Ensaio sobre a inveja?

"O ódio espuma. A preguiça se derrama. A gula engorda. A avareza acumula. A luxúria se oferece. O orgulho brilha. Só a inveja se esconde." Por esta premissa que o jornalista e escritor Zuenir Ventura se aprofundou durante pouco mais de dois anos de estudo. Mal Secreto, o primeiro livro da Coleção Plenos Pecados, da Editora Objetiva, é um convite contundente e um amplo mergulho apimentado ao mais conhecido pecado. Uma ode à reflexão e também ao prazer desmedido. Com uma narrativa detalhada, cuidadosa e atenta, observamos o autor na sua trajetória densa para revelar algumas das variadas facetas desse inconfessável pecado. Como se configura o pecado inveja dentro da sociedade? Qual realidade deste pecado é evidente no seio familiar? O que motiva a concepção e a submissão da inveja entre os seres humanos? É uma doença? Existe razão para isso? Zuenir compartilha de suas próprias experiências de estudo, o livro acaba por funcionar como um making off do próprio livro: em uma linguagem jornalística, o autor demonstra os bastidores de suas entrevistas, visitas e pesquisas para a concepção de seu tema. Através de personagens reais, observamos situações cotidianas e exemplos precisos de como este estranho pecado se mescla, condiciona e é apresentado dentro da configuração do dia-a-dia. Alguém teria coragem de revelar que sente inveja por outrem? Como se sustenta esse estranho sentimento - ou seria motivação - de um para o outro? Quão dissimulado é o ser humano a ponto de provocar o fracasso do outro por sentir uma simples inveja?

Todo ser humano guarda dentro de si segredos inconfessáveis, alguns até assombrosos. E é através dessa base que se firma Zuenir, percorrendo as vicissitudes e segredos obscuros dos atos de uma sociedade mascarada. Através das histórias e fatos narrados do livro, observa-se um mundo mais ainda cínico e a inveja parece estar imersa cada vez mais nas relações humanas. O autor também desconstrói conceitos: não existe isso de "inveja boa", toda inveja é destrutiva e corrói negativamente o ser. E se não for destrutiva é vontade ou admiração? Também não se pode confundir a inveja com o orgulho ou a cobiça. Nesta o objetivo principal é a obtenção do que se deseja, e não o fracasso de seu possuidor, naquele deseja-se manter o que já se tem, de preferência sem dividir o prazer e a glória com ninguém. Nada disso é inveja! A inveja se caracteriza pelo mal olhado do invejoso sobre o invejado. Ele não deseja o que o outro tem, mas sim que o outro deixe de ter, seu total fracasso, para que com isso se sinta realizado e feliz. É um sentimento realmente muito egoísta, e mal na mão dupla. Você sabe que não é capaz de atingir tal objetivo, sabe que fulano é perfeitamente capaz, mas torce para que ele não consiga também para se ferrar junto com você. É o não suportar o sucesso alheio.

Zuenir esbarra em histórias e relatos fascinantes de amor, medo e morte. Logo somos apresentados a "Kátia", uma jovem perturbadora e sexualmente voluptuosa que o autor conhece num terreiro de umbanda da Baixada Fluminense. Seguindo a trilha de Kátia, protagonista de uma instigante trama de inveja com conseqüências trágicas, enveredamos por caminhos insuspeitos e acompanhamos, cada vez mais envolvidos, os seus passos, sem sabermos exatamente onde vão dar. No final, cabe ao jornalista abandonar sua posição de um simples narrador - que se deixa levar pelos acontecimentos - e assumir o papel de investigador, elucidando o mistério. O livro é um misto de jornalismo com psicologia, antropologia e pitadas de sociologia em pouco mais de 200 páginas deliciosas. A inveja assusta e mata. O curioso é que ninguém jamais assume.

29 opinaram | apimente também!:

Desirèe Parisot disse...

Nossa parece um livro bem interessante, ótimo pra entender mais o comportamento das pessoas até mesmo os nossos, não?

Obrigada pela visitinha. Também virei aqui sempre que possível. Adei xeretando por aqui tem juitas dicas legais de livros e filmes(Adoro!). Te sigo.

Beijos.

Guto Angélico disse...

O enredo do livro parece bom! Até porque é um tema que convivemos diariamente. Otimo post!

Abraços

Antônio Moura disse...

A resenha em si já abalou meu conceito de inveja. Esta entrará na lista de leituras para 2010.

Maycon Aguiar disse...

A resenha me prendeu a atenção. A inveja é dos pecados capitais mais curiosos e mortais. Em si ela encerra a própria vida do objeto ao qual de destina. E sim, é o único pecado inconfessável. Talvez por representar uma fraqueza direta, não apenas um defeito. Procurarei para ler.

Um abraço!

Clenio disse...

