Direito à redenção

Pungente trabalho primoroso, concreto e intenso drama humano. O irrepreensível filme Os Últimos Passos de um Homem dialoga com valores, intimidades e problemáticas da sociedade. Acima de tudo, um exercício que prioriza a redenção - caso esta fosse a única palavra que pudesse resumi-lo. O ser humano, diante de tantos erros e fragilidades, procura sempre uma reflexão de si mesmo? O diretor e também roteirista Tim Robbins - sob a premissa do livro baseado em fatos verídicos de Helen Prejean - articula um profundo, tocante e consistente argumento cinematográfico. É a sensibilidade exposta da freira Helen Prejean (Susan Sarandon) que se torna conselheira espiritual de um condenado à morte: Matthew Poncelet (Sean Penn) foi acusado de assassinar brutalmente um casal de jovens, além de estuprar a moça antes de matá-la. À beira da morte, repleto de inseguranças e mortificado de angústia, Matt vê na irmã uma chance de redenção, a última esperança evidente. Contra o rigor do sistema que pune, irremediavelmente, criminosos estupradores com requinte de crueldade - Helen se envolve em uma emocional luta contra a pena de morte delegada. Por que confiar num assassino? Seria ele inocente dos crimes? Por que algo nele fascina e transparece uma necessidade de amparo? Todos têm direito a vida? Por trás da couraça do assassino existe um ser que merece o resgate de sua alma? Antes de assumir a culpa perante todos, evidencia-se em Matt a admissão deste ato a si próprio - só assim a barreira intransponível entre ele e a irmã seria desfeita. Impressionada com o desespero, condições precárias de sua condenação, solidão e o ultimato da sentença de morte (ele será morto por injeção letal), Helen passa a conviver mais intensamente com Matt, cria-se um forte elo e vínculo de amizade. É aí que o ótimo roteiro proposto por Robbins ganha força: Helen trava diálogos existencias, íntimos e verdadeiros com Matt. Ela tenta persuadí-lo a reconhecer os crimes, a perceber o quanto perverso foi e, assim, conceber dignidade nos seus últimos momentos de vida. Ela reconhece nele toda a dor, revolta e contextos de aprendizado familiar - bem como faz acender nele a percepção do sofrimento vivenciado pelos pais das vítimas.

Na luta pela superação, pela busca por arrependimento, pelo progresso da dignidade quase perdida: Matt reavalia sua vida, ao lado da companhia amplamente humana da freira. O entrosamento entre Helen e Matt é pautado nesse condicionamento de auto-reflexão - e ele se sustenta na emblemática, benéfica e figura de extrema compaixão que a irmã Helen exerce. Ela é a sua seiva de esperança, ativa a sua sensibilidade e atenua seu rancor. Por resgatar essa capacidade dele em sentir-se culpado, se expressa na freira o seu fundamento de tentativa de salvação da alma do homicida dentro da tradição católica. Todo arrependimento é inerente ao processo de absolvição? Enquanto tenta que a execução seja suspensa, ela se confronta com seus próprios medos. Tem receios de estar sendo mal interpretada, perturba-se com todos os sentimentos destoantes a sua volta e vê que é na coragem que reside sua fé. Como não ter repulsa dos crimes cometidos por ele? A comunidade, a imprensa e os pais das vítimas são contra as atitudes da freira. Estaria ela invalidando a justiça? Como uma religiosa poderia se aliar com um criminoso? Helen crê no direito à redenção, para ela todo ser humano merece ter dignidade, ainda que condenado à morte. De corpo, alma e bondade ela atua como ouvinte, visto que Matt precisa de uma pessoa que esteja com ele dividindo suas aflições, desabafos e receios. E ele provoca: por vezes, é sombrio e flerta com ela, expressando sua sincera malícia - além de responder aos questionamentos de Helen com indagações.

