Amantes Segredistas

Como viver um amor segredado? No filme Poucas Cinzas o cenário é Madrid, no ano de 1922, temos um Salvador Dalí (Robert Pattinson) em plena efervescente ebulição juvenil: diante da revolução cultural que desabrocha e estoura plenamente, o rapaz vai à Espanha para estudar e obter o sucesso como um notório artista. Com apenas 18 anos, ainda tenro na idade contudo fortalecido pela determinação e maturidade, Dalí é muito tímido e um tanto excêntrico na forma que se veste. Sua personalidade extravagante e exibicionista, dois bons ingredientes avançados para a época, faz com que desperte a curiosidade e interesse da mais nobre sociedade. Dentro dessa euforia cultural das mudanças provocadas pelo jazz na música, às ideias das teorias do subconsciente de Sigmund Freud e a avant-garde contextualizando o período de muitas inquietações artísticas: Dalí conhece, dentro da instituição da universidade, o estudante Frederico Garcia Lorca (Javier Beltrán). O fascínio, admiração e o tesão entre os dois é súbito. Ambos tornam-se amigos e passam a vivenciar um cotidiano de muita arte, poesia e diálogos reflexivos. É na tal Residência dos Estudantes que Lorca transforma o seu quarto em ponto de encontro de intelectuais e centro de longas encontros intelectuais na companhia de Dalí. A relação começa com uma boa dose de desejo, ainda que sutil e não extravasada. A proximidade entre os dois proporciona o afastamento de ambos com os demais colegas - incluindo o camarada de quarto, companheiro da boemia e homofóbico Luis Buñuel (Matthew McNulty), este passa a desconfiar e suspeita que Dalí e Lorca tenham um envolvimento amoroso.

A pressão é exercida sobre os dois, bem como o gradual acréscimo da tensão sexual. Salvador Dalí não se contém e passa a investir mais na sedução, passa a se mostrar interessado pelo charme de Frederico Garcia Lorca: inevitavelmente, ambos em alta sintonia sexualizada, passam a ter encontros furtivos secretos - a cena que ambos velejam, ao luar da noite, e nadam no mar azulado prateado, para logo depois firmar um beijo é uma das cenas mais lindas do cinema (um delicioso beijo aquático concebe a poesia visual). Mas mais que o conflito de uma sociedade homofóbica ao redor, repleta de tabus, é o próprio martírio de Dalí: na primeira transa sexual de ambos, ele não consegue permitir o ato e a relação não se consuma propriamente. Lorca não consegue manter relações sexuais com ele, Dalí evita pois sente dores e eis o abalo nervoso na relação. Sexualidade mal resolvida?

O filme foca veemente no relacionamento nervoso e tenso dos dois, repleto de desentendimentos e sentimentalidade. Não entra nas vertentes políticas sobre a vida de Lorca, mas demonstra suas motivações pessoais e até passionais como um homem tendo que lutar contra o desejo. Foi um período difícil onde a homossexualidade era incômoda para os mais ortodoxos moralistas da época. A repressão é o argumento do filme: tanto Dalí quanto Lorca se auto-reprimem e sofrem, o tempo todo. Contudo, Dalí se mostra problemático pois não consegue lidar com seus problemas sexuais, nem mesmo em se aceitar integralmente como gay. Lorca é mais emotivo, parece disposto a lutar contra todos diante de suas vontades sentimentais-sexuais. Além deste amplo foco íntimo polêmico, a película evidencia a amizade entre Dalí, Lorca e também o cineasta Luis Buñuel que, mais tarde, teve Dalí como parceiro em dois de seus filmes: Cão-Andaluz e Idade do Ouro. Há ainda uma contextualização sobre o trabalho profissional deste dois importantes artistas, tornando a arte produzida por Dalí e a escrita poética desenvolvida por Lorca um puro retrato de vida delicioso. Ambos tinham genialidade, ainda que infelicidade nas questões do coração. Um olhar mais autêntico às obras destes dois seres humanos imersos numa conflituosa história de amor. A relação secreta dos dois move cada cena.

Robert Pattinson e o ator espanhol Javier Beltrán encarnam Salvador Dalí e Frederico Garcia Lorca, respectivamente, em desempenhos lúcidos em alto teor interpretativo com sensualidade embasada. A caracterização é evidente: é nítido que ambos estudaram bem os personagens reais, personificam expressivos a confusão mental de Dalí e a depressão de Lorca. A direção de Paul Morrison preza pelo desenvolvimento delicado do casal, sem pressa, tornando mais intenso o enredo. A fotografia tem texturas fortes de tons avermelhados ao dia e sombras azuladas, à noite. O trabalho da roteirista Philipa Goslett é propor um envolvente aspecto de uma relação íntima de um pintor e poeta, iniciada numa amizade inesperada. Segundo ela, a tragédia do filme é verdadeiramente Dalí: viveu enfeitiçado às lembranças de Lorca, durante toda a vida, falava sobre ele incessantemente, mais que de sua mulher Gala com quem se casou de fachada.

