Atração Mórbida?

Não existe nada mais denso que o suspense ou terror que agride apenas pelo tom psicológico. Stephen king é um mestre na condução desse sistema, pois conceitua tramas que não só se prende ao teor sobrenatural — ele concebe sentidos intensos, assustadores, sobre o senso da psicopatia. O filme Louca Obsessão é um exemplo nítido de trama macabra apenas por se sustentar no argumento da tensão claustrofóbica. E filmes conceituados em determinações de personagens psicopatas sempre são tônicas polêmicas. A trama mostra o famoso escritor Paul Sheldon (James Caan) que sofre um acidente de carro numa nevasca, quando acabara de concluir seu livro. Socorrido por Anne Wilkes (Kathy Bates), uma enfermeira que afirma ser sua fã número um, ele é levado para sua casa onde recebe os primeiros socorros. O diretor Rob Reiner conduz o suspense gradual quando o sadismo, a psicopatia e o teor de insanidade são revelados através da personalidade de Anne — ao ler o original, ainda não publicado, do livro de Paul, ela descobre que a personagem principal Misery (daí o título original), personagem-título de oito obras do autor, será morta. É então que a dimensão doentia da enfermeira é revelada, num jogo perigoso onde apenas o medo torna-se uma constância. O alívio de Paul ao saber que conseguiu sobreviver ao acidente torna-se aflição quando se torna objeto de tortura da enfermeira. O roteiro mantém toda a essência do livro, é um filme que basicamente sustenta a relação de suspense dos dois num ambiente hostil. Impossibilitado de andar, Paul fica totalmente subordinado à mercê de sua psicótica fã. Qual limite em ser fã de alguém e se tornar obsessivo? Até que ponto há a racionalidade nesse anseio de admirar um ídolo?

Praticamente todo filmado dentro do quarto, onde se sustenta a teia psicológica e macabra de Anne com Paul — o filme mostra a relação da psicopatia, Stephen King conduz sua personagem Anne com todos seus indícios psicóticos, traços comportamentais de uma pessoa estranha. O filme se torna psicológico pela força dos diálogos, onde comportamento agressivo da neurose de Anne é evidenciado, em sua agressividade verborrágica contra um refém que nada pode fazer para sair dessa situação. A mulher aparenta ter personalidades distintas, ora é totalmente amigável e meiga, ora é neurótica e impaciente. Interessante que Stephen King constrói o comportamento dessa personagem bastante perversa, assusta pela maneira como exerce sua idolatria fanática pelo seu ídolo — Anne, ao mesmo tempo em que é fascinada pelos livros do autor que mantém preso em sua casa, nutre um fanatismo obsessivo a ponto ser algo destrutivo. É a forma crítica de King em expor, ironicamente, o lado negativo do universo fanático das pessoas que sentem uma dedicação excessiva por outrem. O tom tenso torna-se mais sufocante quando Paul observa o quão doentia, desumana e imponderável é Anne. Por que essa mulher exerce um fanatismo insano por ele? Existe algum interesse por trás disso? O embate psíquico desenvolve e a trama torna-se mais agonizante, pois o escritor sabe que precisa lutar contra sua vida. As construções dos personagens sádicos e psicóticos de Stephen King sempre são expressas pela dosagem de inteligência e astúcia nas composições psicologógicas. Por isso, é nítido como Anne consegue causar um poder de persuasão macabro sobre seu refém, inclusive ao mexer com o psicológico dele.

A trama ainda desenvolve personagens paralelos, como o casal de idosos Buster McCain (Richard Farnsworth) e sua esposa; ele um xerife que busca investigar o desaparecimento misterioso do escritor. E há a editora de Paul (Lauren Bacall) que preocupa-se com o sumiço do amigo. Mas, é relação elétrica desenvolvida no confinamento da casa de Anne que concebe a tensão arterial do filme. Stephen King mostra que a psicopatia não só reserva a frieza, visto que Anne exerce uma paixão platônica insana pelo escritor e ainda tenta moldá-lo aos seus comandos perversos. Nota-se também um comportamento dúbio, misterioso dessa mulher. Afinal é uma assassina ou apenas uma louca irracional? O passado dela é revelado, bem como certos condicionamentos de suas frustrações pessoais — ou sexuais? Existe algo libidinoso por trás dessa obsessão de Anne pelo escritor?

O ardor claustrofóbico desenvolve-se supremo, impressiona em várias cenas densas que atinge o ápice da agonia. James Caan interpreta um homem a beira do pânico, mas tendo que sustentar uma aparente calmaria diante de suas pernas imobilizadas fraturadas e total imobilidade. Dentro do apertado quarto, no desespero de confinamento, que as melhores cenas do filme são evidentes. Kathy Bates, numa personificação meticulosa, alterna sua psicose com momentos irônicos e diálogos que revelam a personalidade dúbia da personagem — e a câmera de Rob Reiner recorta suas expressões ensandecidas, onde a objetiva cola no rosto para captar toda a composição inspirada que a atriz desenvolve em cena (o Oscar foi evidente). Assusta, transpira pânico, raiva. A maneira como o roteiro de William Goldman acentua o fanatismo, a loucura e também o caráter mórbido da personagem é bastante cuidadoso, funcional. Não se utiliza da violência sanguinária, ainda que uma cena em específico seja aterrorizante, para demonstrar uma atmosfera de tensão; ainda mais que o delineamento dos personagens são humanos, tangíveis. É um filme que discute também as questões que envolvem loucura humana, bem como a psicopatia; mas também é uma forma perversa de mostrar uma paixão obsessiva, visto que Anne representa um ser humano que nutre um sentimento doentio capaz de matar; leva ao desatino completo. Só Stephen King pra mergulhar nas dores da alma humana, tão atormentada e imprevisível.

