Laços Maternos

Com um roteiro deliciosamente torneado em relações humanas, onde o desejo e sofrimento se cruzam e constroem uma trama que se dissolve em corpo, gênero e identidade, o filme Tudo Sobre Minha Mãe é profundamente virtuoso. O enredo melodramático foca na trajetória materna: Manuela (Cecilia Roth) é a típica mãe que criou laços de cuidado, apego e cuidados extremos com o rebento Esteban (Eloy Azorín) - este um aspirante e precoce escritor de 17 anos. No dia do aniversário do filho, Manuela o presenteia com uma ida à peça Um Bonde Chamado Desejo, estrelado por Huma Rojo (Marisa Paredes) e, após o espetáculo, ao tentar conseguir um autógrafo da atriz, o adolescente é atropelado por um automóvel. O que pode ser mais doloroso para uma mãe que a perda súbita, cruel e amargurada de um filho? Sem motivação para viver, Manuela decide ir em busca do pai de seu filho morto tragicamente para noticiá-lo da tragédia que vivenciou. Só que o pai é uma travesti, chamada Lola (Toni Cantó). Eis que o roteiro, nesse momento, revela-se uma encruzilhada de contextos humanos - personagens transfiguram-se, atuando em relacionamentos de grande dimensão com Manuela numa teia complexa de humanidade proposta pelo gênio Pedro Almodóvar. E o universo colorido, atraente e exageradamente humano Almodoviano se acentua: em sua busca existencial, compreendendo o próprio vestígio de um passado imaturo e num entrave emocional, a personagem Manuela confronta-se com um rico universo feminino: conhece a atriz Huma e sua namorada viciada em drogas; reencontra pelo caminho a travesti Agrado (Antonia San Juan) e concebe um forte laço de amizade e ternura com a freira Rosa (Penélope Cruz).

O panorama de Almodóvar é repleto de situações detalhadas do cotidiano, evidências de sentimentalismo na condução psicológica dos personagens e a adoção de figuras exóticas para refletir um aprimoramento da sua criatividade narrativa. As deliciosas referências a Bette Davis, ao filme A Malvada e à supracitada peça de Tennessee Williams tornam o espetáculo cinematográfico. É uma abordagem feminina que reavalia os delicados contextos da sociedade: prostitutas, travestis, toxicodependentes, freiras libertárias e idosos com Alzheimer se mesclam para sustentar a overdose lúcida de temas complexos de homossexualismo, identidade sexual, religião, existencialismo e fé. O tom irônico, humor e leve teor bizarro fazem parte do estilo e é amplamente aceitável.

O refinado roteiro é consistente, imbuída de um pendor fortemente exibicionista e extravagante, povoado por personagens extremos; um sedutor mundo kitsch, inspirada mordaz crítica social e humor freqüentemente situado na zona do baixo ventre, numa receita que tornou o cineasta conhecido internacionalmente. É puro telenovelesco, cativamente maduro que surpreende por ter um dom estético visual, narrativo e interpretativo ponderado. No meio dos hilariantes diálogos há uma história com alma, tornada credível pelo excelente delineamento dos personagens femininos (mulheres ou homens que querem ser mulheres) e o tom sexualizado marcando a motivação de um ou outro personagem. Há a supervalorização materna, presente, em todo o aspecto sensível do filme - concebe, assim, o tom humano repleto de nuances e intensidade tão característico do universo feminino de Almodóvar. A cadência de cores, da corporização que verbaliza o seio da mulher e a problemática são aspectos consistentes deste trabalho irrepreensível.

A direção é um ato de extremo cuidado, todo o elenco conduz sua personificação com densidade. Tanto Roth, Paredes e Cruz estão verdadeiras no âmbito interpretativo, concebem luz à película. Tudo é genuíno, tocante e ousado. Seres humanos da vida real? Até onde um amor de mãe alcança? A sensibilidade exerce seu valor. O tapete de retalhos de dramas humanos é costurado com supremacia emotiva. É, pois, uma exploração sensata do aspecto dramático feminino, apimentado com o travestismo que, irremediavelmente, suscita uma máxima Freudiana que Simone de Bouvair fez questão de adotar: "Não nasce mulher, torna-se mulher". Pra deixar qualquer moralista com a pulga atrás da orelha.

