Tesão entre quatro paredes

O dramaturgo Tennessee Williams sempre foi notório por explorar bem os caminhos do desejo humano, da libido imoderada e de se aprofundar nas problemáticas mais evidentes da humanidade: problemas amorosos, questões polêmicas de relacionamentos como traição, além de tratar de sensos voltados mais ao sentimento. Autor de inúmeras peças de sucesso — inclusive, “Uma Rua Chamada Pecado”, adaptado por Elia Kazan em 1951, com Marlon Brando e Vivien Leigh —, Gata em Teto de Zinco Quente levou o Prêmio Pulitzer de literatura e teve adaptação no cinema pelo cineasta Richard Brooks que, ao lado de James Poe, concebeu um dos filmes mais sensuais da história da Sétima Arte. Logo de cara o espectador percebe que se trata de uma história que denota sensualidade — os créditos de abertura surgem sobre um background avermelhado com o desenho de uma mulher nua na cama em posição erótica, ao som da trilha sonora de jazz de Charles Wolcott; a representação da cor já recria a atmosfera de desejo. E só depois o filme começa. A trama mostra um ex-famoso jogador de futebol, Brick Pollit (Paul Newman) é um alcoólatra que vive no limite da vergonha, da culpa e do ódio. Anda de muletas, pois quebrou a perna devido um acidente enquanto bêbado. Maggie (Elizabeth Taylor) é a esposa fogosa, no limite do tesão pelo marido que a ofende sem medo, por quem não compreende a razão de ser insultada constantemente. Quais os motivos de um relacionamento à beira do caos? O que condiciona uma relação na mistura do ódio e desejo? Sabe-se que Brick acredita ter sido traído pela mulher com o seu melhor amigo, Skipper, que se suicidara. O foco narrativo centra-se no acontecimento do aniversário do Big Daddy (Burt Ives), o pai de Brick, um homem que morre de câncer, mas que reuniu seus familiares para uma festa que seria de despedida. Enquanto transcorre a comemoração, Brick e Maggie dualizam suas insatisfações, anseios e desespero carnal e verbal. E é justamente nos diálogos ferinos que o filme viabiliza sua dramatização, visto que quase todas as cenas ocorrem dentro dos aposentos da casa.

O filme foi polêmico por simplificar o forte teor homossexual do texto. A adaptação cinematográfica, talvez para inibir elementos mais sexuais da trama, desvencilhando-se da censura por causa do Código de Ética de Hollywood na época, ocultou a personalidade maliciosa de Brick e suas ações homoeróticas. Ainda assim, Richard Brooks insere insinuações, ainda que sutis, onde mostra que Brick sente-se aflito com sua sexualidade. Se na peça original Brick expressa claramente seu desejo pelo seu amigo Skipper, inclusive é nítido que ele tenha tido um caso de tórrido amor com outro homem, aqui no filme este sentido é mais subjetivo — entende-se que existe uma amizade tão forte que faz com que Brick renegue sua esposa. E a grande tensão se estabelece neste sentido: Maggie não consegue compreender o marido que nega sexo, desprezando-a sentimentalmente. Só sua presença já é motivo de aflição para o marido.

A forte sensualidade de Elizabeth Taylor aqui é evidente, interessante como ela representa bem a fêmea-no-cio, a mulher que anseia ser amada e que se sente no âmago o desespero por apenas precisar de sexo. E se Paul Newman representa muito bem o homem com o peso na consciência, tendo que reprimir sua opção sexual, numa vida entregue ao álcool e sem maiores perspectivas — sua forte masculinidade, sexy-appeal e beleza em cena são dimensionadas com exatidão. Interessante a maneira como Taylor parece hipnotizada pelo corpo musculoso, os olhos azuis e o tom até rústico que Newman exala para ela em cena. Richard Brooks utiliza-se dos apreços libidinais do seu par de atores, no auge da beleza, para promover um contundente duelo interpretativo. Ambos, apesar de encarnar um casal à beira do colapso nervoso e sexual, sustentam uma boa química diante dos diálogos venenosos que trocam. Obviamente, é uma direção segura que sabe sugar o que existia de mais talentoso de Taylor e Newman até então.

Em linhas gerais, a grande discussão são duas: a homossexualidade de Brick e a rejeição de Maggie. E são esses elementos que desarticulam a estrutura de aparente casamento perfeito dos dois. O espectador indigna-se e até procura entender as insatisfações de cada um. Há, ainda, discussões sobre o sistema patriarcal, crises em família, hipocrisia sentimental e questões relacionadas ao papel feminino naquela época — este é o mais visível, já que Maggie parece afrontar a todos com seus ímpetos libidinais, sua personalidade impulsiva. A típica mulher que é criticada pela sogra por conta de seus trajes mais sensuais e sua postura considerada libertina. Uma felina que não consegue abrandar o calor que se instala em seu corpo, ansiosa que seu marido a devore incondicionalmente. Tennessee Williams sempre soube contornar suas personagens femininas com sentidos mais liberais e com posturas provocantes; na verdade queria mostrar que a mulher não era alguém para servir o homem apenas com os dons domésticos, mas sim sexuais e sentimentais. Obra-prima que não envelhece, é um filme que ferve eternamente.

