Amor além da vida?

A dolorosa realidade, o tormento de não poder expressar os sentimentos verdadeiros, o desejo que deve ser ocultado diante de uma sociedade que julga. Como lidar com uma vida firmada nas aparências, onde as vontades são substituídas por máscaras — afinal, ainda há preconceito social perante aos homossexuais, algo que ainda perdura e prevalece no terreno humano. Sob essa perspectiva, em Contra Corrente, o diretor Javier Fuentes-León, conduz sua delicada e sensível abordagem dentro de uma vila de pescadores no Peru. É lá, dentro deste meio rígido de tradições culturais e costumes que beiram ao conservadorismo, que se encontra Miguel (Cristian Mercado), à espera de seu primeiro filho, num casamento acomodado com Mariela (Tatiana Astengo). Secretamente, às escondidas de todos, o pescador mantém um tórrido caso de amor com um pintor forasteiro que se muda para o vilarejo, Santiago (Manolo Cardona). Como manter esse caso secreto, ainda que aceso, diante de uma paixão que teima não se calar? O que parecia um filme que explora um caso sexual de um homem com outro, em meio ao medo de ser descoberto por todos, ganha uma nova visão quando o elemento sobrenatural é inserido na trama — um grave acidente mata Santiago no mar. É então que Miguel, constantemente, passa a receber o espírito do seu amante Santiago que, de alguma maneira, não consegue se libertar do plano terreno.

O filme centraliza sua narrativa, inicialmente, no envolvimento amoroso-sexual de Miguel com seu amante Santiago — a disposição homoafetiva é bem delineada logo no início do filme, pois coloca o casal em constantes encontros casuais, como forma de apresentar o quão passional e intenso é essa relação. O diretor Fuentes Léon questiona a maneira como existe a dificuldade de um homem se aceitar, sexual e plenamente como é. Miguel é o indivíduo que vive um casamento de aparência; não consegue se livrar dos condicionamentos padrões de uma sociedade que costuma "punir" e não enxerga com bons olhos a relação de alguém com outro do mesmo sexo. Ainda mais numa vila de pescadores, como deixa claro o roteiro, onde o preconceito existe e não só os personagens masculinos — como as mulheres também — exibem-se em suas indisposições à homossexualidade. Após a morte por afogamento de Santiago, o filme exerce um tom mais romântico, e até lúdico, pois foca numa relação homoafetiva despropositada de estereótipos, quando os dois passam a conviver de maneira mais livre — já que Santiago é um espírito e não pode ser visto por ninguém.

A forte presença sexual dos dois atores em cena permite uma atmosfera sensual, mas o filme é, em seu objetivo central, uma trama de amor homossexual. Cristian Mercado eleva com precisão a sua confusão em não saber lidar com os ímpetos do desejo por outro homem, bem como em ver seus anseios enrustidos diante de uma sociedade que retrai tudo que ele quer ser. Há uma química bem convincente de Mercado com Manolo Cardona — evidente nas cenas de nudez; na sequência de sexo ou nos beijos afetivos. Por mais que o diretor invista nos momentos homoafetivos, na crescente ebulição carnal dos personagens, o filme não esconde seu verniz romântico — é uma trama que busca entender os caminhos tortuosos de dois homens que apenas querem se amar, sem esconder seus sentimentos. Não há erotismo barato, mas sim um roteiro que prioriza as essências de cada personagem, é tudo muito bem explorado. A atriz Tatiana Astengo também se destaca, pela força emotiva de sua personagem, como Mariela, que representa a mulher que tem que lidar com as descobertas da sexualidade do marido.

