Confissões de garotos

O que uma confissão de um prostituto pode provocar? O sexo equilibrado é ideal? Como o amor pode quebrar rótulos, viabilizar a desconstrução do preconceito? Um envolvimento sexual a três, é possível? O sexo pago é lícito ao coração? Há filosofia sexual dentro das arquiteturas da predestinação do tesão? Um triângulo amoroso gera um quadrado sexual? Entre Garotos é a iniciação de descobertas, da casualidade sexual, do amor que surge na imprevisibilidade. A trama se sustenta no cotidiano de "X" (Derek Magyar), um michê que consegue mais de três clientes ao dia, bastante requisitado e de talento sexual. O roteiro é todo narrado por sua perspectiva, bem como suas motivações íntimas são evidenciadas a partir de suas sensações e experiências. Ele descreve, em uma série de confissões, os seus confusos relacionamentos românticos com seus dois colegas de apartamento, Andrew (Darryl Stephens) e Joey (Jonathon Trent): o primeiro é um negro que se exime de qualquer preconceito, tanto racial quanto relacionado à sua homossexualidade. Andrew recebe apoio familiar, não tem problemas nem mesmo no âmbito relacional social. Já Joye, o típico teenager imaturo, inconseqüente e que, em função da ausência da família, prefere manter seu elo apenas com os dois colegas. A narração de X denuncia seu mundo vazio e contraditório: ele prefere manter-se ligado ao prazer proporcionado pela prostituição a se prender a alguém.

Um relacionamento conservador? Um amor faria abdicar de toda sua vida banalizada? Mas X acredita que homem gay não tem destino maior a não ser condenado à eterna solidão. Ele costuma se relacionar afetivamente, como uma forma de alívio e conforto amigo, com um velho e enigmático cliente, Gregory Talbot (Patrick Bauchau) - é através deste estranho, inusitado e surpreendente laço fraterno (X costuma ser pago apenas para dialogar com ele) que as noções de sentimento, conduta e moral passam a ser cozinhadas dentro da mente e do coração de X. Seria Gregory um velho mentor? Através de longas conversas - o velho narrando sua vida homossexual ao michê novato - é que o cotidiano há de ter mais sentido? E o universo de X é dotado de homens que só querem sexo casual, sem o apreço pela relação monogâmica. Inclusive, tanto Andrew quanto Joey se mostram adeptos à promiscuidade: caçam, avidamente, noite e dia, qualquer homem dotado de atributos físicos para satisfazê-los numa transa a dois, a três, uma orgia talvez.

Decerto, esse descompromisso sentimental denota imaturidade, mais além: eles se expressam libertinos, seres humanos desapegados à monogamia. Só conseguem ser infiéis, o prazer consiste no maior número de trepadas por semana. Qual conceito de moralidade no relacionamento? Há evolução do relacionamento ou a promiscuidade declarada? E o roteiro, baseado no aclamado romance de Matthew Rettenmund, dirigido com objetividade por Q. Allan Brocka, aborda temas de índole sexual e risco emocional com uma voz inteligente e incisiva, revelando o salto de fé que o amor requer e também evidenciando como um sexo desnorteado pode invalidar uma pessoa à solidão extrema. Vazio existencial? X é um personagem dotado de valores, mas altamente errante, eis suas contradições: não consegue beijar um homem sem que ele diga que o ama, ou mesmo o deseje incondicionalmente com paixão - mas, estranhamente, transa constantemente com inúmeros gays para obter dinheiro e, obviamente, manter sua alta condição de vida. Irônico?

E é neste universo de sexualização casual, onde homens transam com homens - que o sentimento há de acordar, lúcido e provocar o caos entre eles. Joye se apaixona por X, ele por Andrew. Afinal, o que prevalece é o sentimento ou o sexo? Sem tabus, sem julgamentos e sem clichês determinantes, o filme se sustenta como um olhar sobre o ser humano: ora, tanto heterossexual quanto homossexual, são suscetíveis a esta condição de vida beirada à promiscuidade - não é questão de opção sexual. Não é algo restrito à homossexualidade, e esse teor o roteiro deixa nítido: não existem estereótipos. Os diálogos mesclam tons de ironia, humor e auto-reflexão de vida, de sexo e de sentimento sob a ótica do hiperativo X. Um filme provocativo, arrogante, sofisticado com inteligência sexualizada - é também um retrato compassivo, macio e crível da vida gay moderna, fazendo girar todos os sarcasmos e contradições, virando-os de cabeça para baixo e comemorando o que há de mais subversivo, não menos verdadeiro - amar outro homem.

Boy Culture (EUA, 2006)
Direção de Q. Allan Brocka
Roteiro de Q. Allan Brocka, baseado no livro de Matthew Rettenmund
Com Derek Magyar, George Jonson, Patrick Bauchau, Darryl Stephens, Jonathon Trent

35 opinaram | apimente também!:

Emanuel disse...

Eu qeuro assistir!!

Tânia regina Contreiras disse...