Cat on a Hot Tin Roof (EUA, 1958)
Direção de Richard Brooks
Roteiro de Richard Brooks e James Poe, baseado no livro de Tennessee Williams
Com Elizabeth Taylor, Paul Newman, Burl Ives, Judith Anderson

23 opinaram | apimente também!:

renatocinema disse...

Atores no auge, sensualidade ao extremo.

Obra aborda realmente discussões importantes: homossexualidade e rejeição amorosa.

Obra-prima. Símbolo de uma época.

Gabriel Neves disse...

Eu só conhecia esse filme por "aquele da Elizabeth Taylor", só de nome e nunca tinha me interessado em saber mais. Mas parece ser melhor do que eu esperava. Sua sinopse me instigou e acho que vou procurá-lo.
Abraços

Emmanuela disse...

"Gata em Teto de Zinco Quente" é um dos inesquecíveis filmes da minha vida! A imagem de Paul Newman, interpretando um personagem belo e ambíguo, é quase indefinível em palavras.

Os filmes que carregam o nome de Tennessee Williams simplesmente me encatam, tenho como objetivo assistir a todos eles!

Um abraço!!

Rodrigo Mendes disse...

Ótimo! Gosto muito da obra, Cris. Segundo lugar no TOP Tennessee Williams e claro que "Um Bonde Chamado Desejo" (odeio o título Uma Rua Chamada Pecado) fica no topo.

Liz Taylor e Paul Newman estavam quentíssimos e sensuais (auge da beleza) neste clássico que preciso assistir novamente.

Gostei de sua breve análise das titulagens, evidências técnicas que são muito importantes e que obviamente, neste caso, merecem destaque no apimentário.

Williams gostava de lavar a roupa suja em casa e como o universo feminino sempre foi solitário em suas obras, não acha? Toda essa liberação sexual da Liz na fita acaba sendo uma espécie de engodo em minha opinião. Quem sabe se no fundo ela fosse frígida? Rejeição deixa qualquer um louco! Vai saber... Se a gata estivesse muito no cio ela sairia debaixo daquele teto e subiria encima do telhado do casarão para pular a cerca, rs!

Abraço.

Amanda Aouad disse...

Elizabeth Taylor e Paul Newman, só poderiam fazer um filme extremamente sensual e forte, né? Um grande momento do cinema mesmo, e os diálogos são primorosos.

bjs

Fábio Henrique Carmo disse...

Acredita que tenho esse filme em casa e ainda não vi? (vergonha...)

Grande texto! Abraço!

Kamila disse...

Eu não sou a maior fã da Elizabeth Taylor, mas é inegável o grande trabalho de atuação dela, neste filme, com Paul Newman. O duelo entre eles é a melhor coisa da obra.

Igor Ferreira disse...

Caro Cristiano, é com o sentimento de honra que faço meu 1º comentário nesse blog maravilhoso.
Primeiramente, parabéns pela excelente resenha, que certamente em muito contribui à compreensão desta bela obra de arte que é "Gata em teto de zinco quente". Veio em momento oportuno, já que estamos no ano da morte da talentosíssima Liz Taylor. Nada como render-lhe singelas homenagens, na medida de nossas possibilidades, não é mesmo? :)
Quero ressaltar que, ao ler este texto, reportei-me à dois filmes que exploram aspectos específicos que mencionaste. Um é "Festim Diabólico", do Hitchcock, sobre o qual inclusive escrevi no meu blog, que exibe uma tensão sexual entre os personagens Brendon E Phillip (John Dall e Farley Granger), ainda que mascarada ao extremo, justamente pelo "Código de Ética de Hollyood" existente à época. Na verdade isto nunca se confirmou, pois a única pessoa que poderia esclarecer o mistério era o próprio Hitchcock, que foi para o túmulo sem fornecer declarações (como, aparentememente, David Lynch também o fará daqui a certo tempo; hás de lembrar do quão enigámticos são seus filmes). O outro filme é "Cenas de um Casamento", do Bergman, com relação à sequência do jantar na casa de Johann e Marianne (interpretados por Liv Ullmann e Erland Josephson), onde o casal visitante - Katarina (Bibi Andersson) e Peter (Jan Malmsjö) - trava uma verdadeira guerra sutil, porém violentíssima, que demonstra o quanto são infelizes e incompatíveis. O contexto, porém, impede as vias de fato da violência, por respeito ao casal anfitrião, e o cenário é a casa acolhedora de Johann e Marianne, nos sofás de uma espécie de ante-sala. Teu comentário, portanto, me lembrou esta forma de ação dialogal, que se desenvolve num mesmo ambiente (neste caso, a casa do Big Daddy, na festa mórbida que organizou). O que muda são as preocupações do diretor Richard Brooks; em comum, porém, a angústia dos personagens e o clamor calado que, rápida e contagiosamente, transferem-se ao espectador.
Mais uma vez parabéns, e continue proporcionando-nos ótimos e esclarecedores textos como esse, sobre inolvidáveis e indeléveis filmes deste vulto, que certamente deixaram sua marca e hão, sim, de ferver eternamente.

