O Sexto Sentido

O diretor Sam Raimi exercita seu estilo mais humano, sensível e intimista no filme O Dom da Premonição. O foco é em Annie Wilson (Cate Blanchett), uma viúva e mãe de 3 filhos que herdou da família o poder da vidência: ela sente, visualiza e, por ser sensitiva, prevê o que irá ocorrer no futuro - através de imagens em sonhos e na leitura de cartas mediúnicas. Mas, não só suas premonições são freqüentes, seu poder de visão é quase uma mediunidade - ela sente presenças espirituais também. Há comunicação intensa com a espiritualidade. Annie reside numa minúscula cidade do interior dos EUA, totalmente dominada por pântanos, salgueiros e estradas de terra batida. E é dentro dessa realidade que ela tenta se manter afastada rigidamente do microcosmo social deste lugar de pessoas que a despreza pela clarividência, muitos preconceituosos e outros apenas conservadores que não aceitam seu dom. Para obter dinheiro e ajudar no sustento de sua casa, Annie resolve utilizar seus dons de vidência oferecendo leituras psíquicas aos moradores da cidade - trabalhando como cartomante, ela mexe com o conservadorismo preconceituoso desse povo, sendo alvo de reclames e ofensas. Isso lhe custa a desconfiança nesta ala da sociedade. Como lidar com pessoas tão dissimuladas ao redor? O caos ocorre quando Annie prevê a morte de alguém e passa a auxiliar a polícia local. Além do tom sobrenatural evidente no filme, há a tônica de suspense que conceitua o roteiro de Billy Bob Thornton e Tom Eppersom.

E nesta teia de thriller psico-hipnótico que o roteiro toma contornos mais dramáticos: observam-se outros personagens que circulam ao redor da vidente. Annie é o elo e o centralismo narrativo, porém ela interage e exercita o foco dos conflitos alheios - é através dela que os demais personagens secundários tomam forma, crescem e são orgânicos. Ela é a típica mulher sensível que tem um caráter humanista, capaz de querer auxiliar todos ao seu redor. Tem uma personalidade pacífica, gentil e sensata com o próximo - conselheira, boa ouvinte. Seus atos de benevolência, compaixão e altruísmo exercem o contato de intimidade e relação de nítida amizade com Valerie e Buddy. Hilary Swank personifica a vulnerável Valerie, cliente de Annie, um ser feminino submisso ao sistema do machismo: ela teme o marido, tende a aceitar as constantes ofensas físicas, morais e psicológicas que se submete - como superar tanta agressão? Haja aridez, tormento e sofrimento. E ela busca, através da clarividência de Annie, um falso consolo - uma esperança tamanha problemática conjugal em sua vida. Ainda que sofra com hostilidade constante do marido Donnie - ela ainda o deseja, tanto amorosamente quanto sexualmente. E ele reflete, bem verdade, os estereótipos da masculinidade voraz: rústico, dominador, barba por fazer e comportamentos que revelam sua virilidade. E Keanu Reeves determina este personagem com determinação - um sujeito que também causa repulsa, é estranho e elemento que concebe o abalo emocional da protagonista. Seria ele um maníaco assassino?

Aos olhos de Annie, ele é mais que um marido violento. Enquanto as suspeitas não se confirmam - ela vivencia a aflição de vida com o outro contraponto de drama no filme: Giovanni Ribisi expressa sua intensidade talentosa na atmosfera de crises/distúrbios psicológicos, inconstâncias e instabilidade emocional enfrentadas pelo seu personagem Buddy - mecânico amigo de Annie, um indivíduo que sofreu abusos sexuais, durante anos, pelo pai com o consentimento materno. Suas cenas são dolorosas, impactantes. Todos esses dramas sensíveis se mesclam à vida particular de Annie, caracteriza o aspecto narrativo do filme. A personagem depende destes coadjuvantes. Greg Kinnear e Katie Holmes também servem de importantes elementos na dimensão da trama. E Sam Raimi produz sua direção minuciosa em closes nos olhares, gestos e expressões do elenco bem torneado.