Todo sobre mi Madre (Espanha, 1999)
Direção de Pedro Almodóvar
Roteiro de Pedro Almodóvar
Com Cecilia Roth, Marisa Paredes, Candela Peña, Penélope Cruz, Antonia San Juan, Toni Cantó, Carlos Lozano, Eloy Azorín

34 opinaram | apimente também!:

Luiz Henrique disse...

Tenho excelentes lembranças desse filme. Foi o primeiro que vi do Almodóvar, numa época em que ele ainda não era o hype que hoje se tornou. Muito menos uma unanimidade. Eu, ainda recém nessa coisa de ver o cinema mais profundamente, resolvi pegar na locadora a fita mais colorida que vi na prateleira. E deu essa: e me apaixonei pelos enquadramentos elegantes e um tanto bregas, o estilo almodovariano. E a história só poderia sair da cabeça dele. É um ícone do cinema kitsch e um marco na carreira do diretor. E na minha vida, também. E seu texto está perfeito. Como sempre.

Cristiano Contreiras disse...

LUIS HENRIQUE: Eu gosto muito deste filme, tem um enredo quase palpável, um estilo que gosto do universo Almodoviano e os melhores diálogos - ao lado de Carne Trêmula, é um dos meus prediletos. Obrigado!

Por que você faz poema? disse...

Entendo Todo sobre mi madre como o último trabalho relevante de Almodovar, película viva, graciosa e com uma canção que sempre me emociona: Tajabone.

Amanda Aouad disse...

Um dos filmes que mais gosto de Almodóvar exatamente por expor tão bem o "universo colorido, atraente e exageradamente humano Almodoviano" que você falou. E foi exatamente disso que senti falta em Abraços Partidos.
Tudo sobre minha mãe, na verdade, foi o primeiro filme que vi dele, no cinema, só depois fui atrás de outras grandes pérolas.

Elton disse...

Sensacional! Pra mim, a melhor obra da filmografia do grande Almodóvar. É uma trama esmiúçada ao mesmo tempo com delicadeza e fúria, que invade a história sem pedir licença. Recheado de personagens excepcionais - Agrado é uma lenda - "Tudo Sobre Minha Mãe" é um grande exemplar do cinema, talvez um dos mais bonitos e tocantes dos últimos anos.

joyce domingos disse...

oi cris,

poxa...que belo post!!!

adoro almodóvar...este filme particularmente é um dos melhores que ele já fez....o que me encanta são suas personagens,as mulheres de almodóvar....tão humanas,tão nuas,tão surpreendentes.....

e neste filme temos mulheres fortíssimas....tanto as que nasceram,quanto as que se tornaram....

deixe-me perguntar a vc...podes me explicar este ''cinema kitsch''???

um beijo cris!

Luigi Lopes disse...

Bacana ver você falando de Todo sobre mi madre, pois é o filme do Almodóvar que amo por excelência. Para mim o cinesta alcançou o seu ápice com este filme, que possui como você mesmo ressaltou uma rede de intertextualidade, problemas existencias, religiosos e ligados à construção do gênero feminino e masculino. Espetáculo!!!!!!!!!!

Thiago Paulo disse...

Olá, olha eu aqui..rs

Então, eu adoro os filmes do Pedro Almodóvar, mas assim, meu favorito é Volver. Mas, esse também é muito bom, gosto muito e ainda quero comprar pra mim.

Abraço.

Marcelo Pereira disse...

É um grande filme de Almodóvar, mas ainda assim o realizador já nos trouxe melhor. Má Educação ou o seu recente Abraços Desfeitos são dois forte exemplos.

Abraço!

leo disse...

novamente adorei o texto e tenho Almodóvar como o meu diretor preferido , mas esse é um dos poucos que eu me pergunto , porque diabos ainda não assisti.

Fernando disse...

Muita gente diz que é o melhor de Almodvar, mas ainda não vi. Esses dias assisti Má Educação e achei-o muuuuito melhor que esse último: Abraços Perdidos. Mas os meus favoritos ainda são os mais antigos como A Lei do Desejo e Mulheres a Beira de um Ataque de Nervos.