A força dos diálogos que propõe a reflexão sobre os sentidos humanos; das escolhas diante das opções sexuais e da necessidade de priorizar o sentimento — são pontuados pelos personagens. Mais ainda por Santiago, já que ele provoca, não só sexualmente, a necessidade em Miguel saber lidar com suas escolhas e reconhecer seus próprios sentidos. Saber o que deseja, conhecer o amor, escolher seu destino — jamais viver enrustido! O diretor valoriza esses sensos. A cena onde os dois amantes dialogam, na entrada de uma caverna na praia, para logo depois transarem na areia, é cuidadosa, de extrema beleza emocional. A transparência de sentimentos é priorizada neste filme, Javier Fuentes-León não esconde que lida com seus personagens com um olhar mais intimista, talvez por isso o filme seja construído com inúmeros closes-up que aproximam Miguel e Santiago do público. A fotografia exibe tons ensolarados que privilegia a exuberância da beleza natural da costa peruana onde as cenas foram rodadas. Boa trilha sonora também de Selma Mutal Vermeulen. Premiado em importantes festivais de cinema — ganhou o prêmio popular em Sundance —, inclusive o de Melhor Longa no "18º Festival Mix Brasil de Cinema da Diversidade Sexual" em São Paulo, é um trabalho atual representativo que deve ser apreciado.

Contracorriente (Peru, 2009)
Direção de Javiér Fuentes-León
Roteiro de Javiér Fuentes-León
Com Cristian Mercado, Manolo Cardona, Tatiana Astengo

22 opinaram | apimente também!:

Cristiano Contreiras disse...

Adendo

Há, no roteiro, uma aproximação, um toque sobrenatural, deste filme com Dona flor e seus dois maridos. Tal qual Vadinho que aparecia para Dona-Flor, Santiago é o espírito que acompanha Miguel. E essa relação de ambos, assim como no romance de Jorge Amado, supera as barreiras da "morte".

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Pura poesia. Simples e delicado.
Tenho indicado-o para muitos amigos.

O Falcão Maltês

João Ludugero disse...

Olá, boa tarde!
Eu venho te convidar a visitar meu blog de poesias. Se gostar e quiser me seguir, vou gostar de ter por lá seus coments.
Abraços,
João, poeta.
www.ludugero.blogspot.com
Até mais!
Já te sigo, pois gostei do seu blog.

Amanda Aouad disse...

Lindo texto, já tinha vontade de conhecer o filme, agora mais ainda.

bjs

Facundo disse...

Legal... Ao que parece o diretor consegue tratar de todas estas tramas usando-se de bastante sensibilidade. Vou conferir!

Marconi disse...

Confesso que fiquei com um pouco de medo quando o filme tomou caminhos sobrenaturais, mas poucas vezes vi uma história tão tocante e bonita.
http://cinespaco.blogspot.com/

Gabriel disse...

Poxa, bacana. Já estou com ele aqui, o tempo de ver é o que me falta, mas vou conferir sem falta.
Abraços.

renatocinema disse...

O que deve ser apreciado, além do filme, é seu texto explicativo, cativante e conquistador.

A angústia que o filme apresenta - o desejo que precisa ser ocultado perante o preconceito real ainda existente - é relevante, tocante e ao mesmo tempo, angustiante.

A relação de aparência no filme é real no Peru, no Brasil e no mundo.

Fiquei ainda mais instigado para assistir ao filme ao imaginar um filme que retrata assunto tão sensível (homossexualidade) com uma pitada de sobrenatural.

o Humberto disse...

Achei o filme tão lindo que assisti duas vezes, no cinema mesmo...

Ótima crítica Cristiano, parabéns.

M. disse...

Hummmm já ouvi falar muito bem sobre este filme. Dizem que é muito bom!

Edson Cacimiro disse...

Não encarem isso como preconceito da minha parte,mas as vezes me pergunto porque aqui no nosso país não fazemos filmes tão bons quanto nossos vizinhos? O filme é de uma simplicidade tão grande que o torna tão bom, comovente sem precisar apelar para nada. Ótima direção e elenco excelente.
www.osenhordosfilmes.blogspot.com

Fernando Fonseca disse...

O amor é eterno. O filme trata da atemporalidade do amor e de como esse sentimento pode ultrapassar barreiras como o preconceito, o pudor, o medo e o infinito.

Cris, bela escolha. E seus textos cada vez mais saborosos e inebriantes.

Parabéns!

Kamila disse...

Poxa, o conflito central desse filme parece ser mega interessante. Adorei o texto e anotei a dica aqui!

Por que você faz poema? disse...

O peruano Javier Fuentes-León,conduz com delicadeza essa trama, sempre tentando escapar do piegas e dos clichês que produz um triangulo amoroso.