Susan Sarandon personifica com dedicação, talento que transborda e força interpretativa sua personagem. São pequenos gestos, emulações de falas e olhares lacrimejados que transbordam de emoção. Ao lado, há um Sean Penn excepcional que compõe a densidade, comportamento e nuances psicológicas de um homem prestes a ser morto, com todos seus temores. Interessante o contraste entre a simplicidade, quietude e soberania pacífica da feminilidade de Helen - oposto à virilidade, dinâmica máscula hiperativa e personalidade comportamental impulsiva de Matt. Enquanto ela tem o foco na religiosidade, ele permanece preso às questões do corpo: diz ter falta de sexo, da companhia feminina e demonstra sua solidão carnal. Este contraponto comportamental, o oposto das personalidades de ambos, serve como elemento de harmonia do filme. Ambos personagens atraentes, ainda que distintos, tendo um único elo. A fotografia de Roger Deakins é elegante, discreta e proporciona bons enquadramentos perceptivos de Sarandon e Penn em cena - afinal, ambos não têm contato físico e apenas um vidro os separa. Porém, a atmosfera criada por Robbins, transfigurada em closes que dão destaque às expressões dos atores, coloca-os próximos do público, em emocionalidade tangível: por vezes, parece que Helen e Matt estão em grande contato, sem nada a interpor entre eles.

É através dessa construção da relação de ambos que o tom melodramático, tangível e humanista do filme se conceitua. E a reflexão ocorre: mais que um direito de viver ou morrer, existe a possibilidade de uma nova escolha - através da redenção que um indivíduo atinge um grau de maturidade, alívio, integridade e reconstrução social. Uma oportunidade de renovação, transformação como humano. E Helen mostra, como símbolo da religiosidade e espiritualidade, que Deus aceita todos os erros e todas as fragilidades do plano terreno - mas quer mesmo que o ser humano tenha consciência de seus atos, arrependa-se e, só assim, conseguirá galgar novos alicerces numa nova vida. Constantemente, ela é questionada por todos: as pessoas ponderam suas intenções com o assassino, não aceitam que ele seja consolado com sua benevolência e cumplicidade. Mas o lema-mor, "Ame o próximo, perdoe o inimigo", é a resposta que ela transpira a todos. E o roteiro, por não tomar partido, mostra os dois lados perspectivos da situação extrema da pena de morte, além de pautar contextos sobre preconceito e ativa valores de bondade universal e exercício de compaixão mútua. Pequena obra-prima.

Dead Man Walking (1995)
Direção de Tim Robbins
Roteiro de Tim Robbins, baseado em livro de Helen Prejean
Elenco: Susan Sarandon, Sean Penn, Robert Prosky, Raymond J. Barry, R. Lee Ermey

31 opinaram | apimente também!:

Clenio disse...

Oi.

Não vou comentar esse filme simplesmente não há o que comentar: OBRA-PRIMA. O primeiro filme em que chorei na minha vida. Trabalho impressionante de Sean Penn.

Grande abraço
Clênio
www.lennysmind.blospot.com
www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com

Paulo [ALT] disse...

Cris,

Poxa, depois que assisti Sobre Meninos e Lobos com o Sean Penn passei a prestar mais atenção nos filmes com ele no elenco. E.. bom, Susan Sarandon eu adoro. Tanto em comédia, romance ou drama.

Sua crítica tá toda perfeitinha que eu nem sei o que dizer. A parte de ficarem separados pelo vidro, gostei disso. Do jeito como isso não parece.

Comentário do Clenio tb me trouxe expectativas rs.

Ahh fico sem saber o que dizer, rs. Eu achei que fosse um filme nacional. Jurava quando bati o olho no poster que era a Maria Fernanda Cândido e o Rodrigo Santoro. Não dê risada. rs. Mas, volte lá e olhe de longe.

Hey, vou dar um jeito sim de assistir tá? e aviso qndo ele tiver aki no pc

Abração meu Amigo ;]

Wallace Andrioli Guedes disse...

