Ética Ferida?

O mal tem seus meios de vencer? A sedução do misto da sexualidade com a fama predestina à corrupção humana? A humanidade é livre mesmo da contaminação da falsidade? Existe personalidade totalmente íntegra? Eis o thriller Advogado do Diabo, um amplo efeito cinematográfico, uma obra de personalidade com inteligência. A trama foca no advogado Kevin Lomax (Keanu Reeves), dotado de astúcia, um típico ambicioso advogado da Flórida que jamais perdeu um caso. Não importa que tipo de crime ou culpa, Lomax tem o poder de seduzir o júri que sempre se rende aos seus argumentos e absorve seus clientes. Durante um julgamento fica claro para o próprio Lomax que seu cliente é culpado de molestar crianças. Entretanto ao invés de enfrentar seus dramas de consciência, ele se permite e se rende ao impulso de continuar como vencedor e de forma brilhante consegue virar o jogo, inocentando o acusado. E é através de sua irrevogável reputação que leva ao misterioso John Milton (Al Pacino), dono da maior firma de advocacia de Nova York. Lomax é convidado para trabalhar no departamento jurídico (criminal) com um alto salário e muitos benefícios. Estaria Milton seduzido pelo talento promissor de Lomax? Ele oferece uma vida luxuosa, um novo lar, salário exorbitante e toda a impiedosa ostentação de prazeres diversos – um imponente apartamento, festas da alta sociedade, mulheres bonitas, uma vida imersa no luxo efervescente. Enquanto Lomax evidencia sua forte tentação pra luxúria e do poder do luxo, completamente seduzido e disposto a favorecer seu profissionalismo ao misterioso Milton - sua mãe Alice Lomax (Judith Ivey), uma fanática religiosa, desaprova sua união: compara Nova York à Babilônia. Mas o tormento de Kevin Lomax se pronuncia dentro de seu matrimônio, sua mulher Mary Ann (Charlize Theron), à medida que vê seu marido progredir profissionalmente, presencia aparições demoníacas e passa a desconfiar sobre a relação do novo emprego com os efeitos sobrenaturais. Seria Milton algo maligno? O que se esconde por trás desse interesse? Qual o objetivo da firma de advocacia, afinal?

A película cinematográfica formula-se como uma forte, densa e precisa crítica a falta de ética na atuação de diversos advogados. Ao centralizar o foco em um personagem, a trama desenvolve e demonstra a violação de regras - também a ausência de boa conduta específica - no âmbito da advocacia. Para senso comum, o termo "advogado do diabo" se refere a uma pessoa que se posiciona em prol da argumentação. De acordo com o senso técnico, a expressão designava alguém que era responsável pela avaliação de processos de canonização da Igreja Católica. No filme tal expressão evidencia o seu sentido literal, pois a figura do diabo é representada pelo advogado John Milton. Lomax, imerso na cegueira de sua vaidade, dotado de impulsos anti-éticos, estaria se predestinado contra à religiosidade cristã. Ou seja, seria um instrumento da maldade, submisso à crueldade aliciada por algo diabólico. No decorrer do filme, nota-se os questionamentos de Lomax se ampliando cada vez mais, pois se por um lado ele tem plena consciência de que está defendendo criminosos, por outro não pode largar essa condição à pena do fim de seu sucesso e desenvolvimento profissional. Ele justifica suas ações dizendo que busca apenas segurança para sua esposa e para si próprio, sem se tocar que aos poucos está abandonando a quem tanto ama, deixando no ar a dúvida de qual de seus amores é maior, o amor por sua esposa ou por seu sucesso? Lomax se mantém obstinado em defender um cliente acusado de triplo assassinato e cada vez dá menos atenção à sua Mary Ann, enquanto o seu misterioso chefe parece sempre saber como contornar cada problema e tudo o que perturba o jovem advogado. Mary Ann avança num estado de completo medo, neurose e tormentos psicológicos - Kevin Lomax passa a compreender a teia macabra do qual está inserido. Quão ardiloso é seu chefe?

