Círculo de Paixões?

Como compreender a linguagem da paixão? Por que todo mundo, de alguma maneira, quer viver para amar? Eis a juventude com seus problemas em lidar com questões afetivas, ainda mais quando a pouca maturidade concebe uma inconstância permanente — jovens carentes que buscam alguém para amar, mas quando encontram parecem estar insatisfeitos. O diretor francês Christophe Honoré providencia todos os dilemas, incertezas e fragilidades do universo sentimental da puberdade no seu A Bela Junie. O filme expõe o lado humano da adolescência — como lidar com o amor avassalador que mexe com o coração juvenil? Ao falar de questionamentos do sentimento, e também sexualidade, o diretor evidencia um pequeno panorama sobre a melancolia e o êxtase consecutivos das experiências próprias da juventude. A Junie do título é uma jovem de apenas 16 anos (Léa Seydoux), acabou de perder a mãe, muda-se para o mesmo colégio que estuda seu primo Mathias (Esteban Carvajal-Alegria). É lá que a narrativa e todo o senso argumentativo do filme se concretiza. Dentro da instituição escolar, através das perspectivas dessa jovem, observa-se um painel de situações de diversos personagens que se misturam às vivências dela como forma de efetuar um mosaico estrutural sobre as adversidades relacionais. Junie é alvo de curiosidade de diversos estudantes, despertando o desejo dos garotos, como Otto (Grégoire Leprince-Ringuet). Porém, a misteriosa garota sente-se atraída pelo galante professor de italiano Nemours (Louis Garrel). Baseado livremente num clássico literário do século 17, "A princesa de Clèves", de Madame de La Fayette, o argumento do livro é respeitado no roteiro da fita que não abre mão de priorizar o senso romântico.

O filme contorna as situações cotidianas que ocorrem no colégio, onde a perceptiva Junie vivencia seu desejo aflorar — a tal garota, "a bela pessoa" do título original, é desmistificada com seu jeito sensível de agir, com todo um ar angelical, mas de uma sensualidade contida em meio aos seus anseios femininos. E o roteiro não se limita em evidenciar apenas a personalidade da personagem-título: Junie é parte de uma ciranda de desejo, amor e paixonite que tanto contornam os demais personagens masculinos. Há o jovem Otto que sofre de admiração, amor platônico, e sentimento poético por ela. E o professor Nemours que é objeto de tesão de Junie. E Christophe Honoré não poupa em se tornar íntimo de seus personagens — entre troca de bilhetes, olhares e diálogos juvenis, os jovens expressam seus dilemas sentimentais e sexuais. Com personagens diversos, Junie se depara com os envolvimentos de professores com alunos ou mesmo com um triângulo passional e tumultuado entre três garotos — a homossexualidade é tratada com naturalidade, tema tão recorrente nas obras do diretor.

Interessante que a sexualidade toda é centralizada numa garota que, além de misteriosa, é até apática — Junie nunca demonstra muito o que sente, pensa ou quer. A complexidade dessa personagem é o grande mérito do filme. Ao invés de desnudar todas suas características comportamentais, Honoré prefere deixá-la assim, tão densa, fria e introspectiva. Como alguém tão retraída pode despertar o desejo de tantos? E, ainda assim, Junie se mostra emotiva nas questões afetivas e até voltadas à sua sexualidade, como na cena em que exibe seus seios e corpo nu para provocar Otto. Ou tenta racionalizar suas ações mesmo quando se emociona ao ouvir uma sinfonia clássica sob os olhares de desejo do professor Nemours. Instigante a maneira como Junie tenta evitar a atração que nutre pelo professor, sendo algo mútuo desde o primeiro instante. Christophe Honoré expõe bem a juventude contemporânea francesa, com todas as suas vicissitudes declaradas. Pauta traições, reviravoltas e relações interligadas com muita ansiedade hormonal. A hipnótica presença de Louis Garrel, habitual parceiro-fetiche do diretor, firma a beleza interpretativa da película. Porém, Léa Seydoux consegue sustentar toda a subjetividade que sua personagem pede.

Nesse mosaico humano onde a contida Junie depara-se com amores héteros e homossexuais; frustrações e medos; desejos e escolhas — Honoré mostra com fluidez que não existem regras para sentir, para viver o que realmente precisa. O ser humano, sob a ótica do diretor, nasce para desejar o outro; anseia ser amado incondicionalmente. Mas, não consegue se satisfazer sempre com suas escolhas. E o filme põe esses contextos em questões sob as perspectivas de diferentes personagens juvenis. Captando bem o ambiente francês, com uma fotografia que dimensiona o tom intimista e melancólico de alguns personagens, com cores escuras e terrenas; o filme encontra o auxílio nas canções de Nick Drake — a música é sempre um forte elemento nos trabalhos de Honoré que centraliza suas discussões humanas com o recurso sonoro.


La Belle Personne (FR, 2008)
Direção de Christophe Honoré
Roteiro de Christophe Honoré e Gilles Taurand, baseado no livro de Madame de La Fayette
Com: Louis Garrel, Lé Seydoux, Grégoire Leprince-Ringuet, Esteban Carvajal-Alegria, Simon Truxillo

19 opinaram | apimente também!:

Xavier disse...

