Bravura Indômita

Por que os rebeldes provocam fascínio alheio? Há algo na transgressão comportamental que instiga? Mais de cem anos após sua morte, aos 25 anos de idade, Ned Kelly ainda é recordado na cultura popular histórica como herói e não como um bandido — o lendário Kelly tornou-se figura conhecida no século XIX por se rebelar contra o sistema ao sofrer injustiças da polícia local de seu condado, ainda colônia do império Britânico, na Austrália. A origem de tudo? Ao devolver uma égua, sem imaginar que o animal havia sido roubado, o rapaz foi acusado pelo crime e preso. Ao sair da prisão, ainda sem provar sua inocência, tornou-se foco de perseguições, intrigas e vivenciou a crueldade de ter a mãe condenada a prisão por motivos estranhos. É então que de rapaz inocente, transforma-se num fora-da-lei, ao lado de seus irmãos e dois amigos, liderando uma gangue que passa a aterrorizar toda a região. Entre 1878 a 1889 a gangue confronta os policiais, realiza assaltos e seqüestros e até assassinatos. E é justamente esse período tenso e turbulento que este filme exerce sua premissa. Sob a direção de Gregor Jordan, a película promove a biografia desse personagem histórico, ao passo que o humaniza com indagações, sensibilidade e ousadia. O trabalho dramático, baseado no livro de Robert Drewe, percorre as motivações do personagem real, além de tentar glorificar a imagem desse famoso indivíduo que, até hoje, fascina e é símbolo da luta de um povo contra a hipocrisia e repressão do alto poder corrupto.

O filme explica as razões de como a vida de Ned Kelly (Heath Legder) transformou-se no caos. A irmã de Kelly é alvo de um assédio sexual de um guarda local. Por sofrer a rejeição da moça e não conseguir conforma-se com a situação, o policial investe uma acusação falsa contra Kelly, acusando-o de homicídio. Para fugir das acusações, Kelly forma uma gangue em companhia de seu irmão e uns amigos, um deles é Joe Byrne (Orlando Bloom), conhecido pelo comportamento rebelde e sexualidade transgressiva. É então que o roteiro abarca essa tensão, pois o grupo, além de exercer um fascínio heróico na sociedade, torna-se inimigo de um império. Ao executar incessantes assaltos, a lenda percorre e a tensão evolui quando entra em cena Francis Hare (Geoffrey Rush), disposto a capturar os fora-da-lei. Além disso, Kelly envolve-se com a esposa de um latifundiário local, Julia Cook (Naomi Watts). O filme situa os conflitos de Ned Kelly e sua gangue, pessoas que atacaram a sociedade com questionamentos: Por que qualquer cidadão poderia ser assassinado sem motivo algum? Poderia haver justiça no mundo da realeza que punia só os que viviam à margem? Vitimados por intolerâncias, tornam-se criminosos emulados pelo ódio.

Em meio às perseguições inesperadas, perigo constante e situações que mostram a bravura da gangue contra o sistema — este western dramático expressa a sexualidade dos homens fora-da-lei. O teor da masculinidade é evidenciado ao colocar Kelly envolvido pelo desejo de viver um romance sexual com Julia, mulher casada e que não consegue desfazer dos laços matrimonias aparentes. É o ponto melodramático do filme que acentua a masculinidade e também o comportamento sensual do personagem. Kelly nutre um desejo direcionado por uma dama da sociedade, preserva um caso secreto com ela, porém não consegue sustentar o sentimento por conta da insegurança dela. Seria possível Julia largar tudo por um caso sexual com um fora-da-lei? Como viver apenas pela força do desejo? E há também Joe Byrne, um homem que flerta com mulheres e, ao realizar roubos em casas de família, envolve-se sexualmente com as próprias damas da casa às escondidas. A imagem libidinosa desses dois homens também é pontuada como foco de sedução, fascínio e admiração. E o diretor conduz essas pequenas cenas de flertes para demonstrar que o comportamento sexual, a transgressão libertina, são elementos decisivos na fama em torno dos nomes desses lendários homens.

