovem como um elemento de fascínio e excitação por parte de Humbert. James Mason convence como este homem que espreita, perde o tino e se predestina por conta do tesão que o desorganiza. Ainda que bem sutil, nitidamente o filme mostra esse elo de aproximação entre ambos e como o professor deseja até a morte de sua esposa para, assim, ficar com sua filha virginal.

Por tratar-se de um tema ainda de apelo perceptivo à propulsão sexual, o filme ainda é um bom elemento de reflexão. Porém, é visível que diversos fatores foram atenuados para uma modulação mais dramática e menos “perversa”. Ainda que a Lolita tenha um aspecto inocente, mas de comportamentos avançados, personalidade ativa e certa aparência transgressiva — o roteiro também, inclusive, a coloca como um papel-título de mulher feminista, ditando regras e fugindo de condicionamentos do machismo social —, há uma leveza no que contorna a relação dela com o professor. Há poucos diálogos que nivelam a aparência de predisposição ao contato sexual, ao ato, à prática de exercícios físicos. Tudo é subtendido demais, inclusive as poucas sequências que pontuam a aproximação íntima de ambos aparenta um cuidado, o medo de “mostrar o indevido”. Nota-se que Kubrick teve o máximo de receio em mostrar o excesso, daí a falta de “atmosfera erotizada” durante toda projeção.

Ao reduzir a força maliciosa, o filme prefere investir na forma obsessiva da personalidade de Humbert por Lolita — James Mason, por vezes, aparenta uma atuação frágil, mas mantém uma química notável com Sue Lyon. O público imagina que há uma relação mais que afetiva, na possibilidade de sexo, já que o teor polido do roteiro oculta até mesmo um beijo explícito de ambos, porém a forte carga emotiva e a dimensão dramática da articulação desses dois em cena geram um forte impacto, satisfaz, envolve. A cena em que ele pinta as unhas dela é o exemplo perfeito de representação do fetichismo: o tesão pelos pés femininos. Se o desejo fica na entrelinha, a afetividade não. E a possessividade, o ciúme e o senso de paranoia invadem o universo quando Humbert passa a querer controlar todos os atos de “sua” Lolita. Por vezes, parece mais que há uma relação paternalista, já que ele não externa tanto a motivação carnal que o livro tanto exibia.

Ademais, há a forma enxuta que Kubrick lida também com personagens secundários: a única que exerce mais uma permissividade ou mesmo transparência libidinal é Shelley Winters que dimensiona uma mulher carente e ansiosa por uma relação mais carnal com Humbert, no primeiro ato do filme. Petter Sellers faz uma participação também notável como um homem de aspecto misterioso e personalidade complexa: Clare Quilty é um roteirista de Hollywood que demonstra certo interesse de caráter sexual com Lolita, mas também é o personagem mais "retalhado" do filme — há indícios de uma homossexualidade, mas o roteiro torna velados esses contextos psicológico-comportamentais dele. O público percebe em certos diálogos que o personagem demonstra certas perversões sexuais e interesses mais transgressivos. 

Como exercício de drama de uma história fadada ao “trágico romance”, aqui temos um belíssimo trabalho de roteiro e da direção de Stanley Kubrick. Se o público não tem a ânsia de absorver uma obra de cunho altamente erótico — e abrindo mão da posição liberal, libertina e transgressora idealizada por Vladimir Nabokov —, o resultado é bem acima da média. É um filme bastante interessante, sem ser vulgar e com atuações marcantes, principalmente de Sue Lyon que mantém uma atuação natural e precisa, diferente do restante do elenco que, invariavelmente, ainda que coesos, demonstram leve teatralidade no desempenho. Sob uma fotografia luminosa em preto e branco, Kubrick firma seu exercício como condutor, ainda que restrito às imposições, no traquejo perfeito por uma trama que mostra bem o desespero de desejar humanístico de amar alguém e enlouquecer por conta desse ímpeto. 


Lolita (1962, EUA)
Direção de Stanley Kubrick
Roteiro de Stanley Kubrick e Vladimir Nabokov, baseado no livro de Nabokov
Com Shelley Winters, James Mason, Sue Lyon, Peter Sellers  

Estranhos desejos

Diversos filmes colocam a prática do voyeurismo em voga, ao traçar na narrativa a maneira como certos personagens buscam o prazer sexual através do interesse e da observação de outras pessoas. Olhar do Desejo é um pequeno trabalho do diretor David Mackenzie — também já havia realizado um filme sobre a obsessão sexual, “Paixão sem Limites” — que aqui coloca uma trama não tão concentrada de malícia ou polêmica dramática, ainda que com um senso mais transgressivo sob o verniz da leveza juvenil. Na verdade, esta produção baseia-se no livro Peter Jink e tem elementos de suspense, drama e certo humor negro. Hallam Foe (Jamie Bell) representa esse senso voyeur, é um adolescente que se torna agressivo e intolerante com todo mundo após o falecimento da mãe. Indisposto com a situação, vive em conflito e distanciamento com o pai, além de acreditar que sua mãe, na realidade, foi assassinada por sua madrasta Verety (Claire Forlani), ao invés de ter se afogado após uma overdose de comprimidos pra dormir. Na antiga e imponente residência escocesa onde vive num seio de constante conflito familiar, Hallam prefere se ausentar e passa horas dentro de seu mundo particular, uma casa na árvore. É lá que seu hábito preferido é transposto ao público: espionar com seus binóculos a vida alheia. Nota-se que existe neste jovem críticos conflitos íntimos, insatisfações e nítidas inquietações psicológicas.

Logo no princípio do filme fica evidente que Hallam não tem uma necessidade/satisfação sexual através do voyeurismo, existe ali uma maneira própria de estabelecer um contato de seu mundo com os outros. Olhar a vida alheia através dos binóculos é um conforto pra ele. Quando cresce a paranóia de que sua mãe foi vítima de um crime calculado, o garoto entra em conflito maior com seu pai e madrasta — é então que o filme assume um lado mais perverso ao incutir a dúvida na cabeça do público quando Verety dialoga de maneira dúbia e provoca a dúvida se, de fato, executou o crime que tanto inquieta o garoto. E logo a provocação da sexualidade invade a tela: numa cena de discussão, Hallam é assediado pela madrasta que o bulina, excitando-o. Ambos transam e logo a culpa invade o coração do jovem que decide sair de casa e parte para Edimburgo, em busca de uma vida mais pacífica. É então que o roteiro mostra seu objetivo: por ironia do destino ou não, uma jovem transeunte de forte semelhança física com sua mãe intriga Hallam.

Partimos para um contorno narrativo mais misterioso ao colocar Kate (Sophia Myles) como alvo de fascínio deste jovem. Hallam decide seguir todos os passos da garota, descobre onde ela trabalha e lá consegue um emprego como auxiliar de cozinha no hotel onde ela atua profissionalmente, eis a forma de tornar-se próximo dessa mulher que o perturba e causa inquietação — o filme parte para o aspecto do voyeurismo ao colocar Hallam na cola dessa mulher, escalando prédios da cidade para espioná-la, precrustando cada passo íntimo, inclusive observando-a da janela de fora de sua casa. Indagações são plausíveis: existe ali uma ligação maior que admiração? Seria uma espécie de “Complexo de Édipo”? A indução da sensualidade é caracterizada mais quando esse estranho garoto passa a ter ânsia em consumir cada átomo da presença da mulher. Por sua vez, a maneira como Hallam depende dos seus binóculos demonstra uma forma de dependência, talvez uma espécie de fuga para lidar com tamanha solidão, carência e morte/perda de sua mãe. Vemo-lo observando também as intimidades sexuais de Kate, suas transas noturnas selvagens com um homem casado (Jamie Sives); a curiosidade como um ponto de pecado. Hallam imerge num total interesse de desvendar os segredos libidinais dessa mulher que se torna sua obsessão de vida.

Ao invés de assumir um lado de thriller, por conta do mistério que envolve a morte da mãe de Hallam, David Mackenzie prefere tornar lúcida a relação que envolve esse garoto com seu objeto de desejo. No segundo ato da narrativa, a noção de “romance” é externado, ainda mais por conta da boa química interpretativa providenciada por Jamie Bell e Sophia Myles — além de aprender a trabalhar o luto e superar certos traumas e nítidas fragilidades comportamentais, Hallam percebe que sua relação com Kate é muito mais emocional e afetiva. E é justamente esse provável envolvimento desses dois personagens que reveste a trama com um senso mais dramático também. Ao fundo, uma trilha sonora elétrica com canções de Franz Ferdinand e do Sons And Daughters criam uma atmosfera bem juvenil, mas dinâmica, afinal não é um filme de clima mais denso. Os aspectos mais simbólicos do filme é destacar a juventude tão carente, propensa ao desejo, em busca de atenção e afeto para sobreviver. A lamentar, somente, por o filme ser curto e não aprofundar-se mais nas questões psicológicas de Hallam — ainda assim, interessante ver Bell como um garoto com suas inseguranças e no limite da sutileza da sensualidade, o típico garoto com os hormônios à flor da pele.

