Sonhadores sexuais?

Como entender o comprometimento com a infidelidade na própria vida? O ser humano, ainda que imerso em princípios da moralidade, pode se permitir aos anseios de um súbito desejo? Qual sentido de um relacionamento se não há a euforia do amor e paixão? Interessante abordagem proposta pelo diretor e roteirista Paulo Halm no seu instigante filme Histórias de amor duram apenas 90 minutos. A película é uma discussão sobre as inconstâncias do sentimento juvenil, a relação da sexualidade e um pequeno recorte sobre os sentidos dos relacionamentos abertos e bígamos que se intensificam na esfera da sociedade. O foco narrativo centra-se em Zeca (Caio Blat), um homem à beira do colapso existencial, um escritor que não consegue finalizar seu livro e sente-se frustrado por isso. Reside num morno apartamento em companhia de sua esposa, Júlia (Maria Ribeiro). No completo ócio constante, eis que a infelicidade persiste nos laços conjugais ao ponto de Zeca não conseguir mais manter uma boa sintonia sexual com sua mulher. Seria um casamento já firmado com ausência de libido? Mas, o destino providencia a catarse: Zeca flagra Júlia em um quarto com sua melhor amiga Carol (Luz Cipriota) e crê que ambas têm um caso secreto. A desconfiança passa a ser gradual, o rapaz sustenta nas suas dúvidas e sua mente, a partir disso, garante todo um tormento particular. Todo o filme mantém a percepção centralizada no olhar do próprio narrador, Zeca - assim, todas suas fragilidades são expostas ao público concebendo uma intimidade identificável, crível. Será que ele estava sendo traído há muito tempo? Como entender essa descoberta que o corrói? Ou seria apenas um ciúme que estabeleceu a cegueira em sua vida?

Interessante que todo o mote do sexo paira no esqueleto argumentativo bastante delineado por Paulo Ham. Todos os diálogos não escondem o quão passional, intenso e sexual é seu personagem Zeca. É o típico homem que vive imerso nos próprios problemas das dúvidas existenciais - o que fazer para sustentar uma vida que quer? como ter inspiração para finalizar o livro que pretende terminar? a vida há de ser mais prazerosa? - e que não consegue conceber um rumo evidente aos anseios. Sua relação com sua mulher firma-se no condicionamento na teia tediosa da rotina - até as transas de ambos tendem a ser conformadas em padrões. Praticamente, Zeca tende a estimular a esposa a ter relações sexuais com ele, visto que se mostra um homem dotado de libido constante. É como se o orgasmo estimulasse uma energia já dispersa em sua vida, pois Zeca não consegue dar melhores contornos a sua vida senão ao vazio que o confunde. E ele se submete ao ostracismo social, vive no seu mundo de imaginações e sonhos - mas, sua realidade é ser sustentado pelo dinheiro da mãe falecida sob a administração do pai Humberto (Daniel Dantas), por quem nutre uma relação firmada em mágoas e frieza.

O destino de Zeca, em meio as suas turbulências internas de sonhos não realizados, passa a ter novos contornos: ao passo que desconfia que Júlia o esteja traindo com Carol - essa passa a viabilizar um novo sentido orgástico em sua vida. É o tesão expressando novos horizontes? Do desejo nada se sabe? Não há maneiras de internalizar a compreensão das funções libidinosas que se apoderam da carne. Eis que Zeca passa a desejar ardentemente a amiga de Júlia (ainda que ela possa ser amante de sua mulher), não consegue conter a sua libido que se torna mais nítida quando ele se masturba toda noite ao pensar no corpo da garota que causa um irremediável tesão dentro de si. Nota-se que Zeca transa com Júlia mais pela sua necessidade fisiológica, visto que é um homem com uma forte tendência aos anseios libidinosos. Então, Carol torna-se de amiga e amante de sua esposa para seu objeto de maior desejo: ele projeta nessa mulher, dançarina argentina, um modelo sexual de satisfação para todas suas aspirações de prazer. Enquanto erotiza suas visões ao imaginar um romance lésbico de sua esposa com ela, arde nele uma vontade de possuir essa misteriosa garota que domina todos os sentidos do seu dia a dia. É necessário trair? Há na mente de Zeca o fetiche da tentação de dividir-se sexualmente, como prato degustável do orgasmo, entre duas mulheres?

É um filme que aborda os percalços dos desejos que podem afligir a carne, a alma. Mas, o retrato de Paulo Ham vai além aos mostrar questões contemporâneas como sensos de moralidade, dúvidas existenciais de jovens que não insistem em amadurecer, inconstâncias do sentimento, ciúmes que se manifestam e inquietações da alma. A maneira como as ótimas atuações de Caio Blat (que sustenta a narração em off de seu personagem), Maria Ribeiro e uma enérgica Luz Cipriota se completam em cena, concebem uma atmosfera tangível - personificações da realidade de mundo? São questionamentos, sexualidade e anseios muito bem delineados. E o misto do drama com toques de humor tornam os diálogos coloquiais verossímeis. É interessante como o cinema nacional alia-se do vigor e da mudança nos paradigmas para estruturar um bom conto de sexo e reflexão. Seria também um retrato sobre a geração - humana - perdida em depressões? Dúvidas? Ou é apenas uma maneira de mostrar como todo ser humano, ainda que não demonstre, tende a ser infinitamente inseguro? Pelo menos Zeca não é representante do sexo frustrado. Belíssimo filme provocador, crônica cinematográfica realística.

Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos (Brasil, 2010)
Direção de Paulo Ham
Roteiro de Paulo Ham
Com Caio Blat, Maria Ribeiro, Luz Cipriota, Daniel Dantas, Hugo Carvana

33 opinaram | apimente também!:

renatocinema disse...

