Entre Lençóis

Mais que um exemplo de produto cinematográfico que aborda o universo do lesbianismo, Um Quarto em Roma trata-se de um drama erótico que conceitua a sexualidade feminina em plena ebulição. O diretor espanhol Julio Medem é conhecido por incluir em sua filmografia discussões sobre sentimento, paixões e relações humanas. Abordagens sobre homoerotismo tornam-se habituais na gama de situações do cinema espanhol, alguns filmes tendem a ser bastante polêmicos em seu período de lançamento. Neste filme — com roteiro próprio, baseado no texto chileno "Na Cama", de Matias Bize, que, por sinal, já fora adaptado no brasil com o título "Entre Lençóis" — ocorreu esse frisson. A trama concentra seu foco num único cenário, um quarto no hotel dentro do coração de Roma. Duas belas jovens, a russa Natasha (Natasha Yaroveko) e a espanhola Alba (Elena Anaya) se conhecem na capital italiana, onde surge um tesão irrefreável. Como conter os instintos da libido? As duas resolver passar uma noite dentro de um quarto, a fim de experimentar tudo que o corpo ansia. O filme mostra o encontro de duas mulheres que, ainda que temerosas e resistentes a qualquer contato inicial, não conseguem ceder aos apelos carnais. Seduzem-se explicitamente. Ambas prometem que a noite será segredada, já que no próximo dia cada uma embarca para retomada de suas próprias vidas distintas. Julio Medem provoca com seus questionamentos sexuais ao expor uma história tão aberta ao erotismo, ousado e sem pudor algum.

Mais que uma discussão sobre sexualidade, nota-se o apelo envolvente do clima romântico. Através do encontro das duas, dentro desse microcosmo noturno, o encontro sexual das duas mulheres expressa uma transformação total — entre quatro paredes, inseguranças, medos, fragilidades e desejos obscuros são desnudados. É então que o roteiro de Medem desenvolve, como uma espécie de confessionário, dramas pessoais de cada uma das personagens; traumas e passados; dores tão reais quanto anseios sexuais frequentes na humanidade. Alba tem uma relação homossexual estável com outra mulher. Natasha assume ter casamento marcado com um homem que não sabe se ama mais. Eis as ironias do amor, dos sentimentos e das instabilidades emocionais. E Medem caracteriza suas mulheres de maneira passional, tão verdadeiras humanas, em função disso o filme verbaliza um tom crível em diversas cenas.

As cenas de sexo são bem coreografadas, ardentes e evidenciam o senso transparente do soft-porn do filme. Além da nudez, Medem articula as sequências intercaladas por gemidos dos orgasmos das personagens e longos diálogos francos, abertos à reflexão. Como entender a própria sexualidade? E o que fazer para driblar o medo de se assumir homossexual? Afinal, seria essa a única noite de suas vidas? Aprisionadas dentro do quarto, a relação lésbica parece interminável — há coitos e orgasmos na cama, na sala e no banheiro dentro da banheira. As cenas são prolongadas, há um entrosamento sensual das atrizes que caracteriza a exuberância libidinosa da película. Sob uma belíssima fotografia de Álex Catalán que capta ângulos diferenciados das mulheres em cena, Medem alia-se de sua originalidade técnica para conceber o resultado estético. Ademais, há inúmeros travellings que percorrem o quarto com ângulos diferenciados, ainda que as lentes assumam uma intimidade perceptível com os closes nas curvas, corpos e faces das protagonistas. É um filme simplesmente feminino, sem a presença de seduções másculas — inclusive, o único personagem homem que efetua prestação na trama, um funcionário do hotel que tenta praticar um ménage à trois é ridicularizado; o roteiro assume um tom feminista e afasta a necessidade do papel masculino para a obtenção do prazer. Ora, mulher sente prazer com mulher.