A montagem, edição e trilha sonora de Christopher Young são certeiras, ainda que sutis - mas, o que prevalece é o vigor interpretativo de Cate Blanchett: há cenas que ela apenas conduz a intenção de seu olhar, ora enigmático ora lacrimejado. A câmera parece se desprender e percorre suas emoções. O roteiro permite a boa composição dos personagens: repare no sotaque caipira de todos, nas roupas, nos gestos. E o suspense tem alguns sustos, cenas noturnas de tensão sobrenatural em meio a floresta com um lago sinistro. Um filme que pauta conceitos de confiança, solidão, amizade e traz elementos da espiritualidade, do subjetivismo da percepção humana e do sexto sentido de cada um. O roteiro pode não evidenciar um teor de originalidade - mas a estética psicológica dos personagens projeta dramaticidade envolvente. E essa emocionalidade através da humanização consegue tornar o filme interessante, mais consistente.

The Gift (EUA, 2000)
Direção de Sam Raimi
Roteiro de Billy Bob Thornton e Tom Eppersom
Com Cate Blanchett, Keanu Reeves, Hilary Swank, Greg Kinnear, Kate Holmes, Giovanni Ribisi

27 opinaram | apimente também!:

Clenio disse...

Oi, há quanto tempo, não??

Bom, acho que esse filme existe plenamente em função de Cate Blanchett, uma das mais extraordinárias atrizes em atividade em Hollywood, capaz de dar consistência e credibilidade a qualquer projeto. Sua atuação aqui é das mais intensas, desprovida de vaidade e subterfúgios: é uma atriz em plena consciência de seu ofício, encantando pela economia e sutileza.
O roteiro é interessante, também, sem pretender fugir do clichê, mas o utilizando com propriedade. E Giovanni Ribisi apresenta aqui seu melhor trabalho como ator, ao lado de "Paraíso", no qual ele também contracena com Blanchett.
"O dom da premonição" é um filme que me agrada bastante - podem me crucificar por isso, mas eu prefiro ele a "Arrasta-me para o inferno"...
Grande abraço,
Clênio
www.lennysmind.blogspot.com
www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com

Gustavo disse...

Imensa curiosidade em assistir. O paranormal, no cinema, atrai.

Guilherme Sakuma disse...

Acho que vi esse também...

Jefferson de Morais disse...

Cristiano, gosto muito desse tipo de filme!

Minha professora de Produção Textual sempre dizia que a resenha é de qualidade quando, ao terminarmos de lê-la, temos vontade de, digamos, desfrutar do objeto resenhado. E eu tive voltade de assistir ao filme. Como sempre, você está de parabéns; suas palavras são muito bem colocadas, escreves muito bem!

Ah! Desculpe-me, mas eu achei que já estava a te seguir. Deve ter acontecido algum erro de conexão... Aparecerei sempre que puder, com certeza. Obrigado pela presença.
Seguindo-te.

Um abraço,
Jefferson.

Luis Galvão disse...

rsrs.

ainda não assistir esse filme, mas fiquei bastante curioso pela temática e principalmente pela Blanchett.

João Fco. Viégas disse...

Olha eu aqui!
Não é pq não tenho comentado que significa q não sou um leitor assíduo!
Vou só anotando!!
Hehehehe...

Abs!

@Raspante disse...

Nossa fiquei intrigado com a história e elenco. Muita vontade de assistir, e você como sempre dá um foco interessante sobre a história, aguça a minha curiosidade! xD

M. disse...

Esse filme eu queria ver. E depois de ler este seu texto, fiquei com muito mais vontade. Um abraço e ótimo fim de semana.

Mirella Santos disse...

Enfim um filme assim *0*
Amei sua resenha Cris, amei o roteiro do filme, amei os atores que trbalham nele e honestamente me surpreendi por nunca ter visto antes. Fale mais sobre filmes assim, sei que não é muito a temática do apimentário, mas eu adorei. Abraços

Hugo disse...

É um filme um pouco esquecido de Sam Raimi, mas de extrema qualidade.

O elenco está muito bem.

Abraço

bruno knott disse...

Pelo título, achei que você ia tercer comentários sobre o filme do Shyamalan... hehe

Confesso que desconhecia esse, mesmo sendo do Sam Raimi! Chamou minha atenção.