Filme devastador. É provavelmente o personagem mais complexo já vivido pelo Sean Penn, e talvez seja, por isso, sua melhor atuação (apesar de, confesso, ser encantado com seu desempenho em MILK). Acho que ele já deveria ter levado seu primeiro Oscar, pena que teve pela frente um também gigantesco Nicolas Cage em DESPEDIDA EM LAS VEGAS. Sarandon, que levou o prêmio, está excelente, mas não acho que era a melhor atriz daquele ano.
Enfim, mas falando do filme em si, confesso que OS ÚLTIMOS PASSOS DE UM HOMEM foi um dos grandes responsáveis pelo meu convencimento contrário à pena de morte.

bruno knott disse...

Faltou pouco pra eu considera-lo uma obra-prima...

Sean Penn é um dos melhores atores vivos.

Nekas disse...

Gostei imenso da tua crítica. Quero imenso ver este filme e já há muito tempo que ando para o ver...

Abraço
Cinema as my World

Tânia regina Contreiras disse...

Quero assistir...Gostei do seiva de esperança...

Beijos,
Tânia

Manuela Coelho disse...

Conta com dois actores de primeira água e um óptimo argumento.Não diria que é uma obra-prima, mas gostei muito de ver este filme.

Serginho Tavares disse...

gosto muito deste filme que fala tão lindamente sobre direitos humanos em um país onde isto simplesmente não existe

Tô Ligado disse...

Como sempre Sean Penn arrebentando.Acho que só de saber que a sombra dele passou por uma produção, esta já merece ser vista.

Abraços
Brunno

railer disse...

esse filme é muito bom. como sempre, seu texto também.

Marcos Eduardo disse...

Com a direcao precisa do entao marido, o ator tim robbins, susan levou merecidamente o oscar de atuacao por este filme e Sean, nao tem o que dizer: eh uma lenda!

off-post: porque o senhor nao comentou mais no meu blog, hein?!

rsrsrs. saudades, Cris. uma otima semana!

abraços.

Rita Contreiras disse...

Questões profundas que esse filme traz!Difícil essa posição de julgar e tb ser julgado, tantos são os tormentos de um ser humano!grande abraço! saudade.

Kamila disse...

Este é um dos meus filmes favoritos. A cena da Helen olhando pro Matthew e dizendo para ele olhar pra ela, no momento da morte, porque ela quer ser o olhar do amor para ele SEMPRE acaba comigo!! SEMPRE!! Uma pequena obra-prima mesmo!

Rodrigo Mendes disse...

OI Cris, estou de volta aqui para apimentar..depois de um suntuoso (mas necessário) intermission, rs!

Que bom que vc facilitou à direita e colocou os posts anteriores para eu lê-los!

Bom, este longa é ótimo. Surandon e Robbins se casaram depois,rs!

O Sean Penn tem um trajeto só dele: o do homem que sabe abrir a boca, exagerar e sem pagar micos com clichês. Praticamente em todos os filmes que atua, em especial: REVIRAVOLTA de Oliver Stone e BAD BOYS de Rick Rosenthal.

VC e o Paulo escreveram sobre filmes que não vejo a muito tempo.
E tbm não tenho o DVD deste..deu vontade de comprar!

Está ótimo , ABS!

cabaretcinefilo disse...

Não tenho uma resposta, do porque ainda não vi esse filme!

Hugo disse...

O título da sua postagem diz tudo sobre este filme.

Grandes interpretações de Sean Penn e Susan Sarandon.

Abraço

Renato disse...

Sean Penn e Susan Sarandon, o que dizer de uma dupla perfeita que funcionou muito bem nesse longa. Quase uma dupla de atacantes consagrados de um time de futebol.

Abs

Renato

Gustavo disse...

A melhor contribuição de Robbins ao cinema. De acordo, um filme de vastas e profundas implicações.

Tiago Britto disse...

Também estou sempre aqui cara! Está muito de parabéns e seu Blog é maravilhoso. Gosto de saber muito sobre filmes mais antigos e clássicos...além de trabalho fora do hall da fama!

abs

Amanda Aouad disse...