A caracterização do universo lésbico assume traços e contornos comportamentais evidentes. Elena Anaya interpreta sua Alba com trejeitos masculinizados, ainda que sua voz seja delicada. É a mulher que toma as rédeas durante o ato sexual, hiperativa e dominadora. Já a atriz ucraniana Natasha Yarovenko expressa mais um comportamento frágil, sensível e mais submissa sexualmente às imposições da libertinagem da outra. As duas atrizes funcionam bastante em cena, há momentos que é difícil não acreditar que o ato sexual não ocorra de fato, diante de tanto realismo. A sintonia em cena favorece belos momentos. E Medem não poupa suas atrizes ao colocá-las em constante coreografia sexual e externa a libido animalesca das garotas. As cenas de sexo oral são selvagens, assim como as outras tórridas que se somam durante 2 horas de duração da película. É instigante não só as cenas sensuais, mas como os diálogos fornecem boas percepções sobre o contexto das inseguranças e desejos da homossexualidade, mais ainda quando há um envolvimento passional e até emotivo das personagens. O tom romântico também assume importância, mas é a realidade que assume seu aspecto mais importante no final. Quente, reflexivo e tocante.

Habitación en Roma/Room in Rome (Espanha/EUA, 2010)
Direção de Julio Medem
Roteiro de Julio Medem
Com Elena Anaya, Natasha Yarovenko, Enrico Lo Verso, Najwa Nimr

29 opinaram | apimente também!:

"єuร" єм тяคиรє disse...

Interessante o texto mas aalvez a idéia de que "Um Quarto em Roma" é um filme lésbico seja secundária se considerarmos outros aspectos da obra.

Escrevi sobre o filme na minha coluna no site "O Pensador Selvagem" (OPS!):

Breve reflexão sobre o cinema de Julio Medem e o devir-mulher http://bit.ly/bNufUB

gabriel disse...

Texto excelente. Esse eu quero ver. A maioria dos filmes que retratam o homossexualismo que já vi mostram apenas o lado masculino, mas sobre o universo lésbico vi pouquíssimos até agora.
Abraços.

O Antagonista disse...

Vou fazer um comentário machista e cafageste: filme de lésbica com duas gatas dessas? Não posso perder! kkkk...

Agora, falando sério. O tema é bem interessante, e pelo que você escreveu,a abordagem parece ser das mais felizes. Uma boa dica para o fds!

Valeu.

Luiz Santiago disse...

Esse filme é um tesão. O Medem me convenceu de muita coisa que eu tinha dúvida sobre sua direção. Penso que há uma grande maturidade nele, aqui. Gostei muito do filme.

Também gosto da adaptação feita aqui no Brasil, aliás, ao ler seu título, antes de ver a imagem, pensei que se tratava do filme nacional

Lindo texto, partner. O universo feminino é, como você diz, desnudado em uma noite. Nos traz outras referências cinematográficas, mas a coisa aqui é única. Como eu disse, um tesão de filme, no sentido artístico e físico da coisa. =)

renatocinema disse...

Fui seduzido pelo seu texto....quero muito assistir o filme.

urgente.

Ju B. disse...

Parece interessante a abordagem! Como o Gabriel disse, a maioria dos filmes sobre homosexualismo retrata o lado masculino, que bom que esse tabu está aos poucos sendo quebrado.
Pela descrição, esse filme me lembrou o nacional "Entre Lencóis". É mesmo parecido ou é só uma primeira impressão?
Bjs.

Cristiano Contreiras disse...

"єuร" єм тяคиรє: É um filme que prioriza a sexualidade e o desejo feminino; do contato entre duas mulheres. Mas, obviamente, há mais aspectos, como mostrado no meu texto. Abs

GABRIEL: Esse filme tem todo um diferencial mesmo, é interessante mostrar a sexualidade sob a ótica do lesbianismo. Confira!

O ANTAGONISTA: Não perca, então! rs É um filme de abordagem quente e reflexiva!

LUIZ SANTIAGO: Eu gosto do Medem não é de hoje. Seu filme "Lúcia e o sexo" é sensacional e ele sempre fala, com muita precisão, sobre sexualidade e sentimento. Concordo com seu comentário, amigo!

