Ladrar, Amar

Somente o apurado olhar técnico e humano do mestre Alfred Hitchcock para conseguir exercer um suspense que mistura elementos do drama e romance delicioso. Totalmente charmoso, é um filme que se alia da elegância e estilo próprio do diretor que fazia da arte um conceito nítido. Com base no romance de David Dodge, Ladrão de Casaca é um dos trabalhos mais ousados já articulados por Hitchcock. John Robie (Cary Grant), também conhecido como "o gato", é um ex famoso ladrão de jóias que, outrora, executava grandes furtos e roubos à alta sociedade. Típico bon vivant, ávido por riqueza e luxo, roubava porque queria ter uma vida firmada na satisfação do consumo - ostentar seria a boa definição, pois via no dinheiro apenas a maneira de ter prazer e ser feliz, não roubava para sobreviver: apenas gostava do dinheiro fácil, da vida mansa. Contudo, após ser preso e arrepender-se dos velhos hábitos, Robie torna-se o principal suspeito quando novos roubos passam a ser frequentes em hotéis de luxo da Riviera Francesa. Como provar sua inocência? Quais ligações tem esses furtos com sua pessoa? Todos acreditam, inclusive a polícia, que os roubos têm ligações precisas com o estilo e sua abordagem característica de furtar. Como provar que nada tem a ver com isso? Para provar sua inocência, deve prender o verdadeiro criminoso que imita seus gestos nos antigos roubos. Atordoado, confuso e impulsivo, Robie vê a oportunidade de provar a inocência e até virar o jogo - atraindo como isca o misterioso - ao conhecer a herdeira mimada Frances (Grace Kelly). Eis que o destino reserva surpresas: ambos passam a ter uma forte atração, um desejo súbito e, apesar do frisson inicial, a desconfiança impera quando a mãe de Frances tem suas jóias roubadas. Como fazer a jovem dondoca acreditar em sua lealdade? Será mesmo ele tão inocente assim?

Hitchcock aqui se abstém de seu lado soturno, claustrofóbico, e firma sua narrativa no puro primor imagético e romanceado. Sim, um filme sofisticado em grande escala. Há um clima mais descontraído, visto que certos elementos de humor se mesclam aos contextos de suspense e dramas, além da estirpe de romance que centraliza os dois personagens. É um suspense romântico leve? Os toques de mistério se misturam com a verve da paixonite dos amantes em cenas. Mais, a película é totalmente um exercício de diálogos e muita insinuação visual e na dialética. Nota-se uma inteligência, um ardor ácido-irônico e uma experimentação da dualidade provocativa dos personagens. Em certas cenas, Robie e Frances insinuam-se com palavras dúbias, duplo-sentido evidente. Eis a delícia sexual proposta com criativa sutileza Hitchcockiana? A aventura romanceada com toques misteriosos induz o espectador na atmosfera repleta de ironias desencadeada. De fato, o filme torna-se moderno pelo bom desenvolvimento dos diálogos do casal central, da fotografia do colaborador habitual Robert Burks (decerto, um dos maiores aspectos que tornam o filme mais prazeroso de se ver) e da fluidez das cenas - ora há sequências dinâmicas, com senso espirituoso e de humor; ora há cenas que são longas, sem corte, favorecendo a interpretação e, concomitantemente, a overdose da química sexual entre Cary Grant e Grace Kelly. Há passagens no filme que ambos parecem estar improvisando, tamanha veracidade em cena.

Nota-se que, neste caso, o ponto-chave do mistério em si pouco importa: o casal passa a vivenciar uma perigosa relação. O tesão é evidente, visto que os personagens demonstram, claramente, o desejo que sentem um pelo outro - revitalizando o progresso da convivência, do sentimento. Porém, devido ao teor irônico que permeia o roteiro, a relação é assediada com muita malícia e sarcasmo sexual suavizado. Frances insinua-se para Robie, ainda que tente preservar sua arrogância e seus dotes elegantes que transparecem certa frieza. Ao mesmo tempo que tenta induzir o outro com seu charme, seu apelo feminino, afasta-se dele por, talvez, não reconhecer nela própria sua emocionalidade em estar apaixonada. Já Robie, além de afastar-se da tentação que o corrói e das investidas da beldade da alta sociedade - incomoda-se na súbita curiosidade que a moça tem em querer saber sua identidade. Será que é válido amar e confiar nela? O dom subversivo de Hitchcock em fugir de algumas regras de seus grandes filmes, torna este trabalho bem peculiar. Porém, o bom estilo está presente: um homem acusado injustamente; a loira fria, mas carregada de artifícios femininos de sensualidade; mistérios entrelaçados na trama e revelação surpreendente no ápice final. Obviamente, a trilha sonora de Lyn Murray foge um pouco do apelo climático do suspense carregado para externar acordes mais sensíveis e de acordo com o invólucro de romance que evoca o roteiro.