É um filme profundo com questões bem delicadas. O trabalho de Susan Sarandon é magistral. Belo texto, bela lembrança.

Wally disse...

Último comentário foi meu! Sorry. =)

w disse...

O brilhantismo deste filme é espelhado nesta sua crítica, que evoca tantos questionamentos e discussões. Belíssimo filme.

Edson Cacimiro disse...

Não vi esse filme ainda ,mas tudo o que escuto sobre ele são excelentes comentários, bela dica.

Luis Galvão disse...

Não considero uma obra-prima, mesmo que eu goste bastante desse filme e já faz algum tempo que assistir. Quem sabe numa revistada o conceito dele aumente?

Fábio Henrique Carmo disse...

Excelente filme e uma grande atuação não apenas de Sean Penn, mas também de Susan Sarandon. Não sei se é uma obra-prima, mas com certeza um filme de impacto.

Jefferson de Morais disse...

É realmente um filme extraordinário! É deveras muito interessante essa reflexão sobre o direito à redenção, à vida etc.
Como sempre, parabéns pelo bom gosto e pelo excelente texto.

Um abraço,
Jefferson.

Marcos Eduardo disse...

Fiz um post sobre Sean, recentemente. Eh um dos trabalhos notaveis tanto dele como da Susan. Outra querida. Pena a academia nao premia-lo na epoca. tentaram consertar com mystic river, que na minha opiniao, eh um trabalho inferior. decada de '90: a melhor! as cenas de flash onde vemos como aconteceu o crime sao de chocar! excelente trabalho do otimo, mas nao sempre amado, Sean. item indispensavel na colecao de qualquer pessoa, que se diz, admirador de cinema!

Cris: pare de escrever tao bem assim, por favor! rsrsrs. brincadeira. a sua escrita me obriga a melhorar sempre, no Olhar.

Abraços.

Madame Lumière disse...

Oi Cris,

Belíssimo filme, com grandiosas atuações!

O que eu gosto deste filme é que ele me faz refletir sobre temas como o perdão e o julgamento. Eu tenho uma educação bem cristã, mas eu também tenho um gênio forte, uma opinião flexível porém tendo a defender meus pontos de vista, então eu mesma me vejo entre a cruz e a espada com relação a perdoar e julgar.

No quesito criminosos, penso que todos têm que pagar o que fizeram e serem regenerados e inseridos na sociedade, mas eu sei que a justiça é falha, o sistema é lento, a sociedade é preconceituosa, então dificilmente criminosos têm sido inseridos novamente na sociedade de forma a compensá-la com o bem.

Não sou a favor da pena da morte porque isso é uma solução pontual que acaba com a vida de alguém naquele momento e só aplica a lei dente por dente, olho por olho. Nosso sistema judiciário continuará péssimo

Por isso, este filme é muito válido. Ele faz com que eu pense nisso tudo, principalmente naqueles criminosos que se tornam réus do dia pra noite.

Bjs!

Júnia L. disse...

Hoje que fui ver sua postagem sobre Os Últimos Passos de um Homem, adoooooooro esse filme. Assisti quando ele foi lançado – 1995 - e considero um dos melhores filmes Sean Penn – sou suspeita quando falo em Penn, gosto desse cara de mais!!!!!!
Poucos filmes discutem a redenção e apena de morte como este. Foi bom vê-lo aqui, vou procurá-lo para baixar e reassistir
Minha nota para ele seria 10,0 ou seja, EXCELENTE

Gustavo Pavan disse...

Esse é filme é sublime.
Me fez conhecer Susan Sarandon e trouxe Sean Penn para o hall dos meuas tores preferidos.
A crítica está muito bem construída e debatida, como sempre.

Grande Abraço.
(=

Gustavo Pavan disse...

Este filme é sublime
Me fez conhecer uma Susan Sarandon até então escondida e trouxe Sean Penn para o hall dos meus artistas preferidos.

Parabéns pela crítica, que está muito bem construída e debatida como sempre.

grande abraço

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