Misery (EUA, 1990)
Direção de Rob Reiner
Roteiro de William Goldman, baseado no livro de Stephen King
Com James Caan, Kathy Bates, Richard Farnsworth, Lauren Bacall

29 opinaram | apimente também!:

Cristiano Contreiras disse...

ADENDO:
Instigante, ainda, como Anne Wilkes representa o típico leitor consumidor da cultura de massa — cheia de vícios e características comumente presentes nesses tipos de pessoas que consomem best-seller de escritores, esses por sua vez subordinados ao comércio literário, sem poder exercer a criatividade...ainda mais, por que, sabe que se mudar sua "fórmula para o sucesso", pode não ter seus livros vendidos. Stephen King concentra sua crítica árdua a essa questão...Paul e Anne representam o escritor e leitor.

Quantas vezes os escritores de novela vêem ?se obrigados a alterar a trama ressucitando a personagem assassinada, ou mudar o par romântico?

Um filme de refinada ironia!

Rodrigo Mendes disse...

Cris,
ótimo adendo e seu texto fala muito bem desta produção. Mas no fim MISERY é um filme de suspense e terror. Não vejo sexualidade nenhuma nele. O filme não revela os segredos mais mórbidos ou sexuais da personagem. Vemos apenas especulações em tiras de jornais. Alias a fita nem da tensão sexual alguma na relação deles ou algo do tipo. Não creio que há um interesse libidinoso. King é TERROR!!!!

Bates fantástica como Nicholson em O Iluminado. Loucura! Loucura!

Abs.
Rodrigo

Kamila disse...

Para mim, "Louca Obsessão" é o melhor filme já feito baseado em uma obra do Stephen King. Passa por tudo: roteiro (a construção da personagem da Kathy Bates e do clima de tensão crescente são sensacionais) e a direção surpreendente do Rob Reiner. Adoro o filme!

Amanda Aouad disse...

Interessante, principalmente o adendo, mas não tive coragem de ver esse filme ainda, hehe.

bjs

gabriel disse...

Adoro Stephen King e seu texto já começou a me deixar louco para ver. Está aí o que vou fazer no próximo fim de semana, procurar esse Louca Obsessão. Só a sua descrição da fanática vivida por Kathy Bates já me deixou interessado.
Abraços (:

Thomaz Ribeiro disse...

As relações humanas que são travadas no interior da trama de King são intensas e revelam o quão pode ser assustador o universo entre o fã e seu ídolo.Muito interessante a sua análise capaz de tocar com bastante força os pontos evidentes e realçar aquilo que uma passada sem muito compromisso pode esconder. Quem ainda não assistiu, depois deste seu artigo, tem bons motivos para vê-lo agora.
Abraços.

B-Cine disse...

Eis um filme que precisa de uma revisão. Devo ter assistido na década de 90 e me lembro apenas de uma cena bem tensa envolvendo o posicionamento de um pinguim de enfeite.Ah e claro, de uma Kathy Bates nervosa e com boa auação.
Cristiano, saiu lá no meu blogger o B-Cine o meu top 20 do ano que passou. Se puder de uma conferida e comente a lista.
Grande abraço e valeu pela visita no blog.

Renato Tavares Mayr disse...

Excelente filme, e um texto proporcional a sua grandeza. É difícil fazer um filme de terror com dois personagens, agora com dois personagens numa casa, com o protagonista de cadeira de rodas e não cair no besteirol é talento puro!

Anônimo disse...

Belíssimo thriller! Muito suspense do início ao fim. Gosto de tudo baseado nas obras de Stephen King. E a atuação da Kate Bates é bárbara neste filme, de tirar o fôlego! Gostei também da participação dela na série da HBO Six Feet Under, como atriz e também como diretora de alguns episódios! Uma das minhas atrizes favoritas! Pra quem gosta de Stephen King, recomendo ainda a série Kingdon Hospital.

Guilherme Quintanilha disse...

Sempre leio seu blog, adoro cinema! Minha locadora é aqui, vejo sua dica, vejo o filme. Parabéns!

abraço

Hugo disse...

Seu adendo é perfeito, está crítica da relação escrito/leitor é um dos pontos altos da história, que tem ainda a magnífica e assustadora interpretação de Kathy Bates.

Abraço

Weiner disse...