RENATOCINEMA: Foi seduzido? então, trata de ver logo! rs

JU B.: Eu comentei sobre o filme no texto e citei que tem um roteiro baseado no filme chileno "Na Cama", que, por sua vez, foi adaptado no Brasil no "Entre Lençóis". Logo no começo do texto eu comentei isso...existem semelhanças sim, mas prefiro essa abordagem a outra.

Mateus Souza disse...

Não assisti ao filme, mas vi alguns trailers e me pareceu um trabalho ousado. Gosto de Elena Anaya. Não sei bem se gostarei, mas espero que sim. Verei em DVD.

Ju B. disse...

Haha, realmente! O resto do conteúdo do texto me distraiu, e não notei esse "detalhe". Me desculpe, querido.
Um Quarto em Roma entrou na minha lista de próximos filmes a serem assistidos, a meu ver ele já está em vantagem em relação a este similar por trazer a questão do homosexualismo a história, que permite abordar vários temas atuais importantes e ainda pouco explorados. ^^
Bjs. Ah! E obrigada pela visita e o gentil comentário.

Guilherme Quintanilha disse...

Abri o link pensando que fosse aquele filme medonho do Gianechine com a Paola Oliveira. Ainda bem que o filme é outro e encantador.
Ótimo texto,
abraço,

Ricardo Morgan disse...

Geralmente, filmes fora dos EUA fazem melhor esses "thrilers eróticos". Fiquei curioso pelo texto e, principalmente, pelo cartaz hehehehe
Abraços

Wallace Andrioli Guedes disse...

Não sabia que era inspirado no mesmo texto que deu origem ao ENTRE LENÇÓIS, que é aquele filme com o Gianecchini, não é?
Então, me envergonho de dizer que nunca assisti nada do Medem, nem o seu mais famoso e celebrado filme, LUCÍA E O SEXO. UM QUARTO EM ROMA é mais um que entra para a lista de seus filmes que preciso assistir. Belo texto, que aumentou minha vontade de conhecer o filme.

Renato Tavares Mayr disse...

O seu texto ficou ótimo, mas tenho que discordar de você em quase tudo. Assisti ao filme para saber qual seria o próximo texto seu(além de, é claro... Algumas boas cenas lesbo) e o que encontrei foi um desfile sem ritmo de frases de efeitos mal escritas e filosofia de boteco...

Achei as atrizes fracas, o roteiro que tinha potencial de criar um clássico não chega aos pés da proposta, a direção é piegas e alguns diálogos são nojentos...

As cenas das duas são lindas(e "corajosas", pois passam a maior parte do filme completamente nuas, se tocando, simulando sexo... Devia ser um bom ambiente de trabalho, =D), mas não compensa o meu desgosto...

Pra esse, eu daria uma nota 4/10...

Continue com o talento e sucesso!

Cristiano Contreiras disse...

MATEUS SOUZA: Eu também gosto de Elena Anaya, acho que a atriz poderia ser mais conhecida, ou melhor: reconhecida. Recomendo o filme!

JU B: Então, acho válido você apostar nesse filme. É um filme que fala com propriedade do universo homossexual. Mas, há maiores reflexões nele também...

GUILHERME QUINTANILHA: Obrigado! Veja o filme, é bem melhor que a versão brazuca com Paola Oliveira.

RICARDO MORGAN: Geralmente, eu tenho que fazer o download de tais filmes, pois o acesso é complicado mesmo. Ah, o cartaz é erótico mesmo, rs!

WALLACE ANDRIOLI GUEDES: Então, procure "Lúcia e o sexo" e depois vá no "Um quarto em Roma". Mas, Medem tem mais trabalhos expressivos em sua filmografia. Recomendo mesmo!

RENATO TAVARES MAYR: Discordo integralmente de ti. Não acho que há diálogos de efeito, pelo contrário, o texto favorece um contato real entre as duas mulheres. É como se a observássemos, e gostei do entrosamento das atrizes. As cenas de sexo são densas e bem coreografadas. O saldo é positivo! Dou nota 7,5 nele!