Fiquei curioso para assistir a produção. Espero apreciar....

Valéria Sorohan disse...

Captou momentos sublimes do filme. E os detalhes da sua construção. Quero ver!

BeijooOs

pseudo-autor disse...

Um filme que foi subestimado por uma grande parcela dos cinéfilos, mas que merece uma apreciação mais detalhada. E Caio Blat mostra, mais uma vez, porque é um dos atores mais interessantes da atual geração (junto com Selton Mello e Wagner Moura).

Cultura na web:
http://culturaexmachina.blogspot.com

lea disse...

interessante nao vi ainda,otima dica, bjos

Robson Saldanha disse...

Seus textos são excelentes e esse está fantástico. Até porque vi o filme a pouco tempo e percebo muito do que diz. Muito bom o texto, até melhor que o filme. hehehe que ainda assim é bom!

Dr Johnny Strangelove disse...

Ainda não tive oportunidade de ver e infelizmente por aqui vai demorar a chegar ...

Se puder, tentarei ver no Brasil. Abraços.

Tiago Britto disse...

Zeca está em uma situação muito estranha...não sei como pensaria estando diante deste momento em que é trocado por uma mulher que passa a ser o seu objeto de desejo..não sei o que dizer sobre isso, apenas tenho certeza que isso faz parte do cotiadiano de muita gente...cada dia que passa tenho mais certeza de que as coisas que vemos nos filmes acontecem...


Muito bom o texto!

alan raspante. disse...

Gostei bastante deste filme, é muito bacana a forma que tudo desenrola, já que grande parte vem da cabeça dele, afinal a mulher dele e a garota tinham mesmo um caso ?
Um filme muito bem feito e cativante!

Abs.

david era uma vez... disse...

Mais um filme para minha listinha!!
Cris.. ta tão bem escrito... que as vezes acho que suas sinópses são melhores que os próprios filmes!

Beijos meu querido

gabriel disse...

gostei do tipo desse filme, pelo que entendi tudo não passa de dúvidas. bacana, desde que ouvi falar dele eu estava com vontade de ver, após seu texto estou salivando para vê-lo (:
abraços.

Kamila disse...

Olha! Temos um filme nacional adulto e interessante! Que bom! Quero assistir!

Guilherme Sakuma disse...

Cara, a Maria Ribeiro tá muito gostosa nesse... (perdão pelo termo mas não tem outro que se enquadre).
Que homem trocaria uma mulher daquelas pela Luz Cipriota?? Ah para.
O Caio tá bonitão nesse também, não é minha praia mas eu tenho que admitir (sabia que ele também escreve na vida real?)

Abraço.

Fábio Henrique Carmo disse...

Não conhecia este filme. Pelo texto e comentários acima, parece ser uma versão moderna de "Dom Casmurro" (no que diz respeito à existência ou não da traição).Interessante!

Brenno Bezerra disse...

Sou muito fã da Maria Ribeiro, acho ela excelente em todos os seus trabalhos (atriz, roteirista, diretora). Não é preconceito, mas, o meu acesso ao cinema nacional é bem precário. Gostaria de reverter essa situação.

Brenno Bezerra disse...

Sou muito fã da Maria Ribeiro, acho ela excelente em todos os seus trabalhos (atriz, roteirista, diretora). Não é preconceito, mas, o meu acesso ao cinema nacional é bem precário. Gostaria de reverter essa situação.

Pedro Henrique disse...

É um começo promissor esse do Paulo. O filme não é tão bom, mas ele tem um talento visceral notável na criação de atmosferas.

M. disse...

Realmente este filme é surpreendente. Um abração.

Érica disse...

Uma crítica excelente, não sei se crítica ou resenha, mas passou bem o espírito do filme. Adorei e fiquei com vontade de assistir.

Beijos

JhonSiller disse...

Poxa ja quero assistir. Ja esta nas locadoras?

Wally disse...

Acho Caio Blat ótimo. Veria só por ele, mas o filme em si parece ser muito bom. Sua crítica, como sempre, está interessantíssima.

cleber eldridge disse...

Apesar de não ter um interesse muito grande no cinema nacional, quero conferir esse.

Magal disse...

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bruno knott disse...

Tinha lido bons comentários a respeito do filme e o teu texto me instigou ainda mais.

Mirella Santos disse...

Vi tanta gente falar mal desse filme que fico até com receio, mas eu adorei sua crítica me deixou interessada em ver, já quero ver pra falar no blog. Bjoss.

TH disse...

Primeira crítica positiva sobre esse filme, sério!
Quem assistiu, me disse que era fraco...
Mas quando puder contemplar, vou ver sob os enfoques dispostos por ti nesse post
:)

Edu O. disse...

Quero assistir!

Mariana & Roberta disse...

Fiquei curiosa. Será que vai chegar a Portugal??

Abraço

HSLO disse...

Hum...deve ser bom mesmo, quero assistir.

abraços

Marcio Nicolau disse...

"...a região do desejo
não é exatamente a do amor..."

Rodrigo Braga disse...

Feliz por acompanhar um crítico cinematográfico de mão cheia!

Anônimo disse...

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Alexandro Mota disse...

Nossa, que felicidade de encontrar essa critica, muito bem escrita, que capta de verdade a intenção e as confusões desse belíssimo filme. A primeira vista ele parece apenas reafirmar o que o senso comum diz: "filme nacional só tem sacanagem", mas esse eu conferi e não é sacanagem por sacanagem, eu juro!

Marcio Melo disse...

É mesmo um belo filme, gostei também.

Existe um certo "ar infantil" que Zeca carrega consigo e em relação ao pai também.

E porque o fascínio com personagens escritores frustrados é tão comum de em histórias deste tipo?

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