Ccine disse...

Assisti a essa filme faz um tempão. Depois de ler sua crítica, fiquei com muita vontade de ver novamente...

Parabéns pelo texto, mais uma vez excelente.
Abraço.

Celo Silva disse...

Preciso assistir esse filme novamente, lembro q na epoca gostei muito. Tb lembro q existia muita tensão em cena e as atuações tanto de Liz Taylor qt Paul Newman foram marcantes mesmo.

Marcos Eduardo Nascimento disse...

femea-no-cio, FECHOU, amigo!!! Filme perfeito, item necessario em todo acervo de quem diz que ama cinema. Uma obra que conseguiu driblar a hipocrisia instaurada em Hollywood, na época, e que permanece mais atual do que nunca! Atuacoes forte,s marcantes e memoraveis. Como voce bem disse: o casal no auge da beleza. Liz, perfeita; unica e inesquecivel. De longe, sua melhor atuacao, ao lado e claro, O sol é para todos. Paul Newman exala sensualidade, masculinidade e crise existencial. Essa parte da paixao nao declarada pelo amigo morto, eh tao forte quanto as palavras ditas. Nao tem como nao perceber. É tangivel. Tennessee, sem duvida alguma, um dos maiores e melhores autores de todos os tempos.

Como sempre, Cris, voce é perfeito com as palavras e olhar sobre os filmes aqui apresentados.

Pedido: gostaria de ler criticas dos filmes de Pedro Almodovar e Woody Allen, no Apimentario.

Beijao.

Hugo disse...

Mesmo sendo uma versão mais light que o livro, o resultado é um grande filme, valorizado ainda pelo sensacional elenco.

Paul Newman e Elizabeth Taylor estavam no auge, além do ótimo e hoje esquecido Burl Ives.

Abraço

Mayara Bastos disse...

O filme é marcante mesmo pelo duelo entre Newman e Taylor, que conseguem fazer perfeitamente também, graças a um roteiro muito beme scrito. ;)

Marcos Rosa disse...

Esta é uma das minhas muitas lacunas. Ainda não vi este filme. parece ser muito bom.

___
http://www.algunsfilmes.blogspot.com/

Marcos ;) disse...

Nada a dizer, a complexidade da análise desenvolvida foi incrivel, novamente! Vc pegou pontos que eu já tinha percebido e adicionou os detalhes que eu não havia reparado... me deu vontade de assistir ao filme de novo e de novo :)

alan raspante disse...

Das obras de Tennessee Williams, pode se dizer que esta não é a minha predileta, mas ainda sim gosto muito dela. Estou com o filme aqui para rever e tenho que fazer isso agora depois de ler o seu texto. Tinha (ou ainda tenho) várias dúvidas a cerca do personagem de Newman e sua sexualidade, acabei de lembrar rs

Enfim, o segundo melhr de Taylor. O segundo melhor de Williams.

Abs.

Flávio Junio disse...

Dois grandes atores em ótimo momento aqui.Parabéns pela crítica Cris.

Guilherme Z. disse...

Gostei do seu texto e fiquei com vontade de assistir. Gostei da idéia do blog, bem bacana. To te seguindo. Abraços.

http://acervodocinema.blogspot.com
http://memoriadasetimaarte.blogspot.com

Clenio disse...

Difícil dizer o que funciona mais aqui, se o texto de Tennessee Williams (que mesmo um tanto mutilado ainda é forte e atual), se o elenco coadjuvante, se a atuação do par central ou se a tensão sexual que se instala entre eles.
Nunca Liz Taylor esteve tão sexy e Newman tão bom ator quanto aqui, explorando ao máximo todas as vastas probabilidades do texto.
Um filme que exala sensualidade e tensão dramática. Demorou pra falar dele, não???

Abraços
Clênio
www.lennysmind.blogspot.com
www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com.

Juliana Góis disse...

Até hj me pergunto pq raios o Tennessee Williams não gostou do resultado final deste filme.
Bom, só sei que eu gosto.

Juliana Góis disse...

Até hj me pergunto pq raios o Tennessee Williams não gostou do resultado final deste filme.
Bom, só sei que eu gosto.

Márcio Sallem disse...

Me recordo de apenas dois atores que pudessem dispensar a sensualidade e o apetite voraz de Elizabeth Taylor:
Marlon Brando em O Pecado de Todos Nós e Paul Newman neste filme-teatro formidável.

Parabéns pela crítica.

Anônimo disse...

O senhor Igor Ferreira, comenta no Apimentário pela primeira vez, e ao invés de comentar o filme em destaque 'Gata em Teto de Zinco Quente',faz sua própria resenha de outros dois filmes:'Festim Diabólico', e 'Cenas de um casamento'. Do filme em questão, esse senhor, praticamente nada comentou. Acho que ele só queria promover o seu blog. Se toca, senhor Igor!

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