Nao costumo ter mta paciencia com filmes com foco em adolescentes, mas porque tive más experiencias em filmes nacionais, rs. Gosto de filmes franceses, e a forma que eles lidam com amor ou a sexualidade. Vou assistir esse =)

Desculpa o sumiço Cris!

Bjs

Gabriel disse...

Ah, esse filme. Tem alguma coisa nele que não consegue me agradar de modo algum. Mas é exatamente o que você falou, uma visita aos romances em plena ebulição hormonal e uma exploração dos sentimentos de mentes vivenciando um amor banal ou inicial.
Abraços.

Por que você faz poema? disse...

Não compreendo o porquê dos seus textos (muitas vezes ainda no título) começarem com interrogações e pouco desenvolver as respostas.

Flávio Junio disse...

Fala Cris, tai um filme que ainda quero ver. Abs!

Adecio Moreira Jr. disse...

Eu sabia que conhecia Christophe Honoré de algum lugar...

... Les chansons d'amour!! como poderia esquecer???

^^

Facundo disse...

Mais um interessante filme para minha lista graças a esse blog!!! Valewwwww!!!

renatocinema disse...

Filmes que retratam a melancolia da juventude sempre me agrada. Talvez por trabalhar em escola. Mas, costumo apreciar sempre.

Uma dica sua que me atraiu foi a "protagonista" ser misteriosa. Gosto de produções que levem o público ao pensamento. Nada de situações óbvias e personagens sem profundidade.

Bela dica.

Leo disse...

dei uma sumida do seu blog....mas como sempre....excelente!

Amanda Aouad disse...

Curioso, não conhecia.

bjs

Alyson Xyzyx disse...

Acho que ja tinha ouvido falar, mas não sabia que se tratava de toda essa situação intima da juventude que existe muito por ai, se bem estudada. Assim, como fiz com o "Lie with me" vou baixa-lo e assistir de imediato. Me interessa mto esses temas, por trabalhar com os adolescentes.

Abraço!

Matheus Pannebecker disse...

Ainda estou esperando um filme do Honoré que justifique toda essa adoração dos cinéfilos por ele... "A Bela Junie" e muito menos "Ma Mère" não conseguem, pelo menos pra mim!

Rodrigo disse...

Não sabia da existência desse filme. Mas gostei, vo correr atrás. Abraços.

Anônimo disse...

¡Ah! al fin encontré lo que buscaba. A veces se necesita mucho esfuerzo para encontrar la pieza útil incluso pequeñas de información.

M. disse...

Ah esses filmes franceses... como sempre com uma identidade própria.

Elton Telles disse...

Acho um filme estagnado, desinteressante e que não avança nem narrativa, nem dramaticamente falando. Não me interesso pelos filmes do Christophe Honoré, acho-os repetitivos e produções que não me dizem nada - se é que têm alguma coisa a dizer. Nem falo nada de Louis Garrell para não criar inimizades rs, então fico por aqui.

mas "A Bela Junie" não teve muito impacto sobre mim. Uma pena que o personagem mais interessante - ou menos desinteressante - da história seja relegado a segudno plano e ocorre aquela tragédia no final...


abs

Jussara Christina disse...

Olá! Estava navegando na blogosfera e me deparei com teu blog, adorei!
Amo fazer novas amizades, conhecer pessoas, trocar idéias, novas perspectivas, algum sentido pra tudo isso aqui.
Teu cantinho é belo, cativante ... já estou te seguindo...
Se puder visita meu blog, e conheça um pouquinho desse ser complexo kkkkkk..
Abraços apertados!

*´¨)
¸.•´¸.•*´¨) ¸.•*¨)
(¸.•´ (¸.•` *♥ Jussara Christina ♥*♥*♥*♥*♥*♥*♥*♥*♥

sandra cristina disse...

Cris,
Como sempre, perfeito o seu texto. Ainda mais essa sua peculiar pergunta oportuna que faz com que tantos abstraiam-se do conteúdo para tentar racionalizá-la.
Por que uma garota tão 'retraída', chama tanto a atenção?
Quem não viu isso antes?
Só quem não viveu o bastante.
Alguém que por motivos tão subjetivos consegue ser o bastante atraente, sem os elementos óbvios dos demais.
O que motiva e dimensiona a atração entre duas ou mais pessoas não é o aparente; não é o que exibimos e declaramos, e sim o que despertamos.
E isso é bastante particular.
Quanto a questão das fragilidades afetivas, o diretor só expõe os dilemas e questionamentos que já são alvos de curiosidade humana nos tempos modernos.
Sempre bom retratar e nos despertar para tais situações.
Muito bom seu comentário.

Sandra Cristina

Kamila disse...

Dos filmes do Honoré, esse, se brincar, é o que eu mais gosto, justamente pela visão principal ser a de uma personagem cuja identidade ainda está sendo construída. Mesmo assim, na maior parte do tempo, os filmes do Honoré não são pra mim...

Fernando Fonseca disse...

Não vi o filme, mas o texto do Cris, novamente, me deixou com vontade de devorar este filme.

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