Hallam Foe (EUA, 2007)
Direção de David Mackenzie
Roteiro de Ed Whitmore E David Mackenzie, Baseado Em Livro De Peter Jinks
Com Jamie Bell, Sophia Myles, Jamie Sives, Claire Forlani

Tórrido Desejo

No fim da década de 1960, o cantor Serge Gainsgourg já era popular por conta de seu vício em álcool, cigarros e constante polêmica em relação a uma vida caracterizada por escândalos sexuais envolvendo orgias e casos tórridos com mulheres. Era perceptível sua vulnerabilidade em dois quesitos — a paixão pela música e o vício no sexo feminino. O apelo libidinal em volta de sua figura na mídia foi potencializada quando casou-se com a então modelo inglesa Jane Birkin (através desse envolvimento nasceu Charlotte Gainsbourg), ambos passaram a produzir diversos discos juntos, além da famosa canção erótica “Je t'aime, moi non plus” — tornou-se febre e encabeçou o topo de paradas de sucessos em rádios no mundo. A mídia mediava essa relação dos dois e creditava como símbolo de explosão do sexo e sentimento. Durante o período que foram casados, justamente esse apelo carnal era algo que mais a mídia trazia à tona. Diversos jornais e revistas faziam questão de explorar o lado mais quente, a prova de que ali existia um envolvimento de proporção sexual sem precedentes — existia a lenda que Gainsbourg tinha um vício imoderado por sexo e que a compulsão era também um problema para o matrimônio. Paralelo a isso, o ator americano Joe Dallesandro era considerado o modelo sexual masculino mais proeminente de vários filmes independentes americanos do século XX, um símbolo fetichista da subcultura gay. Envolveu-se com trabalhos fotográficos de erotismo conceitual e foi muso/galã de Andy Warhol em várias produções dele.

O soft-porn Paixão Selvagem foi uma produção idealizada, musicada e dirigida por Gainsbourg e que gerou bastante polêmica no terreno francês por conta de suas intenções maliciosas, sem tabus; um exercício de sexualidade e desejos obscuros. A película trouxe Jane Birkin e Joe Dallessandro como personificações da sensualidade hormonal, bem condizente com aquele momento onde essas duas figuras eram símbolos perfeitos da sedução na mídia. No filme, Dallessandro é Krassky, um caminhoneiro homossexual que trabalha com seu namorado transportando lixo, Padovan (Hugues Quester). O que parecia uma relação pacífica e também dotada de tédio, torna-se um senso conflituoso quando Krassky depara-se com uma garçonete andrógina numa beira de estrada, Johnny (Birkin). A aparência um tanto masculinizada, misteriosa e tímida da mulher, faz com que Krassky demonstre certo fascínio e admiração por ela, além de um gradual tesão que faz com que seu relacionamento gay gere um curto-circuito. O roteiro não tem receios e é objetivo em logo escancarar esse interesse mútuo de um homossexual por uma mulher de corpo esguio, quase sem seios, cabelos curtos e sem contornos femininos.

O filme é interessante em demonstrar esse calor inicial, já que a primeira metade centra-se mais nas percepções de cada um, para depois promover um exercício mais carnal e de sexualidade violenta na relação tensa que vai desabrochar. Krassky claramente sente desejo por Johhny por conta de sua aparência mais associada à masculinidade — porém, ao passo que o roteiro tende a criar um envolvimento mais íntimo e emocional entre ambos, como na bela seqüência que os dois dançam e se beijam demoradamente ao som de “Je t'aime, moi non plus”, o público percebe que ali possa existir algo que não se centra, apenas, na modulação de um envolvimento carnal. O roteiro traça a gradual sedução do casal desde o primeiro contato até a primeira transa, quando fica evidente que Krassky só conseguirá sentir-se excitado com o sexo anal — obviamente, por ser gay ativo, não consegue sentir nenhum desejo pelo corpo feminino, só tendo prazer através dessa prática sexual, tendo, no caso, a fêmea ali despida e entregue a ele de costas. Daí surge boa parte do desconforto que a obra transmite ao espectador, além da polêmica subversiva por adentrar a um sexo mais selvagem e até masoquista do casal.

Indubitavelmente, o filme não é um estudo sobre um romance de um homossexual com uma hétero, quem espera aqui um traço profundo de envolvimento mais poético e sensível pode se frustrar. A relação de dos dois é de uma frieza carnal absurda, selvagem e ríspida. Muitos questionaram a intenção de Gainsbourg e sua provável falta de tato na maneira como aborda o sexo e os diálogos dos dois, mas o cineasta decide aqui investigar a problemática situação de um envolvimento sexual de duas pessoas tão opostas e de perspectivas divergentes, mas em busca de um orgasmo mútuo. A dificuldade de um homossexual sentir prazer através do sexo com uma mulher, conceito tão abordado já em outros filmes, aqui ganha um contorno mais apelativo já que o roteiro prefere permanecer na fissura do sexo anal — diversas cenas onde Krassky tenta sodomizar Johnny em motéis precários, num processo doloroso já que a moça sofre dores diversas e os gritos são constantes, impossibilitando a consumação total e fazendo com que ambos sejam, constantemente, expulsos dos locais por conta dos “barulhos e gritos” que fazem. E, ironicamente, sentimos que a barreira para o casal viabilizar o amor se condiciona neste aprendizado de coito tão difícil. De fato, é um filme que trata o prazer de maneira mais árdua, cruel e brutal; talvez por isso muitos considerassem a obra um tanto doentia. Não há um tom suave, nem muito menos delicado na aproximação desses amantes.

Com uma premissa tão transgressora e marginal, além de um senso de estética meio "suja" e underground, câmera na mão e cenas onde os atores parecem improvisar — já que os diálogos são fluídos e carregados de uma naturalidade informal —, este filme discute muito bem os traços dos tabus da sexualidade colocando um casal tão improvável numa relação provocativa. Há certos diálogos que beiram à vulgaridade por conta da provocação articulada, mas não é algo que proporcione uma repulsa. Ademais, há ainda espaço para mostrar questões que envolvem a homofobia — o namorado enciumado de Krassky sofre violência física por parte de alguns moradores da localidade — e indagações sobre o papel da submissão feminina. Fica visível que Johnny se submete a uma transa desagradável, a típica demonstração de mulher que aceita servir a um homem egoísta — já que este só quer o sexo dessa forma, sem se preocupar com sua parceira. Mas, no fim, o que fica mais nítido é que não há como sustentar uma relação se o sexo não for tão primário e em sintonia, além de que o sentimento deve ser privilegiado. O filme é objetivo, sem muitos adornos tanto na concepção fotográfica quanto no aspecto do desenvolvimento narrativo, mas é eficaz no que pretende: colocar uma relação tão rude e desprovida de delicadeza. O sexo aqui é um elemento tão necessário, mas o que deixa rastros é como a humanidade ainda sofre pela carência. Filme plenamente controverso, ousado e astuto.

Je t'aime, moi non plus ( FRA, 1976)
Direção de Serge Gainsbourg
Roteiro de Serge Gainsbourg
Com Jane Birkin, Joe Dallesandro, Hugues Quester e Reinhard Kolldehoff

Sexo sem compromisso

Por que o sexo casual é algo tão evidente na sociedade atual? O que torna o sexo mais prazeroso entre seres humanos desconhecidos? É compreensível a necessidade de a cinematografia tentar desvendar as situações que envolvem as relações da humanidade através da sexualidade, do envolvimento casual sem amarras e do instinto libidinal que faz com que a concepção de sentimento seja algo secundário. Várias abordagens já souberam explorar posicionamentos sobre relações que se desenvolvem através de transas aparentemente efêmeras ou mesmo o “sexo de uma noite” que acaba por provocar um sentimento gradual afetando essa relação que demonstrava se restringir ao coito, ao prazer imoderado. Baseado no “Entre Sabanas” do mesmo diretor colombiano Gustavo Nieto Roa, Entre Lençóis é uma tentativa frustrada de mostrar o encontro de dois indivíduos em busca de sexo num motel qualquer. Este frágil longa-metragem tem semelhanças nítidas com duas produções estrangeiras, “Um Quarto em Roma” de Julio Medem (que coloca duas mulheres lésbicas perdidamente fascinadas pelo sexo num quarto luxuoso) e “Na Cama”, produção chilena de Matias Bize. Reynaldo Gianecchini e Paola Oliveira personificam o típico casal que se conhece por acaso numa noite qualquer — uma boate no coração boêmio do Rio de Janeiro —, e logo partem para um encontro íntimo num motel em busca de sexo. E é dentro desse ambiente que a narrativa se desenvolve.

Todo articulado dentro do mesmo local, o filme mostra o encontro explosivo da libido deste casal. Roberto e Paula, ambos comprometidos e com vidas tão díspares. Ele, recém abalado por uma relação problemática com a esposa que vive há três anos. Ela, prestes a se casar com o homem aparentemente ideal. Logo no início, é visível a intenção do roteiro Renê Belmonte (Se Eu Fosse Você, Sexo com Amor?): apresentar essa condição sexual de ambos. Hormônios em ebulição, beijos calorosos, logo uma transa dotada de sensualidade, o casal não se preocupa em esconder a intenção maliciosa nos primeiros minutos do filme. Talvez aí resida o apelo da produção, já que traz os globais Reynaldo Gianecchini e Paola Oliveira despidos e em apelos mais libidinais, corpos nus e momentos onde a câmera pareça só se preocupar em destacar cada detalhe da beleza física desses dois atores.

Logo após o frisson inicial, o roteiro parte para a “busca da intimidade verborrágica” do casal. Concentram-se aí as fragilidades expostas, os anseios, cada um dialogando sobre suas vidas, é a forma de apresentar um pouco desses personagens ao público. Percebe-se que Roberto e Paula sustentam uma vida de insatisfações e logo demonstram que o ardor carnal é apenas o ponto de partida para um divã entre quatro paredes, sob as fronhas, dentro do quarto que é o terreno onde acabam por se descobrir e se relacionar. Mas, não pense que, ainda que com uma intenção interessante, o filme saiba se sustentar. Pelo contrário, após os vinte minutos iniciais, promovem-se aí diálogos bastante medíocres e que — além de não causar reflexões maiores ou que se aprofunde mais no caráter/personalidade de cada um deles — soam artificiais ao extremo. Visivelmente, o roteiro peca pelo excesso de tons exagerados e até na maneira um tanto precipitada que coloca o casal do sexo-tórrido ao devaneio-amoroso.

