Educação Macabra?

Stephen King sempre conseguiu desvendar o lado mais obscuro da alma humana. Em seu universo, ele desnuda o que há de mais denso e obscuro; evidencia a vertente mais macabra e também psicótica do comportamento humanístico. Seu olhar quanto ao sobrenatural se caracterizou evidente e é uma constância em suas abordagens, porém o escritor surpreende mais quando concebe um estudo mais intimista, ainda que não menos aterrorizante. O instigante O Aprendiz reflete bem esse senso psicológico, um suspense tenso que exemplifica o talento de King na esfera humanista dramática. O filme é baseado num dos quatro contos reunidos no livro "As Quatro Estações" — dois outros textos foram adaptados, "Um Sonho de Liberdade" de Frank Darabont (que também dirigiu outro livro do autor, "À Espera de Um Milagre") e "Conta Comigo", de Rob Reiner. São histórias bastante psicológicas, onde o humano aqui é evidenciado com seus medos e fragilidades, na linha tênue da bondade e do vício da sedutora maldade. Dirigido por Bryan Singer, este é um trabalho dramático sufocante, repleto de elementos sinistros tão evidentes nas obras de King. O jovem Todd Bowden (Brad Renfro) é um estudante de dezesseis anos. Ao estudar sobre o Holocausto na escola, percebe que um antigo comandante do campo de concentração nazista, Kurt Dussander, desaparecido desde o final da Segunda Guerra Mundial, tem as mesmas semelhanças físicas com o seu vizinho. Eis a revelação: o velho homem, conhecido como Arthur Denker (Ian McKellen) é um ex-criminoso nazista e mora ao seu lado. Qual seria o interesse do rapaz no disfarce do misterioso criminoso foragido? Para não entregá-lo às autoridades, o garoto exige que o fugitivo relate suas memórias do período da guerra, inclusive todos os detalhes sórdidos das torturas que executava aos judeus. É então que o jogo psicológico entre os dois direciona todo o princípio do filme.

A trama é bastante tensa, pois foca nessa relação estranha entre Todd e o ex-torturador. Num jogo doentio, no qual todo um passado macabro é revelado a partir de lembranças contadas pelo vizinho Dussander. Todd suga todas as histórias, relembra os detalhes crueis das mortes e parece ter um prazer em ouvir os segredos mais lúgubres do nazismo. O enredo caracteriza-se como uma exímia obra de Stephen King, onde o ser humano exibe uma linha entre a sanidade e loucura, num exercício assustador. Ao passo que a relação dos dois passa a ser íntima, a tensão psicológica é ainda mais tensa. Tanto Todd quanto o velho nazista transformam-se — ao reviver as minúcias do passado doloroso, o velho acorda sua obscuridade violenta; e o garoto Todd direciona um prazer mórbido, sem se sentir incomodado com essas barbaridades narradas. O que sustenta essa relação inusitada entre ambos? O que favorece essa troca mórbida? Existe algo por trás desse envolvimento? Qual fascínio pode ser sustentado entre ambos? Ao chantagear mais o vizinho para que conte mais histórias secretas, Todd imerge num mundo psicótico que muda toda sua vida.

A sexualidade do adolescente Todd é direcionada à overdose de diálogos, vivências e histórias contadas pelo ex-nazista — sua libido é catalisada apenas nesse envolvimento dele com o misterioso homem que torturou milhares de pessoas em campos de concentração. Todd se excita com essas histórias a ponto de não conseguir mais se concentrar em nada, a não ser nesse senso. O garoto não se relaciona mais com seus amigos, nem mesmo demonstra tesão na garota que se envolve sexualmente. Não consegue manter uma relação sexual com ela, nem mesmo o sexo oral faz com que ele tenha uma ereção — a sua obsessão é direcionada às atrocidades contadas pelo Dussander, um homem que, aos poucos, passa a manipular o garoto a ponto de seduzi-lo totalmente ao seu universo controverso de maldade. O jogo psicológico dos dois é gradual, ao ponto que as máscaras vão sendo desintegradas, bem como a perigosa relação de um para o outro se torna sufocante. Nota-se a educação que é estabelecida: Todd torna-se um típico pupilo de um homem marcado pelo nazismo; o garoto tem um tesão absurdo em ser parte dessa realidade atroz, num desejo de saborear cada instante da monstruosidade de Dussander.