O roteiro, tentadoramente simbólico e rígido em sensualidade sinistra, provoca angústia. É tenso, é grandioso, é assustador. Mais que isso, é reflexivo. Evoca discussões antigas do caráter do ser humano como livre arbítrio, vaidade, cobiça e desonestidade. É um filme que choca, faz o espectador parar para pensar no que acabou de ver - há certa tensão crescente inigualável - ao decorrer de todo as sequências - provoca sensação de sufoco no espectador, um trabalho de terror psicológico que funciona além da esfera de puro entretenimento. Há um interessante olhar sobre o materialismo do ser humano do século XX, um estudo sobre vaidade e poder, diluído em história de fantasmas e conduzido com pulso firme. Um trabalho de tonalidades fantásticas sobre o processo de corrupção da alma de um ser humano. A película revela aspectos do ser humano: pessoas tendem a serem obstinadas por um objetivo, negligenciam seus valores éticos e morais, tornam-se cegas perante a vida - predestinadas ao pecado? A sociedade neoliberalista ilude com armadilhas sensuais, as pessoas têm o direito do livre arbítrio, mas são tentadas na vaidade ou ganância. A delícia do bem em oposição com o mal? Kevin Lomax tem o livre-arbítrio de servir ao demoníaco? O roteiro discute a grande importância do ser humano em se manter íntegro, inviolável à sedução do mal em terreno humano. Como não se permitir à corrupção da perda da própria moralidade? Além disso, Lomax se permite às seduções das mulheres que Milton coloca a sua disposição – o senso de infidelidade, da luxúria, torna-se também um vício em sua vida.

A fotografia flagra uma Nova York decadente, poluída e fascinante - tons avermelhados e dourados, puro charme; direção de arte com requinte clássico com elementos visuais puramente estéticos. A verve sonora composta por James Newton Howard é um misto de tensão e mistério, delícia instrumental. A direção de Taylor Hackford é elegante, densa e concebe atuações espetaculares do trio central: Keanu Reeves, Charlize Theron e Al Pacino - este em momento inspirado, principalmente no final apoteótico, praticamente um monólogo brilhante do ator. A sequência final causa um impressionante impacto: Pacino, altamente expressivo, profana um discurso ardente - questionando as atitudes divinas e terrenas, bem como alfinetando as contradições entre elas. Sedução, argumentos incisivos firmados em questionamentos e muito subjetivo no roteiro brilhante. O filme discute a grande importância do ser humano em se manter íntegro, inviolável à sedução do mal em terreno humano. Como não se permitir à corrupção da perda da própria moralidade? A maldade é, antes de tudo, algo relacionado, também, à própria existência e aos princípios íntimos. Quem age satanicamente é o indivíduo que despreza seu senso pela humanidade, afinal a ausência de egocentrismo e da vaidade, contextos anteriores até a humanidade, não permite a proliferação do mal que é oriundo das vicissitudes carnais. A dependência ao poder do dinheiro amplia essa avidez impiedosa pelo exercício da crueldade. E o mal surge sempre aliado ao gosto pela ignorância, indiferença e insensibilidade - artifícios constantes da inconsciência. "Ninguém é mau voluntariamente", já disse Sócrates. A percepção da maldade ou de sua presença demonstra a existência ou um erro de interpretação da realidade? Um filme deliciosamente simbólico, uma pequena obra-prima.

The Devil's Advocate (EUA, 1997)
Direção de Taylor Hackford
Roteiro de Jonathan Lemkin e Tony Gilroy, baseado no livro de Andrew Neiderman
Com Keanu Reeves, Al Pacino, Charlize Theron, Jeffrey Jone, Judith Ivey, Connie Nielsen

30 opinaram | apimente também!:

Marilia disse...

Este é um dos meus filmes favoritos. Adoro o modo como a narrativa se constrói e como Kevin vai se deixando seduzir por John.

Adorei a resenha que esclarece sem tirar o prazer de ver o filme.

Amanda Aouad disse...

"A maldade é, antes de tudo, algo relacionado, também, à própria existência e aos princípios íntimos."

Pois é, o que mais me marcou nesse filme foi isso. A questão intrínseca do ser humano. Aquele final mostrando que mesmo sabendo de tudo somos capazes de sucumbir novamente é fantástico.

bjs

DiogoF. disse...

Acho-o um péssimo filme e, como tal, não posso concordar nada com a crítica ;)

Cumprimentos.

Gustavo disse...

Não tinha ideia de que o filme comportava uma leitura tão aprofundada. Cabe ao espectador inteligente expressar aquilo que sentiu e visualizou em obras de conteúdo.

Dele, só me lembro de gostar da atuação de Charlize Theron. Talvez eu reveja, algum dia.

Richard Mathenhauer disse...

Um grande filme!

Excelente sua análise e comentário.

Abraços,

thicarvalho disse...

Realmente um bom filme. A atuação de Al Pacino é fantástica. Parabéns pelo texto, que toca em pontos importantes do filme. Grande abraço Cristiano.

Visitem

www.cinemaniac2008.blogspot.com

Edson Cacimiro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
cleber eldridge disse...

Desde a premissa, o filme já não me agrada, o Keanu Reeves é um ator que não gosto.

Rodrigo Mendes disse...