Ironicamente, faltam sensualidade e ousadia na estética da sexualidade imagética do filme. Ainda que os atores apareçam despidos e as cenas de beijo e transas sejam efetivas, visivelmente a direção de Gustavo Nieto Roa aborrece o público que procura algo mais fetichista, agressivo e que tenha um tom mais realista. Ora, se os atores aceitam expor o corpo de forma tão intensa e até apelativa, por que se privar em mostrar algo mais provocativo visualmente? A câmera percorre, mas aparenta receios. De tudo isso, destaca-se as discussões sobre carências eternas da humanidade, a forma como todo ser humano idealiza no desconhecido não só o sexo mais prazeroso como o sentimento mais perfeito, além de indagações sobre questões que envolvem fidelidade e sensos de sinceridade e sentidos da vida — mas esses elementos não tornam o aspecto cênico mais cativante.

A direção é apática e não tem coragem em expor o casal em algo mais libidinal, ou seja, falta “coreografia” nas cenas de sexo, tudo acaba sendo bem falso, sem pimenta e recatado. A sensação é de perceber cenas de sexo mecânicas, ensaiadas. Você enxerga que os atores ali se movimentam sem uma liberdade mais instintiva sexualmente. Há sequências isoladas que poderiam funcionar, mas são intragáveis, como, por exemplo, o momento onde Paula decide fazer um strip-tease pra Roberto — a intenção de proporcionar uma sensualidade escorre pelo ralo, o tom de humor é visível e a cena gera um desconforto. Até a primeira transa dos dois fragiliza mais ainda a noção de sensualidade, portanto a película nem deve ser classificada como soft-porn, seria mais fácil dizer que é um “filme assexuado”, sem erotismo.

A sensação é que o roteiro também é uma barreira, já que os diálogos não são equilibrados e enfraquecem o interesse do público da metade ao final. Há cenas que ambos os atores convencem, há uma química bem concreta, mas a artificialidade do roteiro faz com que o resultado seja bem comprometedor. Diálogos pobres, frases de efeito e excessos de closes nos atores são artifícios constantes. Problemas de direção são somados a uma péssima edição, fotografia e uma trilha sonora que manifesta um tom amador a tudo. O aspecto televisivo é visível. Infelizmente, o que poderia render uma jornada ao microcosmo da sexualidade, termina sendo um filme perecível e constrangedor.

Entre Lençóis (BRA, 2009)
Direção de Gustavo Nieto Roa
Roteiro de Renê Belmonte
Com Reynaldo Gianecchini, Paola Oliveira

Feminismo com libido

Roger Vadim se tornou popular por conta da sensualidade que exibia em seus filmes na década de 1950 — em especial por ter tornado a figura da então jovem Brigitte Bardot em alvo de tesão-cinéfilo. Para quem desconhece, o cineasta francês se casou com a atriz com quem tinha uma relação bem intensa e fascínio imoderado, talvez por isso seus trabalhos fossem reflexos dessa libido tão notória. Após o seu primeiro filme de grande expressão, "E Deus Criou a Mulher (1956)", Vadim tornou a colocar a figura de Bardot como centro da sexualidade, porém sem o mesmo brilho malicioso. Ao Cair da Noite não teve problemas de proibição pela Legião da Decência nos Estados Unidos, nem mesmo provocou um certo frisson polêmico no seu lançamento há 50 anos, mas tinha como princípio a boa discussão sobre o papel feminino e a liberação do desejo. A produção franca-italiana foi toda filmada em Torremolinos e Málaga, terras da Espanha que trazem todo um tom solar e de temperatura quente ao espectador — objetivamente, Vadim concentra as cores terrenas de um local tão condicionado no calor para promover seu discurso. E é basicamente sob o sol intenso que conferimos a beleza sensual de Bardot no auge da beleza. A trama baseia-se no livro de Albert Vidalie, sem grandes princípios o público logo conhece Úrsula (Bardot), jovem que acaba de sair do convento e vai viver numa vila campesina com a tia que vive sob o domínio autoritário do marido. É lá que ela se depara com certos conflitos que irão modificar toda sua vida — é também o elemento que o roteiro introduz para o debate da sexualidade. Úrsula conhece o estudante Lamberto (Stephen Boyd), sente-se atraída e logo se apaixona — é este homem que preserva a noção de desejo/conflito nas mulheres no filme. Após manter relações sexuais secretas com a tia de Úrsula (Alida Valli), o rapaz é descoberto no ato de infidelidade e assassina o marido dela (José Nieto) e parte numa fuga ansiosa com Úrsula que decide proteger seu objeto de tesão e sentimento.

Interessante que, apesar de não ter uma forte concentração de sensualidade como em outros filmes de Bardot — Ao Cair da Noite, em seus 93 minutos de projeção, preserva certas sutilezas, malícias e intenções libidinosas. A maneira como a personagem de Bardot se configura já demonstra a carga de sexualidade que capta atenção do público. A atmosfera tem uma tensão sexual presente, ainda mais nas cenas onde a câmera de Vadim esmiúça as pernas à mostra de Úrsula, seus banhos erotizados, posições extravagantes e poucas roupas que exploram bem o corpo estonteante da atriz em cena. É a intenção de acentuar sempre a libido em cada take. E Brigitte Bardot não tinha receio em caricaturar suas caras, bocas e gestos para demonstrar o tesão todo latente direcionado ao personagem de Stephen Boyd — um ator que também confere leve testosterona e situa a dose do romance-fetiche masculino. Contudo, as atuações de Bardot e Boyd beiram à inexpressividade em certos momentos onde deveria existir mais emoção de seus personagens. Infelizmente, o filme peca por ter poucas cenas que explorem mais esse senso sensual dos dois, limitando-se a breves seqüências de diálogos amorosos e uma ou outra onde o casal atue com maior expressão do sexo. O público que deseja procurar cenas quentes ou mesmo mais explícitas, sairá frustrado com a limitação do roteiro. Pode-se dizer que a sexualidade aqui é inibida, sugere e não ousa mais além por ser tudo mascarado.

É um filme que envelheceu um tanto mal, verdade seja dita. Bardot carrega as imperfeições nas costas, nas suas curvas e na certa personalidade um tanto excêntrica de sua personagem — nos filmes de Roger Vadim, a atriz traz as mesmas marcas: a mulher que se apaixona, a “fêmea no cio”, ansiosa por um amor que vai modificar sua vida, no desespero do sexo e sentimentalidade passional. Mas, o filme não se sustenta apenas em função desses elementos. A trama é infantil e há momentos onde as situações tendem a ser exageradas no tom da direção frágil, interpretações ou diálogos enfraquecidos. Muito do desconforto seja por consequência de uma trilha sonora gritante de Georges Auric que torna muitas cenas artificiais, geram incômodos. E a trama, claramente, prefere investir num tom de suspense promovido pela fuga dos amantes Úrsula e Lamberto — explora-se aí a beleza do território andaluz com uma fotografia de cores quentes e avermelhadas — do que contornar o romance com uma sensualidade mais óbvia. Afinal, o filme não foi vendido como um “drama romântico erótico”? A premissa é enganosa, ao fim. Decerto, Roger Vadim demonstrava pouca segurança na articulação de seu elenco, talvez acreditasse, somente, na força imperativa da sensualidade e nos seios e corpo de Brigitte Bardot. A única ressalva aqui seja por conta da boa representação do papel libertário-feminino, já que o cinema deste cineasta trazia sempre a discussão sobre o papel da mulher em busca de prazer — liberdade para ter orgasmos, o direito de escolha de seus parceiros, a necessidade de não se conformar mais com casamentos insossos. E nisso o filme cumpre muito bem o seu sentido feminista.

Les bijoutiers du clair de lune (França, Itália, 1958)
Direção de Roger Vadim
Roteiro de Roger Vadim e Jacques Rémy, baseado no livro de Albert Vidalie
Com Brigitte Bardot, Alida Valli, Stephen Boyd, José Nieto, Fernando Rey

Sexo que nos habita

Somente Pedro Almodóvar para continuar mostrando que dentro do exercício cinematográfico existe a pura arte. Não existe cineasta atual — não desmerecendo tantos outros que criam e recriam, cada um ao seu modo próprio, a argumentação experimental na esfera da cinematografia — com maior poder de criatividade e sustentação humana. Sim, ver um filme de Almodóvar é poder ir de encontro ao lado mais íntimo, sombrio e cruel da existência da humanidade. E o que mais me deixa admirado com esse homem é a única capacidade de recriar em cima de um tema aparentemente “banal”. Entende-se que A Pele que Habito poderia se firmar numa trajetória comum, sem grandes inovações, já que a primeira metade do filme se sustenta num contorno já explorado na sinopse do filme. Ou seja, começamos contemplando esse filme com um determinado olhar e noção de quase tudo ao nosso redor, até quando surpresas vem à tona e o lodo dos seus personagens se esvai da pele, da alma e do corpo. Somos contagiados com tamanha reviravolta que salta aos nossos olhos abismados, antes mesmo de compreender tudo. E é um filme que não se perde diante do quebra-cabeça, pelo contrário, se fortalece. Almodóvar nos instiga com uma narrativa original, repleta de sedução e morbidez extrema.

A atmosfera criada é bem palpável. O sedutor roteiro se sustenta na essência do livro de Thierry Jonquet, “Tarântula”, o próprio Almodóvar promoveu a adaptação. Curiosamente, o filme projeta seus personagens ao público num intricado jogo-complexo até o primeiro ato da projeção da fita. Na primeira metade, a trama percorre o cirurgião plástico Robert Ledgard (Antonio Banderas, possivelmente a melhor interpretação de sua carreira) no qual desenvolve pele artificial que vai ser testada na misteriosa jovem Vera (Elena Anaya, belíssima e surpreendente atuação). A fêmea que é mantida secretamente em sua casa, reclusa e confinada, servida de cobaia aos experimentos do médico. O elo que mantém esses dois indivíduos? O público logo saberá. Sabe-se que Robert perdeu a esposa que o traia e que sua filha também seguiu o mesmo destino trágico da mãe.