Você pergunta, pergunta e pergunta.... Não vi ainda,não sei responder a todas as perguntas, mas esse "destino à solidão" é da alma, do homem, da mulher, homo ou hetero...Somos todos no fundo tão e tão sós, que a solidão nos une a todos. Concorda?

Beijos

Kamila disse...

Não conhecia esse filme e acho sempre legal que você descobre longas nessas temáticas e faz ótimas análises sobre eles que nos deixam com vontade mesmo de conferir as obras.

Alan Raspante disse...

Ainda não vi, não por falta de tempo e sim pq num sabia de sua existência !
UHASHAHSUA
Belo post, como sempre me deixou com gostinho de querer ver o filme ! xD

Luigi Lopes disse...

Adorei sua indicação e, além disso, o post ficou a cara do Apimentário, elegância e sofisticação...

Serginho Tavares disse...

eu sempre digo que preciso ver esse filme e nunca vejo
tenho que tomar vergonha na cara e baixar logo

PC disse...

Tem um atrativo giro de roteiro, o ultimo ato apresenta-se desfocado, epidérmico e superficial, chegando a conclusão (i)moral por um caminho preguiçoso e não por onde pretendia, uma reflexão.

bruno knott disse...

Texto do caralho, como sempre... e assino embaixo do comentário do Luigi Lopes.

mas este filme eu não conhecia... me interessei.

cabaretcinefilo disse...

Òtima resenha, apesar de eu nunca ter ao menos ouvido falar do filme, vou procurar o quanto antes.

Silenciosamente ouvindo... disse...

Obrigada por se ter registado no
meu blogue. Gostei muito de conhecer o seu.
Se me interessar alguma imagem ou
texto do seu blogue posso retirar
fazendo a devida referência.
Deixe,por favor um comentário no
meu blogue com a sua resposta.
Beijinho/Irene/Portugal

Abdoul Hakime Goul Djounoubi disse...

Concordo com a opinião de Tânia Contreiras, de que de tão solitários que somos, a solidão nos prende num laço único e comum. Infelizmente, para muitos é assim.

Com relação aos gays, em especial, a questão é mais complicada, por serem eles uma minoria e por ser relativamente recente a liberdade que pouco a pouco vão conquistando para serem o que são. Meu primeiro amor, por exemplo, foi um fracasso total, não havia uma relação estável como eu esperava, e, mesmo que tivéssemos vivido eu e ele juntos por mais de um ano, ele mesmo não aceitava que o nosso relacionamento pudesse ser reconhecido como tal. Era tunisino de Bizerte, e em seu país tinha duas esposas. Eu ser "a terceira" estava fora de cogitação. Ademais, era mais velho do que eu: eu com 21 e ele com 37.

Sempre acreditei (e continuo a acreditar) que ainda que parte significativa dos gays sejam o que a sociedade pode considerar como "promíscuos", isso se deve ao fato de esta mesma sociedade não aceitar efectivamente a homossexualidade como uma expressão válida de afecto sexual e amoroso. Que em si, a homossexualidade é nada mais nada menos do que apenas mais uma forma de sexualidade, e que ser gay ou não a priori não diz nada sobre o nosso carácter.

A personagem do filme vivida por Derek Magyar parece estar numa busca de si mesma, sem ter ainda encontrado-se. No caso de Andrew (Darryl Stephens), a situação emocional parece ser um tanto mais resolvida, e, como tu mesmo citas que há para ele apoio e compreensão da família, a meu ver isto influencia positivamente em sua vida. Como é a relação de X com seus parentes?

Céu disse...

Belo texto Cris...
Só que fiquei com um pé atrás com o filme... acho que porque sou monogâmica e adepta ao amor de contos de fada... Ainda assim fiquei curiosa! Quem sabe eu não assista?
Beijo!

Celso Andrade disse...

Assisti a algum tempo, não tenho muito o que falar é um filme alternativo, há alguns diálogos impressionantes no filme, a escolha de alguns atores talvez tenha sido errada, até o meio do filme consegui me prender ao roteiro no final deixou a desejar...

Silenciosamente ouvindo... disse...

Obrigada por permitir que retire
imagens ou conteúdo do seu blogue,
oportunamente o farei com referencia ao mesmo.
Pode dizer-me,por favor, como concorrer ao Top Blog 10?
Um beijinho/Irene

Marcos Campos disse...

Oi Cristiano!!
Quero ver, vou ver se baixo...
Abraço!

Fernando Império disse...

Concordo em gênero, número e grau com Tânia Contreiras... é bem tudo isso que ela falou! Abs.

Luis Galvão disse...

Como a Kamila disse, você fala tão bem das tensões de filmes com essa temática que fico bastante curioso

Alyson Xyzyx disse...

Eu só não consegui captar qual o clima do filme, exatamente. É denso, pesado e indigesto ou trasmite tudo para que o espectador assista naturalmente?

Ainda não vi, mas está anotado aqui!

Ab.

Madame Lumière disse...

