Insanidade Épica

Como compreender um desastre cinematográfico? Australia é o típico filme que engana: é o aparente bombom de bela embalagem com gosto azedo, desmede decepção após a experimentação. Tudo tem um teor deveras falso. O diretor Baz Luhrmann é o tipão superlativo: o famoso ame-o ou odei-o. O erro mais grotesco proporcionado pelo roteiro é nunca focar num único gênero. É drama ou comédia? É épico ou faroeste pseudo-eloquente? Tudo é totalmente incoerente, nada é estabelecido. A ideia era apenas impressionar com todos os gêneros? A pretensão cegou a criatividade e consciência da produção do filme, puro equívoco. E tudo prevalece num erro após o outro, em mancadas de direção amplamente frouxa. Soado como uma espécie de o novo ...E o vento levou australiano, o filme seria mais interessante se tivesse um formato de duração mais condensado e menos trocas de gêneros escrachados - seria menos grotesco e estafante, talvez a premissa desnorteada pudesse funcionar. Os personagens são inconstantes, incertos e imprecisos e totalmente irritantes. Nada é muito aprofundado, o que é consistente mesmo é o tom caricatural e canastrão dos atores. Nicole Kidman exerce um desconforto pleno, um misto de apatia e péssima condução interpretativa: por vezes, em certas cenas (a cena do canguru, alguém?), provoca um constrangimento absurdo diante de seus gestos, falas e olhares tronchos - é pra se contorcer de vergonha alheia!

É compreensível que a própria atriz evitou assistir ao próprio desempenho, alegando insatisfação no resultado da obra. Qual objetivo do roteiro mal construído? O que ocorreu com a direção ineficaz e frouxa de Luhrmann? Kidman desaprendeu a atuar ou a direção irregular tirou ela do eixo? Obra cinematográfica? Esta que nem mesmo convence nos esteriótipos e clichês presentes até o final. Como se sustenta um filme metade comédia-romance, metade western e metade guerra? Faltou foco narrativo, direção cuidadosa e atenção na montagem da película - tudo tende a um imenso buraco, tanto no roteiro quanto no resultado da obra em si.

Eis que Baz Luhrmann perdeu a própria sanidade cinematográfica com sua grandiloquência? Acreditou ele que exaltar uma pátria, ter heróis com respaldo moral e propor um "conflito" poderia cumprir um efeito reflexivo? Há certa teatralidade impregnada em certas cenas, misticismo exagerado e motivação imprecisa do roteiro. O amor de Lady Ashley e Drover não cativa, abstém-se de qualquer realismo químico, tudo tende à irrealidade - sentimentalóide bestial? Talvez, o único que se salve, em meio a essa desorganização concebida, seja Hugh Jackman: demonstra certa selvageria, sexy-appeal e concentração no direcionamento do seu personagem - mostrando que não é apenas um Wolverine eterno. Testem a paciência individual, assistam a este filme enfadonho.

43 opinaram | apimente também!:

Roberto F. A. Simões disse...

Estou inteiramente de acordo com você. Aliás, escrevi sobre AUSTRÁLIA recentemente lá no blogue, e pode constatar que tivemos impressões semelhantes.

É pena, porque tinha tudo para poder ser um grande grande filme.

4/5 (um 4 bem fraco, no entanto: 3.5, se possível)

Cumps.
Roberto Simões
CINEROAD - A Estrada do Cinema

LuEs disse...

Cristiano, tivemos as mesmas impressões. Basicamente, achei que a dificuldade de se mante rnum gênero só foi o fator mais problema. Ainda que as atuações estivessem muito precárias, se o diretor tivesse se mantido num gênero só, teríamos aceitado melhor.

No entanto, não identifiquei em qual gênero o filme se sustenta; não soube explicar o porquê daquela interpretação instável de Kidman; não entendi a inclusão de elementos místicos desfavoráveis ao realismo presente.

Enfim, como você disse - e eu também, na resenha que fiz -, o único que se salva é Hugh Jackman, que está bem em cena. Acho até que ele deveria estar na lista dos indicados no lugar de Robert Downey Jr.

=)

Prissyrj disse...

