Rainha Virgem?

Eis a delícia que é observar o filme Elizabeth. O terreno da trajetória real foca na Inglaterra, 1554. Num país divido em conflitos entre católicos e protestantes, Elizabeth (Cate Blanchett), meia-irmã da rainha Mary Tudor, é uma protestante com suas convicções e a primeira linha na sucessão do cargo. Ironias do destino, Elizabeth é coroada rainha, já que Mary falece de câncer. Escolher uma mulher extremamente feminina e dotada de fragilidades é um contraste com a dureza de crueldade presente naquele período - há um país falido, sem exército consistente, repleto de convulsões de inimigos por toda parte. Diante do desespero da guerra, sempre iminente, ela tem que se confrontar com as próprias limitações - visto que recebe descrédito, descrença e preconceito por parte de todos da própria corte. A igreja católica oprimia com crueldade, condenava todos à fogueira, sem piedade alguma. Intrigas, jogos de interesse e falsidade notória, requintes de manipulação sob os panos de ouro da realeza caracterizavam o período. Elizabeth difere de tudo, sua personalidade voraz há de desafiar. Não há vida sem estar condicionada às convenções sociais? Ela tem que se integrar, aceitando, os padrões rígidos da igreja e ao falso moralismo? Como viver com sinceridade? Elizabeth jamais quis se corromper pelas sujeiras da religiosidade católica, prevalecendo seu caráter bondoso e exercício de integridade. Obrigatoriamente, a partir de quando assumiu o trono, seu corpo feminino já não era mais propriedade dela: pertencia ao Estado. E o casamento de uma rainha nasce da política, não da paixão.

Mas ela governa com a intuição de seu coração, não com a racionalidade e às manipulações alheias e isso provoca abalos na corte. Afinal, uma mulher clamando paz, justiça e igualdade perante um mundo tão insano, desmedia também inveja e opiniões contraditórias. Entre erros graves e acertos, gradativamente vai se firmando no reino. No cenário do universo de Elizabeth há contextos de rivalidades, padres assassinos, mulheres dissimuladas, homens gananciosos e tramas densas de sexo promíscuo. Mas ela consegue se manter alheia a toda essa intriga desmedida. E o filme debruça-se sobre a ascensão de Elizabeth e seus primeiros anos de reinado.

A base do roteiro é justamente como a personalidade de Elizabeth foi moldada a partir do jogo de intrigas políticas e do fardo que representava para uma jovem, bastarda ainda por cima, tornar-se rainha. Um dos grandes conflitos: a relação da rainha com Robert Duddley (Joseph Fiennes). Com ele, reside uma química sexual, romantismo poético e trocas/juras de amor. Ela, a fêmea apaixonada. Ele, o amante sofrido. A sintonia de paixão fervia, não se apagava. Há sexo diariamente, segredado e com vocação para desejos incontáveis. Robert exerce um charme másculo, provoca e devora Elizabeth - tanto sentimentalmente quanto sexualmente. E ela venera os encontros secretos - transas muitas vezes observadas por suas damas de companhia. Contudo, é obrigada a ceder aos comandos da política da realeza: muitos consideravam sua posição no trono ilegítima e vários outros Estados flertavam com ela a fim de conseguir uma aliança política materializada no matrimônio. É a partir da impossibilidade de levar adiante esse amor, então, que Elizabeth tem seu primeiro solavanco no poder. Bem verdade, ela optou por viver só devido às tramas e a teia de dissimulação presente ao seu redor. Cansou-se de falsas ilusões, promessas - optou por reinar em sua própria conformidade. O filme é um trabalho primoroso, sábio e que propõe a sintonia da interpretação aprofundada do elenco e do roteiro construído com o artifício da sensatez histórica. E há a apresentação dessa evolução de maturidade - Elizabeth, de frágil, torna-se fria. A mulher firme e voluntariosa, que não tinha medo de transgredir regras sociais e nem de exibir uma sexualidade imponente, se tornou numa soberana solitária, mergulhada em dúvidas e incomodada com a chegada da meia-idade.