A sociedade é hipócrita, portanto é necessário lutar contra as regras: afinal, o bom senso da emoção pode estar aliada à razão. O ser humano precisa driblar todos seus medos e lutar pra a satisfação dos desejos. A felicidade virá com o prazer. O sofrimento, medo e fragilidade de Dalí transformou a relação dele com Lorca em conturbação tumultuada. No amor é preciso força, senão o psicológico é constante tremor. Eis uma história bastante crua, realista não só por ter sido verídica, mas pelo condicionamento narrativo desenvolvido através da leitura psicológica dos personagens. Uma abordagem sobre conflitos íntimos, desejos incondicionais e valores de uma sociedade. Um filme esteticamente elegante, sensível e reflexivo.

Little Ashes (EUA, 2008)
Direção de Paul Morrison
Roteiro de Philippa Goslett
Com Robert Pattinson, Javier Beltran, Matthew McNulty, Marina Gatell

29 opinaram | apimente também!:

Jack Lewis disse...

Sumido, tudo bom?
Minha 'raiva' por Pattinson, é atuomatica! Não vi nada dele!

Paulo [ALT] disse...

ihh.. tava inspirado hein hahaha poxa, o texto ficou grande, um sos maiores se não O maior daki.

Cris,
Voc~e já deve saber, claro, minhas considerações sobre o filme além do blog. Mas você deu shpw na sua interpretação pessoal de todo o enredo, desse caso. E foi interessante não só pq colocou os fatos e tal [como onde inseriu a opinião da própria autora ou explicou o pq do dali não kerer a relação sexual] mas pq completou com o que pensa. O último trecho lá ficou excelente.

Colocou o post mais divulgado mesmo? haha percebi a cor ~~

Abraço Viajante Amigo! haha ^^
peregrino ;]

Danilo Ator disse...

Quero ver.

Roseana Marinho disse...

Eu vi o trailer desse! Pareceu interessante... vi o trailer por causa do RPatz. =x kkkk

Rodrigo Mendes disse...

Cris,
já leu um conto do Edgar Allan Poe: " Os Assassinatos da Rua Morgue"?..não sei, depois que li seu texto me veio este livro e as personagens masculinas intelectuais homossexuais investigavam crimes bizarros..enfim..vi aqui um paralelo..rs!

Já disse ao Paulo, que tenho predilação por produções pequenas. Elas são modestas e quando são cinebiografias, melhor ainda!

Preciso ver este filme.

O R.P.está uma graça de bigodinho !!!

Viu só, ele pode ser muito mais do que estigmas de "Rapaz Crepúsculo"..ta ai uma oportunidade para os cri-críticos verem outro trabalho dele. Mas que droga que não tem uma distribuição decente.

Vou até recomendar este filme para a Minha tia, que parece uma adolescente quando fala em Pattinson.

Já vi que é notável e gostei da palavra TESÃO muito utilizada aqui, rs!

Abs!

Todos os nomes disse...

Quero mesmo ver!!! Não sabia nada de nada...lol
És o meu guia-cultural preferido! lol abraço

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Quanto a mim é um filme mediano. Tendo em conta a complexidade e profundidade das personalidades retratadas, esperava um filme mais denso e intenso. A personagem de Luis Buñuel está muito mal aproveitada, por exemplo.

esdras b disse...

Quero assistir, mas fico receoso de que a história seja parecida com ECLIPSE DE UMA PAIXÃO com Leonardo DiCaprio, que se tratava tbm de um romance homossexual entre dois poetas do século passado. ECLIPSE não me agradou mto, espero ser mais feliz com POUCAS CINZAS.

Leandro blogger disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Leandro blogger disse...

Olá Cris Tudo bom com você ai Rapaz?

Estava passando pelo seu espaço como sempre faço e não aquentei tive que deixar um cometario.

Apesar de nao ter assistido o filme fuicapaz de imaginar cada detalhe enquonto lia.. Imagine a liberadade dos pensamentos...

Não sei mais acho que você tem algo de magico ou então de louco. você consegue de uma forma tão sutil trasforma um atuação que apesar de ter base real (não deixa de ser de forma laguma uma atuação)em algo simplismente vivido. Mais vivido do que a propria história outrora acontecida.
A simetria de suas palavras e algo incomum.Fico extasiado.

Não entrarei nas entrelinhas nem do filme nem do seu texto, eu ja me martirizo demais.

"Se não terei uma orvedose de desejos"E acabarei como DALÍ, vítima do meu próprio drama.

bruno knott disse...

