Amor Assassino

Como entender traumas da alma? O que move alguém a exercer atos de maldade? O doloroso Monster - Desejo Assassino assinala uma abordagem realista, cruel e densa expressão sobre a história real de Aileen Wuornos (Charlize Theron), considerada a primeira serial killer americana que fora condenada a pena de morte, mediante injeção letal. Vítima de abuso sexual ainda na infância, tornou-se prostituta antes da adolescência, aos 13 anos de idade. Seu terreno de trabalho, as estradas por onde perambulava. Conheceu, por acaso, Selby Wall (Christina Ricci), com quem criou um vínculo afetivo e relacional - um tórrido namoro lésbico estável. Tornou-se criminosa ao matar um cliente, após ser violentamente agredida por ele - com isso, desencadeou nela uma sede de vingança, pois passou providenciou uma série de assassinatos que fez com que tivesse reconhecimento polêmico nos Estados Unidos. O trabalho cinematográfico de Patty Jenkins recorre aos últimos passos dessa mulher, traçando uma narrativa detalhada e profunda sobre suas motivações, atos e impulsos psicológicos - o filme recria o universo do que fora a vida da "Donzela da morte", codinome conhecido quando se tornou uma prostituta assassina. A narrativa concebe um recorte sensível sobre as prováveis razões que levaram essa mulher a cometer tantos crimes ininterruptos. Qual razão para nutrir tamanha sede de vingança? O que fez esta mulher a cometer tantas mortes? O foco argumentativo, também, centraliza a relação sentimental e sexualizada que Aileen teve com Selby. O roteiro da própria diretora cobre a trajetória polêmica da prostituta que se submete aos mais degradantes esforços físicos, psico e emocionais - há um delineamento emocional em humanizar a personagem verídica. Como entender os atos de alguém que matou tantas pessoas? O teor lésbico também é um foco instigante da película, pois demonstra um amor puro em meio às turbulências externas que as personagens enfrentam.

O filme, com nítida naturalidade, traça a vida de Aileen - para entendê-la psicologicamente é necessário notar a sua trajetória? Para isso, a diretora remonta alguns fatos da vida desta mulher. Além de enfrentar abusos constantes sexuais, ainda criança; ela jamais viveu dentro de um lar familiar visto que fora abandonada pela mãe. Impelida a prostituir-se, ainda cedo - nunca recebeu afeto de ninguém. Tornou-se joguete do próprio destino, alimentada pela solidão e embrutecida pela ausência de carinho ao redor. Como entendê-la? No filme, Aileen mostra-se uma mulher solitária, sem instrução ou maiores oportunidades na vida, tendo que recorrer à prostituição para obter qualquer recurso financeiro: a única forma de sobrevivência. Como estabelecer um olhar compreensivo para alguém tão solitária a ponto de enlouquecer? Como compreender que Aileen só queria alguém para estar ao seu lado? Eis que o destino providencia uma chama de esperança, quando a morte parece uma saída para os problemas de Aileen. Por acaso, num bar, ela conhece Selby. Ambas tornam-se amigas, mas rapidamente o tesão age inesperadamente. Entre carícias, beijos e esfregões sexuais - é no conforto da intimidade que, aos poucos, as duas conseguem entender-se sexualmente. Surpreendentemente, tão logo encontra um amor, Aileen envolve-se numa espiral de violência que a coloca na lista das mais procuradas da polícia.

Interessante que Aileen, no primeiro instante, incomoda-se com a perspectiva sexual expressada pelo interesse de Selby - ela nunca teve uma relação homossexual, por isso incomoda-se em envolver-se com a outra. Já Selby enfrenta problemas dentro de casa por ter interesse em garotas, mas recebe o preconceito da família por expressar-se abertamente como lésbica. Como fazer todos entender que sente desejo por alguém do mesmo sexo? Selby, como muitos homossexuais, representa alguém que precisa mostrar-se forte para assumir sua opção sexual - ainda que seu pai e família façam de tudo para que ela envolva-se com um homem. Então, através do delicado roteiro de Jenkins, que acentua um olhar singelo e feminino sobre essas duas mulheres - que a obra concebe o romance lésbico evidente entre as duas. Aileen e Selby decidem viver juntas. O tesão inesperado entre ambas é um impulso inicial para a relação, mas há um sentimento que move e representa mais a estrutura emocional das duas. É uma tentando se encontrar na outra - Aileen vê na possibilidade desta união, ainda que sexualmente inovadora, uma chance de livrar-se de sua condição de vida. Desiste da prostituição e procura emprego. Porém, quando um cliente tenta agredi-la fisicamente além de provocar um estupro - Aileen o mata.

