A bela e a fera?

Somos atraídos por aquilo que desconhecemos. Às vezes, o que se fundamenta como mistério nos causa interesse, vontades, desejos ocultos. O ser humano é atraído pelo desconhecido, o que pode ser chamado de proibido, já que é mais gostoso. O doce sabor, a idéia em si, do mistério exerce um fascínio dentro das pessoas. Há indivíduos que precisa desse sentido para poder modificar sua vida, de alguma forma, visto que provoca um prazer a mais. A Pele utiliza-se de personagens reais para fundamentar uma trama irreal. O filme, dirigido por Steven Shainberg, mostra a vida de Diane Arbus (Nicole Kidman), fotógrafa expoente no terreno americano da década de 1950 por retratar o universo "bizarro e incomum"; pessoas consideradas à margem da sociedade eram objetos de seu trabalho. Diane ficou conhecida por trazer à tona uma sociedade sem máscaras, com seus vícios, dores e amarguras físicas — e também emocionais. Tudo que fotografava exercia um fascínio, inclusive a artista era vista como libertária e exemplo representativo de mulher que quebrou os tabus na esfera da fotografia. Este filme recria e ficciona o universo da artista. Aqui vemos Diane casada com o fotógrafo publicitário Allan Arbus (Ty Burell), num casamento formal, repleto de insegurança, sob os padrões do conservadorismo daquela época. Ela auxilia o marido cuidando da produção e dos figurinos, é mãe de duas filhas — a sua vida entediada firmada na tristeza, na rotina de dona-de-casa, se transforma quando conhece o misterioso vizinho; Lionel Sweeney (Robert Downey Jr.), um homem que sofre de uma doença rara: portador de tricotomia, uma disfunção caracterizada pelo excesso de pêlos em todo o corpo; impossibilitando de alguém enxergar suas feições. A gradual curiosidade de um para o outro é alimentada pela atração, a paixão que os acomete, inesperadamente. Eis que surge um jogo de sedução onde mistérios são articulados, e é justamente esse senso que o filme percorre.

O excêntrico roteiro condiciona essa forte atração sexual dos dois. De um lado, Diane, a reprimida mulher conformada numa vida sem maiores expectativas. Do outro, Lionel, o misterioso vizinho que se esconde da sociedade por ter o corpo oculto por conta de tantos pelos. Cria-se uma amizade intensa, um magnetismo, um tesão absurdo que nunca é atenuado pela roteirista — ainda que o "homem peludo" providencie um estranhamento, diante de sua incerta natureza humana, há uma cumplicidade perceptível à Diane. A típica relação "A Bela e A Fera", no qual a jovem se apaixona por um ser transfigurado, porém de coração brando. O filme articula esse envolvimento, aparente fraterno, entre ambos, mas de relação sexualizada, que assume uma dependência de um para o outro. Ademais, mostra também a insegurança de Allan, o esposo de Diane, que tem sua virilidade posta em dúvida ao ver sua amada interessada pelo vizinho.

Diálogos ditos, trocas de olhares e a maneira como nasce — e também se fundamenta — o interesse de Diane para com o "homem peludo" demonstra que existe algo que vai além do físico, visto que ela não sente-se atraída, inicialmente, pelos atributos de seu corpo. Diane enxerga ali um homem que eleva sua feminilidade, que potencializa sua criatividade e expande seus horizontes. Eis a dona-de-casa que aprende que a vida pode ser mais vívida; com escolhas e posições — Lionel apresenta um novo "mundo", com mais prazer, sensibilidade. Nicole Kidman sabe muito bem personificar uma mulher que vai da introspecção aos delírios da carne. Exibe seu corpo, seu tom de voz e olhares quando quer posicionar uma libido feminina em cena — particularmente, nas cenas onde é crescente seu interesse, e também disposição, ao misterioso-másculo-vizinho, interpretado com urgência de sedução por Robert Downey Jr. Os dois atores experimentam a saborosa libido, o aprendizado-existencial, o sentimento que une seus personagens estranhos. Atuações concentradas, cuidadosas.

O grande trunfo do filme é mostrar a relação bizarra e incomum de duas pessoas de universos tão distintos, mas unidas. A estranha doença de Lionel é apenas uma metáfora para mostrar como o ser humano enfrenta preconceitos e estigmas ao ser colocado à margem por conta de uma "deformação" — Diane é a única que enxerga, por trás do monte de pelos no corpo, um homem frágil e de personalidade rara. Através dele, ela encontra-se no seu próprio mundo feminino. Descobre-se mulher, aprende que a beleza é um conceito relativo e leva isso para suas fotografias, captando um “mundo peculiar” nunca mostrado antes. E esta é a grande lição deste belo trabalho cinematográfico: a beleza pode vir, sim, do que é considerado “anormal” ou “destoante”.

Fur: An Imaginary Portrait of Diane Arbus (EUA, 2006)
Direção de Steven Shainberg
Roteiro de Erin Cressida Wilson
Com Nicole Kidman, Robert Downey Jr., Ty Burrell, Harris Yulin

16 opinaram | apimente também!:

Gabriel disse...