Abs!

Tô Ligado disse...

Cate Blanchett, uma das grandes atrizes de Hollywood.

Venho admirando seu trabalho desde Anjos da Noite.

seu post me despertou curiosidade.. vou tentar alugá-lo!

Abraços

Jenifer Torres disse...

Sam Raimi é pra mim um dos melhores diretores de terror de todos os tempos.
Abraços.
http://dicaselistas.blogspot.com

Robson Saldanha disse...

Não vi esse filme. Mas acho que qualquer um em que tenha Cate deva valer a pena... ela é fantástica!

pseudo-autor disse...

Eu vi esse filme na Bandeirantes num dia em que a TV a cabo não oferecia nada de bom. E me surpreendi! Pra quem acha que Sam Raimi é só aquele cara que dirigiu os filmes do Homem-Aranha, taí a resposta! E a Cate Blanchett sempre maravilhosa!

Cultura? O lugar é aqui:
http://culturaexmachina.blogspot.com

Fábio Henrique Carmo disse...

Não vi esse, mas parece interessante. Do Sam Raimi recomendo ainda "Arraste-me Para O Inferno", onde o diretor volta às suas origens com um "terrir" de primeira!

Tânia regina Contreiras disse...

Se ampliarmos a forma de encarar essa vidência, penso que pode haver muitos desdobramentos na leitura do filme. Estou aqui passando, mas em atraso com os filmes.

Beijo,
Tânia

cabaretcinefilo disse...

É um pecado eu ainda não ter visto ... minha lista de filmes é enorme vou incluir este!

Alexandre Fernandes disse...

Parece-me um bom filme. A julgar pela sinopse, deve passar um suspense bem atrante. Muito interessante.

Gostei das observações.

ps: Lembro sim de ti. Faz tempo que não te vejo mesmo. Desde o 'bonequinho de luxo' não é?
Muito bacana te reencontrar por esse mundo aqui. Vamos reatar esse elo então. =) Vou te linkar.

Abração. Volte sempre meu amigo Cristiano.

Vanderson disse...

eita já quero ve esse filme!!
procurar agoraa!!
abraçoooo!

Paulo [ALT] disse...

Cris,

Lembro que esse filme vinha uma vez como parte da coleção [eu acho] do jornal Estadão de SP [daqui, claro]. Aumentavam o preço e tudo mas até que valia a pena alguns. É comprar pelo dvd, não pelo jornal. Existia essas coisas ai? Enfin, acabei comprando outros dvds na época, mas não esse. Lendo seu post me deu uma vontade de procurar o preço em algum site. O engraçado é que nem o trailer dele eu cheguei a ver se não me engano. E tb não sabia mto sobre a sinopse. E... do Sam Raimi?!

Sempre percebo seus títulos haha

Fiquei aqui imaginando a câmera rondando o rosto e as expressões da Cate. Dá pra sentir aquele cenário exato atrás dela no poster.

Você gosta bastante dela né? Falou q faz questão q eu assista. Bom, então tb faço. Tá? Não eskeço. Só preciso saber por onde vou fazer isso. Mas vou.

Abraço meu Amigo ^^

Amanda Aouad disse...

Cate Blanchett e Sam Raimi já é uma mistura por si só interessante. Com esse argumento, então, preciso ver urgente.

bjs

alfa disse...

Passei por aqui via Viver é Pura Magia, achei o seu blog muito interessante. Adoro cinema, vou voltar.Bjs

Kamila disse...

Não consigo gostar desse filme...

marcelo grejio cajui disse...

Ainda não assisti a este. Com certeza vai servir a dica. o roteiro é bem promissor, sim.
Seu texto segurou bem a atenção, infelizmente ainda prefiro a leitura impressa, mas nenhuma delas consegue ser tão rápida como a internet.
agradecendo a informação.

abraço!

alexandre disse...

Ola
Parabéns pelo blog!
Abcs
Alexandre Taleb
Consultor de Imagem/Personal Stylist
Blog: http://ataleb.wordpress.com/

Edson Cacimiro disse...

Um belo filme, suspense na medida certa e Cate dispensa qualquer comentário.

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