Não é o meu preferido do Baz Luhrmann, é verdade, mas não achei esse trash todos que vocês acharam, não...chega a ficar meio perdido, relamente, especialmente no final, mas deixo uma nota média pra ele.

abraço!!

Marcos Eduardo disse...

Concordo com os comentários feitos, porém, vale ressaltar o olhar de "culpa" e "desculpa" que Baz deu em alguns momentos sobre a quase total exterminação da cultura aborígine. Devemos ter a consciência de que o filme é feito por um grande estúdio americano (fazem o mesmo com seus filmes, costumes, idioma e tudo o mais que já sabemos)e se trazermos para a nossa realidade, não seria muito diferente. Também concordo que não é o melhor filme do Baz, mas a cena em que "O mágico de Oz" é citado; pra mim, pelo menos, já vale assistir!

Cris, estou sentindo falta dos seus comentários no meu olhar. Apareça por lá e um ótimo 2010.

Beijos.

Paulo [ALT] disse...

Depois de Moulin Rouge, agora esse. E ai, idéia pro próximo? Que tal uma trilogia dos Lurhmans??? Ah, notei que acrescentou um algo a mais na página, ali em baixo.

Também nunca vi vc tão mal humorado haha. Nunca assisti o longa, morria de vontade, quer dizer... a vontade foi metade embora agora... ["low battery" kkk] mas... concordo na questão do aparente bom bom de bela embalagem Pelo menos tiveram um certo bom gosto na publicidade do filme. Sei lá, eu achei.

Você me mostoru aquela cena do canguru, eu lembro. Não gostei, achei péssimo. Não sou contra esse excesso de misturas, acho bom até. Mas assim como aconteceu em Moulin Rouge com o início [a freira caindo do teto, o anão e etc] e aquele "humor" que eu não acho nada humorístico, parece ter acontecido o mesmo. Talvez pior, haha.

Legal, mais um post "investigativo". Adoro quando vc discorda das coisas, isso que é bom. Crítica é crítica, seja negativa ou positiva. Tá excelente!

Abraçoooooo Cris

Thomaz Ribeiro disse...

Fiquei até com medo de ver. Mas concordo com as opiniões expressadas em seu texto. Como tem diretor que gosta de desperdiçar celulóide.

Luis Fabiano disse...

Oi, Cris, obrigadão pelo comentário no meu blog e pode ter certeza, meu amigo, lhe desejo tudo em dobro. De coração. Bem, não posso deixar de concordar com o Paulo [ALT], nunca vi um filme irritá-lo tanto. Talvez tenha sido esse justamente o critério de escolha para ele estar aqui com toda as suas falhas, afinal você costuma indicar, quase sempre, filmes que o "apetecem". Não o assisti e nem pretendo, mas ironicamente vi uma propaganda dele numa VOGUE, ao lado de, pasme!, uma propaganda de turismo da Austrália. Daí já desconfiei que seria furada, embora sempre achei interessante os trabalhos da Nicole Kidman. Acho que ela só se perdeu depois de "As Horas" e esse filme só reforça a minha tese. Mas gosto do seu texto, assim, agressivo, pulsante, a la Gregório de Matos, totalmente barroco, questionador. Escreva mais dessa forma. Exorcise seus demônios mais vezes por aqui também. A gente agradece! Abração!!!

Nekas disse...

É, como tu dizes, um filme que engana!

Abraço
http://nekascw.blogspot.com/

Micael Gallo disse...

cara!!!!
tenho esse filme aki em casa e nao tive oportunidade de assistir ainda!
falaram q é mto bom!
minha mae viu e gostou...
preciso ve-lo rsrs
um abraço!

Athila Goyaz disse...

Não ví esse ainda.. e pelo que você escreveu aí nem dá vontade de assistir hehehe

Po, ainda colocaram a Nicole Kidmam no elenco e não deu certo? nuss .. tá tenso então!

bjuxxx

Gilson disse...

Cristiano

Assino em baixo de tudo o que você falou. O filme ruim, sem imaginação. Bela descrição, vc cada dia se supera como critico.
Parabéns.

Tum disse...