Um filme realmente marcante, entre aqueles baseados na obra de King, talvez o mais consistente, empatando com Conta Comigo. Bates mereceu o Oscar e estampou a pergunta no rosto do planeta inteiro: "quem é ela"? Um grande talento de Hollywood, infelizmente desperdiçado com frequencia. Reiner (tambem diretor de Conta Comigo, né?) mostrou que tinha talento especial para construir ambientes de tensão e pânico crescente. Muito recomendável.

Madre Madalena da Santíssima R.A. disse...

Uma SAnta dica de filme!

Rafael Moreira disse...

Sou louco pra ver esse filme por conta da tão elogiada atuação de Kathy Bates e por ser baseada numa obra de Stephen King.

Foose disse...

Em termos de conteúdo, é instrutivo, na medida em que aborda questões que envolvem a indústria literária, seus principais aspectos são muito bem apresentados neste filme. Um Thriller maravilhoso e cheio de suspense e drama, sem sombra de duvida um dos melhores filmes de Stephen King. Uma grande atuação de Kate, complexa, mas ela a fez com precisão cirúrgica, como sempre!

Adorei a crítica e o adendo... parabéns.

Um grande abraço...

Edu O. disse...

O teu texto nos prende até o final e nos faz sair correndo para ver o filme.

Wallace Andrioli Guedes disse...

Filme angustiante, com Bates dando show. É um dos melhores filmes baseados no King, na minha opinião. Como esquecer a cena da marretada?
Bons tempos em que Rob Reiner fazia filmes com tanta qualidade...

@Vassilizai disse...

Até o James Caan ta bem nesse filme...

Otavio disse...

De vez em quando Rob Reiner nos surpreende fora de seu território comum. "Louca Obsessão" talvez seja o seu melhor filme. Kathy Bates ganhou um merecido Oscar de Melhor Atriz. Ela está assustadora.

Abs!

Elton Telles disse...

Gostei do texto (e gosto muito do filme), mas faço coro ao Rodrigo Mendes de que não vi nada de tensão sexual reprimida em toda a história. Interpreto apenas uma obsessão declarada de fã ao autor e os riscos que decorrem dessa relação.

Gosto muito de "Louca Obsessão". Bates está monstruosa e Richard Farnsworth está excelente também. Nem lembrava que Lauren Bacall estava no filme, ela aparece tão pouco...


abs!

Kleber Godoy disse...

Olá,

Muito obrigado pela visita em meu humilde espaço...

Fiquei muito honrado principalmente a partir de minha visita aqui, quando percebi que seu espaço é lindo e já sigo também!

Quanto a este filme, não o assisti ainda, mas adoro Stephen King. Já li quase tudo dele... e concordo plenamente com você quando diz que ele mergulha belamente em nossa alma!

Abraços... e vamos nos falando!!

Kleber

Gilberto Carlos disse...

Adoro as adaptações dos livros de Stephen King para o cinema e "Louca obsessão" é um dos meus preferidos, onde o terror é mais psicológico que visual. Várias das adaptações dele foram muito criticadas, mas é difícil encontrar alguém que fale mal desse filme... Vale a pena ver e rever.

Abraços!

Dewonny disse...

Filmaço, a Kathy Bates arrasa!
Faz tempão q assisti!
Abs! Diego!

Facundo disse...

Já vi esse filme umas 10 vezes e não me canso! Ele te prende mesmo pela tensão e medo que a situação do escritor nos passa... Nossa! Valew o oscar de melhor atriz mesmo! Muito bom o texto!

Marconi disse...

Sempre aprecio muito seus textos.
http://cinespaco.blogspot.com/

LuEs disse...

Há mil anos que digo que vou assistir a esse filme, mas ainda não pude vê-lo. Ele está na minha lista por dois motivos básicos:

1) Li a obra original que o inspirou e eu fiquei impressionado com o que li, afinal Anne é mesmo uma mulher totalmente louca, cujas motivações pessoais simplesmente me assombraram, porque elas provêm de uma paixão psicopática.

2) Costumo assistir - ou pelo menos querer assistir - a todos os filmes baseados em obra do Stephen King, mesmo que a maioria delas seja mediana e esquecível.

Enfim, assim que eu conferir a obra cinematográfica, venho aqui de novo e registro minha opinião.

Parabéns pelo texto. Se um dia eu quis ver o filme, depois de ler o que você escrever eu quero assistir com mais vontade!

annastesia disse...

Uma das grandes adaptações de King para o cinema.

Ricardo Morgan disse...

Kathy Bates tá perfeita! O filme é sensacional! Tenso do início ao fim! Uma das boas obras de Stephen King! Bom abordagem sobre ele! Abraço

Mirella Santos disse...

Confesso que sempre tive medo de me tornar esse tipo de fã um dia.
Eu adoro esse filme, faz completamente jus ao nome, a obsessão dela é perfeita pra cirticar o tipo de fanatismo que vai além do normal, as cenas que finalizam o filme tem uma tensão perfeita que deixa o público na mesma sintonia de aflição com o protagonista.
É um ótimo filme e com certeza uma das melhores atuações de Kathy Bates, vale muito a pena assistir. Ótima resenha Cris, abraços.

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