E é então que o roteiro segue nesse desenfreado descontrole que abala a relação das duas - mais além, expõe a fragilidade e os distúrbios psicológicos de Aileen evidentes. Ela mata os homens por vê-los como "sujos", moralmente impuros - justifica seus crimes como uma maneira de expurgar os pedófilos, traidores e estupradores da sociedade. Quando questionada, Aileen diz que mata porque esses homens são "maus". Selby questiona constantemente seus atos, ainda que seja cúmplice - o que a fazia matar? Por que continuar nesta vida? O que a motiva tantos crimes? Decerto, o primeiro que Aileen matou foi por legítima defesa - porém, ao passo que passa a furtar do dinheiro e dos carros das vítimas, eis que o círculo vicioso se configura numa teia de assassinato brutal. Aileen busca, durante as noites, na rodovia, todos os motoristas que buscam sexo fácil e executa apenas homens cujo perfil ela considere inclinado à perversão sexual. A trama segue neste suspense dos crimes, ao passo que o cerco se fecha na vida dela - bem como, a sua relação com Selby acaba por verbalizar-se num sufoco sem volta. Mais que um exercício humano cruel, é uma história que comove. A caracterização de Charlize Theron é assombrosa por ser densa, desde trejeitos ao físico modificado para assemelhar-se à realidade (engordou, sofreu aplicações de manchas na pele e transformou a arcada dentária com prótese). Há uma química em cena dela com Christina Ricci, ambas concebem um talento sobre a esfera da homoafetividade. Ainda que não julgue - mas humanize e acentue sensualidade - o filme consegue dar vazão à trágica trajetória dessa estranha mulher que abalou a sociedade. Um filme que concebe a reflexão acerca da natureza humana.

Monster (EUA, 2003)
Direção de Patty Jenkins
Roteiro de Patty Jenkins
Com Charlize Theron, Christina Ricci, Bruce Dern, Lee Tergesen

28 opinaram | apimente também!:

pseudo-autor disse...

Uma das poucas mulheres bonitas em Hollywood que consegue convencer em qualquer papel. Só pelo nome da Charlize no elenco desse filmaço já vale uma espiada. Recomendo Vidas que Cruzam, com ela, dirigida pelo Guillermo Arriaga.

Cultura na web:
http://culturaexmachina.blogspot.com

Wally disse...

A atuação de Charlize neste filme é uma das performances mais intensas que já testemunhei. Fiquei sem chão e e este filme é ótimo (aquela cena no boliche é um primor). Ricci também está muito bem e seu texto faz jus à complexidade da história (e da personagem).

Mirella Santos disse...

Eu ainda não havia visto, mas se Charlize é Serial killer nada mais no filme importa rsrs \o/. (é eu sou meio doentia quando se trata de filmes com assassinatos frios assim). Já adorei o enredo todo. Bjoss Cris

Richard Mathenhauer disse...

Sempre há justificativas para os nossos piores pendores.

Como sempre, excelente!

Abraços

Pedro Henrique disse...

Ela é feinha. Mas ainda não vi o filme.

Larissa Araújo disse...

Muito bom! Atuação maravilhosa da Charlize. Deu até vontade de assistir de novo depois de ler aqui eeheheh

António Rosa disse...

Cristiano

Ofereceram ao 'Cova do Urso' o selo «Prémio Blog de Ouro - Eu Admiro este Blog» e escolhi partilhar com alguns blogues que aprecio muito, mas muito.

Esta nota é para informar que o seu blogue está nessa lista. Pode conferir e levar o selinho, clicando aqui.

Porque gosto muito do seu blogue, aqui fica esta minha homenagem.

Abraço,

António
'Cova do Urso'

leo disse...

Gosto muitíssimo do filme,como todas as biografias,o filme peca por não ser imparcial sobre os atores de Aileen,mas tudo bem.
Charlize Theron numa performance fora do normal.
Abraços

Amanda Aouad disse...