E neste seu thriller-romântico que Hitchcock esquadrinha a sensualidade delicada em expor Grant em cenas de short com peitoral à mostra, banhando-se na praia. Inclusive, a própria Kelly por si só determina seu dom de sedução com apenas um olhar, pernas de fora ou gestos imperativos. Talvez, este apelo sensual exalado pela química do casal, do romance acometido, proporcione o revestimento de "filme romântico" - de fato, há mais tensão sexual dos dois em cena do que do senso de suspense em si. A estética visual (tomadas aéreas, inovadoras na época), técnica e emocional são adornos eficientes. Nota-se, como sempre, o apelo másculo que Grant incorpora em seus personagens e na composição felina elegante que Kelly desenvolve para seus papéis. Os planos gerais que se misturam com closes fechados, paisagens panorâmicas que esmiuçam a beleza de Riviera e os figurinos excepcionais decupados por Edith Head: tudo é conceito para Hitchcock executar seu filme mais romântico. Um humor negro para abordar as intrigas do tesão e da paixão? Ainda que o final em si não seja tão imprevisível, só pela boa abordagem psicológica e insinuações provocativas de pura elegância fazem um bom espetáculo. Nítido filme dotado de delícia em sofisticação.

To Catch a Thief (EUA, 1955)
Direção de Alfred Hitchcock
Roteiro de John Michael Hayes
Com Grace Kelly, Cary Grant, Jessie Royce Landis, John Williams, Charles Vanel

28 opinaram | apimente também!:

Por que você faz poema? disse...

Um bom filme, descontraído e com suspense e romance nas doses certas.

Amanda Aouad disse...

Tirando O homem que sabia demais, adoro tudo de Alfred Hitchcock. Cary Grant e Grace Kelly estão ótimos mesmo em Ladrão de Casaca. Só não acho que seja tão sexy assim ele de short, hehe.

bjs

Júnia L. disse...

Gente, amo este filme!
Cary Grant e Gracy Kelly estão perfeitos, eles tinham uma química fora do normal. Não é a toa que Hitchcock tinha preferência por ambos...
O filme é mais leve que os demais do diretor, mas nem por isso devemos ignorá-lo, pelo contrário, ele é um charme em todos os sentidos, MARAVILHOSO!
O diretor não abriu mação dos detalhes e do jogo de câmeras e a fotografia é perfeita, captando a beleza da Riviera Francesa

Edson Cacimiro disse...

Não é meu filme preferido do diretor mas sem dúvida é um bom filme. abç

Renato Tavares Mayr disse...

Filme ótimo, prende a atenção de forma fora do comum, e tem uma idéias de camera nada menos que geniais(o gato preto se aproxima da tela, o ladrão comete o furto, o gato preto se distancia da tela, o ladrão vai embora... Foda)

Cris, o Dois Cafés e Uma Crítica ainda existe, tá? Hehehehe!

cleber eldridge disse...

É uma vergonha!!!!!!! Eu nunca vi nenhum filme dele! Me odeio por isso!

HSLO disse...

Nunca assistir esse...vou procurar.
abraços

Hugo

M. disse...

Do gênero Hitchcok de ser este é o mais leve. O casal do filme é puro charme! E seu texto como sempre sensacional. Um abração.

Hugo disse...

É um filme diferente de Hithcock, que aqui deixa um pouco o suspense de lado e foca principalmente na química do casal principal.

É uma boa diversão.

Abraço

Kamila disse...

Em "Ladrão de Casaca", a Grace Kelly está no auge da sua beleza. O que eu gosto mais neste filme é que Hitchcock, além de mestre na criação das dúvidas que assolam a nossa mente, era um mestre também na exploração das incongruências da Grace. Ele era um mestre, na realidade, da ambiguidade e do duplo sentido. :)

Franck disse...

Pra mim, Hitchcook, dispensa comentários...
Abçs!

Fábio Henrique Carmo disse...

Sou fanzaço do velho Hitch, um gênio absoluto! Contudo, este não está entre os meus preferidos de sua obra. É um bom filme, a química do casal é ótima, mas... Quando lembro de filmes como "Um Corpo Que Cai" e "Janela Indiscreta" (este também com a Grace), "Ladrão de Casaca" perde pontos na minha cotação. Com o Grant há "Interlúdio" e "Intriga Internacional" que também gosto mais. De qualquer forma, qualquer coisa com a Grace Kelly já é memorável. Abraço!

vitor silos disse...