Enquanto detalhes maiores são sugestionados ao público, Almodóvar posiciona seu filme num patamar maior, é quando o segundo ato nos atinge de maneira mais chocante. Um filme doentio e experimental? Definitivamente, sim. Nuances, camadas, detalhes e reviravoltas são transformações do filme que atinge com um ritmo mais insano, febril. Torna-se eufórico, um terror-psicológico e um tom mais melodramático que persiste. Roberto Ledgard torna-se alvo de horror, facilmente nos remete à história do Dr.Frankenstein. É Almodóvar provando que sua verve criativa pode trazer ácido-terror dentro da humanização de seus personagens. O público percebe a complexidade moral e perversa da trama quando são inseridos flashbacks para elucidar algo que não estava claro nos primeiros minutos. Interessante como o diretor nos entrega a catarse logo no meio do filme e não prejudica a grandeza da obra.

E falar deste polêmico filme é também se precaver, visto que devemos evitar ao máximo evidenciar o caráter da obra — assim, todo espectador poderá ter o estomago revirado com tantas situações catárticas em menos de duas horas de projeção. Bem verdade, é um filme de estilo novo e fora do eixo habitual do cineasta, não tão quente como os seus maiores clássicos, menos avermelhado, mas, ainda assim, se mantém único pelo traço de abordagem. Conseguimos perceber a mão provocadora do cineasta em diversas cenas, diálogos e ideais — a perversão aqui se faz presente; o fetiche pela discussão da sexualidade e o tom incisivo em evidenciar a malícia/dualidade de seus personagens são nítidos. O feminino aqui é forte, assim como a construção do aspecto masculino dos personagens. Há discussões sobre homossexualidade, a eterna obsessão pelo corpo, pela perversão-sexual tão característica do cineasta em suas aclamadas obras. Almodóvar nos excita com seus elementos de horror e morbidez, mas não deixa de tornar o principal argumento deste filme baseado num contorno sexual, querendo ou não.

A prestação de Marisa Paredes, habitual parceira de Almodóvar, é interessante. Sua personagem é aquela que oferece um tom passível, ainda que dramático. Antonio Banderas, antigo ator-fetiche, confirma que é talentoso e quente quando tem nas mãos um papel bem denso. Valeu a pena o ator voltar a trabalhar com Almodóvar após mais de 20 anos. Ainda assim, é Elena Anaya que preserva a maior responsabilidade, visto que sua personagem é de extrema importância na trama por conta da complexidade apresentada. Engana-se quem afirma que aqui temos um filme anti-Almodóvar, pelo contrário, é perceptível um diretor mais à frente de seu tempo em se preservar e se transformar, ao invés de se mostrar repetente. Afinal, estamos tão cansados de filmes semelhantes, nada melhor que conferir um exercício puramente latente e estético-sensorial que nos brinda com uma sensação dilacerante ao fim, nos deixa catatônico. Obra-prima perturbadora, impactante e contundente.

La Piel que Habito (ESP, 2011)
Direção de Pedro Almodóvar
Roteiro de Pedro Almodóvar
Com: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet.

Triângulo do tesão

Como ter prazer com duas pessoas ao mesmo tempo? A configuração do relacionamento libertário sexual, a forma como se sustenta a paixão entre diferentes pessoas, o desejo tão liberto de convenções sociais da contemporaneidade. Cada vez mais, o cinema proporciona abordagens que exemplificam as questões da sexualidade moderna, diversos filmes já contextualizaram a modalidade do relacionamento a três — Bernardo Bertolucci com o seu cult Os Sonhadores; o provocativo teen Três formas de amar ou mesmo o recente Amores Imaginários de Xavier Dolan. Nota-se uma busca pela intimidade dessas situações. Talvez, a percepção de que o mundo hoje se centra em relações menos envoltas em padrões antigos, já que há uma liberação maior no que tange ao valor de "sexo casual". O cineasta espanhol Salvador García Ruiz é mais um que decide propor a intimidade do desejo de um triângulo amoroso. Em Castelos de Papel, a evidência da juventude em busca de orgasmo. Aqui temos três formandos de Belas Artes que se confrontam com a casualidade lasciva, o que o próprio diretor insistiu em dizer que "trata-se de uma história de amor reflexiva, dotada de luxúria e surpresas". No lançamento desta fita, muito foi falado do tom intimista da obra, mas a verdade é que o que fica mais plausível seja mesmo a força provocativa.

A ideia urgente é mostrar como o sexo é capaz de ser a única sede humana. Maria José (Adriana Ugarte) é uma garota livre de limitações, totalmente permissiva aos encontros sexuais sem maiores envolvimentos. Logo o público percebe que existe nessa personagem uma busca por sexo, como se fosse a única alternativa que move sua existência. Logo mais, depara-se no apartamento dos amigos Jaime (Biel Durán) e Marcos (Nilo Mur). O envolvimento entre os três logo é escancarado, sem muitos diálogos que antecipem uma maior cumplicidade, o diretor não se preocupa em prolongar nada. Em menos de quinze minutos, conferimos uma transa ardente entre os protagonistas. Necessariamente, o roteiro de Enrique Urbizu, baseado no livro de Almudena Grandes, demonstra a intenção maliciosa do universo desses três jovens. A única intenção inicial é a questão do prazer a três, sem maiores amarras ou compromissos. Não é surpresa alguma que o filme seja focado em momentos dentro do quarto, assim o trio exercita as cenas de sexo e podem, indubitavelmente, exercer certa aproximação com o público quando entregam-se aos diálogos íntimos sobre seus anseios, posturas em relação às suas determinações libidinosas e overdose de fetichismo. O diretor não provoca nada além disso, não se pode elocubrar também algo mais.

García Ruiz é astuto em colocar seus atores bem à vontade em cenas picantes, quase sob um estouro erótico, podendo ser caracterizado objetivamente como um filme soft-porn. As cenas de sexo são prolongadas ao máximo, há o nu frontal bem intencionado e a provocação em expor diversas transas entre os três. Infelizmente, a abordagem torna-se frágil por não expor maior profundidade no que tange às personalidades ou mesmo perspectivas de cada um. O que parece é que o único intuito era, apenas, mostrar como um triângulo amoroso se configura sexualmente — obviamente, diversos filmes conseguiram sustentar um maior sentido argumentativo do que este. Em contrapartida, o filme traz bons contornos ao explorar problemáticas evidentes do caráter sexual de seus personagens: Maria José não consegue ter orgasmo quando transa; Jaime demonstra ter tesão quando há um sexo compartilhado na presença de Marcos e este, por sua vez, tem impotência, sofre com sua condição constrangedora.

O público embarca no jogo de sedução, envolvimento e busca por proporção de prazer desses três — mas perguntas tornam-se constantes já que o roteiro não se dispõe a maiores explorações. Ainda assim, é um filme de bom sustento emotivo, já que acaba por manter o mesmo destino de abordagens semelhantes: ao fim, o que parecia sexo casual e envolvimento por prazer a três, torna-se disputas passionais já que cada um passa a sentir-se aflito. A insegurança de cada um dos dois homens que se apaixona por Maria José, cada qual na disputa pessoal. Com quem a jovem vai ficar: Jaime ou Marcos? E nisso também não é nada inovador, já que vários filmes já exemplificaram as questões de relações que começam firmadas no intuito do sexo e passam a condicionar-se no sentimento. O trio de atores, felizmente, confere boas atuações. Mas a direção de García Ruiz é apática em algumas cenas, sem muito esmero. Ainda assim, a abordagem é valorizada pelas sequências de sexo que não são nada conservadoras. Acima de tudo, um filme bem carnal.

Castillos de Cartón (2009, Espanha)
Direção de Salvador García Ruiz
Roteiro de Enrique Urbizu baseado no livro de Almudena Grandes
Com Adriana Ugarte, Biel Durán, Nilo Mur

Feminismo sexual

A sociedade ainda não é preparada para o selvagem lado sexual humano. Tenta-se quebrar os tabus, mas falar de sexo é ainda algo sempre reprimido. Pior é externar todo o desejo descomunal, senso que recebe sempre a reprovação alheia. No final da década de 50, o cineasta francês Roger Vadim providenciou o choque no público ainda firmado num pseudo-puritanismo. Proibido pela Legião da Decência nos Estados Unidos, este filme elevou as temperaturas, ainda frígidas do espectador, ao colocar Briditte Bardot como elemento feminino de grande malícia. A atriz logo se tornou sex-simbol do Cinema Europeu por personificar uma mulher liberal, bastante erotizada e de comportamento transgressor, a típica representação da juventude que, naquele momento, quebrava todas as formas de inocência e submissão. E Deus Criou a Mulher é justamente um ensaio cinematográfico sobre o poder de sedução, liberdade sexual e determinismo feminino perante uma sociedade altamente repressora. Como compreender que uma mulher permissiva aos desejos mais temperamentais pode também amar? Por que a sociedade persiste em criticar a sexualidade tão à flor da pele? Essas são perguntas pertinentes ao centrarmos na narrativa do filme: Juliette Hardy (Bardot) é uma jovem orfã de forte beleza, altiva e marcada pela natural sensualidade. Seu poder de atração é evidente, visto que atrai todos os homens ao seu redor, ainda que não tenha essa intenção. Liberal ao extremo, a jovem cria indisposição com a comunidade que insiste em reprimir seus atos, suas opiniões e seu comportamento tão libidinal que faz acender os desejos masculinos e provocar repulsa nas mulheres que temem perder seus maridos.