_

É estranho, alguns amigos me disseram que é bom, outros que não presta. O fato é que eu não tenho a mínima vontade de assistir. Se fosse assistir seria pela interpretação da Nicole Kidman, mas pelo visto iria me decepcionar de qualquer modo.

(Não que eu não goste do Hugh Jackman, de maneira alguma.)

É bom ler uma crítica antes de arriscar algumas horas de minha vida vendo algo que eu certamente não vou gostar.

Parabéns pelo blog. Abraço!

Miguel Almeida disse...

Caro Cristiano,

em primeiro lugar quero agradecer a visita e o simpático comentário, e segundo quero dar-lhe os parabéns por este espaço interessante e original.

Desejo-te um Bom Ano

Serginho Tavares disse...

não sei concordo com o fato dele ser enfadonho ou trash. concordo que muitas coisas deram realmente errado porém o mais irritante desse filme foi mesmo aquela criança chata que eu deixaria pra trás sem culpa!
e de fato Jackman foi a melhor coisa ali.

Serginho Tavares disse...

não sei concordo com o fato dele ser enfadonho ou trash. concordo que muitas coisas deram realmente errado porém o mais irritante desse filme foi mesmo aquela criança chata que eu deixaria pra trás sem culpa!
e de fato Jackman foi a melhor coisa ali.

@philipsouza disse...

Iii pelo que vc narrou nem da vontade de ver....vou pensar...hehehe


abraços

Tio Tum(mler) disse...

_

Obrigado por visitar meu blog!

A coincidência foi que eu achei teu blog por acaso e acabei de lembrar que você tinha o bonequinhodeluxo lá pelos idos de 2006.

Já estou seguindo. Abraço!

Magda Miranda disse...

Eu já assisti este filme! Realmente ele ficou com muito produto dentro da embalagem e não deu para engrenar direito a coisa. Cada vez que se fecha uma parte da história (acreditava eu), pensava: "esse já é o fim?" E o filme não acabava. Difícil é terminar. O que você falou faz sentido. Bom, mas eu apareço aqui para comentar mais os próximos posts e ainda desejar boas festas. Um abraço.

FLORES, Ju disse...

É verdade, filme bizarro.
Mas realmente o Hugh Jackman... Oh my God.

digitaqueeuteleio disse...

Eu ainda não o assisti, pois toda vez que passo na locadora, só olho pra ele e não levo...rss Mas já me indicaram para assisti-lo. Acredito que esta impressão passe despercebido para quem não tem um olhar crítico ao ver um filme. Mas vou seguir a sugestão de testar a paciência para vê-lo...rss

Obrigado pela visita em meu blog. Já curti este espaço também!
Um abraço.
Marcelo.

Paulo Braccini disse...

deste nem passo perto ... aff

bjux

;-)

Júnia L. disse...

Eu esperava tanto deste filme. Anúncios diziam que seria um novo “E o Vento Levou...”
E o ventou levou mesmo, só que para o lixo. Filmezinho intragável um tédio!
Tadinha da Nicole Kidman, dizem que ela ficou com tanta vergonha do fiasco que saiu literalmente de área.
Hugh Jackman também pagou um King Kong, antes ele ter ficado com o Wolverine, ficava menos feio.
Eu particularmente ODIEI Austrália.

junior coelho disse...

Lembro-me que eu estava na Carretera Austral, num ônibus chileno, quando fui obrigado a passar parte da viagem com os ouvidos estuprados por esse filme de merda. Porque olho a gente fecha e o ouvido a gente só consente com o estupro.
Acho que a Nicole Kidman é carente. Não consigo encontrar outra explicação pra ela meter a cara em absolutamente qualquer coisa.
Que saudade de você.
Abração.

Reinaldo Glioche disse...

Concordo plenamente. Entre mortos e feridos, só se salva Hugh Jackman.
E Austrália é fruto da vaidade desmedida de Baz Lhurman. Depois desse fracasso, penso que ele vai recuperar a perspectiva.
ABS Cris!

BRENNO BEZERRA disse...

Não achei tão ruim, mas foi uma decepção.

Filipe M. disse...

Apesar de ter gostado, sim está longe de ser um bom filme.

E sim, por uma mistura de géneros tão estranha.

Mas apesar disso até gostei :)

Liana disse...