A delirante direção cuidadosa de Singer é extrema, capta a tensão íntima da química sensacional de Ian McKellen e Brad Renfro (o ator, falecido em 2008, tem uma atuação bastante densa, impactante). A sequência em que Todd presenteia o vizinho assassino com uma farda de um oficial da SS é sinistra, soberba e assustadora; ainda mais pela envolvente trilha sonora proposta por John Ottman que concebe acordes melódicos de tensão. Todos os elementos tão habituais da escrita de Stephen King estão nesse filme — a fragilidade humana; o tom dramático em meio a uma realidade desestrutural macabra; a corrupção da personalidade e os dilemas da moralidade humana. Porém, há uma malícia de colocar questões sutis sobre sexualidade que fica evidente em certas situações do filme, como a questão da homossexualidade. A linha da personalidade de Todd é desenvolvida numa malícia perversa crescente, o garoto vai graduando-se mais no lado obscuro. O filme mostra como um ser humano, aparentemente inocente, pode muito bem se permitir ao que há de mais obscuro. E um garoto adorador do regime nazista, só poderia se condicionar a uma existência perturbadora, no limite da perversão comportamental. E Stephen King consegue muito bem mostrar esse lado amoral humano com todos seus problemas, delírios e inconstâncias.

Apt Pupil (EUA, 1998)
Direção de Bryan Singer
Roteiro de Brandon Boyce
Com Ian McKellen, Brad Renfro, David Schwimmer, Joshua Jackson

27 opinaram | apimente também!:

Clenio disse...

Uma das melhores adaptações de Stephen King, com uma atuação impressionante de Ian McKellen e um saudoso Brad Renfro.
O melhor é a sua maneira de mostrar o nascimento de um monstro, de forma sutil e elegante.
O conto termina de forma diferente, sabia? Mas eu prefiro o final do filme. Soa mais forte, pra mim.

Abraços
Clênio
www.lennysmind.blogspot.com
www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com

Andrey disse...

Ok, eu terei que assistir mais uma vez esse filme. Concordo com toda a analise. Um filme instigante em todos os sentidos. Uma das melhores adaptações que tivemos de Stephen King, e é uma pena a morte prematura de Renfro. Fará falta.

Abraço,

Andrey Lehnemann

Renato Tavares Mayr disse...

Não cheguei a ver esse filme ainda, mas sempre gosto de conferir os filmes de Sir Ian McKellen, desde Senhor dos Anéis sou fã dele...

ótimo texto, siga assim, e dessa vez, meu blog vai! HAHAHAHAH

Pandumiel Tunmarë disse...

Este sim é um filme onde o envolvimento dos atores com a história foi completo! COMPLETO!
Um filme feito da atuação dos protagonistas, uma excelente atuação de envolvimento e dedicação!
Natural e fluida! EXCELENTE!

King é um gênio e a direção merece aplausos!

renatocinema disse...

Filmaço. Primeiro filme de Bryan Singer a me conquistar.

Vi no cinema e fiquei tenso de tanta força no roteiro e nas atuações perfeitas.

História nota 10.

Ricardo Morgan disse...

Espetacular esse filme. O melhor de Brian Singer! Muito bom o suspense psicológico! Mas também, Stephen King é foda! Abraços

Tiago Britto disse...

Esse filme realmente é muito bom, assisti faz muito tempo e por acaso mesmo, liguei na tcc premium e ele estava passando, adorei saber que é uma obra de stephen king, pois nem isso sabia! parabéns cris!!! abss

Fábio Henrique Carmo disse...

Taí um filme que não conheço! Seu texto me despertou o interesse por ele. E qualquer coisa do Brian Singer merece uma conferida! Abraço!

Kamila disse...

GRANDE filmes, na época em que Bryan Singer se dedicava a fazer um bom cinema. Adoro as atuações de Brad Renfro e Ian McKellen.

HSLO disse...

Nossa, fiquei interessado em assistir.
Gosto de filmes tensos assim.

abraços

Fabrício Romano disse...

Nem sabia que existia. Entra pra lista. Deu certo o torrent?

Luiz Santiago disse...

Saudoso Brad Renfro! E olha que eu não conhecia o filme. Gostei do texto. Ainda mais porque deixa claro um aspecto que muito me interessa como historiador, que é a questão do nazismo.

E como você gosta de Stephen King, não é?

Otavio disse...

Belo filme de Bryan Singer, diretor que ainda era uma promessa. Mas que foi consumido e destruído por Hollywood.

Grande atuação de Sir Ian McKellen. Como sempre, claro.

Abs!

Edson Cacimiro disse...

Quero ver! Faz tempo que não vejo um filme realmente bom que mexa comigo...
Abç

Edson Cacimiro disse...

Quero ver! Faz tempo que não vejo um filme realmente bom que mexa comigo...
Abç

Mateus Selle Denardin disse...