Apesar de desejada pelo milionário Eric Carradine (Curd Jürgens), Juliette nutre um tesão incondicional pelo rústico Antoine Tardieu (Georges Poujouly), mas este ausenta-se de maiores compromissos, apenas quer um envolvimento breve, sem amarras sentimentais. Vitimada pela comunidade que a enxerga como prostituta e condenada por seus guardiões que a ameaçam devolve-la para o orfanato de onde veio, Juliette afunda-se no desespero. É quando Michel (Jean-Louis Trintignant), o irmão mais novo de Antoine, a pede em casamento. O que parecia uma tranquilidade para todos os problemas, torna-se um conflito quando a ebulição sexual de Juliette recebe uma dimensão maior: diferente da mulher padronizada daquele tempo, a loura não parece destinada aos afazeres domésticos, muito menos consegue atenuar sua incessante compulsão por sexo. E é justamente esse ponto que o filme trata com bastante provocação. É possível viver pelo que se deseja? Existe uma vida firmada em práticas sexuais sem regras morais de fidelidade? O filme mostra a despudorada Juliette como uma mulher que sente a necessidade de transar, de seduzir, de viver pelo orgasmo imediato — porém, indigna-se por não satisfazer-se sentimentalmente com ninguém, nem mesmo com seu real objeto de amor-platônico, Antoine.

É evidente a insistência de Roger Vadim em acentuar todas as curvas de Brigitte Bardot, colocando-a como um extremo objeto de desejo, de libertinagem, notoriamente uma ninfeta sedenta por prazer que consegue deixar os três homens da trama ensandecidos por ela. Inúmeras cenas exploram seu apelo sexual, no intuito de fazer com que o público realmente perceba — ou se excite — com a vocação maliciosa da protagonista. Logo na primeira seqüência do filme, encontra-se uma cena de grande representação orgasmática: Bradot nua, coxas à mostra, em posição sedutora, atrás de um lençol branco, na tensão desconcertante de Jürgens que a enxerga como uma fêmea no cio prestes a ser devorada. Hoje, este filme não tem o mesmo impacto que exerceu, visto que não há um forte teor de cenas explícitas de sexo ou mesmo de nudez. Contudo, é evidente a extravagância sexual que o roteiro providencia ao estruturar diálogos que expressam as intenções dos anseios de Juliette — ora a jovem explana seu sonho em ser amada por alguém, ora investe no posicionamento de delirante ninfomaníaca que apenas quer transar por transar.

Instigante a maneira como Brigitte Bardot sabe dosar a interpretação mais sensual em momentos onde não se espera que exista a sedução intencional — ainda assim há pequenos gestos, olhares maliciosos e presença provocativa em momentos de beijos bem ardentes, por sinal um avanço para época já que existia um tom mecânico na maneira como se arquitetava essas cenas. Bardot parece movida pela libido da personagem, diante de uma direção ousada de Vadim, que exterioriza bem a postura sexy de sua Juliette. Por outro lado, há situações onde a emoção e o lado passional é demonstrado, é quando a atriz utiliza-se do melodrama que evoca a fraqueza de Juliette, mas ainda assim é convincente. A canção “Dis-moi Quelque Chose de Gentil” da cantora Solange Berry toca durante todo o filme, caracterizando bem a personalidade sonhadora da protagonista que, no final das contas, queria ser compreendida por desejar e amar demais. A fotografia prioriza bem os tons calorosos da fogosa Juliette, há cores fortes e tons gritantes de vermelho. É um filme que representa bem o papel feminino, tanto libertino quanto libertário, em busca do direito de prazer sobre os terrenos do falso moralismo social.

Et Dieu... Créa la femme (FRA, 1956)
Direção de Roger Vadim
Roteiro de Roger Vadim e Raoul Lévy
Com Brigitte Bardot, Curd Jürgens, Jean-Louis Trintignant

Pânico do Orgasmo

A mente humana é estranha. Além de imprevisível, é capaz de conceber tormentos íntimos, caos na própria alma. Roman Polanski realizou o seu primeiro filme falado em inglês em 1965. A obra chocou ao explicitar em seu caráter narrativo elementos sexuais, psicológicos e certa ousadia ao misturar planos da realidade com sensos imaginários. Com roteiro dele e de Gerard Brach, o filme é um perturbador olhar sobre os desejos reprimidos e a obscuridade presente no inconsciente do ser humano. Repulsa Ao Sexo é um filme difícil, sufocante e perverso. Talvez, um dos trabalhos mais viscerais sobre o universo da loucura, da alucinação, executa uma experiência estética incrível. Mostra como uma repressão sexual pode causar tormentos irremediáveis a um ser humano. Catherine Deneuve, então com 21 anos, interpreta a manicure Carol Ledoux, uma jovem extremamente reprimida sexualmente, introspectiva e tímida. Ainda que de beleza sedutora, de postura altiva e com um sexy-appeal inevitável, a jovem inibe-se a maiores contatos sociais e tem medo de maiores assédios. É dependente afetivamente da irmã Helen Ledoux (Yvonne Furneaux) e não aceita o romance amoroso que esta tem com um homem casado. O que parece ser um filme de tom dramático, torna-se um conflito alucinante sobre os tormentos da alma.

A aversão a qualquer indício de sexualidade é visível — Carol manifesta indisposição a qualquer senso libidinal. Incomoda-se ao ouvir os gemidos da irmã que transa com o namorado no quarto adjunto; indigna-se ao receber cantadas de transeuntes na rua; não sustenta nenhuma atração pelo namorado Michael (Ian Hendry) que insiste em ter um contato mais íntimo com ela ou tirar sua maculada virgindade; vomita só de sentir o cheiro do orgasmo nas vestes da irmã. É provocante a maneira como Polanski abusa da fragilidade, dos gestos mecânicos e da estranha personalidade de Carol. E o primeiro ato do filme esmiúça a disfunção sexual que a protagonista vivencia, a maneira como a garota demonstra uma apatia completa à ordem sexual. Quais razões da aparente frigidez? Por que o sexo promove um desconforto irrevogável à jovem? Ainda que estonteante, não consegue se conectar com as pessoas, numa aparência constante de alienação. O que torna uma pessoa tão adversa à libido? Enquanto as perguntas se manifestam na mente do espectador, a narrativa assume contornos assustadores.

Quando sua irmã viaja com o amante para uma viagem à Itália, o filme ganha possibilidades sombrias, é quando se acentua o grau nítido de “terror psicológico” e o esqueleto de paranóia é praticado. Carol imerge num abrupto descontrole mental dentro de seu apartamento, gradativamente perturbada, em meio às confusões abismais de sua realidade que se alternam com suas alucinações mórbidas. É justamente assim que Polanski induz o expectador num obscuro caminho mental de sua protagonista, faz com que o segundo ato do filme transpareça como uma representação da amplitude mental de Carol. O tom macabro, a violência e o suspense são elementos visíveis dentro do claustrofóbico apartamento. A jovem submete-se a sua insanidade própria. Visualiza vultos, assombra-se com presenças dentro do quarto, desorganiza-se de forma que se torna vulnerável. É então que entramos no mundo particular de Carol, sua mente é despida e a dimensão da loucura é latente. A ausência de lucidez é consequente de sua sexualidade reprimida, seus desejos dúbios, numa vida de privações sexuais que ocasiona numa turbulência emocional. Esquizofrênica, psicótica ou apenas a realidade incompreendida?

Com uma estética musical do instrumentista Chico Hamilton e fotográfica instigante de Gilbert Taylor, Roman Polanski inquieta o espectador ao colocar Carol em meio aos seus tormentos dentro do apartamento trevoso. A mistura de percepções, o tom nervoso e o desconforto da jovem passam a ser de quem assiste ao filme também. Vemos Carol ser estuprada toda noite por homens diversos; sua intensa insegurança sexual sendo articulada. O ambiente parece ter personalidade própria, cria formas surreais em volta dela, corredores assumem outras dimensões, paredes tornam-se mais largas, tudo de acordo com as suas percepções. Mãos invadem seu corpo como se à procura do sexo compulsivo, rachaduras na parede cada vez maiores que causam pânico. As lentes de Polanski não temem em mostrar o que há de mais denso na obscuridade de Carol — o talento de Catherine Deneuve é impressionante. Sua personagem pouco fala, mas tem uma personificação bem delineada de gestos e olhares. Quando sua Carol explode em fúria assassina, nos tormentos dramáticos de loucura descabida, o filme grita por ser propriamente sufocante. Talvez Roman Polanski nem tivesse consciência de que faria uma obra-prima, definitivamente é um espetáculo psicológico-sexual que merece ser revisado sempre. Com extrema poesia e psicologia, funciona como um estudo sobre o detrimento mental de um ser humano. Pura obra-prima!

Repulsion (EUA, 1965)
Direção de Roman Polanski
Roteiro de Roman Polanski e Gérard Brach
Com Catherine Deneuve, Ian Hendry, Yvonne Furneaux, John Fraser

Diários de uma prostituta

É possível alguém apenas querer viver do lucro que seu corpo possibilita? O que motiva uma mulher a optar por esse “caminho de vida fácil”? Compreensível que o filme Bruna Surfistinha, baseado no livro O Doce Veneno do Escorpião, tivesse o mesmo sucesso exorbitante. A história já é conhecida por todos, não é segredo algum. Marcus Baldini aqui estreia na direção, demonstrando claramente sua intenção: tornar nítido a sexualidade dessa figura que causou tanta atração na sociedade — querendo ou não, até para os puritanos-de-plantão, Rachel Pacheco, nome de batismo, conseguiu usar da mídia para provocar/direcionar os refletores para sua decisão de vida. E conseguiu deixar todo mundo interessado. Tornou-se prostituta porque quis. Escolheu ganhar dinheiro através do sexo por vontade própria. Tornou-se a Bruna Surfistinha famosa. Novidade o argumento não é, existem tantas histórias semelhantes, reais e ficcionais, a grande sacada em questão é uma: nenhuma outra prostituta havia usado de um blog para mostrar com detalhes suas experiências sexuais; seus fetiches, seus desejos, seus programas tão expostos. E é exatamente esse sentido que o filme decide tornar explícito. Sem se preocupar muito em aprofundar as motivações psicológicas e motivacionais, a película apenas retrata a decisão da garota que abandona uma vida de classe-média para emergir no mundo da prostituição, do limbo ao topo.