Oi Cris,
Excelente resenha, mais uma vez. E gosto da forma como você fala do universo gay, sem estereótipo, simplesmente um retrato de que todos nós somos, como seres humanos dotados de desejo, imersos na diversidade.
Não conheço esse filme, mas acho ótimo 2 frases que citou: sobre a solidão e o amor que, sim,pode viabilizar a quebra do preconceito. Não sei se seria possível um amor a 3, intenso na forma de amar advinda das 3 pessoas em um mesmo nível de qualidade "amorosa", mas sem dúvidas, prazer sim, a 3 deve ser ótimo.

Bjs,

carla m. disse...

Ao que parece tudo se confunde e resume em ser feliz só ou ser infeliz só. Não é?!

@philipsouza disse...

Despertou mesmo o interesse de ver ainda mais pelo questionamento que como vc mencionou traz o filme, conceitos, etica e moral, o poder doc ontraditorio que temos, antes de nos acusar, a força de vontade e o palavriar em jogo..

muito bom mesmo..
Abraçao Cris

leo disse...

Não conhecia o filme e fiquei muito curioso pra assistir,texto incrível,como é normal por aqui.
Abraços ;D

Rodrigo Mendes disse...

Adoro essas temáticas!

Senti que é um filme seguro e sem esteriótipos. Odeio quando fazem isso nos filmes com temáticas gays. Ainda mais aqueles que são feitos de maneira exclusiva para os homossexuais. Acho que deve ser discursivo sempre, e sobretudo sincero!

Abs Cris!

Abdoul Hakime Goul Djounoubi disse...

PS.: Faltou eu dar a minha opinião sobre um relacionamento a três (?)...

Bem, pessoalmente, para mim não funcionaria jamais, mas nada em contrário a quem se ajustaria a esse rolo, afinal cada um sabe de si. E, no fim das contas bem que ter dois ou duas é melhor do que não ter ninguém, não é mesmo?

Au revoir e meus parabéns, minhas sinceras félicitations.

Vanessa Souza Moraes disse...

Boa dica.

Mirella Santos disse...

não conhecia o filme[2]
Nem é tãããão polêmico assim como vc falou, só não entendi muito as atidudes do personagem X, ele mesmo se contradiz, bem to confiando nas suas palavras. Bjos

João disse...

é rapaz. parabéns novamente pelo blog, e especificamente pelo texto. perguntas. adoro.

Augusto Barros Mendes disse...

obrigado pela passada no meu blog
gostei do seu espaço, textos e críticas!

tô te seguindo também ;D

jeff disse...

Rapaz, assim que terminei de ler o texto fui procurar pra baixar. Pior que tá difícil, mas farei um esforço. Fiquei bem curioso - e não posso negar que esse cartaz não contribuiu pra isso. hehe

Quando assistir farei um comentário lá no blog e saberás o que achei.

[]s!

Elton Telles disse...

Wow! Esse é picante! \o/

Enquanto lia o texto, vários outros filmes saltarem em minha mente, como "Mistérios da Carne", "Shortbus" e "Garotos de Programa". Todos esses, de alguma forma, fazem ótimas referências à essa profissão, talvez com menos glamour.

Onde se acha esse filme que nunca ouvi falar?


abs!

Karllus Ciccone Lioncourt disse...

Parabéns,Simplismente maravilhoso a temática do blog, a ideia dos filmes, o texto e em especial esse, a resenha ficou otima e já estou louvo para assistir, acabei de fazer um blog e se puder dar uma passada e dar umas dicas agradeço, novamente parabéns pelo tranalho de vcs.
abraços

Adriano Padilha disse...

Tá na minha lista! *-*

Alberto Pereira Jr. disse...

eu adorei o filme! vi no MixBrasil de 2007. A princípio podia ser raso e futil.. mas além da "putaria" tem trama, drama e história

Luiz Santiago disse...

Gosto do modo como você trabalha as questões da sexualidade, aliadas ao filme. Parabéns pela linha narrativa clara e muito bem direcionada. ^^

Luís disse...

Assisti agora ao filme e devo dizer que eu honestamente esperava menos dele. Não que eu tenha achado uma grande obra ou que tenha achado que aqui contém um grande debate sobre a sexualidade, mas decerto o filme escapa de armadilhas fáceis às quais poderia ficar preso. Acho que existe alguma obviedade na trama, principalmente devido ao clichê piegas de boa parte do filme e de seus questionamentos já bastante conhecidos. O drama de X é meio leviano, quase inadmissível num filme, tamanha a sua banalidade, bem como todo o envolvimento com os outros personagens. Mas eu acho que o diretor conseguiu criar um clima agradável, não totalmente novo, mas não dispersivo - assim, acompanhamos sem grandes problemas a história dessas personagens. Gosto especialmente de Gregory, uma figura misteriosa e, a meu ver, a mais interessante do filme. A surpresa realmente fica por conta do fato de que o diretor desse filme é também o diretor de "Comendo pelas Bordas", um verdadiero lixo cinematográfico de temática sexual duvidosa.

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