A direção de Shekhar Kapur, com o roteiro de Michael Hirst, capta a evolução da maturidade deliciosa dessa personagem real, tão bem caracterizada por uma inspirada composição interpretativa de Cate Blanchett, além de manter um uniforme cuidado na mise-en-scène. O retoque a aplicada maquiagem, da direção de arte excepcional e do visual até soturno da fotografia - brilhantemente pincelada em tons dourados, avermelhados, denotam a paixão encarnada da rainha e a contextualizam a atmosfera densa da realeza monárquica da Inglaterra. Boas prestações interpretativas de Geoffrey Rush, Richard Attenborough, Daniel Craig e Joseph Fiennes como amante de Elizabeth. É um também um retrato sobre privações, felicidades usurpadas, frustrações e tristezas acometidas por decepções. Fêmea a frente do seu tempo, deliciosa imponência, exalava o cheiro do feminismo.

Elizabeth (Reino Unido, 1998)
Direção de Shekhar Kapur
Roteiro de Michael Hirst
Com Cate Blanchett, Joseph Fiennes, Geoffrey Rush, Daniel Craig, Christopher Eccleston, Richard Attenborough

21 opinaram | apimente também!:

Kamila disse...

A questão maior por trás de "Elizabeth" é justamente isso aí que você falou com propriedade em seu texto. Ela assumiu a maior posição do governo de seu país, sem experiência e teve que aprender a lidar com o poder, com a liderança na marra, sem a ajuda de alguém. Se bem que ela tinha os conselheiros, mas ela tinha que ter pensamento próprio. E ela foi uma líder sem apoio de um marido, o que a tornou ainda mais única. Ela poderia até sentir falta, mas fez esse sacrifício de deixar o amor de lado pela posição que ocupava.

Marcelo Pereira disse...

Uma excelente incursão épica, magistralmente escrita e realizada. Excelsa interpretação de Cate Blanchett, como não poderia deixar de ser. Já a sequela é um tanto ou quanto forçada.

Abraço

Júnia L. disse...

Gosto muito desse filme por ser o mais “fiel” apesar de esconder a história da Grande Absolutista da Dinastia Tudo, Elizabeth a Rainha Virgem.
Já perdi a contas das vezes que assisti, e recomendo para todos aqueles que desejam entender todo contexto da sucessão do trono inglês. – apesar de muitos fatos estarem maquiados.
Marcado por traições, golpes, calunias e difamações o filme não foge a regra do que foi a historia da verdadeira Elizabeth que desde a infância conviveu com as calunias proferidas contra sua mãe.
Um épico fabuloso. Joseph Fiennes interpretou muito bem o papel do namorado abandonado de Elizabeth. Delicado, mostrando a sociedade da época em relação à rainha Elizabeth. Cate Blanchet é muito boa atriz, não chegou a ganhar o Oscar, mas mereceu. Um verdadeiro Clássico, independentemente de alguns fatos históricos terem sido manipulados, mas como é um hábito neste tipo de filmes a minha nota é 10. Sem dúvida um dos melhores filmes que já vi.

Jenson J, disse...

Maravilhoso! Cate Blachett soube perfeitamente em ambos filmes de Elizabeth como conduzir uma rainha, a pressão para que ela se casasse era enorme, já que muitos consideravam sua posição no trono ilegítima e vários outros Estados flertavam com ela a fim de conseguir uma aliança política materializada no matrimônio. Enfim, um dos melhores filmes de seu ano!

Tânia regina Contreiras disse...

Bom, o ritmo das leituras aqui postadas é bem mais rápido que o meu, mas está registrado: vou assistir!

Abraços

Mirella Santos disse...

Ainda não vi, sempre que passa eu tenho algo pra fazer, mas verei. Adoro filme sobre Rainhas ou mulheres que pertenciam a corte ou coisas do tipo. Acho bem interessante filmes que mostram as histórias de mulheres que foram bem a frente do seu tempo.

Luciano Azevedo disse...

Obrigado pela visita. Voltarei aqui para ler este e outros posts. Ótimo espaço! Abraço e ótima semana.

Rodrigo Mendes disse...

Ficou chique o novo visual do blog.

Parabéns!

Essa semana estou voltando com o meu, pode me cobrar, rs!

Adoro a Cate. O "Era de Ouro" tbm é um filmaço.

