Memórias Derramadas

Leite Derramado, quarto livro de Chico Buarque, é um estudo sobre a vida: uma análise a partir do seu fim. Altamente munido de elegância, inteligência e conceito, Chico Buarque atinge seu ápice na produção literária. O narrador-personagem é Eulálio d'Assumpção, típico moribundo e enfermo numa cama de um fétido hospital, com 100 anos de idade. Totalmente passivo ao cotidiano, no leito de morte, o ancião desfia detalhadamente e monodialoga com a sua filha - ou às enfermeiras, ou a quem o quiser ouvir - as suas memórias firmadas no vinco incurável da saudade sexual de sua Matilde, antiga esposa que jamais esqueceu. Os fatos contados contextualizam a história de sua linhagem desde os primórdios ancestrais portugueses ao tataraneto garotão do Rio de Janeiro atual. Através de suas memórias, percebemos uma sociedade vincada nos preconceitos de classe e raça, na desigualdade obscena e na corrupção desmedida, machismo e deliquência dos âmbitos familiares. Há um panorama histórico sobre as descobertas da sexualidade, da promiscuidade pública-privada e das mazelas da vida brasileira (preconceito velado pela cordialidade, falsas aparências e subserviência conolizada). A grande sacada, feita por Chico Buarque, é propôr uma ilógica na ordem cronológica embaralhada, por se tratar de, evidentemente, uma memória desfalecente, totalmente contraditória e repetitiva, com buracos e vai-vem de situações. As ambiguidades bem como os paradoxos no interior narrativo fazem parte da habilidade, estilo e proposta do autor para caracterizar seu romance, proporciona uma realidade sensorial: o leitor realmente crê que lê um relato de um narrador centenário, por isso a atribuição constante de avanços e recuos no tempo da história. Há primor no texto concebido, tanto no plano narrativo quanto no plano do estilo. Os personagens são saborosos, realistas e discretos por não possuírem vícios caricaturais. A desarticulação na fala do ancião, além da verossimilhança, proporciona teor de suspense pois cria dúvidas ao leitor. Há um tom ideológico e psíquico nas lembranças obssessivas do narrador, quase um quebra-cabeça inteligente. Tudo se mescla e também se sobrepõe, mas o leitor não fica perdido. Eis um livro que trata de amor, morte, solidão e desejo. O narrador é movido pela sentimentalidade e desejo sexualizado por uma mulher jamais encontrada - mas é o ciúme que o conduz e corrói, plenamente. Como superar o amor do passado? Um livro que demonstra um estudo cruel sobre as vicissitudes de um amor doentio, do desejo incontrolável e de um sentimento possessivo. Eis um retrato da decadência humana e da deteriorização dos valores, ou não. Pasmem, Chico Buarque!

27 opinaram | apimente também!:

Cavaleiro dos Dragões disse...

gostei muito do blog
virei mais vezes
um abraço

Norberto Marques disse...

Cristiano, passei para te desejar um novo ano muito feliz.

»»»»»»»»»»FELIZ ANO NOVO««««««««««

Abraço


Norberto

AK Lacerda disse...

"Estou lendo um romance de Louise Erdrich. A certa altura, um bisavô encontra seu bisneto. O bisavô está completamente lelé (seus pensamentos têm a cor da água) e sorri com o mesmo beatífico sorriso de seu bisneto recém-nascido. O bisavô é feliz porque perdeu a memória que tinha. O bisneto é feliz porque não tem, ainda, nenhuma memória.
Eis aqui, penso, a felicidade perfeita. Não a quero."

* O Livro dos Abraços - Eduardo Galeano

Pelo visto o sr. Eulálio não abre mão da memória, que, a meu ver, é o sobra e importa.

Beijos.

Juliana disse...

POoxa, estou em desvantagem, não li ainda o livro, mas parece-me instigante, mesmo se tratando de Chico, que no meu ver, anda se perdendo no meio artístico!
Mas vou querer ler este "quebra-cabeça inteligente"!

Beijos meu biscoito.

Luis Fabiano disse...

Oi Cris, ainda bem que nas minhas férias, posso vir aqui com mais frequência. Eu não li esse novo livro do Chico Buarque, mas li críticas muito boas e tenho a impressão de que "Leite Derramado" é, de longe, o livro mais maduro da carreira literária dele. É inegável também a influência do pai dele, Sérgio Buarque de Holanda, nessa sua narrativa que investiga de certa forma a nossa ancestralidade. Gostei da ideia do ciúme como condutor da derrocada do personagem. Amo livros cujo ciúme tudo move ou destrói, mas, como já lhe disse por msn, Otelo ainda é o meu preferido. Abração!!!

Amanda Aouad disse...

Estou com ele em minha cabeceira, mas ainda não consegui passar da segunda página, não que não tenha gostado. É que acho que faltava um incentivo, agora você me deu um... hehe.
Feliz 2010!

André disse...

pessoas me impulsionam. você ja deve ter percebido isso. espero que isso não piore a minha imagem. mas quem liga pra imagem. espero que isso nao...

Marcos Campos disse...

Olá Cristiano!!
Adorei a dica, como gosto muito de ler e não ainda conhecia o livro, providenciarei...
Ótimo 2010 pra vc!!
Abraço!!

Patrícia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jana Cambuí disse...

Ainda sinto uma Matilde me espionando em cada canto da casa..rsrs

Leite Derramado é, sem dúvida, o ápice da obra literária de Chico Buarque. Mas isso não surpreende, porque ele sempre consegue se superar. Entre os quatro, fico mesmo com esses últimos dois: Budapeste e Leite Derramado.

Aliás, muito boa a resenha, quem ainda não leu com certeza vai ficar se coçando pra conhecer o livro.

gentil carioca disse...

