Razão pela emoção

Como pode um coração não se sensibilizar com o que o desejo permite? Todo ser humano, irremediavelmente, busca o êxtase através do ato puro de amar - eis que ser correspondido seja algo necessário às realizações desse sonho, pois para sacralizar o ato há de ter o retorno. É interessante como o belo filme Razão e Sensibilidade, dirigido com maestria por Ang Lee, pauta a sensibilidade humana nas suas variadas formas de carência, afetividade, emoção e ternura. Baseado no clássico livro de Jane Austen, trata-se de uma reflexão sobre uma recatada sociedade inglesa na própria época onde o livro foi escrito (a primeira obra da autora, 1811). O foco narrativo centraliza-se nas perspectivas de duas irmãs, Elinor Dashwood (Emma Thompson) e Marrianne (Kate Winslet). Ambas, em virtude da morte do pai, têm que lidar, juntamente com a mãe e uma irmã mais nova, com a decadência financeira, pois toda a herança fora direcionada ao filho do primeiro casamento. Tendo que lidar com o desapego material, com a reviravolta que o destino provocou - as duas vêem todos os bens valiosos se esvaírem de suas posses, assim como a perda de todos os privilégios e regalias que até então usufruíam e tinham sob controle. Sob o rigoroso sistema de convenção, aparências e âmbito social daquela época - que ditam regras e impõe atitudes - é que os problemas aparecem. Como lidar com as mudanças bruscas que a vida proporciona? Como não ter a fragilidade em função da ausência de perspectivas? As irmãs Dashwood, sem a garantia de um futuro seguro e de estabilidade, sem um dote aprazível, na conjuntura social em que vivem, temem por não conseguir um casamento. Partem para um novo local, uma vida mais humilde no campo. Como estar fora dos preconceitos de uma sociedade que critica e amedronta? O filme mostra a trajetória dessas duas, através de suas personalidades tão distintas: Elinor é a razão, Marrianne o senso da emoção.

Eis um trabalho nítido que vangloria a essência da feminilidade do século XIX ao colocar duas personagens com contornos opostos: Elinor é a típica reprimida, introspectiva que jamais expressa suas sensações. Atenua sua emoção como forma de defesa, usa das armas da razão para conduzir sua vida. Mas, no seu íntimo, é uma mulher romântica que anseia um homem ideal que represente todo o sentimento. Dói observar uma mulher que é tolhida pela própria vida, sem chances de mostrar sua vitalidade. Prefere trancafiar seus desejos para si mesma, sempre prudente e rigorosa. É, então, que sua atenção volta-se para Edward Ferrars (Hugh Grant), um jovem educado e de princípios rígidos que causa admiração. É então que esta mulher racional tem que lidar com suas próprias limitações - obviamente, o sentimento nasce e é difícil manter o invólucro de racionalidade. Será que é difícil expressar o que sente? Como lutar pelo amor que tão logo se mostra platônico? Elinor vive sob as amarguras de não ter se casado no "tempo ideal" que a sociedade diz. Como não sentir mais vergonha de sua solteirice? O traço psicológico desta personagem é muito bem exposto no roteiro adaptado por Emma Thompson, visto que consegue manter toda a essência densa e delicada da verve literária de Jane Austen.

Já o teor de altivez, emoção e passionalidade do desejo da esfera da paixão fica a cargo dos anseios motivacionais e comportamentos de Marrianne. Tem a extravagância da emoção como prioridade, pois sempre fala tudo que pensa - é a mulher autêntica que não teme por ser transparente. A típica romântica que lê poemas e versos de Shakespeare para refletir e costuma tocar piano diariamente para conceber seus próprios sonhos. É genuína em sensibilidade, sempre passional e com temperamentos impulsivos. Quando ela conhece o sexual John Willoughby (Greg Wise): eis que sua personalidade sonhadora se acentua. Ela se entrega por inteira a um desejo absoluto, irrefreável - idealiza o homem perfeito, àquele que possa corresponder todo o romantismo lúdico que toda moça ingênua, e também passional, se predestina em ansiedade. Mas será ele o homem ideal para ela? O que será que o destino ainda lhe reserva? Ela ainda lida com os flertes de um coronel maduro, carinhoso e íntegro, Brandon (Alan Rickman). O roteiro delineia as motivações, as fragilidades e toda a trajetória de amor e desejo das mulheres - e seus respectivos homens - são caracterizadas de muita beleza humana. As composições interpretativas de Thompson e Winslet são excepcionais, personificações sensíveis e densas. Decerto, o cuidado da direção delicada de Ang Lee se mostra em gestos, olhares e tons de voz que cada uma reserva às personagens distintas. O preconceito também é pautado no roteiro, pois as irmãs sofrem nas mãos de uma sociedade inglesa que é aficionada no status, onde se valoriza sobrenomes e títulos. É daí que seus homens galantes e visivelmente elegantes recebem barreiras para cortejá-las.