O longa não detalha muito da vida familiar de Rachel Pacheco, apenas preocupa-se em contornar sua mudança para Bruna Surfistinha — da quase tímida-virginal, introspectiva e inocente do começo, à posição catártica de determinismo e fulgor libidinal ao fim. É interessante a maneira como o roteiro peca por não explorar as motivações da personagem-real — por que uma moça procura se prostituir apenas para “não querer depender de ninguém”? -, porém, consegue instigar por mostrar a dualidade e processo de transformação de uma garota que, inicialmente, demonstrava apatia, desconforyo e insegurança no sexo, mas que depois explode como um furacão sexual, repleta de malícia e determinação. O filme experimenta a trajetória de Bruna que, com seus 18 anos de idade, vivencia a natureza da prostituição por livre-arbítrio.

A ousadia da direção de Marcus Baldini apenas foca nas inúmeras transas sexuais da prostituta — ainda que não seja explícito, o sexo é muito bem fundamentado na trama, porém menos agressivo/cru que no livro que fora adaptado. O resultado são sequências de cenas de sexo oral, sodomia e simulações de penetração que são intercaladas com a narrativa em off da protagonista. A segurança da direção não vulgariza, mas as cenas atingem boa sensualidade e são fortes. De trajetória publicitária, Baldini acentua sua segurança no visual ao articular mais a provocação libidinal nas imagens do que nos diálogos. Relevante a cena do primeiro programa feito por Bruna no bordel, onde a câmera foca apenas no seu rosto e, ao fundo, seu primeiro cliente, interpretado por Cássio Gabus Mendes, executa sua penetração anal selvagem sem muita afetividade — a cena mostra bem o desconforto da mulher que, dali pra frente, teria toda sua vida modificada por conta de sua decisão. Sem levantar uma bandeira de que a prostituição é algo pecaminoso ou prejudicial, ainda assim o filme mostra que é uma vida que conserva inúmeras dificuldades, percalços.

A interpretação concentrada de Deborah Secco é capaz de humanizar, torna tudo envolvente. A atriz sabe muito bem explorar suas nuances ao personificar a inocência e fragilidade do primeiro ato do filme, bem como ao elevar a sensualidade que sua personagem pede. Secco empresta seu corpo, sua voz e malícia até com o olhar — há uma entrega total, principalmente, nas cenas que são impregnadas de sexo, muitas por sinal, que o filme procura explicitar. Há nudez frontal e de diversos ângulos, apelo sensual e boa condução interpretativa nos momentos de transas sexuais. Ainda que não seja forte o erotismo, convence! E o tom emocional torna-se evidente quando Bruna passa a viciar-se em drogas, a cocaína — é quando a atriz se mostra ainda mais competente com os momentos de sofrimento e auto-flagelação. A ótima trilha sonora de Tejo Damasceno e André Lucarelli é sensual, ágil e ajuda na narrativa orgástica da protagonista. Contudo, ainda que explícita sexualmente na mídia, Bruna ainda é um mistério. E pelo filme, jamais dá pra entender o porquê de uma garota, que poderia ter tudo, não se ajustar tanto a sua vida comum a ponto de se realizar na prostituição. É perceptível que houvesse o gosto pelo sexo, o prazer, a satisfação em ser garota de programa. Talvez, até fosse ninfomaníaca. Porém, o roteiro não dá margem a maiores discussões sobre isso. Apenas mostra uma mulher que queria quebrar as amarras do tradicionalismo, viver sem preconceitos, no gosto pela liberdade e libertinagem sexual...

Bruna Surfistinha (BRA, 2010)
Direção: Marcus Baldini
Roteiro: José de Carvalho, Homero Olivetto, Antônia Pellegrino – Baseado no livro O Doce Veneno do Escorpião, de Raquel Pacheco e Jorge Tarquini
Com Deborah Secco, Cássio Gabus Mendes, Cristina Lago, Drica Moraes, Fabiula Nascimento, Guta Ruiz

Teatralidade Sexual?

Só se compreende o universo humano se de fato experimenta a vida com tamanha intensidade. Só se existe plenamente, como indivíduo, caso absorva ao máximo tudo que a vida possibilite. E no teatro também é assim — a fruição artística, a entrega total, a maneira como o ator precisa experimentar a verdadeira essência de seu personagem. O verdadeiro ator crê que seu personagem seja ele mesmo, e não uma representação momentânea. E como personificar o personagem se o ator não enxerga o tom ou mesmo o real prazer de sua existência? Sob esses sentidos que o filme Drama do diretor chileno Matías Lira se fundamenta. Três jovens, estudantes de teatro, movidos pelas técnicas do "Teatro da Crueldade" do dramaturgo francês Antonin Artaud, invadem as ruas para "encontrar" seus personagens, rumam à percepção, auto-conhecimento e busca por experimentação de mundo particular. O centro narrativo foca-se em Mateo (Eusébio Arenas), rapaz traumatizado pelas lembranças da mãe, não esconde sua personalidade forte e comportamentos ríspidos. Ele namora com Maria (Isidora Urrejola), garota que fecunda um sentimento forte por ele. E Ángel (Diego Ruiz) assume o teor homoafetivo da trama, pois é o jovem que sofre pelo tesão/paixão que nutre por Mateo; ele é o típico gay que deseja sexualmente o melhor amigo. Na busca pela composição, o trio mergulha no submundo de drogas, do sexo casual, da boemia e da prostituição irrefreável. O que parecia ser uma jornada laboratorial de conhecimento torna-se uma obsessão, os jovens imergem num universo perigoso onde o sexo parece ser o aliado.

O filme mostra esses jovens em busca pela sua identidade, nas aulas de teatro, onde os ensaios tornam-se exaustivos à medida que novas técnicas e aprendizados são cobrados pelo professor incansável. Na busca pelo sucesso, diante das pressões, o trio passa a procurar a identidade, testam os limites, lidam com as dores ao mergulharem no submundo de uma cidade obscura que parece limitada à luxúria, perversão e sexo corrupto. E é exatamente essa jornada que a narrativa apresenta, de maneira ágil e explícita, acompanhamos o universo dos três jovens que, na idealização de ser o melhor ator/atriz, topam qualquer coisa para isso. Mateo deseja interpretar um malandro drogado? Portanto, ele mesmo vivencia essa experiência, consome drogas e muda suas posturas comportamentais. Maria transforma-se em prostituta, modificando seus valores, denegrindo-se moralmente, para assim, de alguma forma, conseguir interpretar de maneira mais lúcida, e real, sua personagem. Angel procura experiências dentro de redutos GLS, no contato com garotos de programa, permitindo-se ao sexo oral com desconhecidos ou transas furtivas com outros, para sentir na pele o que seu personagem necessita. Loucura? Exagero?

A ficção mistura-se com a própria realidade. A experiência torna-se sufocante à medida que o roteiro mergulha nas percepções de cada um, nos seus conflitos pessoais que se misturam aos sentidos psicológicos e à sexualidade que direciona todo o sentido cinematográfico desta obra que se utiliza da metalinguagem do teatro como pano de fundo. A sensualidade é presente em diálogos, na maneira como o trio usa do sexo para tudo, atos e vontades — a direção de Matías Lira, auxiliado pelas lentes vermelhas e tons azulados da fotografia, prioriza as interpretações convincentes de Arenas, Urrejola e Ruiz. São jovens de beleza que facilmente mexem com a libido do público, por terem presenças sensuais em cena. A tensão sexual do trio é exercida, ainda que nada seja vulgar, tornando o filme malicioso. Ciúmes, desejos e intenções são expostas — nudez, homoafetividade também. Ainda que não excepcional, vale pela originalidade do roteiro e da boa representação de juventude contemporânea com seus vícios, anseios e desejos, além de ambições que acabam por levar à loucura humana.

Drama (Chile, 2010)
Direção de Matías Lira
Roteiro de Sebastián Arrau, Eliseo Altunaga, Matías Lira
Com Isidora Urrejola, Eusebio Arenas e Diego Ruíz

Carne Trêmula

A dificuldade de amar alguém, de se envolver sentimental e intensamente, a ausência de comprometimento — pessoas que preferem manter uma relação firmada apenas no sexo, sem afeto. É o sexo pelo sexo, é o contato casual, efêmero. Inúmeros seres humanos adentram o terreno da promiscuidade, fazem sexo por impulso e apenas pra satisfazer as necessidades da carne. Sob esse princípio, o diretor canadense Clèment Virgo expõe o soft-porn Deite Comigo. No período de lançamento, este filme obteve um fenômeno de acessos no youtube com o trailer já ousado, e exerceu polêmica ao receber censura em alguns cinemas americanos. A produção, plenamente erótica, é um estudo sobre os conflitos do desejo e sentimento, das carências afetivas que condicionam a sociedade moderna libertina. Funciona como uma caracterização real sobre a ninfomania, já que coloca a protagonista com essa característica comportamental. Leila (Lauren Lee Smith) não consegue se envolver emocionalmente com ninguém. Seu cotidiano se resume a transas rápidas com diferentes parceiros por semana. Logo em sua primeira cena, resume-se todo o vício da inclinação sexual da jovem — exibe Leila em frente à televisão, masturba-se ao ver vídeos pornográficos. A típica mulher lasciva que busca apenas o orgasmo com um desconhecido, impulsionada pela libido desenfreada. Trepa com homens, freqüenta baladas noturnas e ainda assim não consegue se satisfazer. Até que conhece David (Eric Balfour), numa boate, por acaso. O encontro de ambos é adornado de alta tensão sexual — enquanto Leila é penetrada por outrem, David a observa dentro do seu carro ao receber sexo oral de sua namorada. Do aparente desejo, surge uma paixão que pode humanizar as percepções de uma mulher que jamais encontrou um amor. E, ao partir desse senso, o filme evoca a relação selvagem sexual que culmina num sentimento gradual entre duas pessoas.