Oi

Li este livro logo que ele foi lançado, pra mais de dez anos atrás e confesso que esperava mais dele, até mesmo porque o tema é muito interessante. Teu texto é melhor que o livro hehe
Na verdade acho que eu preciso voltar a lê-lo, porque na época eu esperava um outro estilo de leitura, o que me decepcionou um pouco. Da coleção Plenos Pecados eu ainda prefiro A CASA DOS BUDAS DITOSOS... é mais a minha cara hehe

Abraços saudosos do eremita
Clênio

Hugo disse...

O tema é interessante, ótima dica.

Abraço

Celso Andrade disse...

Muito legal, parabéns pelas belas palavras.

Abraço

Rodrigo Mendes disse...

Cris,

minha vó tem uma solução para combater OLHO GORDO.

É bem simples: "deseje o mesmo mal para vc mesmo, assim o diabo da inveja fica confuso" rs!

O livro me pareceu curioso, mas não preciso lê-lo..seu post fez o favor em uma ótima resenha.

Abs!

E pro diabo os invejosos!!!!

Eri Jr. disse...

Fiquei interessado em ler o livro!! Tu não tah fazendo propagando enganosa neh Cristiano, escrevendo melhor que o livro????

hehhehehe

Mas sério, vou procurar!!

Ahhh e estou esperando a resenha do Ligações Perigosas ou tu já fez????

Abraço e peço desculpas por não ter visitado mais o Apimentário, é que fiz cantoplastia nos pés e fiquei meio ausente até do Notas!!!

Márcio Calixto disse...

Eu li esse livro na época de seu lançamento, mas não cheguei a fechar a coleção toda, pois não os possuo. É um bom livro, mas o Casa dos Budas Ditosos do João Ubaldo Ribeiro é o melhor de todos. Em todos eles há um senso de realidade que retira a linha tênue entre narrador e autor. Todas as estórias se compõem de uma verossimilhança fenomenal, mas a do Ubaldo é desconcertante. Boa dica de leitura

Kamila disse...

Excelente texto! Ainda não tinha entrado em contato com esse livro, mas fiquei curiosa sobre o tema! Inveja é coisa complicada, mas um sentimento totalmente comum, apesar de totalmente criticado.

Norberto Marques disse...

Bom fim de semana .

Abraço

Norberto

Cláudio Luiz Almeida disse...

A partir da resenha percebe-se que o livro possui definições exatas sobre o tema. Muito interessante a abordagem, acho que esse pecado nem mesmo Nietszche aprovaria.

Abraão Vitoriano disse...

inveja é um tema de reflexões muitas, e você tem esse talento de condensar as coisas, explicar não na palavr mas em sentidos: bons e complexos...

abraços,
e saudades

do homem-menino

Estêvão dos Anjos disse...

Já pude conhecer duas obras dessa coleção, sobre a Gula e sobre a Luxúria... Não gostei muito do da Gula - escrito pelo Luis Fernando Veríssimo - mas o pouco que li sobre o da Luxúria que é de autoria do João Ubaldo pude ver que é um ótmo livro. Esse sobre a inveja me chamou atenção, não só pelo fato de ter uma proximidade com o jornalismo, mas pela forma que ele conduz o tema.

Leandro blogger disse...

Não vou mentir não tenho por que
Tenho INVEJA (talvez não aquela apocalíptica mais tenho sim), tenho ORGULHO(talvez não aquele cheio de egoísmo mais tenho sim), e as vezes a LUXÚRIA me acomete de uma forma tão entranha que literalmente me torno o próprio pecado EM PESSOA.
Os outros certamente que não tenho. Ou tenho ?
MAIS ME CONTE QUEM NÃO TEM QUEM NÃO É?
Mentir para si mesmo e sempre a pior mentira, "não", mentir para os outros é sempre a pior mentira.

É realmente um livro de muitos porquês. Muito mais porquês do que a simples temática.
Ainda não o li mais pelo que já me expõe em parte não concordo certamente.
O homem e muito atemporal mutante, tudo que se refere ao intimo está sujeito a transformação. Isso não significa que a inveja e algo bom, mais também não significa que seja algo maligno como descreve, acho que o conceito espiritual disso tudo sobrepôs a visão moral.
Deturpou de alguma forma o verdadeiro significado dos atos.
O pecado e inerente o perdão também é assim que caminhamos.

Mais obviamente o autor não vai acusar nem apontar.
Vai deixar que você se identifique vai permitir que você cate em meios as tantas páginas a sua verdade. Sempre fazem isso. Bom alguns fazem. No entanto tenho que ler.

O Chris você de novo se esquivando.
Narrar não significa de formar alguma omitir-se é bom deixar pingar um pouco de café sobre o pergaminho que se escreve da a ele um cor diferente... rsrs


Belo arranjo como sempre!!! Abraço...