Kamila disse...

Mais uma dica aqui no Apimentário que eu não conhecia. A conferir!!!

Rômulo Mendes disse...

Assisti esse filme no final do ano passado, gostei muito do trabalho das atrizes, achei que você foi muito feliz quando se referiu que muitas vezes as cenas mais ousadas pareciam reais - é nesse momento que nos como espectadores temos a certeza de um excelente trabalho de interpretação. No entanto, em alguns pontos do filme achei meio monótono, algumas inserções na história são forçadas. Belo texto !!!

Elton Telles disse...

Não tinha dado muita atenção quando estreou no final do ano passado até porque não sabia da sua temática. Mas parece ser bem bacana, se é que me entende hahaha!

E Anaya é uma revelação do cinema espanhol dos últimos anos. Espero uma carreira notável para essa atriz ainda pouco conhecida.


abs!

Jenifer Torres disse...

Pra variar este filme ainda não estreou em Curitiba!
Abraços.
http://www.dicaselistas.blogspot.com

bruno knott disse...

hmmm... soft porn lésbico é algo que me interessa.. eheh

tal como o elton nem sabia do que o filme se tratava... fiquei curioso.

Cristiano Contreiras disse...

KAMILA: Se puder assista, recomendo!

RÔMULO MENDES: Eu achei que o filme foi até eficiente, teve um bom ritmo, pois a trama toda se passa dentro do quarto. E, de fato, as cenas sexuais são provocativas mesmo. Obrigado!

ELTON TELLES: Eu gosto dos filmes de Medem, se puder confira esse. Espero que goste! Também acho Anaya uma revelação, gosto dela!

JENIFER TORRES: Ah, mas se puder procure ele pra download, é super válido, viu?

BRUNO KNOTT: Então, ficou interessado pelo soft-porn? hehe, corre atrás!

Danilo Soares disse...

Parece ser muito bom esse filme, apesar de não conhecer o elenco. Sabe onde posso consegui-lo?

Abraços.

Danilo

Alan Raspante disse...

Ah Cristiano,adoro filmes de temática homossexual e pelo visto "Quarto em Roma" parece ser bastante interessante. Vou tentar conferir, mas sem pressa!

Otavio disse...

Eu diria que preciso ver esse filme urgentemente. Não tem em 3D?

Natalia disse...

Nossa, nao tinha ouvido falar neste filme. Acho que nunca vi um "soft porn lesbico" rs

Bjo!

Eri Jr. disse...

Outro ótimo texto com outra ótima dica!!!

Ainda não conferi, mas se achar, assito logo!!

Abraço

Mayara Bastos disse...

Não conhecia o filme, peguei a dica. Espero que seja lançado em DVD... ;)

Cristiano Contreiras disse...

DANILO SOARES: Você acha o filme em sites, mas eu baixei pelo utorrent.

ALAN RASPANTE: Sim, esse filme além de ser de conteúdo homossexual, tem uma trama interessante. Confira.

OTAVIO: hauahauahauaha!

NATALIA: Pois, veja esse! rs

ERI JR: Então, veja se acha, espero que goste.

MAYARA BASTOS: Eu acho que pra lançamento em dvd vai demorar, mas você pode fazer o download dele...

Valverde disse...

Esse filme é um porno lésbico com história... Ou seja, vale uma assistida.

Andrey Lehnemann disse...

Medem é genial na abordagem da narrativa. Adoro a maneira visual em que ele explora o longa, aquela cena da banheira é maravilhosa. Queria levantar e bater palmas. Escreveste muito bem, cada nuance comportamental das protagonistas vão nos conduzindo a um desfecho que ficamos temorosos e curiosos. Um único quarto que provoca todo o desejo em duas pessoas que possivelmente nunca mais se verão. Acho uma decisão acertadíssima o diretor filmar só naquele quarto e tanto o plano inicial quanto o final com a câmera em plano plongé é brilhante.

Enfim, é uma excelente análise de um excelente filme.

Abraço

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