Totalmente provocativo, orgasmático, sensual, o filme explora ao máximo a relação libidinosa e selvagem de Leila com David — o limitado roteiro centra-se nos diálogos objetivos que evidenciam o caráter malicioso e que escancara a fixação da humanidade que vive pelo sexo. Pontuado em off, sob as sensações e ótica de Leila, é perceptível a discussão sobre relacionamento casual: é possível entender quando alguém só quer transar com a outra e nada mais? Para Leila, sua vida só logra sentido quando ela transa — "Eu só queria trepar. Isso é o bastante". Sempre insaciável, a jovem inquieta-se ao perceber que sua relação com David fomenta um senso sentimental. É quando a necessidade da carne parece também ser a da alma, do coração, da vontade de carinho e companhia. É possível fazer sexo com alguém que ame? Pode haver desejo por apenas uma pessoa?

Permeado de cenas calientes, quentes e explícitas de sexo — Clèment Virgo enriquece seu filme com inclinações ousadas, como forma de fechar as lacunas do limitado roteiro. Diversas cenas de nudez extrema, gemidos, sexo oral, penetração e também sodomia são explorados pelo casal. A linha entre erotismo e pornográfico é tênue, visto que o diretor não tem reservas em mostrar os corpos nús dos atores e desenvolve cenas bem naturalizadas, agressivas. A química de Lauren Lee Smith com Eric Balouf é nítida, ambos não escondem as personificações lascivas de seus personagens, entregam-se totalmente. Há ainda uma polêmica seqüência onde Balouf exibe seus atributos físicos e expõe o próprio pênis ereto numa representação de sexo oral. Tanto essas cenas quanto as de sexo anal receberam censuras em alguns países. Bastante cru, irrestrito e realista, o filme não dialoga apenas com as intimidades de uma relação sexual a dois. Pauta também os medos, fragilidades e conflitos de pessoas que se viciam na combustão sexual e evitam o afeto. Troca-se sexo selvagem por amor?

A atmosfera de luxúria se firma nas imagens — recurso imagético adotado pelo diretor que utiliza de símbolos vermelhos para sustentar um visual propenso à sexualidade que tanto o filme dispõe. Desde as roupas, cabelos e batons vermelhos de Leila; às paredes, objetos cenográficos e luzes com tons rubros da casa de David. A fotografia também acentua o tom quente, ensolarado, talvez para fundamentar a atmosfera de desejo do casal ou climatiza apenas o verão que é a estação do ano predominante na circunstância da narrativa. A coragem de Lee Smith e Balouf é perceptível na entrega das cenas de sexo, porém a satisfação maior é quando os personagens sofrem a catarse da maturidade sentimental. Afinal, amar também é um princípio que leva ao orgasmo do próprio âmago. E prazer se descobre através da amorosidade a dois. Quente, vermelho, eis o tesão humano.

Lie to me (Canadá, 2005)
Direção de Clèment Virgo
Roteiro de Clèment Virgo, baseado no livro de Tamara Berger
Com Lauren Lee Smith, Eric Balfour, Polly Shannon, Mayko Nguyen

Janela Indiscreta

O ser humano é atraído pela curiosidade, ainda mais quando se refere às questões da sexualidade. O aspecto mais instigante exposto no filme Invasão de Privacidade é a prática do voyeurismo, onde indivíduo obtém prazer sexual através da observação de outras pessoas — sendo elas, decerto, desconhecidas do seu circuito social. O voyeur costuma ter satisfação na observação, sem que as pessoas saibam ou suspeitem que estejam sendo observadas. Geralmente, o observador gosta de se masturbar ou mesmo tem a excitação sexual ao ver outras pessoas em práticas sexuais e/ou desnudas. Dirigido por Phillip Noyce, o filme argumenta essa prática, tão presente na sociedade atual — no mundo onde "reality-shows" são alvos de curiosidade, pois capta atenção das pessoas para uma realidade simulada, no qual indivíduos são vigiados por câmeras e, por sua vez, observados por várias pessoas. Os indivíduos preferem observar o alheio, espionar, como forma de estímulo pessoal e prazer. Na trama, a executiva Carly Norris (Sharon Stone) muda-se para um edifício luxuoso em Manhattan. O local é alvo de misteriosos assassinatos. No prédio, um dos moradores observa tudo que ocorre, inclusive os crimes, através de câmeras de filmagem. Quando descobre que a antiga moradora do seu atual apartamento foi assassinada, Carly passa a temer o ambiente. O que há de tão macabro ali? Quando conhece o vizinho Zeke Hawkins (William Baldwin) por quem sente uma atração irresistível, simultaneamente sofre assédio por outro vizinho, Jack Lansford (Tom Berenger). O thriller incute a dúvida: Carly, gradativamente, passa a acreditar que algum desses dois homens tem a ver com os crimes ocorridos no edifício. Quem seria o serial-killer? Mas, o que parece ser um suspense, trata-se de um artifício para promover o erotismo pautado na tensão.

Ao abordar o voyeurismo, o filme expõe o mistério dos crimes sob a ótica de um ser misterioso (o público não sabe quem é) que observa as vidas íntimas dos moradores através de câmeras, inclusive a própria Carly é alvo — as cenas a mostram sendo observada, principalmente quando troca-se de roupa; toma banho ou mesmo quando se masturba sozinha no banheiro. A sensualidade do roteiro exibe, ao máximo, a caracterização sensual da feminilidade de Carly. Por sinal, o filme trata de colocá-la como objeto de desejo de todos os homens, como se todos estivessem famintos, num total descontrole libidinal. Noyce usa das ideias do clássico de Alfred Hitchcock ao colocar o voyeurismo como lema principal do filme? Janela Indiscreta? Todos os condôminos têm suas vidas vigiadas por alguém misterioso, onde a janela possibilita a exposição de suas vidas íntimas. Até Carly, uma espécie de loira fria a la Grace Kelly, exibe-se em seu apartamento sem saber que é alvo de fantasia alheia. Todo voyeur evita-se expor, a sua prática é segredada e ele prefere manter distância.

A sensualidade percorre a veia narrativa ao colocar o envolvimento de Carly com seu vizinho Zeke. Por ter no roteiro personagens que se envolvem apenas pela força da atração, o filme não esconde sua intenção maliciosa ao executar cenas bastante provocativas. A cena da primeira transa entre os dois é prolongada, ousada, quase explícita — Sharon Stone sabe muito bem explorar sua interpretação centrada na manifestação da sua sensualidade, ainda mais quando personifica uma mulher subordinada ao comando hiperativo e dominador de um homem. É a fêmea passiva ao macho que quer devorar? Stone conduz sua Carly totalmente frágil, subjugada por William Baldwin que investe em cenas de sexo oral, penetração e preliminar. A boa química sexual dos dois atores favorece um realismo que exprime o frisson erótico que a trama pede. Seqüências de nudez, sodomia e até diálogos maliciosos estão presentes também — mas há um tom emotivo explorado pelo argumento ao colocar Carly chorando ao ter um orgasmo após uma transa quente com seu parceiro.

Philip Noyce contorna o frágil roteiro nessas cenas, ou mesmo nos personagens secundários que não escondem suas intenções voltadas ao sexo. Apesar do tom provocativo, o filme obteve alguns cortes — existiam cenas onde Baldwin aparecia em nu frontal, porém o ator pediu que as cenas fossem cortadas; uma cena de sexo foi considerada hardcore, o diretor teve que retirar por pressão dos produtores do studio e remontar o material da película. Talvez, quis desvencilhar de maior polêmica ou que o filme tivesse um sentido mais contextualizado na esfera homoerótica. Ainda assim, a sensualidade envolve pela forma como a sexualidade feminina de Stone é utilizada e da masculinidade sensual de Baldwin, habitual representante de papeis de homens sedutores. E o roteirista Joe Eszterhas já havia feito outro sucesso com Stone, Instinto Selvagem. Nota-se que ele investe na caracterização da libido em ambos os filmes, porém aqui o tom é mais voltado à intimidade. Um trabalho banal que cumpre com o que promete: o desejo desenfreado, a malícia e as questões da curiosidade humana em relação ao sexo.

Sliver (EUA, 1993)
Direção de Philip Noyce
Roteiro de Joe Eszterhas
Com Sharon Stone, William Baldwin, Martin Landau, Tom Berenger

Tesão Existencial?

Arnaldo Jabor viabiliza um estudo íntimo com seu provocante filme Eu te amo. O trabalho tornou-se um sucesso no princípio da década de 1980, por exibir uma sensualidade explícita, o próprio autor proferia que seu trabalho beirava ao pornográfico. Porém, a trama vai além da esfera sexual, por conter um roteiro que discute os vícios e amarguras das relações amorosas; das dores sentimentais e os mistérios dos desejos que rondam as mentes pervertidas dos seres humanos. O existencialismo libidinoso exerceu um fascínio, pois atuou como embalo romântico e funcionou como um retrato do delírio psicológico humano, visto que o texto é extremamente teatral e reflexivo, numa espécie de monólogo. O filme é uma fantasia erótica intelectual sobre desejo e não se caracteriza como um exemplar da pornochanchada. A trama é o encontro de dois desconhecidos, dentro de um apartamento no Rio de Janeiro, onde toda a narrativa se estabelece. Maria (Sônia Braga), uma ex-comissária de bordo que não consegue recuperar-se do término de uma relação com um comandante casado. Paulo (Paulo César Peréio) é um industrial falido que não tem mais prazer em viver, desde que sofreu com as frustrações sentimentais ao ser abandonado pela esposa. O que une esse casal? Arnaldo Jabor retrata um homem e uma mulher que desejam se amar, na busca pela satisfação do prazer em meio a realização de fantasias eróticas íntimas.