Mais que uma crítica contra a hipocrisia de uma sociedade preocupada apenas com os bens materiais - é um retrato brilhante sobre a essência da busca por amar e ser amado. É duas mulheres que buscam o sentimento que elevem suas vidas a uma nova perspectiva de prazer, amor e senso de felicidade. Como ser feliz numa vida que causa tantas amarguras? Como saber se este é o homem ideal que realize todos os sonhos e também todos os prazeres? A ótica feminina de Austen é mostrar duas mulheres que sentem o tesão de amar e ser amada - que anseiam o mais puro sentimento, o orgasmo é ser valorizadas neste critério de amorosidade. Afinal, toda mulher sempre quis ser correspondida a um grande amor - viver de amor é o que todo ser quer. E Austen sabe retratar as buscas do feminino para o masculino, talvez seus homens sejam tão idealizados pela ótica sensível das mulheres. A maneira como expõe com um olhar feminino as delícias, tristezas e agruras do mundo são bastante tangíveis - é puro romance adocicado. O mais interessante é que o filme providencia uma necessidade da mulher se mostrar mais sensível e também sensibilizada pelo que vivencia - só, talvez, assim será tocada pelo humano da vida e tomará as próprias rédeas do destino. Num universo onde a figura feminina, às vezes, não passa de objeto de uma sempre contida e cavalheiresca afeição masculina, as duas equivalem à heroínas que nadam contra as convenções ao se agarrarem à esperança de conciliarem o amor verdadeiro com a realização matrimonial. Um exemplo de ode ao romantismo clássico que jamais deve ser apagado. De fato, todo ser só cresce através do misto da razão e da sensibilidade. Decidir racionalmente, para poder viver emocionalmente.

Sense and Sensibility (EUA, 1995)
Direção de Ang Lee
Roteiro de Emma Thompson, baseado no livro de Jane Austen
Com Emma Thompson, Kate Winslet, Hugh Grant, Alan Rickman, Greg Wise

26 opinaram | apimente também!:

Luigi disse...

Faz tanto tempo que assiti a este filme que ele estava esquecido. Adorei ver v. falando dele. Eu nem me lembrava que a direção era do Ang Lee e ainda estou em débito com a leiuta de Jane Austen, que como v. muito bem apontou sabia descortinar a hipocrisia de uma época e falar do universo feminino como poucos artistas souberam. Abraço!!!!

cinecabare disse...

belo blog o seu. eu tenho um novinho se pudr dar uma olhada agradeceria. abraço

Adriana Zardini disse...

Oi Cristiano! Gostei muito do seu post! Jane Austen é única, não é mesmo?

renatocinema disse...

Sempre quis ver esse filme e empurro com a barriga. Acho que não tenho como fugir mais. Vou assistir esse filme.

Jυℓyαnα ツ disse...

Jane Austin escreveu de forma à seus livros viverem até hoje no imaginaria das pessoas.
Ela conseguiu retratar com uma perfeição quase assustadora o mundo em que vivia, suas qualidades e seus defeitos.
Embora não tenha visto o filme li o livro e recomendo-o a quem quiser pois é uma leitura maravilhosa.
Já leu ou viu Orgulho e Preconceito? Tem uma abordagem do mundo daquela época muito interessante também [recomendo ^.^






;*

Amanda Aouad disse...

"Todo ser só cresce através do misto da razão e da sensibilidade." Não tem frase mais verdadeira. Adoro esse filme, já era fã de Emma Thompson depois desse, então, ainda mais sendo seu primeiro roteiro. Sensível e belo.

bjs

Edson Cacimiro disse...

Esse filme é lindo!!! Vi há muito tempo atrás creio que já é hora de reve-lo.

Richard Mathenhauer disse...

Os filmes baseados na obra de Jane Austen, inclusive Amor e Inocência, são belíssimos, com fotografia e trilha sonora excepcionais.

Abraços,

Kamila disse...

Adoro o livro da Jane Austen, mas não gosto do filme do Ang Lee. E me identifico demais com a personagem Elinor. Tenho muitas coisas dela.