Pontuado em off pelo personagem de que dá nome ao título à película, o tom cruel da narrativa surpreende, ainda que todos conheçam o destino dos personagens — ou mesmo suponham, visto que é um fato histórico. Ned Kelly e sua gangue expressaram, antes de tudo, um exemplo de bravura. O interessante é que, sob a ótica de Joe Byrne, os garotos eram motivados, apenas, pelo ódio contra um sistema corrupto que vitimavam pessoas inocentes. Não existia uma maldade gratuita, havia somente uma malícia de transgredir contra algo que era imposto, erroneamente. Odiados pela realeza, amados pelos compatriotas. Heath Ledger consegue seduzir com sua caracterização, mais ainda pelo tom emotivo que concebe em cena. Suas cenas sentimentais e que expressam a dose hormonal é obtida com o contraponto de Naomi Watts — ainda que pouco em cena, a atriz demonstra uma fragilidade, além da beleza habitual. Orlando Bloom é aqui um homem sem muitos contornos, apenas um indivíduo sem nada a perder que incute o medo nos homens e atrai o desejo feminino por onde passa. Bela fotografia de Oliver Stapleton com auxílio da trilha instrumental de Klaus Badelt e Bernard Fanning, elementos determinantes na condução de cenas mais densas. É um filme que cumpre com seus objetivos biográficos, mas torna-se mais fascinante pelo tom provocativo e emotivo do roteiro.

Ned Kelly (EUA, 2003)
Direção de Gregor Jordan
Roteiro de Robert Drewe, baseado no livro de John Michael McDonagh
Com Heath Ledger, Orlando Bloom, Naomi Watts, Geoffrey Rush

30 opinaram | apimente também!:

Natalia disse...

Eu adoro esse filme! Ele nem foi tão implacado aqui no Brasil e considero um dos melhores que Heath Ledger atuou. É uma aventura bacana, não exagera no cômico como muitas outras (inclusive aquele outro de Ledger - Coração de Cavaleiro).

Bjs!

Rodrigo Mendes disse...

Ótimo você ter postado este filme subestimado. Espero que os seguidores apreciem sem moderação.

Cada vez mais Heath Ledger me lembra James Dean. Quando é tarde demais para o galã sentir o calor dos fãs que admiram seu talento.

Ele não viu isso em vida, com esta magnitude. Acredite que nesta minha fase de ver filme-pipoca revi com certo carinho '10 Coisas Que Eu Odeio em você', um filminho que não dei muita bola no lançamento. E sabe, não vejo diferença deste filme com por exemplo, 'O Cavaleiro Das Trevas' e não duvido do talento que tinha Ledger.

Abs.Rodrigo

Amanda Aouad disse...

hehehe, adoro quando você brinca com os títulos, nos engana, mas são bem feitos. Esse filme vi ainda, mas seus textos como sempre, nos deixam curiosos.

bjs

Rodrigo disse...

Eu crente que você ia falar do filme dos Coen, mesmo sendo contraditório pelo seu blog, e você me surpreendente com mais um filme que ainda não vi. Seu texto chamou muito a minha atenção, e fiquei curioso em relação ao longa.

Abrass

cleber eldridge disse...

Tecnicamente o filme é um capricho só, mesmo contando com um roteiro sólido, sem muitos escorregões, ainda há momentos em que os acontecimentos simplesmente tornam-se desinteressantes, deixando o filme lento, é o único problema, mas, é um bom filme.

Fernando Fonseca disse...

Ned Kelly é um filme que traz uma história real de forma nua e crua. Aborda o dualismo mocinho-e-bandido numa figurina fascinante sobre a atuação de Heath Ledger, duas lendas vivas (ele e o personagem). Acho a fotografia deste filme uma das mais belas retratadas na Austrália, bem melhor do que o romance tosco de Jackman e Kidman. E Orlando Bloom consegue atuar bem, coisa rara em seus filmes.

Kamila disse...

O filme tem ótimo elenco, mas é muito fraco! Sou muito mais o livro do McDonagh, que é excelente.

Cristiano Contreiras disse...

NATALIA: Eu também gosto desse filme, uma pena que pouco seja conhecido e, quem vê, subestima ele por demais. Heath Ledger está em um bom momento de sua carreira aqui.

RODRIGO MENDES: Concordo contigo. E acho que daqui a pelo menos 20 anos Ledger será um mártir bem ao nível de Dean, hein? Galã e excelente ator ele já é. Aguarde! Gosto muito de seus filmes, principalmente "10 Coisas que odeio em você" que é um bom momento de sua carreira como ator.

AMANDA AOUAD: Eu gosto de fazer essas relações do título de filmes com o contexto de outros filmes, rs! Confira esse, pois é ótimo! Depois me diga o que achou.