Este filme de Arnaldo Jabor aproveita-se da figura sexual de Sônia Braga, naquele período, para sustentar uma overdose libidinosa que o roteiro transparece. A atriz mantinha uma imagem bastante sensual, no frescor de seus trinta anos, além de forte identificação com o público masculino. Sua personagem sustenta o teor sensual e explícito que a película incita. A caracterização de uma mulher dotada de feminilidade e liberdade sexual é um fetiche que instiga o masculino. Em função disso, Jabor concentra seu esforço em exibir uma sexualidade sem inibição da figura desta mulher, coloca-a deliberadamente a favor de sua expressão própria de libertina sedutora. Como um filme tão sensual pode ser existencial? A trama toda é centrada dentro do apartamento, num ambiente claustrofóbico. É onde dois personagens se encontram para festejar a ebulição carnal da sexualidade; do encontro secreto a dois, sem aparente relação sentimental. É uma mulher e um homem que buscam o sexo, como forma de se livrar da dor — é a visão provocadora de Jabor, mostra como o ser humano sofre a perda ao inserir o sexo com outrem como o condicionamento de uma superação pessoal. Os personagens de Maria e Paulo buscam o sexo como forma de fuga, já que não se enquadram num mundo onde não esquece paixões do passado.

A fina ironia e as indagações que permeiam os diálogos do casal central refletem bem a intenção de Arnaldo Jabor em desmascarar as vicissitudes humanas, a hipocrisia e o falso puritanismo social. E há citações paralelas de homossexualidade, machismo e prostituição. O interessante é expor não só a sexualidade através do encontro de dois estranhos — é o texto teatral e delirante que permite diversas discussões. Jabor constrói os diálogos do casal da maneira mais densa possível, vai do senso psicológico ao humor tragicômico. O casal expõe seus problemas, anseios e delírios humanos; o sentimento à flor da pele que não consegue se calar. Jabor recheia seu roteiro com falas que mantém a tensão da sexualidade, emulando cenas de transas do casal: há seqüências explícitas de sodomia; oral e nudez expressa pelos atores. Enquanto dialogam sobre o encontro casual, incitam discussões filosóficas sobre questões da vida; dos medos e também dos desejos mais perversos. Nota-se que não há uma inibição, tanto nas cenas de sexo, quanto nos diálogos que dimensionam o teor pervertido da sexualidade obscura. O casal demonstra, mutuamente, o ardor libidinoso por um sexo imoderado, isento de conservadorismo que tanto a sociedade padroniza.

Sexualmente verborrágico, existencial e ousado, é um filme que aborda temas diversos da problemática brasileira — e ainda se mantém atual, verdadeiro. A relação sexual de Maria e Paulo, bem interpretados por Sônia Braga e Paulo César Peréio, é crível ainda que tenham momentos surreais e divagadores. A direção de Arnaldo Jabor procura externar mais esse tom teatral em cenas que concentram diálogos constantes, as ações interpretativas são emolduradas dentro do apartamento onde o casal costura suas cenas eloqüentes. Porém, há desdobramentos, que mostram situações diversas do passado dos dois personagens centrais, em outros locais — Vera Fischer interpreta a ex-mulher de Paulo, uma mulher que também exerce uma representação sexual. As cenas que ela aparece são para sustentar a atmosfera ousada que o filme flexiona. E Tarcísio Meira é o homem que rejeitou Maria, visto que ela era sua amante. Com músicas de Chico Buarque e Tom Jobim no background sonoro, o filme transcorre nesse sentido de diálogos e cenas de sexo para promover sua análise discursiva sobre o amor. A evolução do erotismo inicial para a esfera romântica é gradual, aos poucos se entende que esse casal procura não só viver de sexo, mas sim de renascimento diante de um amor inesperado.

Eu te amo (BRA, 1981)
Direção de Arnaldo Jabor
Roteiro de Arnaldo Jabor
Com Sônia Braga, Paulo César Pereio, Tarcísio Meira, Vera Fischer

Atração Libidinal

Todo ser humano tem interesse em sexo. Poucos filmes exerceram um fascínio sexual diante do realismo da esfera do erotização. A sexualidade perversa exibida no âmbito cinematográfico, além de instigar, provoca reações emotivas e promove a curiosidade geral. Filmes carregados de sexualidade atuam como senso polêmico, exerce o interesse coletivo. O soft-porn Instinto Selvagem quebrou tabus, é um exemplo perfeito de filme orgasmático, com conteúdo libidinoso que mescla conceitos narrativos de suspense e intrigas dramáticas. A trama dirigida com sensualidade por Paul Verhoeven, sob o roteiro de Joe Eszterhas, percorre a veia do erotismo, mas é o tom misterioso que concebe a tensão sexual que a premissa transpira. O filme ainda se mantém extremo provocativo, ousado. É compreensível o porquê de ter marcado uma época. Logo na cena inicial, a película demonstra sua malícia ao mostrar um ato sexual escancarado para depois chocar num crime sanguinário, é então que a trama forma seu foco. Durante a investigação de assassinato de um astro de rock, o detetive de polícia de São Francisco encarregado do caso, Nick Curran (Michael Douglas), encarrega-se de desvendar o mistério criminal. Ao investigar, a fim de obter informações mais apuradas sobre o caso, ele chega a principal suspeita: Catherine Tramell (Sharon Stone), uma psicóloga bissexual e também escritora de livros que manteve um caso com o cantor morto. Além de ser amante do rockeiro, coincidentemente o crime é idêntico ao que ela descreve em um de seus livros. Não é preciso muito para deduzir a trama estabelecida. Nick é seduzido pelo jeito insinuante, fatal e sensual que Catherine exibe. Ao passo que avança em suas investigações, ele se envolve num jogo de manipulação e desejos que não consegue conter. É o estopim de uma trama que abarca a sexualidade explícita, num jogo sádico psicológico.

A sexualidade é o motor que impulsiona todo o sentido argumentativo do filme. O roteiro centraliza o mistério criminal, onde há um suspense crescente com pequenas reviravoltas. Mas, o erotismo caracteriza todos os personagens, condicionados à libido e aos anseios carnais pelo desejo. O aspecto lascivo de Catherine é o frisson sensual que o filme evidencia — é a típica fêmea que atrai todos os olhares, sendo de homens ou mulheres. A personagem impõe a sua sexualidade que ferve em diálogos provocativos; pelo comportamento sedutor ao flertar com os policiais que inflamam ainda mais sua dúbia personalidade. Tão sedutora, passa a ser parte fundamental ao desenvolver do mistério. Será que ela esconde segredos obscuros? Quão pecaminosa pode ser? O que ela não oculta é seu poder de manipular e seduzir os homens ao redor — evidente, inclusive, na famosa sequência em que ela depõe aos policiais, descruza as pernas e revela estar sem calcinha, num poder visceral de sedução através de sua beleza e charme sexual. A personagem brinca, abusa e flerta libidinosa para se esquivar do interrogatório. A cena tornou-se icônica, sendo o ápice do erotismo elegante expresso no cinema.

A libido masculina também é expressa no aspecto viril de Nick, um homem que não consegue permanecer sem o hábito do sexo diário. O personagem é viciado em sexo. O macho que precisa acasalar sempre? Mantém um caso sexual com a psicóloga Beth Garner (Jeanne Triplehorne), que tem prazer em ser sodomizada por ele em transas selvagens, agressivas. A relação não aparenta ter algo sentimental. O caliente roteiro mostra o lado masculino por esse personagem que é manipulado pelo poder do desejo pervertido — além do alcoolismo, ele não sustenta seus vícios da carne. Ao passo que envolve-se mais com Catherine, a tensão cresce no filme, é o senso do perigo evidente pois Nick passa a perder o controle da situação. O diretor Paul Verhoeven não oculta a ebulição dessa relação libidinal, provoca ao mostrar esse envolvimento viciante, perverso e irrefreável. As cenas de sexo são intensas e explícitas por ter um realismo extremo que causa impacto. As cenas picantes recebem uma vibrante trilha sonora de Jerry Goldsmith, um apuro melódico sensual que mistura acordes de suspense. A quente relação de Catherine e Nick é maliciosa, é justamente onde o filme encontra sua força. Há ainda espaço para subtramas sobre alcoolismo, traumas do passado e lesbianismo — Catherine envolve-se com mulheres que nutrem obsessão sexual e dependência afetiva por ela, a sua amante Roxy (Leilani Sarelle) mantém um ciúme por conta do seu envolvimento com Nick.

Não só as cenas de sexo concentradas de erotismo são inesquecíveis — os diálogos dúbios e ousados que são pronunciados pela femme fatale Sharon Stone elevam o tom propenso à sensualidade que o filme condiciona. A atriz interpreta o caráter lascivo, a liberdade feminina sexual sem conservadorismo; ela transborda sensualidade, mas é seu caráter frio e a caracterização misteriosa que surpreende. Sua Catherine representa o sonho masculino; o arquétipo de mulher que é o fetiche de qualquer homem. A química sexual em cena com Michael Douglas é delirante, excitável; os dois atores transpõe um tesão mútuo nas sequências de sexo ou mesmo nas trocas de olhares diante de diálogos sórdidos. Sob a fotografia de Jan De Bont, o casal é despido com tons avermelhados e jogos de sombra de luz que prioriza a atmosfera íntima do desejo. Decerto, Paul Verhoeven quis realizar seu filme de suspense esquematizado no sexo, no domínio técnico que resultou na impulsão da libido que explode em cenas coreografadas convincentes. As reviravoltas não conseguem ser mais prazerosas ou tensas que o senso libertino que o roteiro não mascara. Um filme que, por trás da condição sexual, desenvolve um estudo sobre distúrbios psicológicos, da condição da sociopatia e dos vícios que causam a imoralidade humana. Às vezes, o sexo torna-se a própria perdição em vida. "Não contarei meu segredo só porque tive um orgasmo".

Basic Instinct (EUA, 1992)
Direção de Paul Verhoeven
Roteiro de Joe Eszterhas
Com Michael Douglas, Sharon Stone, Jeanne Tripplehorn, George Dzundza, Leilani Sarelle

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