Desejos e segredos

Há prazer no ciúme doentio? Como trancafiar, imaculado, um segredo que pode anunciar um abalo? Qual conceito de assédio sexual? Eis o thriller nervoso de alta tensão: Notas Sobre Um Escândalo é um filme intrigante, estarrecedor e prazeroso. A polêmica abordada? A história da professora de artes, casada e mãe de dois filhos, Sheba Hart (Cate Blanchett). Dotada de beleza e sensualidade, agita as águas do local. Ela se envolve sexualmente com seu aluno de 15 anos, Steven Connolly (Andrew Simpson), e tem como guardiã de seu segredo a sua colega de trabalho, a historiadora Barbara Covett (Judi Dench) - uma mulher melancólica, misteriosa e recalcada homossexual que vive sozinha. Em seu diário, Barbara conta detalhadamente tudo que sabe sobre a sexualidade desenvolvida entre Sheba com seu aluno menor. O terreno que se desenvolve essa trama é na escola pública suburbana de Londres. A polêmica surge quando a relação dessa confiança estabelecida entre as duas professoras são postos a prova: Barbara é altamente estranha, como narradora do filme ela expressa todos seus pensamentos e percepções sobre suas intimidades próprias e também com relação ao que sente ao círculo externo. Torna-se mentora, conselheira e espécie de ouvinte aos questionamentos de Sheba. E é através das confidências sexuais desta que Barbara se apresenta uma repleta dominadora, tenta de todas as maneiras dissimular uma amizade confiável com manipulações macabras e intenções obscuras. Será que ela sente inveja em relação à Sheba? Por que ela deseja tanto saber e compartilhar todos os seus segredos? Por que anotar tudo em seu diário e nutrir nisso um prazer gratuito? Mais que uma guardiã, Barbara tende a ter uma autoridade sobre a vida de Sheba - ainda que esta não perceba de imediato. E o ótimo roteiro de Patrick Marber, baseado no livro de Zoe Heller, demonstra todo o cinismo, ironia e astúcia desse estranho personagem - seria Barbara uma psicótica? Patologia? Apenas venenosa? As notas no diário expressam a personalidade neurótica de Barbara, reforçando seu ciúme e possessividade abusiva sobre Sheba.

A construção das duas personagens é profunda. Barbara é uma pessoa recalcada, misteriosa e altamente estranha - sempre viveu à custa de afetuosidade? Vive com seu gato, tem poucos amigos e não consegue relacionar-se socialmente. Talvez, pela inquietude de aceitar-se homossexual, desenvolveu hábitos diferenciados e condicionados. Percebe-se nela uma ânsia por experimentar um prazer novo - assim, suga da mulher a quem guarda um segredo e confidências, toda sua vitalidade. É como se, através da feminilidade alheia, ela pudesse se reorganizar integralmente. Já que não tem uma vida sexual ativa, nem muito menos é cortejada - infiltra-se na vida alheia para obter satisfação pessoal, índole duvidosa. Em seu interior de desespero e agonia, ela nutre uma paixão platônica por Sheba, algo lúdico e que jamais ocorre no plano da realidade. Ela expressa a típica mulher que jamais prosperou na vida, tanto amorosamente quanto na esfera profissional - amarga, carente e sofrida. Envelheceu sem ninguém. Sua fixação especial é resultado da atração sexual aliada à carência incondicional? Eis uma prisioneira de sua própria necessidade de atenção?

Já Sheba caracteriza-se como a mulher que fere o tabu social: infiel, trai o marido, por desejar um garoto menor de idade. Imersa no desejo desenfreado, não consegue deixar de sentir-se atraída pelo garoto que a assedia constantemente. E ela concebe um pecado que incendia: a pedofilia. Sheba recorre ao garoto em encontros casuais, secretos e à noite: no chão, no mato, próximo a linha de trem - ela é penetrada pelo jovem. Ambos transam sem medo. Ela consegue ter prazer com o garoto inexperiente, submete-se ao sexo apenas pelo prazer que se apoderou de sua carne. Steven vê na mulher mais velha seu prato feito: é a puberdade expressando o desejo latente, quer apenas ter o gozo diário. Mas, como menino imaturo, acredita que sua relação com Sheba tenha efeito promissor. É interessante o misto da malícia e infantilidade que Steven exala - e isso provoca frissons eróticos em nela.