Outro filme que eu desconhecia e que fiquei com vontade de assistir... aliás, que filme que você comenta que não me dá vontade de assistir? hehehe

abraços!

Fumaça Subindo disse...

amo o dali.... adorei teus comentarios sobre o filme boa sorte

Alyson Xyzyx disse...

Até o texto ja nos adianta a sensação que o filme passa, onde parece que vai estar tudo bem entre o casal, até aparecer o drama e os problemas de ambos.

Abraços!

Rafael Lopes disse...

Fala ae Cris, tudo certinho?

tempão que não passo por aqui heim.
Blog cada vez bombando.

Sucesso
abraço

ElderF. disse...

Dos filmes citados, baixados, muitos me frustrei. Por vezes não tão bons aos olhos de um leigo, por vezes cheios de expectativas por uma escrita que os super valoriza.

LuEs disse...

Eu quero realmente assistir a esse filme, já que tem havido bons comentários e outros comentários polêmicos a respeito do filme.

Compreendo que a polêmica parte de uma cena em específica bem como da temática do filme. A somar, há a participação de Robert Pattison - o que provoca ainda mais comentários.
Honestamente, a participação dele não me faz querer conferir o filme, mas creio que mesmo assim verei o filme tão logo que puder.

Rafael Cotrim disse...

Eu adoro suas "resenhas" ^^
E to com vontade de ver o filme EHSAUESA

como sempre!!

Madame Lumière disse...

Oi Cris,

Não conhecia este filme e amo Dalí e Lorca, principalmente Lorca, meu queridinho literário espanhol que é o escritor dos flamencos como eu.

Pela forma que sua resenha evoca este conturbado relacionamento, deve ser um filme interessantíssimo sobre negação da homossexualidade. Não é fácil assumir em um meio hostil, não é mesmo? Imagine como estes grandes artistas sofreram (e elha que eles são altamente expressivos e passionais, principalmente Lorca).

bjs!

Daniel disse...

Me interessei muito em assistir a esse filme. Além de teu texto ter me cativado, gosto muito de Dali e Buñuel.

Flávio Gonçalves disse...

É sempre um prazer ler os textos que constróis. São extremamente bem escritos e argumentados, os meus parabéns.
Gostava muito de ver este filme aqui, mas oportunidades escassam.

Abraços

Arthur Alter L. disse...

Olá Cristiano,

Esse sim, é um filme quer requer mais que sensibilidade - que as vezes está desconectada da realidade - para assistí-lo. É uma obra de arte construída em cima de uma realidade crua e ao mesmo tempo profundamente enraizada em nossos sentimentos, é um filme que trata daquilo que o ser humano tem de mais intenso: Desejo e prazer.
Sentimentos que são sempre castrados por nossos medos e incertezas. Você foi mais uma vez assertivo em sua abordagem e creio que posso sintetisar meu comment assim copiando de vc mesmo:>>"O ser humano precisa driblar todos seus medos e lutar pra a satisfação dos desejos. A felicidade virá com o prazer.<<" Mas a verdade é que o prazer as vezes nos assusta e intimida e acho que Dalí deixava isso claro em sua relação com Lorca.
Um abraço intenso. Estou sempre por perto.

Renato disse...

Oi Cristiano!
Kra to fascinado com seu blog, tem tdo de melhor que possa existir: arte e ainda por cima em textos maravilhosamente escritos com uma visão muito bem detalhada. Parabéns!
Agradeço tbm sua presença num meu Canto é uma honra ter vc como meu seguidor.
Ah to tomando a liberdade de lhe add aos meu blogs favoritos.

Um grande abço!

Catarina Norte disse...

Olá!

O teu texto, muito bem escrito e argumentado, despertou-me o interesse para este filme! Será algo a descobrir ;)

Cumprimentos

JRonson disse...

Este filme é MUITO BOM mesmooo, foi optimo vc ter postado aqi :b

BRENNO BEZERRA disse...

Bem, vc já sabe o q eu acho do Pattison.

D. Fernandes disse...

Cris, tudo bem?

Eu não sabia da existência desse longa. Como sempre, sua descrição é convidativa para apreciar a obra.

Adoro o Apimentário. Parabéns.

claudiagameiro disse...

Ainda não estreou em Portugal. Alguma curiosidade, confesso...

cotelgramps disse...

Fiquei louco pra ver o homofóbico Buñuel, assumo. Bacana o espaço.

Alysson-Syn disse...

Se antes eu tinha uma antipatia právia só por ver o Sr. Crepúsculo no pôster do filme, obrigado por abrir meus olhos para ver o que eu posso estar perdendo, já que eu admiro muito o artista Sr. Dalí.

Vou tentar assistir! ^^
Abração Cris!

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