RODRIGO: Se puder confira, uma das melhores interpretações de Heath Ledger.

CLEBER ELDRIDGE: Concordo integralmente com sua opinião!

FERNANDO FONSECA: Concordo! E, realmente, bom você mencionar esse filme "Australia", pois tenho pena de Hugh Jackman e Kidman por terem se permitido a fazer esse filme.

KAMILA: Que pena que não gosta, acho super válido o filme. Mas, de fato, o livro é melhor mesmo. Tem mais detalhes.

Dewonny disse...

É bem bom esse filme, excelente análise, fiquei com vontade de revê-lo, uma pena q o Heath Ledger nos deixou tão cedo, ator q tinha um futuro promissor pela frente!
Abs! Diego!

Ricardo Morgan disse...

Fui seco achando que era sobre o "Bravura Indômita" kkkk Não vi esse filme! Mais um que vai para a lista! hehe
Um abraço

Renato Tavares Mayr disse...

Filme interessante! Vou procurá-lo, e conferir suas impressões!

FALA DE CISNE NEGRO! =D =D =D

Hugo de Oliveira disse...

Gostei muito sobre o seu olhar diante do filme.
Já assistir ele.


abraços

renatocinema disse...

Sempre deixei essa produção para depois. Mas, você logo no começo faz um questionamento importante: " por que os rebeldes provocam fascinio?"

Tento achar a resposta. Afinal, em todos os filmes, sempre torço para o vilão. Seja o Coringa, Lex Luthor......

Weiner disse...

Assisti a Ned Kelly há bastante tempo, mas lembro que àquela época não havia me interessado tanto por ele. Preciso de uma revisão, até porque me simpatizo com Watts e Bloom, sem falar que nunca é demais matar a saudade deste grande ator que atendia pelo nome de Heath Ledger...

Cristiano Contreiras disse...

DEWONNY: Obrigado! Pois é, uma pena que "nosso" Ledger tenha nos deixado tão precoce, pois tinha tudo pra continuar fascinando. Era um ator camaleão, de talento e vocação para a interpretação.

RICARDO MORGAN: Todo mundo achou! rs Então, baixe ou loca esse filme, recomendo demais!

RENATO TAVARES MAYR: Se puder, confira esse filme, espero que goste. Postarei "Cisne Negro" sim, mas mais pra frente, ainda preciso ruminar mais o filme, rs.

HUGO DE OLIVEIRA: Obrigado!

RENATOCINEMA: Eles são apenas fora-da-lei, não acho que eram 'vilões', propriamente. Eles tinham suas razões, motivos e convicções para os atos que cometiam. E é isso que o filme põe em discussão: será que por isso mereciam ser visto como vilões?

WEINER: Ledger é um ator que, assim como James Dean, jamais será esquecido por nós. Ainda bem que, pelo menos, ele tem mais filmes feitos em sua filmografia, né? Basta revermos quando quisermos. E "Ned Kelly" é um dos melhores filmes que ele fez...

Ju B. disse...

Hahuaha, enganou todo mundo...
Adoro que o Apimentário apresente filmes não muito populares, sempre dando boas dicas. Ainda não assisti esse, mas... pelo elenco já vale.
Abraços, Cristiano, tive que ficar ausente por um tempo mas já voltei a postar e visitar os queridos blogs cinéfilos.
E depois escreva sobra Bravura Indômita porque acho que deixou todo mundo com vontade. xD

Gabriel disse...

Esse não vi, mas com um texto e com um elenco desses, impossível deixar passar em branco. Heath Ledger, Naomi Watts, Geoffrey Rush... Vou ver se acho aqui.
Abraços.

Gabriel disse...

Esse não vi, mas com um texto e com um elenco desses, impossível deixar passar em branco. Heath Ledger, Naomi Watts, Geoffrey Rush... Vou ver se acho aqui.
Abraços.

Mayara Bastos disse...

O filme vale pelo elenco, especialmente Ledger. Sempre quis ler o livro, parece melhor.

Beijos! ;)

Wallace Andrioli Guedes disse...