Abs!

Fernando disse...

Mais uma ótima apresentação de Cate Blanchet. É incrível como ela acerta nos projetos e mantém uma ótima regularidade na sua carreira. Mericiada a indicação ao oscar!

Gustavo disse...

O bom desse filme, tenho de concordar, é a visão não-condescendente sobre a personagem título (quiçá a maior "heroína" do cinema desde Ellen Ripley!) e a ausência de floreios e romantismo na reconstituição de época.

Anderson Siqueira disse...

Ela era meio esquisita mesmo. Hehe...
Ah! Deixa eu aproveitar pra te dizer o que site FUNtástico!, o qual eu sou o editor-chefe, está com uma promoção relâmpago do filme Quincas Berro D'água. Os 4 primeiros que responderem corretamente a uma pergunta, levam pares de ingressos pra pré-estreia em São Paulo e no Rio de Janeiro. Tô indicando pro pessoal dos blogs que eu conheço.
Dá uma conferida lá: http://www.funtastico.com.br/2010/04/promocao-quincas-berro-dagua/

Rita Contreiras disse...

Quando leio seus comentários, comparo-o ao que chamamos de "contadores de histórias", pelo talento que possui em envolver e despertar a curiosidade, mesmo quando evidencia possíveis falhas do filme.É uma obra de arte sobre uma obra de arte. Acho fantasticamente perfeita e rica essa sua forma de expressar, de fazer enredos que é uma arte à parte. Bj.

Alan Raspante disse...

Olha mais um filme que está em minha lista, pretendo vê-lo, adoro filmes épicos e me interesso pelo tema do filme ! xD

Serginho Tavares disse...

aadoro esse filme
pena que ela tenha perdido o oscar pra gwyneth paltrow

Cogu Cogumelo disse...

Acredita que ainda não tive oportunidade de ver o filme?

Mas agora essa crítica me despertou a curiosidade.


http://tocadocogumelo.blogspot.com/

Lú Silva disse...

Amor, dedicação e delicadeza é fundamental em qualquer circunstancia da vida, sobretudo, quando estamos no poder.
A história de Isabel é magnifica!

Aqui... mais um filme que quero ver.



Abraço

Robson Saldanha disse...

O que mais curto em Elizabeth é a sensibilidade dela que nos é passada. Sem contar no trabalho belo de Cate. O fato é que preciso rever esse filme há muito tempo visto. Não consegui achar sua continuação tão boa qanto esta!

Joel Vieira disse...

Cara esse blog vai me ajudar muito a catalogar alguns filmes para um trabalho de uma professora minha!
^^

Abraços

Reinaldo Glioche disse...

Gosto muito deste filme. Para mim, Cate Blanchet era mais uma muito superior a vitoriosa Gwyneth Paltrow naquele ano.
Quanto ao filme propriamente dito, vc aparou todas as arestas. Não há o que acrescentar, a não ser o comentário de que o segundo, principalmente se considerado o triunfo que é esse primeiro filme, é um equívoco sem tamanho.
ABS

Madame Lumière disse...

Oi Cris,
Gosto de épicos, filmes de rainhas. O final da sua resenha, lindamente escrita, exalou o cheiro do feminino.
O trabalho de Cate Blanchet é excepcional porque ela também é uma mulher muito elegante até na sua atuação. Nesse filme, há uma fragilidade na mulher Elizabeth, até com relação ao amor que não é vivenciado, no entanto, ela ainda assim dá a volta por cima, assume a liderança do próprio destino mesmo que esse destino não siga os padrões da sociedade.

Se eu fosse uma rainha, eu teria algo Elizabethiano,rs!

Beijo

Marcio Melo disse...

Tenho que confessar que apesar de não achar o filme ruim eu não gostei muito dele não.

É claro que Banchett está assombrosa (pra variar), ainda assim, achei um filme um tanto quanto chatinho

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Aperitivos deliciosos

CinePipocaCult Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos Le Matinée! Cinéfila por Natureza Tudo [é] Crítica Crítica Mecânica La Dolce Vita Cults e Antigos Cine Repórter Hollywoodiano Cinebulição Um Ano em 365 Filmes Confraria de Cinema Poses e Neuroses