Rodrigo Mendes disse...

Nós sabemos Tudo sobre: Tudo sobre minha mãe né? rs!

E adoramos cada diálogo, personagem e momentos da película.

O nosso bom gosto é gay? Graças a deus!

Ficou ótimo, abs!

Clenio disse...

Oi, Cris, falar de Almodovar pra mim sempre é algo suspeito, uma vez que é um dos meus diretores preferidos (entre vivos e mortos). "Tudo sobre minha mãe" é, na verdade, o filme da maturidade do diretor, onde alcançou o raro equilíbrio entre sucesso comercial e de crítica (e até um Oscar...)
Não posso dizer que ele é meu preferido entre os filmes de Almodovar porqua cada vez que revejo um filme dele o último imediatamente volta a ser meu preferido... Mas não há dúvidas de que é um filme do qual não se pode dizer um "ai": perfeito na direção, no roteiro, na escalação do elenco, no visual, nas referências (vc reparou que em "Direito de amar" há uma citação visual a ele???)...
Obra-prima indiscutível.

Alan Raspante disse...

CARACA !
Eu tava procurando esse filme você acredita ?
porque lembro de uma vez de ter visto a capa e ter gostado, mais não tinha anotado nome, nada sobre o filme...e agora vendo a história e ainda vendo que do Almodovár, aí sim eu fico louco pra ver...

Cristiano Contreiras disse...

POR QUE VOCÊ FAZ POEMA?: Eu gosto dos outros filmes dele, posteriores. Mas, este sim é definitivo mesmo.

AMANDA AOUAD: Eu adorei Abraços Partidos, mas prefiro os outros mais antigos do Almodóvar mesmo. Beijos!

ELTON: Concordo! rs

JOYCE DOMINGOS: Joyce, brigado mesmo! Então, sabe as cores fortes, cenários exagerados e extrevagantes...roupas diferentes do filme de Almodóvar? Pois é, essas são características típicas do gênero Kitsch. Esse estilo, que é falado diferente ao que se escreve – pronuncia apenas o “KIT”, nasceu na Alemanha. Ele é usado para categorizar objetos de valor estético distorcidos e/ou exagerados, que são considerados inferiores ao seu original. São, freqüentemente, associados à chavões, e , em algumas vezes, considerados bregas. O kitsch é encontrado em tudo: roupa, decoração, acessórios, música, e continuamente no cinema. Arte que dispõe de vários recursos para idolatrar o kitsch...é por aí!

LUIGI LOPES: Um belo espetáculo mesmo, intenso e na medida! Uma delícia esse filme! rs

THIAGO PAULO: Adoro Volver também!

MARCELO PEREIRA: Curiosa observação, Marcelo. Mas, poucos concordam e acham esses dois filmes aí citados - os mais "fracos" deles. Abs e volte sempre!

FERNANDO: Amo Mulheres... e A Lei do Desejo, mas há outros que mais me definem!

LEO: Veja e logo! rs

RODRIGO MENDES: hauahauahauaauha!

CLENIO: Obra-prima, sim! Ao lado do Carne Trêmula! Abs!

ALAN RASPANTE: Ah, esse filme você vai gostar, tenho certeza!

Jenson J, disse...

TUDP SOBRE MINHA MÃE, é a cara do blog, e a melhor fita de Almodóvar, partido de algo bizarro temos um filme sensivel e humano, um dos melhores ao final do século passado.

Wallace Andrioli Guedes disse...

Amo esse filme. Só não o considero a obra-prima maior do Almodóvar por causa do FALE COM ELA, que eu amo mais ainda.

bruno knott disse...

uma maravilha... um dos meus preferidos do almodovar tb.

Luis Galvão disse...

Para mim, um dos melhores filmes de Almodovar. Sensacional na trama, nas atuações, na fotografia, no desfecho.

Cristiano Contreiras disse...

JENSON J.: Eu acho um filme inesquecível, ao lado de Carne Tremula, como o mais expressivo de Almodóvar.

WALLACE ANDRIOLI GUEDES: Prefiro este que Fale com ela. Abs!

BRUN O KNOTT: Também é um dos meus!