É interessante esse questionamento que você fez sobre a atração gerada pelos foras-da-lei. Acho que seria legal comparar o caso desse filme, que assisti há muito tempo, com outros, por exemplo, O ASSASSINATO DE JESSE JAMES PELO COVARDE ROBERT FORD, onde há uma atração quase sexual entre os protagonistas, e que acaba culminando em assassinato.
No caso de NED KELLY, como disse, assisti há um bom tempo. Na ocasião, fui ao filme por ser fã de O SENHOR DOS ANÉIS, e querer conferir o Orlando Bloom. Nem me dei conta do grande ator que Ledger já era. Na mesma época assisti A ÚLTIMA CEIA, e comecei a olhar com maior atenção para os desempenhos do saudoso ator. Enfim, me lembro de NED KELLY como um bom drama, mas nada espetacular. O elenco é mesmo muito bom.

P.S.: não sei se sabe, mas parece que há uma versão dessa história protagonizada pelo Mick Jagger.

Cristiano Contreiras disse...

JU B.: Eu brinquei mesmo com os títulos, mas na realidade o termo 'bravura indômita' cabe bem no filme "Ned Kelly", os personagens refletem bem esse sentido. Eu espero que você goste do filme, é uma pena que todo mundo desconheça, pois a abordagem tem uma atuação perfeita de Heath Ledger e um bom roteiro de uma história real.

GABRIEL: Sei que, em breve, você postará esse filme em teu blog! rs

MAYARA BASTOS: Veja o filme, mas acho válido, como complementação histórica, o livro mesmo. Heath Ledger jamais será esquecido!

WALLACE ANDRIOLI GUEDES: Eu acho interessante a questão do fascínio que os rebeldes causam, né? Há mulheres mesmo que assumem ter um 'fetiche' com homens bandidos, pode? Vai entender. Bom, bem lembrado, existe mesmo uma tesão sexual sutil no O Assassinato de Jesse James..., por sinal eu amo esse filme - vou rever e postar aqui, obrigado pela dica!

Elton Telles disse...

Gostei do texto! Mas pouco posso dizer porque dormi aos 20 minutos de filme. Chatinho demais rs. Mas a história de Ned Kelly é famosa e sua contextualização foi bacana, Cris. Mut bom o texto! o/


abs!

Victor Nassar disse...

Mais um que veio seco achando que era sobre o filme dos Coen. hehe
Não tinha ouvido falar de Ned Kelly ainda, mas vai pra lista agora!

Abs!

Bruno disse...

nunca vi esse filme

Weiner disse...

Deixei um selo pro Apimentário lá no blog! Motivo? A extrema qualidade deste espaço e minha admiração por seu trabalho! :) Quando puder, dá uma olhada lá! Abraço!

M. disse...

Heath Ledger fez muitos filmes que não eram tão bons e outros ótimos. Ou será a força cênica dele que fazia alguns desses filmes tornarem-se interessantes e não ser perdiso de todo? Ned Kelly é sem dúvida um ótimo filme. Você sabia que ele teve uma versão com Mick Jagger nos anos 70? Essa lendária e emblemática figura de Ned Kelly é apaixonante. Um filme para todo cinéfilo ter em sua estante.

E seus textos como sempre são maravilhosos. Um grande abraço e ótima semana.

M. disse...

Heath Ledger fez muitos filmes que não eram tão bons e outros ótimos. Ou será a força cênica dele que fazia alguns desses filmes tornarem-se interessantes e não ser perdiso de todo? Ned Kelly é sem dúvida um ótimo filme. Você sabia que ele teve uma versão com Mick Jagger nos anos 70? Essa lendária e emblemática figura de Ned Kelly é apaixonante. Um filme para todo cinéfilo ter em sua estante.

E seus textos como sempre são maravilhosos. Um grande abraço e ótima semana.

O Antagonista disse...

Ótimo filme!

Alyson Xyzyx disse...

Nossa! Nunca ouvi falar nesse filme não! To até meio assustado, portanto tbm pouco posso falar do filme. rs! Ta nos downs ja.

Abraço, Cris.

Cristiano Contreiras disse...

ELTON TELLES: Eu acho o filme muito interessante, tedioso é algo que ele não é. Mas há quem prefira a versão de Mick Jagger.

VICTOR NASSAR: Se puder, busque esse filme, recomendo!

BRUNO: Recomendo!

WEINER: Obrigado, amigo!

M.: Eu acho que Ledger fez, no geral, uma boa filmografia. O interessante é que há filmes dele, antigos, que pouco são reconhecidos - esse é um deles. E, ah, eu odeio essa versão com Mick Jagger, acho equivocada...Obrigado pela presença aqui!

O ANTAGONISTA: Concordo!

ALYSON XYZYX: Espero que aprecie este trabalho, Ledger está ótimo nele!

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