O diretor Richard Eyre propõe um filme que sufoca o telespectador, devido às cenas encenadas com bastante intensidade. Belíssimo trabalho austero. Além da hiperdramática e minimalista trilha sonora proposta por Philip Glass que concebe os tons de cada cena, ápice das situações, verdadeira taquicardia de arpejos sonoros. A intenção era provocar? Totalmente irrespirável, o foco da película é justamente no embate psicológico e atuações cicatrizantes de Cate Blanchett e Judi Dench, performáticas e excepcionais. A catarse é justamente no segredo confiado de uma para a outra, na relação doentia de das duas. E o sexo da professora com o aluno? Um tabu que perdura, pois não só a pedofilia é insinuada, como também a ética humana. O que consiste amoralidade? Sheba torna-se subjugada ao seu desequilíbrio emocional em manter relações sexuais com um menor - mas, também é foco do ardor manipulador provocado por Barbara que a mantém própria refém de seu segredo. Interessante a composição fotográfica e conceitual do filme de Chris Menges, a direção de arte consegue evocar os aspectos da solidão, a introspecção sombria de Barbara através de seu apartamento escuro e totalmente tortuoso - enquanto na casa de Sheba as cores são claras, espaços amplos de tons suaves da cor.

Não é um filme digestivo, é provocativo na premissa e constrangedor por ser verdadeiro, faz com que cada um reflita o próprio desejo dentro de si. O escancaramento de segredos íntimos, aparentemente inconfessáveis e os choques de visões do feminino pelas óticas sexuais do homossexualismo e heterossexualismo, concretiza uma abordagem ousada com peculiaridade realística. Como se livrar do desejo desmesurado juvenil? Ser adúltera é ter a infelicidade plena? Como confiar uma intimidade dentro da própria intimidade? O sexo ardente é condenável? Há em Sheba o símbolo da mulher oprimida por uma vida conjugal insatisfatória, oprimida pelo casamento com o homem mais velho (Bill Nighy) - vê na quase criança a oportunidade de transgressão, da liberdade e do prazer desmedido. O sexo a deixa menos entorpecida? Porém, opondo-se, há em Barbara todo o condicionamento da frustração, do desespero de estar sozinha, da repressão. Contudo, o que Bárbara quer Sheba não pode lhe dar: uma alma mais leve e feliz.

É de causar pena o desmesurado tesão juvenil que direciona ao estudante. Tudo vem à tona e é impossível não sentir comoção pela adúltera que queria uma emoção em sua vida. Ainda que polêmico, o tom humanista é presente no filme. Um trabalho que incomoda ao expor com tanta veracidade a dualidade do desejo. O filme questiona desejos obscuros, insatisfações, solidão e o sentido da moralidade humana. Há certas cenas que se tornam asfixiantes devido à agressividade interpretativa de Blanchett e Dench - é o monstro que chantageia a boneca de pano? Muito sarcasmo, chantagens emocionais com diálogos afiados, densidade psicológica e contornos de tensão e drama. O ser humano pode ser frágil e perverso, tudo ao mesmo tempo.

Notes on a Scandal (Reino Unido, 2006)
Direção de Richard Eyre
Roteiro de Patrick Marber
Com Cate Blanchett, Judi Dench, Andrew Simpson, Bill Night

33 opinaram | apimente também!:

Robson Saldanha disse...

Acho que qualquer filme que tenha Cate já é bastante digno pra ver. Com Judi então, melhora mais ainda! Não conhecia o filme!

Clenio disse...

FILMAÇO!!!