LUIS GALVÃO: Com certeza, um filme louvável!

Kamila disse...

Seu texto me relembrou do quanto este filme é bom. Preciso revê-lo urgentemente!

Mirella Santos disse...

Eu tenho quase certeza que nunca vi um filme de Pedro Almodóvar, mas pelo o que você escreve parecem ser bons sempre pelo fato de mostrar mulheres mais "fortes" do que costuma aparecer em filmes. vou Procurar o filme. Bjoss blogmurus

Ruy disse...

Esse filme é ótimo. Tem uma coisa que gosto muito nele que é o lance de reunir grande parte daquelas que o pessoal chama de "as atrizes de Almodovar"(fugindo da ex carmem Maura e da atual Penelope).

Belo texto.

Einstein² disse...

EXCELENTE FILME, E EXCELENTE TEXTO.

Hugo disse...

Ainda não assisti este filme de Almodóvar.

Abraço

BRENNO BEZERRA disse...

Onde tem Almodovar tem qualidade.

Edilson disse...

Querido Cris:

Sou apaixonado por Almodovar.Ele empresta tanta vida,colorido e dramaticidade a seus personagens que nos transporta para aqueles universos tão reais e intensos.Este filme é uma das grandes obras-primas dele.Parabens pelo bom gosto e por tanta dicas bacanas.Saudades de ve-lo no Lua hein sumidoooo...rs
Beijoooo
www.lua2gatos.blogspot.com

Júnia L. disse...

Já tem um tempinho que assisti a este filme, mas algumas cenas ficaram “CRAVADAS” em minha memória. Difícil esquecer a morte de Esteban ao buscar um autografa de Huma Rojo justamente no dia de seu aniversario ou ainda a situação de humilhação em que vive Lola em seu mundo de prostituição. Mas trágico e surpreendente é mesmo a situação da freira Rosa (não posso dizer o que é, tem gente que ainda não viu o filme)
O mais interessante na película para mim, no entanto, é a homenagem ao filme "A Malvada" e a "Um Bonde Chamado Desejo", - duas películas que amo. Isso instiga as pessoas que ainda não assistiram aos clássicos a se interessarem pelos mesmos. Particularmente como adoradora do gênero amo essas iniciativas...
Obs: adoro quando Esteban está assistindo “ A Malvada” com sua mãe e reclama tradução do título dizendo que deveria ser Tudo sobre Eve .Ele está certo.
Outra fato interessante ocorre quando Manuela chega a ser comparada à Eve...
Nossa, escrevi muito. Mas este é um filme impar.
bjo

Cristiano Contreiras disse...

KAMILLA: Precisa mesmo, cada vez que revejo é uma nova percepção somada à última.

MIRELLA SANTOS: Quando a senhora vai ver, hein? Aguardo, Sra Blogmurus.

RUY: Obrigado, Ruy! Filmaço!

EINSTEIN²: Grato! Volte mais vezes!

HUGO: Uma pena, hein? Veja logo! rs

BRENNO BEZERRA: Tem mesmo, pode crer!

EDILSON: Ah, este filme tem todo um forte significado, né mesmo? E adoro ver e falar e refletir Almodóvar!

JÚNIA L.: Ju, esse filme é fantástico e amo todas essas referências! Grato pelo ótimo comentário! Bjs

Willian Lins disse...

Eu sinceramente não tenho o que falar de Almodóvar! É tudo, é lindo, é o que há de perfeição no mundo do cinema!

Cristiano Contreiras disse...

WILLIAN LINS: Assino embaixo, viu? rs

Edson Cacimiro disse...

Este filme é simplesmente fabuloso, o roteiro dele é incrível, Almodovar da melhor qualidade.

Saulo S. disse...

Para mim esse é o melhor filme do Almodovar, significa muito para mim!
É incrivel como esse filme é cheio de simbolismos, significados e fora que tem uma das melhores personagens de todos os tempo, Agrado!

Evandro Oliveira disse...

Sem dúvida o filme que mais marcou minha vida.
Suas referencias me abriram os olhos e mente para muita coisa boa em matéria de cinema e literatura, foi por ele que conheci um dos autores que mais amo, Capote, mencionado no inicio pelo filho.

Abraços

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