CIELLO disse...

confesso.. .nao esperava muito. confesso fiquei emocionado. Confesso naodevemos jamais deixar para amanhã o que sentimos ou empurrar com a barriga o nosso verdadeiro Eu correndo o risco de se perder... e o finado é lindo!

Abração...

Elton Telles disse...

conheço uns 5 filmes chamados "Contra Corrente", mas este estou sendo apresentado pela primeira vez. Com exceção do subtexto sobrenatural, a trama lembra muito "O Segredo de Brokeback Mountain", que eu acho um melodrama desconcertante. Achei interessante e fico curioso se os diretores que lidam com relações homoafetivas em seus filmes conseguem lidar com o tema sem serem preconceituosos consigo mesmos ou apenas abordar um discursinho de "vamos acabar com essa intolerância". Sério, eu acho isso pouca coisa para sustentar um filme. Pelo seu texto, "Contra Corrente" não repete essa posição, ainda bem. Anotado a dica aqui.

abs!

Marcos Eduardo Nascimento disse...

Cris, mais uma vez você rouba a cena com um texto deste calibre.

Parabéns, novamente. Quando puder passe pelo Olhar, tem novidades por lah. Conto com seus comentarios e opiniao importantes!

Beijos.

Adecio Moreira Jr. disse...

Filme gay peruano.

Só essas três palavras me fizeram conferir o filme. E me impressionei com a forma leve que foi apresentado, totalmente contra os trágicos filmes gays que vimos por aí. Chega a ser bem humorado. Eu adorei!

^^

sandra cristina disse...

Oi, Cris
Parece-me que o fator sobrenatural é um elemento que centraliza toda a história do filme. Seria uma maneira metafórica do autor sentir-se mais a vontade para desenvolver um caso de amor entre dois homens? Dessa forma o público preconceituoso enxergaria o romance dos dois como fantasioso e, numa abordagem mais delicada e sensível, teria um olhar mais benevolente perante esse envolvimento?
Já que um dos dois morre, e como espírito continua a manter com liberdade o que no plano terreno não foi possível, me parece que, introduzindo ao filme conteúdo espiritual que intriga e ao mesmo tempo instiga o público, como o tema vida pós-morte, aplaca um pouco essa sociedade que tanto repudia os amores homossexuais.Pois, dessa maneira abrandam-se os ímpetos negativos, fazendo com que o público consiga 'aceitar' a homoafetividade com menos intolerância.
Se não houvesse tanto repúdio à homossexuais, o tema seria considerado normal e comum. Afinal, 'ghost' entre heterossexuais é até um tema lúdico, romântico. Porém, entre dois homossexuais, o mesmo tema parece ter sido introduzido no enredo como estímulo para maior aceitação.
As relações homoafetivas podem, devem, e são como qualquer outra. Chega de subterfúgios, eufemismos, caricaturas. Apesar de tudo, o que prevalece em qualquer filme sobre relacionamentos homossexuais é a persistência de alguns cineastas em tentarem abolir esse câncer social, que é o preconceito.
Seu texto está ótimo, como sempre.Ave!
Sandra Cristina.

...e agora José? disse...

Sem dúvida que este filme é bem diferente dos demais GLBT. A sensibilidade com q o tema é abordado faz com q CONTRACORRENTE destaque-se e assuma-se como cinema de verdade e não como produção panfletária. Gostei, mas com ressalvas. Abs.

Marcô Gu Melo disse...

É incrível como Javier Fuentes-León conseguiu unir tantos elementos complicados e fazer uma mistura simples, bonita e profunda. A relação de dependência de Miguel para Santiago, que não permite que ele descanse é tão intensa e dolorosa, até o final, em que ver um homem tendo de dizer adeus a única chance de continuar sentindo a presença de seu amor foi de partir o coração.

E a gente nem sabe se no final Mariela perdoa Miguel, mas quase não importa, a sensação de guerra perdida fica na gente.

Realmente um trabalho primoroso, ainda mais vindo de um diretor estreante. Vamos ver o que Javier nos reserva pro futuro!

Cleiton Vieira disse...

Filme incrível, não é?

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