Fábio Henrique Carmo disse...

Grande filme! Antigamente, tinha um certo preconceito com ele, achando que era excessivamente meloso. Depois que o vi, virei fã!Um dos melhores de Ang Lee! Abraço!

Rodrigo Braga disse...

Tenho essa lacuna literária na minha vida :Jane Austin. O filme é lindo!

Quanto o texto é muito bem feito, coisa que vejo vc como um especialista.

Não interrompa esse trabalho!

cleber eldridge disse...

Comprei o livro e o dvd juntos, decidi primeiro ler o livro, enquanto isso, me pediram emprestado o filme. Ok, emprestei quem disse que a pessoa me devolveu? Alias, quem disse que eu lembro pra quem ter emprestado? O que acabou que ainda não vi o filme. Mas, o livro é de fato primoroso!

Mayara Bastos disse...

Gosto muito do filme, captou bem a essência da Jane. Kate e Emma ótimas em cena e Ang Lee num belo momento. ;)

Athila Goyaz disse...

Excelente texto!

Thiago Paulo disse...

Razão e Sensibilidade é um dos meus filmes favoritos, ele tem uma direção super competente e um elenco afinadíssimo.

Antes de conhecer o universo de Jane Austen, eu não gostava de romaces clássicos como esse... Só depois que assisti e li Orgulho e Preconceito é que passai a gostar. Por esse motivo, descobre a beleza de Razão e Sensibilidade.

Como não gostar desses personagens? Impossível. É isso se aplica a todas as história da escirtora [ pelo menos das que conheço].

Abraço!

TH disse...

Que belo texto, rapaz!
Sensível igual (deve ser) o filme, que não assisti ainda.
Análise primorosa!

Pedro Henrique disse...

Emma Thompson é foda! Sou doido por ela. Quando resolve falar de Jane Austen ainda, nossa!

Pedro Henrique disse...

Pena que o filme é dirigo pelo Ang Lee.

Renato Tavares Mayr disse...

Desculpa o sumiço, Cris... Fiquei um tempo sem internet, mas voltou ontem...

E sobre o filme... Deve ser o único filme que eu acho chato... :-P

M. disse...

Eu gosto de Ang Lee e da maneira como aborda certas histórias. Um abraço e ótima semana.

Wally disse...

Excelente texto! É um filmaço de Ang Lee (sempre muito sensível), que conta com elenco formidável e roteiro dez.

AGENTE FOOSE disse...

Visualmente, o filme é tão fantástico quanto Retorno a Howards End, por exemplo, e lembra muito, também, a mais nova versão de Adoráveis Mulheres/Little Women, com Susan Sarandon e Winona Ryder, já que a Nova Inglaterra se parecia tanto com a velha, no século XIX. E expõe alguma crítica aos valores da época, o apego ao dinheiro e às aparências – mas, ao contrário dos filmes de Ivory, e ao contrário de Na Época da Inocência, de Scorsese, sua principal preocupação não é denunciar os mecanismos repressores da sociedade, mas sim apenas contar uma bela história. De qualquer forma, a bela história é contada com sutileza, charme, elegância, estilo e muita competência. O filme ganhou o Urso de Ouro em Berlim e os Globo de Ouro de Filme e Roteiro, além de sete indicações para o Oscar. É um grande prazer para os olhos, visualmente uma pérola, cenografia e fotografia esplêndidas, elenco excelente – com superlativos para Emma, essa atriz absolutamente brilhante, e para Kate Winslet.
É incrível como Ang Lee, depois de três filmes sobre temas que domina, a cultura dos chineses, de Taiwan e suas experiências nos Estados Unidos, consegue fazer um filme de época absolutamente inglês, que James Ivory assinaria com o maior prazer. Belo texto amigo... parabéns!!!


Um grande abraço...

Juliana Barbosa disse...

Não poderia ser mais emocionante!

Muitíssimo bom!

Elenco PERFEITO.

Marconi disse...

Excelente texto. Sou fã do filme e da obra de Austen.

Nuriko disse...

Adoro esse filme! E o livro é fenomenal.
Também, é Jane Austen.

J. BRUNO disse...

Já tem um baita tempo que assisti e a história estava começando a se apagar de minha memória, ao ler sua post com esta brilhante análise deu vontade de assistir de novo, a ele e ao "Orgulho e Preconceito"...

Foi neste filme que me apaixonei pela Kate Winslet!!!

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