Gosto do filme, e esse sua análise que busca também evidenciar a sexualidade por vezes escondida na obra é bem interessante. Os dois atores estão ótimos, e aquela cena em que o personagem de Renfro presenteia o de McKellen com uma farda nazista é realmente magnífica. A direção de Singer é ótima e, ao contrário do que li nos comentários acima, acho que todos os seus trabalhos são consistentes.

Bruno disse...

Vou baixar!
Tava querendo um filme instigante, e esse parece ser
bjooo

Mirella Santos disse...

Não sei pq lendo sua resenha o enredo me lembrou Um Olhar do Paraíso, pq que aconetec algo parecido no filme. Fiquei curiosa e vc ta de parabéns provando que o Apimentário tbm é cultura pq eu não fazia ideia de que soh em um livro King tinha "dado origem" a quatro filmes, mas esse deve ser o melhor conto do livro e portanto o melhor filme deles talvez. Tenho que conferir urgentemente.

Luis Galvão disse...

Ótimo texto de um instigante filme. Acho que em parte está no talento de King em tramas complexas como essa, mas tanto as atuações quanto a direção está em sintonia com a obra.

Rodrigo Mendes disse...

Resenha a fundo.

Um filme tenso, muito bem dirigido e adaptado. Como os filmes de: De Palma, Garris, Kubrick e Darabont. Singer realiza uma das melhores fitas das escritas de King.

Ian McKellen no auge do pedigree de ator inglês fazendo um alemão e Renfro (que deixou saudades) mais lindo do que nunca. Realmente sua sexualidade é atrelada nesta história sombria. A cena no carro com a garota nem é apimentada, mas mergulhamos no psicológico de Todd e assistimos sua puberdade. Talvez a cena mais evidente é quando ele esta tomando banho após o treino de educação física e vemos seu corpo nu e ele imagina estar com judeus.

O filme não é uma lição de vida, e sim como se adaptar um livro interessante. Deu para aprender!

Abs.
Rodrigo

Adri Ferreira disse...

Fiquei extremamente curiosa! Belo texto! Bjos

pseudo-autor disse...

Por que o Bryan Singer perde tempo dirigindo história em quadrinhos? Esse O Aprendiz e Os Suspeitos são sensacionais. Acorde, por favor!

Cultura na web:
http://culturaexmachina.blogspot.com

Elton Telles disse...

seu texto me deixou curioso para ver. Conheço só por nome... =/

abs!

bruno knott disse...

Gosto bastante desse filme, já assisti algumas vezes... sempre foi uma boa experiência.

LuEs disse...

Depois desse seu excelente texto, creio que qualquer comentário meu não possa acrescentar nada ao que você escreveu. Mas mesmo assim, vou arriscar um comentário...

Stephen King realmente concebeu uma de seus melhores registros literários. Ao se afastar do terro puro e embarcar num drama mais humanizado - e também mais provável, considerando-se o plano da realidade -, ele criou uma história muito perturbadora. E acho que você expôs isso muito bem, principalmente no seu primeiro parágrafo.

Para mim, o que mais surpreende nesse filme é a relação recíproca entre Todd e Arthur. Ambos se sentem atraídos pelo holocausto e, embora cada um o tenha vivenciado de um modo diferente (o velho, participou efetivamente; o menino, pelas aulas na escola), também sentem a necessidade de estar com alguém que seja capaz de compreender essa entrega. E quando se descobrem, ainda que dolorosamente no início, eles aos poucos iniciam o jogo citado por você, no qual, segundo suas próprias palavras, "o ser humano exibe uma linha entre a sanidade e loucura, num exercício assustador". É difícil definir o que é são e o que é louco nesse filme - parece-me que ambos estão plenamento conscientes do drama da situação em que vivem, mas mesmo assim é prazeroso a eles vivê-la. Eles são loucos porque agem em desacordo com o senso-comum ou estão em plena faculdade mental porque eles têm consciência de que agem fora do senso-comum? É difícil responder a essa pergunta.

Parabéns pelo seu texto.

Afirmo sem medo que esse é um bom filme, mas o relato original, composto por Stephen King, é superior. Mas não vejo nisso um problema, apenas penso que a mudança do plano de expressão tenha alterado de certo modo o plano do conteúdo. Decerto é um filme válido.

Uma cena muito marcante para mim: o momento seguinte Àquele em que Dussander é presenteado com o uniforme. O modo como ele é forçado a marchar - e o modo como depois ele marchar por prazer - causa espanto não somente no personagem Todd como também no espectador.

Depois de ler o conto e ver o filme, fiquei pensando: será que há alguém assim no meu bairro?

Wally disse...

Fiquei é com vontade de ler o livro, de tanto que me soou interessante esta história!

annastesia disse...

Ótimo filme de Bryan Singer. Outra boa adaptação de King. Desnecessário comentar sobre a atuação de McKellen.

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