Charlize Theron está explêndida nesse filme, conseguiu se transformar completamente, uma entrega total. Inclusive na aparência. Quem a vê em cena nem consegue imaginar a bela mulher que ela é. O filme é intenso e faz uma boa reflexão sobre a natureza humana como você bem pontuou.

bjs

Rafael disse...

Lembro que quando eu assisti a primeira vez, logo que o filme foi lançado, sai com a impressão de ter visto um grande filme, mas depois revi e minha opinião mudou um pouco. Não passei a achar um filme ruim, mas considero que o melhor de Monster está nas atuações de Charlize e (principalmente) Christina.

abs

Fábio Henrique Carmo disse...

É lamentável, mas nunca vi esse filme...Preciso consertar este erro urgentemente! Abraço!

RENATO disse...

Esse filme possui a melhor atuação feminina que a minha geração já viu. Trabalho merecidamente premiada com o Oscar. O filme é muito bom, provocativo e instigante. Eu adorei.

Úrsula Avner disse...

Olá meu caro,

assisti esse filme quando foi lançado e acho que foi uma das melhores interpretações da Charlize, maravilhosa e talentosa atriz. Um abraço.

M. disse...

Mais uma vez leio um excelente texto escrito magistralmente por você, Cristiano. É sempre bom vir aqui.

alan raspante. disse...

O melhor filme da Theron, sua interpretação é...perfeita!

Gustavo disse...

"Doloroso" foi uma palavra perfeita. Acho que nunca tinha visto um retrato da vida na sarjeta tão pungente e sem concessões vindo dos EUA, ainda que do circuito independente. E como julgar Aileen, ou melhor, estamos em posição de julgá-la? Que vida essa mulher teve.... Patty Jenkins devia trabalhar mais.

joyce domingos disse...

esse filme é uma maravilha,uma surpresa...doloroso como disseste....

charlize entrou de cabeça na personagem,se entranhou nela e fez um notável trabalho....me fez enxergar humanidade por tras da assassina...

ps>> querido,sempre passo por aqui...mas desculpe-me a demora dessa vez^^ adoro vc e o apimentário

bjk

Kamila disse...

Para mim, o cerne deste filme é muito claro. Aileen Wuornos era alguém que não confiava nas pessoas, que já tinha sofrido muito na vida e que passou a cometer todos aqueles crimes no intuito de se defender. Sei que isso não justifica o que ela fez, mas esta é a forma como eu decidi enxergá-la. A história de amor dela com Selby também retratava muito essa busca dela pelo amor, pela confiança, por alguém que a quisesse pelo que ela era.

cleber eldridge disse...

É um filme incrivel, e Theron tem em sua carreira talvez o seu melhor momento, o roteiro relata perfeitamente o sofrimento de uma mulher.

Marcio Melo disse...

Theron assusta nesse filme.

Assisti na época no cinema, muito bom.

railer disse...

esse filme é muito bom mesmo. lembro que ao final fiquei me perguntando se as pessoas realmente perceberam quem era o 'monstro' do título...

Tiago Britto disse...

Ok...quando eu fizer meu top five do genêro vai lá e coloca este...me pareceu ser muito bom o filme! Mas ainda acho que faltou sua foto vendo ele em seu quarto hahaha

Nata Xavier disse...

Nossa, sabe aqueles filmes que faz tanto tempo que vc assistiu que vc tem falhas na memória com relação a historia? pois é, lembro que assisti ao acaso, e agora to precisando reve-lo...

Bjo

renatocinema disse...

Atuação perfeita das duas protagonistas. Uma aula de amor, sexo e insanidade.

Facundo disse...

Olha, adorei seu texto. Vi este filme já umas 5 vezes de tão bom que eu achei! Ela até ganhou o Oscar por interpretar este papel!

Muito massa, humano e comovente!

Um dos melhores filmes que eu já assisti!

Robson Saldanha disse...

Não consegui ver esse filme até o fim. Achei forte demais e acho que o momento que eu estava não devia ser dos mais corajosos. Preciso ver.

Jonathan Nunes disse...

Nem precisa dizer que o trabalho feito pela charlize nesse filme é impecável, afinal de contas ela ganhou um Oscar, o filme é belo retrata uma realidade nunca vista dos países desenvolvidos, mostrando que não é só aqui que existem essas coisas.
Parabéns pelo texto Cristiano.

Juliana Barbosa disse...

O que dizer?

EXCELENTE!

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