Um ótimo filme e um ótimo texto. Gosto muito do Hitchcock, foi um grande diretor e nos deixou grandes obras!

Vitor Silos
www.volverumfilme.blogspot.com

Emmanuela disse...

Gostei de seu texto super detalhado de um filme de Hitchcock que pode sofrer negligências ao ser comparado com outras obras primas. Boa escolha!!

annastesia disse...

Uma das jóias do meu mestre querido Hitch. Charmosamente irresistível e tecnicamente irrepreensível. Cary Grant em mais uma de suas grandes aparições e Grace demonstrando seu talento. Dia 13 está chegando!

pseudo-autor disse...

Uma falha cinematográfica que eu preciso corrigir urgentemente. Um dos filmes do Hitch que eu ainda não assisti! E olha que eu sou fã do Cary Grant (desde os tempos de Charada).

Cultura na veia:
http://culturaexmachina.blogspot.com

TH disse...

Hitchcook clássico absoluto!
Um dos mais geniais, com os elementos tipicos (romantismo, suspense e quimica genial entre os protagonistas) bem harmônicos entre si. Quase unanimidade, tanto pelo filme quanto pelas palavras utilizadas ao descrevê-lo. ;)

Larissa Araújo disse...

Criiiisss
você tem esse filme? Se tiver me passa depois. Quero ver eheheeh

Mirella Santos disse...

Ah, Cris
Eu já falei lá no blog que nunca vi muitos filme de Hitchcock, achei que teria que ver uns dois pra postar no blog e acabo de encontrar o terceiro, pelo o que vi na su crítica é um bom filme e ainda supera os poucos que vi de Alfred.

Mayara Bastos disse...

Um dos meus favoritos do Hitchcock pelo charme da fita, da química entre Grant e Kelly e, acbaei achando diferente do que o diretor já mostrou. Adoro! ;)

Tania regina Contreiras disse...

Hitchcok é Hitchcok , dispensaria comentários, mas gostei muito foi do seu texto, Leiro!
Beijos,
Tânia

Cristiano Guerra disse...

Hey, Cristiano
Bom encontrar um blog de rezenhas, já que todo mundo só escreve sobre amor. Não vou mentir: sobre grandes clássicos, grandes diretores e grandes atores, sou um leigo. E agora, sem ver o filme, já estou curioso. Bom texto, bem trabalhado e bastante específico.

#Sabe que pode passar na oficina e levar de lá o que quiser, sim?


Abraço, xará ;D

Marcio Nicolau disse...

Do Hitchcock, meu filme favorito é "Festim Diabólico", que foi filmado com uma única câmera e eu acho, por isso mesmo, ousado. Além de apresentar, a clássica atmosfera de suspense do cineasta, também revela a iniciativa criativa ao explorar o conceito de "uma idéia na cabeça e uma câmera na mão". Os cortes, foram feitos da seguinte forma: a câmera focava as costas das personagens masculinas que usavam ternos pretos e ali se descontinuava a película. O filme é em preto e branco e genial.

lucidreira disse...

Não se faz mais cinema como antigamente, e não irá aparecer outro Hitchock nos tempos atuais.
Abraço

PRECIOSA disse...

Tudo na dose certa, gostei muito de seu blog.. estou seguindo
Parabéns Abraços carinhoso

nando disse...

Opa, muito prazer, Cristiano.
Sou o nando, do blog O ÂNGULO EM MIM, que você visitou ontem. Obrigado pelo retorno e atenção. E aqui está meu e-mail:
nandodijesus@gmail.com
Parabéns pelo blog também. Voltarei depois para ler melhor alguns posts, mas claro que não pude evitar conferir logo este sobre meu amado Hitchc. Com certeza é o filme mais erótico do mestre, Grace mais linda que nunca e aquele primeiro beijo... Pô, eu gozo nele! Uma das maiores provas de que sexualidade também é suspense em estado puro...
Abraço.

Luciano Carneiro disse...

Vale pelo charme e elegância, pelo casal de protagonistas e por algumas cenas de puro brilhantismo, porque o roteiro em si não tem muito de atraente. Mas tudo o que Hitchcock toca vira ouro. Tenho o DVD de Ladrão de Casaca, e mesmo previsível, ainda é irresistível.

Luiz Santiago disse...

Um filme francês do Hitch, abordado com deliciosa visão por você. Fiquei feliz quando terminei o artigo. Para uma obra de beleza estonteante e forte trama, apenas um texto apimentado assim, e bem global em sua visão, poderia dar conta do todo.

Parabéns, parceiro!

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