Está na minha lista. No finzinho dela, é verdade, mas está lá. Tem uns 5 na frente, aguardando, aguardando, aguardando...
Empilhadinhos com todo o respeito que merecem. Mas antes tenho que acabar um Faulkner e um Caio Fernando.
abçs

Heitor Cardoso disse...

Bem, venho agradecer a visita e o comentário no meu singelo blog :)

E agradeço tambem a informação que você repassa, aqui, no seu espaço. Vou procurar esse apendice do Chico.

Um abraço, continuemos...

Paulo [ALT] disse...

Oiii
Demorei mas tô aqui lendo o texto com atenção. Preciso confessar, quando eu li Chico Buarque me desanimou um pouco... bom, deve saber a razão disso haha. Você nunca me conta qual está lendo ou que está fazendo, depois reclama de mim né? rsrs Devia estar lendo esse ai estes dias e nem comentou, hunff...

Mas.. retornando, gostei da parte que diz que o relato funciona desde os ancestrais portugueses ao tataraneto garotão do Rio... talvez quando li isso... tenha vindo uma vontadezinha de ler. Só não faço por enquanto pq não tenho aqui em mãos e pq Clarice do post antigo ainda está na memória.

Pois é, "pasmem", haha, então. Nunca li ele. Gostei da diversificação do post "de hoje", rs. Não foi de cinema kkkk
Será que esse é o último post do ano?

Abraço Amigo

Assis Freitas disse...

Cara me dá um medo ler o Chico Buarque, é que eu o tenho em grande estima. Tentei com dois: Estorvo e Benjamin. Vc tá me incentivando a mais uma. Forte abraço e cada vez mais inspiração em 2010.

Cintia Carvalho disse...

Oi Cris!

Bem meu jovem, e ai como passou o natal? E a faculdade?

Seu texto sobre "Austrália" ta corretíssimo.

O filme é um desfile de erros, seja do tema, desenvolvimento da história, figurinos, imagens e atuação dos personagens. Sinceramente nem o Hugh J se salva. Baz L tava louco quando quis filmar esta história e mais louco ainda quem o patrocinou. De cara o projeto era ruim. E Nicole K deve ter se arrependido amargamente de ter participado deste fiasco. Comecei a vê-lo por curiosidade, mas não consegui chegar na metade, pois é muito ruim mesmo. Uma porcaria. Desperdício de tempo e dinheiro. Uma pena.

E seu texto sobre este livro do Chico Buarque ficou muito bom. Eu não conhecia, mas pela sua abordagem me parece uma boa história.

Aproveito meu jovem para lhe desejar um maravilhosooooooooooooooo 2010!!!!!!!!!!!

Um beijinho super carinhoso.

Carolina disse...

Valeu a opinião!
Atpe agora olhava nas livrarias, hesitava e não pegava pra ler. Acho que vale a pena conferir!

Um ótimo 2010, Cristiano!

Bjos meus

alexandre disse...

Prezado
Feliz ano novo com muito sucesso a todos!
Abs
Alexandre Taleb
Personal Stylist
Blog: http://ataleb.wordpress.com

alexandre disse...

Prezado
Feliz ano novo com muito sucesso a todos!
Abs
Alexandre Taleb
Personal Stylist
Blog: http://ataleb.wordpress.com

LuEs disse...

Tão logo que vi o lançamento desse livro, quis comprá-lo. Só agora, porém, é que tive a oportunidade de fazê-lo.
Se Chicoc Buarque é tão bom em suas composições, certamente deve ser interessante também na literatura. Estou aguardando o livro chegar e vou lê-lo assim que puder.

Liana disse...

Chico Buarque é, sem dúvida, uma máquina de desvendar mistérios e descrever nuances humanas.

Leitura de alto nível.

=D

Parada 1.0 disse...

Gostei do seu blog...é de primeira!!
to te seguindo

flw!
XD

Apolinário Júnior disse...

Como estaremos de 'pimentas' para 2010?

Desejo a você um ano movimentado, completo, vivo!

Que em seu caminho floresça luz!

FELIZ 2010!
Jr.

ragingblog disse...

Ainda não li, mas está na minha lista de livros a serem adquiridos!

Teu blog tem uma proposta parecida com o meu... livros, música, cinema!

gostei muito mesmo!

abraços!

Deize Almeida disse...

Li e recomendo. Adorei o blog, seguindo.

Beijos,
Deize Almeida.

A Moni. disse...

Cristiano, seu espaço é uma delícia! É pra ser mastigado palavra-por-palavra e é isso que aos poucos vou fazer.

Dei de cara com esse livro, o último que terminei de ler e igualmente o considero genial.

Chico parece ter bebido da fonte ora do Saramago, com uma pontuação deferente, refinada, mas que proporciona uma leitura que mais parece um ditado. Em outros momentos parece ter buscado inspiração na saga dos Buendía, em Cem Anos de Solidão.

O vai-e-vem no tempo é desafiador e encantador. É saga, é trajeto de família que se constrói e desconstói, seja pela memória fraca, seja pelo caminhar do tempo, que muda o significado da instituição família.

Adorei sua análise. Profunda e honesta.

Que bom que você apareceu lá pelo blog. Obrigada! Já te sigo também!

Rafael Pinheiro disse...

Eu não fico pasmo. Chico é e sempre foi um escritor elegante. O livro realmente é primoroso; gosto como Chico escolhe as palavras e monta tão bem suas frases. Sempre com classe e a elegância de um alto conhecedor de nosso idioma.
bjs querido. parabéns pelo Apimentário

Clenio disse...

Eu nem sabia que vc tinha escrito sobre este livro e escrevi tbém... Mais uma das sinistras coincidências que nos cercam hehehe
Concordo contigo, o livro é excepcional.

Abraço grande do sumido
Clênio

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