Um duelo de interpretações dos mais empolgantes do cinema recente. Dench e Blanchett simplesmente enchem a tela com seu carisma e talento e o tema do filme (a solidão, a busca por amor) é universal e atemporal.

Uma pequena obra-prima.

Grande abraço,
Clênio
www.lennysmind.blogspot.com
www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com

Paulo [ALT] disse...

Cris,

Monstro e boneca de pano hahaha, de onde é que vc tira essas coisas? rs ficou legal

O blog tá ficando mais diferente. É bom, você dá lugar pra explorar mais coisas ou pontos ou personagens que um texto corrido não permite neh?

Eu não esqueci não daquele outro com ela das premonições, embora eu tenha quase certeza que vc acha q eu nem lembro mais.

sabe, essa trama do post me lembra aquele filme com a Audrey, sabe? que são profesoras e há chantagem tb? Se vc ampliar aquele post ia ser bem legal. o riquinho ker comprar ainda ¬¬ kkkkkk

seu jeito de escrever continua fluindo todo bem composto rs pena q não de pra eu comentar nada sobre o filme =S

Abraço meu Amigo ^^

Kamila disse...

Este filme é simplesmente sensacional! A personagem da Judi claramente se apaixona pela da Cate e, por ciúmes mesmo, não admite que ela viva uma história que não seja com ela. Acho interessante aquele final. Porque fica subentendido que a Barbara vai começar uma nova "obsessão" com aquela jovem com quem começa a conversar.

PS: acho este longa um primor de roteiro, direção e atuação!

Luigi Lopes disse...

Gostei de seu post. Já haviam me indicado este filme, mas eu ainda não o vi. Achei muito interessante... Dica anotada. Abraço!

Marcelo Pereira disse...

Um pequeno grande filme. Excelentes interpretações, Blanchett e Dench provocam arrepios!

Abraço

Emmanuela disse...

Definitivamente quero ver esse filme! O texto deixou claro que a obra possui algo de especial, o enredo parece bem interessante e bastante reflexivo. Pretendo assistir em breve !!

cinemapelaarte.blogspot.com

Luis Galvão disse...

Noooossa, como eu gosto desse filme. As atuações são simplesmente perfeitas e o roteiro é genial. Concordo contigo.

Marliborges disse...

Com certeza assistirei. Já havia pensado antes, mas agora... bjsssssss

Guilherme Sakuma disse...

Esse é dos bons...

Tania regina Contreiras disse...

Ah, este vi e gostei, lembra? Seu comentário bate bem com o que o filme transmite.

abraços,
tania

Serginho Tavares disse...

ah eu adoro este filme!

Marcos Eduardo disse...

Esse filme maravilhoso vive passando no canal FOX. Vale muitissimo a pena assistir!

Ótimo texto, Cris. Parabéns pelo sucesso do blog, viu!

Abraços.

Patife disse...

Grande crítica. O Patife adorou.

Rodrigo Mendes disse...

O filme é mediano. No entanto, o duelo de Judi e Cate é digno de uma Davis e Crawford.

Abs!

cabaretcinefilo disse...

Cristiano, como vai?
Tive o prazer de acompanhar esse filme na estréia, e por sinal, gostei muito, o desempenho de Dench e Blachett são excepcionais, assim como o roteiro que se desenvolve de forma muito agradavel ... e tudo toma um rumo adequado, um dos ótimos filmes de seu ano!

Nekas disse...

A temática é interessante e as personagens são talentosas.

Abraço
Cinema as my World

Wallace Andrioli Guedes disse...

Acho impressionante como o filme escapa da vala comum do suspense com uma protagonista obcecada para se transformar em um drama poderosíssimo, com duas atrizes em estado de graça transformando suas personagens em figuras extremamente complexas.

Alan Raspante disse...

Só conhecia o nome do filme. Mas, nunca imaginava uma história tão forte como essa, fiquei doido pra ver este filme!!!!!!

BRENNO BEZERRA disse...

Gostei menos que eu imaginava tanto do filme, quanto do elenco.

alexandre disse...