Ah, que beleza! Seu texto aumentou minhas expectativas, vou conferir o mais rápido possível. Além de me interessar pelo tema, ainda adoro Nicole Kidman e Robert Downey Jr..

Rabisco disse...

Vi este filme há há uns anos mas assim que vi a imagem lembrei-me imediatamente dele!
Uma excelente escolha!
=)
Abraço

Guto Angélico disse...

Nunca vi mas, pelo que vc escreveu fiquei curioso. Verei!

Kamila disse...

A arte da Diane Arbus, como fotógrafa era tão forte e merecia um filme melhor do que esse, pra ser bem sincera. Acho "A Pele" bastante fraco. Mas, seus textos, como sempre, deixam os filmes fracos bem mais interessantes do que eles realmente são!

renatocinema disse...

O desconhecido, sendo bem sincero, da tesão, energia e alimenta a alma.

O personagem de Robert Downey Jr. (ator que adoro) me lembrou, vagamente, "O Homem Elefante".
Personagem que simboliza a sociedade obrigada a encarar o novo, o diferente, o "estranho".

Concordo muito com seu texto sobre a referência sobre A Bela e a Fera. Bela visão.

Amor, respeito e companheirismo não precisa ser sexual.


Concordo, grandes atuações, dos protagonistas.

sandra cristina disse...

"A Pele" nos mostra as dificuldades de alguém fora dos padrões pré-estabelecidos de uma sociedade preconceituosa, que além de enfrentar todos os estigmas que o coloca à margem dessa mesma esfera social, ainda se vê experimentalmente envolto com um amor não condizente com a realidade do mundo.
O personagem Lionel(interpretado pelo talentoso Robert Downey Jr.), alimenta uma paixão desafiadora pela bela Diane(a versátil e não menos talentosa Nicole Kidman), sob os rígidos padrões da época.
Contudo, Diane não o rejeita, demonstrando seus atributos de sedução, formando assim um jogo que mistura paixão e dor, possivelmente na mesma medida.
"A Bela e a Fera", é uma história que encanta pelo mistério; não o mistério em presença daquela criatura disforme; mas o mistério de quem não consegue decifrar o seu próprio, diante do que é inédito. E é assim, o que parece sentir Diane diante de Lionel. Uma mulher que tentava dispersar seu tédio, fotografando o fascinante mundo dos atípicos, transforma sua vida alimentando uma crescente atração insólita pelo enigmático vizinho.
Bela exposição, Cris. E seu último parágrafo é perfeito:"A beleza pode vir, sim, do que é considerado 'anormal' ou 'destoante'."
Perfeito!

Sandra Cristina.

José Francisco disse...

Um filme muito estranho para mim. Ainda não decidi se gosto ou não... Mas Nicole é sempre Nicole e isso é muita coisa...

Facundo disse...

Um dos filmes mais legais que já vi! :-)

Adecio Moreira Jr. disse...

Eu, particularmente, detesto esse filme. Muita estranheza para pouco conteúdo. Mas tem seus fãs fiéis, pelo visto.

Teco Sodré disse...

Tanto o texto como a sinopse me atiçaram. O filme parece ser bem envolvente, curioso, mas também contemporâneo, uma vez que flerta com o freak, o esquisito e o diferente, e nossa atração por esses perfis. Lady GaGa que o diga. Temáticas como essa costumam despertar os little monsters que habitam nosso íntimo. Salivando para ver!!! *_____*

Mandy disse...

Um dos meus filmes favoritos... e apesar dele ser estranho por fora, ela pode ser bela, mas é completamente estranha por dentro... o filme inclusive remete a uma leve psicose! Adoro!

Flávio disse...

Fala Cris. Sempre achei que a Nicole tem um "q" de Despereate Housewives". Parabéns pela crítica.

mardson machado disse...

Olá!
Parabéns pelo seu blog! Muito bom.
Gostaria de aproveitar a visita para divulgar o meu blog. Trata-se do contra-afronta.blogspot.com, onde temas como política, cultura, comportamento e cotidiano são abordados, tendo como foco principal os problemas da cidade de Salvador.
Estou aguardando a sua visita.
Abraço!

Clenio disse...

O que é mais interessante nesse filme é o que vc falou no começo do texto, a atração que temos pelo desconhecido, pelo bizarro, pelo que nos fascina/apavora/excita. Nesse ponto acho que o filme levanta uma questão interessante.
Quanto ao filme em si eu acho meio chato, sem maiores emoções. Tanto Nicole Kidman quanto Robert Downey Jr. são atores excelentes, mas aqui parecem meio no piloto automático.
Eu esperava mais, confesso!

Abraços
Clênio
www.lennysmind.blogspot.com
www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com

o Humberto disse...

Nicole pre-botox.

Fernando Fonseca disse...

Bom texto para um filme não tão bom assim. Aliás, acho o filme um porrezinho. Nicole e Robert poderiam render muuuuuuuuuito mais. Mas, creio que o problema está no roteiro que tenta ser cult em excesso e acaba esbarrando no preciosismo. E o Shainberg não é um diretor muito seguro.

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