Imatura sensualidade

Padrão de beleza é algo plenamente ingerido pela sociedade. Vemos na mídia, nas relações profissionais e nos mais diversos âmbitos que o senso de beleza física é algo que comanda as teias culturais, ditam moda e condicionam laços de amizades. Para tanto, é compreensível a necessidade de Hollywood em revitalizar contos antigos em transposições modernas que tenham essas mensagens embutidas. Porém, é lamentável a forma como certos filmes são delineados sem que certo cuidado seja latente. É o caso deste A Fera, trabalho irregular que tem como base o clássico conto A Bela e A Fera e toma como princípio o livro de Alex Flinn. O mais visível nessa busca por adaptações é o apelo ao público adolescente: a exibição de certa sensualidade banal e roteiro recheado de intenções que beiram ao grotesco clichê. Ainda que seja viável a reformulação de uma história já massificada em todo mundo, difícil não questionar a dificuldade em se promover um maior aprofundamento em obras desse calibre. O inexperiente cineasta Daniel Barnz condiciona seu frágil filme num completo jogo afirmativo a essa esfera teen a que se destina. Será que há limitação por parte dos roteiristas ou Hollywood não é capaz de confiar num público ávido por músicas do momento e filmes repletos de rostos belos? — ironicamente, o filme traz em sua essência essa ideologia, ainda que o papel da argumentação se perca.

A trama traça a vida superficial, rica e fútil de Kyle. Alex Pettyfer personifica logo na primeira sequência a real intenção do filme: o apelo ao público feminino. O ator logo surge de cueca e descamisado, exibindo músculos e sensualidade em cada take — é a maneira do seu personagem expressar que tem poder da sexualidade juvenil e beleza incondicional. É também a forma do frágil roteiro exemplificar em poucos minutos como este homem vive de aparências, apenas preocupado com seus padrões de beleza física e que não vê algo de mais útil na vida a não ser os atributos físicos. O filme mostra como o jovem tem o poder de sensualidade, é alvo de tesão de todas as garotas, além de ser cobiçado pela reputação e status financeiro. Efetivamente aqui, a beleza é encarada como algo extremamente negativo.

A narrativa é ágil, sem muitos adornos, numa pressa total. Kyle recebe um feitiço macabro de uma misteriosa bruxa (Mary-Kate Olsen) que torna sua aparência transformada. O galã torna-se fragilizado, o rosto transfigurado — não muito, já que Barnz prefere apresentar o "grotesco visual" através de piercings, tatuagens e leves cicatrizes no rosto. O público sabiamente prevê o que vai ocorrer: Kyle terá que enfrentar dificuldades de socialização; compreender que a beleza física não é tudo e que o conceito de belo é algo mais correspondente à concepção moral de cada ser humano. Satisfazendo o público mais feminino adolescente, o filme investe no romance idealizado de Kyle com Linda (Vanessa Hudgens). A velha fórmula: rapaz passa a perceber seus valores de vida enquanto torna-se próximo da garota sensível que faz com que ele enxergue o mundo de maneira mais humana. Soma-se aí certo teor de paixão e desejo tão necessário para que o filme seja degustado pelo público-alvo.

Infelizmente, a narrativa é pobre e apressada — portanto o tom superficial prevalece. Alex Pettyfer não sustenta uma interpretação firme, ainda que tenha todo o tipo físico tão idealizado pelo público feminino adolescente. Sua interpretação é frágil, de acordo com o seu personagem que carece de maior profundidade. Ainda assim, é sustentado por conta da boa química em cena que transmite ao lado de Vanessa Hudgens que, por sua vez, é uma atriz de pouca expressão e talento. Quem esperava maior teor de sensualidade por parte do romance dos dois vai se frustrar, visto que a relação apresentada pelo roteiro é bastante inocente, quase infantil. O contorno do romance é fragilizado por situações que não potencializam o tom dramático, muito menos o apelo sexual. A direção de Daniel Barnz pouco faz para ajudar nesse sentido e seu roteiro permanece imaturo. O ponto alto do filme fica por conta da participação de Mary-Kate Olsen que mantém certa agilidade, firmeza e confere um tom mais sexualizado — porém sua personagem é a mais unidimensional de todas. O que poderia ser uma crítica plausível aos padrões sociais firmados numa "falsa beleza" perde-se no roteiro que prefere sensibilizar o público com situações banais, sensualidade e romance repleto de obviedades.

Beastly (2011, EUA)
Direção de Daniel Barnz
Roteiro de Daniel Barnz, baseado na obra de Alex Flinn
Com Alex Pettyfer, Vanessa Hudgens, Mary-Kate Olsen, Peter Krause

16 opinaram | apimente também!:

Júlio Pereira disse...

A Fera acabou vindo parar nos cinemas Goianos. E eu evitei. Já esperava um trabalho grotesco e imbecil, tendo em vista que os trailers lançados eram medíocres e as críticas massacrantes. Nem imaginei que ele fosse parar aqui no Apimentário, por não saber que se tratava de uma obra com teor sexual - que, em compensação, pelo seu texto, o trabalha de forma infantil. O tema é deveras interessante e merecia uma produção de destaque!

Ccine disse...

Realmente esse filme é MUITO FRACO, uma bobagem repleta de clichê.
Seu texto descreve bem o q esperar do filme, para quem ainda sente vontade de ler...rs.
PARABÉNS!!!

Paulo Ricardo disse...