Ola
Parabéns pelo seu blog!
Abcs
Alexandre Taleb
Consultor de Imagem/Personal Stylist
AICI - USA member - association of image consultants international
Blog: http://ataleb.wordpress.com
Site: www.alexandretaleb.com.br

Mirella Santos disse...

Sem palavras pra um filme tão intenso dessa maneira e olha que ainda nem assistir e suas palavras passaram tudo que realmente o filme queis dzer eu acho. Com certeza vou procurá-lo. Bjos Blogmurus

Kahlil Affonso disse...

A Interpretação das 2 é chocante!

http://que-nota.blogspot.com/

Ana Rodrigues disse...

Se as atuações de Cate e Judi fossem verbete deveriam significar MAGNÍFICAS. O filme é ótimo, roteiro excelente e as duas são sensacionais. Filme com Blanchett é sempre um prazer.

Lua Nova disse...

Suas resenhas conseguem contar sem contar, de tal forma que dá vontade de sair correndo pra ver o filme. Além disso, ter a possibilidade de assistir a interpretação de Cate e Judi é estimulante. Essas duas juntas devem ser um show à parte, pra se apreciar além da história, dos cenários, dos figurinos.
Obrigada.
Beijos.

Elton Telles disse...

Não gostei como gostaria. Furos de roteiro gritantes e exageros dignos de virar a cara de vergonha. Não esperava isso do talentoso Patrick Marber... pra mim, o grande culpado pelo insucesso de "Notas Sobre um Escândalo".

o elenco está muito bem, com destaque para Judi Dench. Mas o pouco tempo de filme não é suficiente para "encerrar" uma história tão trágica e ainda tentar estabelecer um estudo psicológico daquelas mulheres.

o filme é muito bruto e direto, o que acaba sendo deveras decepcionante.


[***]


abs!

Edson Cacimiro disse...

Não vi o filme ainda ,mas com essas duas com certeza vale muito a pena!Belas palavras como sempre Cristiano.
Abraço.

Madame Lumière disse...

Oi Cris,

Tudo bem?

Gostei da expressão "é o monstro que chantageia a boneca de pano? ". Bem criativa!

Este é um filme pendente na minha lista de pendências,rs! Eu adoro o trabalho de Blanchett e simpatizo muito com Dench, então não posso opinar ainda sobre o filme, porém sua belíssima resenha desperta ainda mais o meu interesse em assistí-lo. Não sabia que havia um desejo homossexual no filme e um caso de pedofilia. Sem dúvidas, um filme que apresenta bastante conteúdo para discussão. Vou conferí-lo.

Bjs

Marcus Costa disse...

Esse filme me tocou muito. Ótimas atuações e um enredo bastante inteligente, com muitas boas falas (principalmente os "pensamentos" de Barbara).
Gosto muito de filmes que trazem personagens com comportamentos que contrastam com o que tomamos como normal e mostram não só do que elas são capazes, mas o que sentem. E assim penetramos no seu mundo, uma personagem que se atira vez após outra num abismo de profundos sentimentos deletérios e incompreendidos, e quando chega no fundo, esquece de onde caiu e atira-se novamente.
Achei muito boa a escolha.

Júnia L. disse...

Trata-se de um suspense psicológico, bem interpretado, com roteiro esperto de Patrick Marber (autor da peça Perto Demais) e direção arguta, embalado pela marcante trilha do compositor minimalista americano, autor de outras memoráveis, como Drácula, Kundun e As Horas, para ficar nas mais recentes, e na fotografia do aclamado Chris Menges (dois Oscar por trabalhos menores, A Missão e Os Gritos do Silêncio).
ÓTIMOOOOOOOOOOOOO FILME!!!!

Luciano Azevedo disse...

Acabei de assistir. Fabuloso!

renatocinema disse...

Caramba. Se o filme for tudo isso é imperdível. Encomendei na minha "locadora".kkk. Abs

renatocinema disse...

Caramba. Se o filme for tudo isso é imperdível. Encomendei na minha "locadora".kkk. Abs

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