A primeira crítica que li sobre esse filme me desencorajou a vê-lo. As críticas posteriores serviram para aumentar o desencorajamento. Nem mesmo a certeza de que a opinião da crítica pode ser totalmente divergente da minha conseguiu me motivar. Um dia, quem sabe...

Thiago Paulo disse...

Acho que só teve uma parte desse filme que gostei, mas o começo é péssimo... A narração do meninho lá é ruim demais! Só acho ue a fotografia é bonita!

Abraço.

railer disse...

recomendo que você leia o que a bia (esbaforidas) falou no blog dela. ainda não vi este filme, mas está na minha lista depois que a bia me incentivou.

feliz 2010 pra você!

Wallace Andrioli Guedes disse...

Eu acho que o grande problema de AUSTRÁLIA é se levar a sério demais, especialmente em sua parte final. Até aquela sequência da condução do gado ao navio, o filme me parece uma homenagem divertida aos grandes épicos românticos, e acho que funciona razoavelmente. Mas, a partir dali, tudo sai de vez dos trilhos, e vira uma pequena grande bomba. E isso vindo do, até agora, sempre excepcional Luhrmann...

Marcio Melo disse...

Eu juro que tentei assistir Austrálias pelo menos umas 3 vezes, mas nunca consegui.

Estava passando no Telecine e não consegui assistir nem mais do que 5 ou 10 minutos, muito chato.

Não testarei minha paciência, como você mesmo disse

Abração

Raiana Reis disse...

Olá, esse foi um ano com gostinho de início e venho através das nossas rotas virtuais cruzadas agradecer sua visita, desejando mais encontros entre as leituras e trocas de pensamentos. Esses momentos por vezes nos colorem os dias e inspiram direções.
Que a renovação seja por dentro maior que no calendário.
Beijos desde a lua.
Raiana Reis
Rayos de Luna
Tocou

AK Lacerda disse...

Menino Cris, estamos conectados!

Gostei da sua pimenta... E quanto a 'Austrália', não vi e duvidarei di apreço de que gostou.

Beijos

Franklin Catan disse...

Você é um dos cara mais criticos que conheço atualmente, sempre com ideias inovadoras, tirando um pouco da critica antiga.
Parabéns por todos os post. Grande abraço!

Franklin Catan disse...

Você é um dos cara mais criticos que conheço atualmente, sempre com ideias inovadoras, tirando um pouco da critica antiga.
Parabéns por todos os post. Grande abraço!

Marcos Ferri disse...

Não posso falar muito, preciso assistir o filmr, porém soa como mais uma tentativa de construir um épico lendário, evidentemente impossível em alguns casos. abraço

Eri Jr. disse...

Obrigado por visitar meu blog! Fico muito grato! E o seu blog é simplesmente fantástico!

E quanto ao filme, não assisti e nem tenho vontade! Mas acredito que seja fraquíssimo!

Abraço. Eri Jr.

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

É bem verdade: como compreender um desastre cinematrográfico?

Mateus, O Indolente disse...

Nicole Kidman, definitivamente, não é mais a mesma. Faz tempo que não vejo um bom trabalho da atriz. Espero que, com Nine, ela volte aos seus bons momentos.

Cinema para Desocupados

Rodrigo Mendes disse...

Apenas Quentin Tarantino faz uma salada de gêneros clássicos num cinema contemporâneo sem perder a batuta criativa.

Aqui, Luhrmann envergonhou a si a a estrela principal.

abs!

ragingblog disse...

é um erro cinematográfico!

poderia ter sido menos pior se fosse menos longo, aquela parte da segunda guerra é completamente desnecessária...

abraços!

Larissa Araújo disse...

Até que eu gostei um pouco, não achei tão ruim assim não.

Juliana Góis disse...

Apesar de amar Nicole Kidman, esse filme foi um belo fiasco.Péssimo.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Aperitivos deliciosos

CinePipocaCult Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos Le Matinée! Cinéfila por Natureza Tudo [é] Crítica Crítica Mecânica La Dolce Vita Cults e Antigos Cine Repórter Hollywoodiano Cinebulição Um Ano em 365 Filmes Confraria de Cinema Poses e Neuroses