Paulo [ALT] disse...

Cris,

Passei a admirar alguns livros nacionais com um teor... digamos... romântico/provocativo/filosófico por você. To repetindo isso neh? Ahh, mas falo de novo, rsrs. Bom, sabes disso. Sempre que olho na minha estante e vejo o "Eu Sei Que Vou Te Amar" lembro das suas dicas, mesmo eu já gostando do filme bem antes... aquele que me encorajou a comprar foi tu. Aquele que me encorajou a descobrir um pouco mais "de" Lispector ;) foi tu também. Acho que antes de ler esse do Zuenir Ventura ainda compro “1968 - O ano que não terminou”. Deve saber pq né. rsrs Ahhh... e tem aquele do Chico Buarque, o de capa laranja, preciso ler pra não ter preconceito. Não gosto de dizer que não gosto sendo que nunca li.

Ahhh, você sabe que eu não observo só do que se trata o livro [confesso que não seria um momento adequado pra eu ler, to precisando de algo mais leve haha] mas analiso todas as coisinhas que você escreve, hehe. Sua perguntas já me deixaram imaginando aquele texto dinâmico q mesmo sendo só 200 páginas dá impressão de bem mais mas que passam rápido. O finalzinho ali que vc falou dos personagens me deixaram também atento, tava pensando nele como um todo mais geral sobre o assunto.

Poxa, um post diferente! To achando meu comentário mto sério hahahahah num eh? comecei todo seriiinnn... haha hummm... Tá faltando vc postar algum romance ou algum épico... quem sabe ainda leio algum assim aqui. Hum... Mas, ká entre nós, curto qndo vc escreve esses, eh um território desconhecido pra mim, fico curioso.

Acho que escrevi dmais neh
eh a saudade
abração ^^

Amanda Aouad disse...

"Só a inveja se esconde", é... faz pensar. Muito interessante, fiquei curiosa, vou colocar na lista já.

Mattheus Rocha disse...

Cristiano,

achei muito interessante a premissa do livro e vai entrar pra minha lista de leituras por vir.

Sigo o 'Apimentário' há bastante tempo. Só não tenho o hábito de comentar por aqui, mas mudarei isso. Será uma honra ter meu Blog linkado. Daqui a alguns dias, farei uma mudança dos Blogs que indico, pela frequência de postagem, interação etc. Colocarei o seu também.

Abraços.

Regina disse...

Olá Cristiano!

Gostei da sinopse que fizeste desse livro... Com certeza, já está na minha lista de próximas leituras...

Obrigada por compartilhar!

Abraços...

Wenndell A. Amaral disse...

Ah, Zuenir Ventura é um dos autores que tenho mais vontade e curiosidade de ler e ainda não o fiz. Quero logo corrigir esse erro.

Sou seguidor do Apimentário, sempre que há postagem passo e dou uma olhada, leio.

Obrigado pela visita ao MPI. Um abraço.

susana disse...

Gostei imenso do que li, principalmente desta frase "...ele não deseja o que o outro tem, mas sim que o deixe de ter..." é uma grande verdade!Há pessoas que só querem o mal dos outros!
Escrevi um poema que penso que gostarás, além da foto que também é da minha autoria!
beijinhos

Kakah* disse...

Oláá
Boa dicaa! ^^.
Gosteiiii

Bjinhusss

Reinaldo Glioche disse...

O livro parece interessante. Gostei de sua análise. Determinado sentimentos humanos são ótimas bases para análises não é mesmo?
A inveja é um deles. E para puxar a sardinha para a nossa querida profissão, jornalistas analisam esses sentimentos com um olhar apuradíssimo.
ABS

dine disse...

toda vez que eu venho aqui eu saio com uma lista de coisas p mim , mas o tempo é inversamente proporcional a tantas coisas q temn aqui, ano pasado assiti uma pelestra do zuenir...gostei mt! beijos

Claudia Bins (Cacau) disse...

Sentimento feio esse, mas adorei o que você disse, que é o mal de mão dupla. Achei perfeita a definição! Também gostei muito do esclarecimento da diferença entre inveja, orgulho e cobiça...

Vou ler o livro e, pelo que entendi, é uma série. Então vou tentar ler a série toda, pois o assunto é muito interessante.

Cacau

Eduardo Santos disse...

Alguns dividem a inveja entre boa e má. No entanto, será possível fazer essa distinção?

Roseana Marinho disse...

Adorei esse post. parece ser um livro bem interessante... e é provável que toda a coleção seja.

me interessei! hmm..

Valentim - O ponto da vista. disse...

Eu tenho esse livro, é muito bom, pena que se fixou muito numa linha de diário que não costuma me agradar. A inveja é certamente um dos sentimnentos mais interessantes e cheios de faces que nós temos! ;D

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