Seu texto me deixou desanimado com esse filme.Mas o que esperar de uma obra com Vanessa Hudgens e Mary-Kate Olsen.O italiano "Não Se Mova" é uma boa indicação.Abraço.

Kamila disse...

Se é baseado no conto que originou "A Bela e a Fera" tem minha total curiosidade, mas tendo a Vanessa Hudgens no elenco, não dá... rsrsrs Vou tentar me concentrar no lindo do Peter Krause quando tiver a chance de assistir. rsrs

railer disse...

não vi este filme mas só pelo trailer já vi que deve ser fraco. lendo seu texto então, não resta dúvida que é melhor deixar pra ver algum dia quando passar na globo e a gente não tiver algum outro pra ver. hehe

Cibele disse...

Detesto filmes que atropelam a narrativa para finalizar da maneira mais óbvia possível. É mais um que carrega a ideia "vamos 'adolescentizar' o cinema, porque o público não é exigente, se contenta com belos rostos e ainda gera lucros. Lamentável!

A família Olsen deveria entender que talento não é genético, apenas a Elizabeth é quem foi agraciada com ele.

Mais um filminho péssimo que me fez perder tempo. Mas poderia ser pior, já que bebe da mesma fonte de filmes péssimos como "A Garota da Capa Vermelha"...

Gabriel Neves disse...

Filme péssimo, e no seu ótimo texto você fala direitinho o porquê. Haha, A Fera é apressado, clichê, superficial e exala falsidade. As atuações não são críveis e o roteiro é muito raso. Quando vi que era seu próximo texto, até tomei um susto, mas ele está ótimo!
Abração!

Marcos Nascimento disse...

Certamente que é importante discutir essa imposição dos padrões de beleza nos dias de hoje, ainda mais entre os adolescentes atuais... mas há exemplos melhores. Pra mim o filme, que demorou horrores para ser lançado, tentou pegar uma carona na possível ascenção da Vanessa Hudgens à época de HSM, e nao conseguiu porque, né, falta inspiração à moça para interpretar a Bela dos contos de fadas. E, como sempre costumo dizer quando vejo filmes fracos, nada, absolutamente NADA salva um filme com roteiro ruim. Tá aí a Dama de Ferro que não me deixa mentir.

J. BRUNO disse...

Passarei longe, bem longe!

Luís disse...

Trata-se sinceramente de um dos filmes mais infelizes a que eu já tive o prazer de assistir. A obra é dotada de inutilidade e de falsas pretensões, principalmente naquela tentativa terrível de misturar essa história medíocre com crítica social.
Menos de uma hora e meia e eu fiquei extremamente aborrecida.

Dulcíssima Prisão disse...

Acho estranhas essas críticas que encontro pela internet. Parece que não sei ver filmes. Sempre temo estar desatento para os detalhes cruciais que definem a trama. E isso acontece com frequência considerável. Mesmo assim fui crítico de cinema aos 18 anos. Não entendo direito os filmes. E mesmo de filmes que adoro se apagam dados do enredo. Gravo melhor os climas poéticos ou plásticos do que os fatos narrados. Qualquer amigo meu rirá ao ler isto aqui. É que tenho fama de ser um grande contador de filmes — alguns chegando a dizer que filmes são melhores contados por mim do que vistos. O que eles não sabem é que contar um filme em voz alta é um meio de eu tentar me ensinar algo sobre o que foi narrado pelas imagens. É parte do processo de percepção: narro sobretudo para mim mesmo. Por isso tudo foi um experimento e tanto assistir a “A árvore da vida”, com um amigo com quem pouco falei, e, no dia seguinte, ir sozinho ver “Melancolia”. Pra mim, que amava ler Nietzsche contando o que disse Sileno (que a melhor coisa para o homem é inalcançável: não ter nascido), Justine, sábia por desprezar tudo, ofereceu ao menino, mas só a ele, a consolação equivalente à arte, aquela que não paga tributo à verdade (como quer o jovem Bosco).

Amanda Aouad disse...

Pois é, roteiro fraco, interpretações tolas, mas que continua levantando as questões da beleza, padrões, valor interno. Só acho que tudo sempre acaba se contradizendo, pois a beleza se torna um prêmio para aquele que percebe que ela não fundamental. hehe.

bjs

Flavio Junio disse...

O rapaz é bem inexpressivo, parece um modelo querendo ser ator. A garota do High School tá longe ser uma Jennifer Lawrance, mas tem apelo junto ao publico alvo. Talvez seja um filme querendo atrair o público Crepúsculo.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Olá, Cristiano, acabo de linkar o seu blog (seguidor já o sou faz tempo). Vamos iniciar uma troca de impressões? Grande abraço e cumprimentos cinéfilos!

O Falcão Maltês

Madame Lumière disse...

Cris,
Não assisti ao filme. Acho que mesmo tomando como base uma reinterpretação teen de A bela e a fera, beleza x feiúra e seus valores, essa questão em um filme teen nem é muito significativa pois o jovem está mais para escolher por afinidades do que por beleza ou feiúra. Tenho lá minhas dúvidas se um filme desse tipo faz algum efeito na audiência pois só reforça que beleza é bem vinda e valorizada na nossa sociedade e, a maturidade do jovem é mais inclinada a gostar do que é bonito e legal se não não haveriam tantos bullyins em escolas.
bj
MaDame

Alan Raspante disse...

Cris, não vou negar: tenho vontade de conferir. Não gosto da Hudgens, tãopouco do protagonista masculino, mas sempre acabo conferindo esses fracassos preditados, rs

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