Certamente eu dou risada pelos meios que usaram para abordar ética humana neste filme de terror B. Apesar do assunto ótimo (que seria mais conveniente numa trama do gênero Perry Mason de Erle Stanley Gardner do que com a fantasia com o diabo), eu acho o filme ruim e tosco.

Al Pacino é um caso à parte.

Abs!
Rodrigo

pseudo-autor disse...

As sucessivas repetições dele no Warner Channel contribuíram para que minha admiração pelo filme aumentasse. E o elenco é ótimo! Foi uma fase precursora na vida do Keanu, que depois partiu para Matrix e Constantines da vida.

Cultura na web:
http://culturaexmachina.blogspot.com

Fábio Henrique Carmo disse...

Vi esse filme ainda no cinema, quando era universitário. Na época, me causou muito impacto, mas, hoje, em certos aspectos, percebo que o filme envelheceu. Continua sendo um bom longa, mas creio que defini-lo como uma obra-prima me pareça um pouco exagerado.

O que continua causando o mesmo impacto é a beleza da Charlize!

bruno knott disse...

Um bom roteiro e um Al Pacino pra lá de inspirado dá nisso!!!

Belo filme.

Kamila disse...

Eu gosto muito da discussão que este filme faz. Porque ele toca num ponto interessante: o que você é capaz de fazer para conseguir o que quer, para progredir na vida, etc???

Para mim, também, o filme traz a grande atuação da carreira do Keanu Reeves.

Wally disse...

Preciso urgentemente rever este aí, do qual assisti nos meus primórdios da adolescência.

lea disse...

hum eu achei o maximo esse filme, faz tempo que assisti, de repente ve-lo de novo, ja vai me dar outra opiniao., sera????bjos

Adriano Mariano disse...

Um dos melhores filmes que eu já vi. Em época de baixar filme da net, esse é o que eu faço questão de comprar...

Renato Tavares Mayr disse...

Adoro esse filme! Al Pacino tá espetacular, e aquele final é impressionate. Foi um filme que realmente mecheu comigo, porque não ligo pra filmes violentos, assisto numa boa, mas tem cenas nesse filme que embrulham o estômago só de lembrar...

Ótimo texto, Cris!

Gabriel Von Borell disse...

Advogado do Diabo é realmente uma pequena obra-prima ! Impossível não curtir . Parabens pelo texto !
abraços .

Leonardo disse...

Acho um filme bom, mas não chega a ser uma grande obra. Adoro Al Pacino, mas ele não vem bem no últimos anos, apesar de que nesse filme ele é o destaque nas atuações. E não gosto do Keanu reeves, acho um ator muito fraco.

Abraço

http://omundodoscinefilos.blogspot.com/

Mateus Souza disse...

Não gosto desse filme. Acho que o tema (interessante)poderia ser abordado de melhor maneira. Gosto da atuação de Reeves (que não é tão ruim quanto dizem).

Sem falar da imagem ruim que passa dos operadores do Direito - o diabo tem um escritório de advocacia? auhhua.

Abraço!

M. disse...

Oi Cristiano!!! Esse filme é daqueles que a gente assiste, assiste, assiste e não se cansa de assistir. Al Pacino está sedutor e encantador. A personagem Keanu Reeves é muito interessante. Um abraço grande.

São disse...

"O Advogado do Diabo" é um dos melhores filmes que ainda vi.

E tenho-o lembrado muito e citado igualmente nestes dias por causa do caso Casa Pia.

saudações por sobre o oceano.

leo disse...

Na época em que o filme passava muito na tv,minha mãe nunca deixava eu assistir o filme (vai entender),mas nunca me senti curioso pra assistí-lo.
Mesmo que no elenco tenha Al Pacino e Charlize Theron,excluo Keanu Reeves de qualquer coisa.

joyce domingos disse...

para mim é um ótimo filme...concordo com tudo que vc escreveu - diga-se de passagem,brilhantemente.

vale ressaltar a atuação de charize teron,o declínio de mary ann me atordoou!


bjk

Clenio disse...

Keanu Reeves é foda... no mau sentido. Ele quase consegue estragar o filme, que, na minha opinião, tem qualidades e defeitos. O principal é Reeves, que não convence nem como ele mesmo... A reviravolta que envolve sua mãe também me incomoda, mas em compensação o final é sensacional, Al Pacino dispensa comentários e Charlize Theron rouba o filme descaradamente.
Adoro os créditos finais com Rolling Stones (ainda que seja meio clichê ligá-los a tudo de demoníaco que existe...) e acredito que ele transcende o gênero "terror" por causa das discussões que suscita. Um filme digno do talento de Pacino.

Abraços
Clênio
www.lennysmind.blogspot.com
www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com

Foose disse...

Ótimo filme, tem um ritmo muito bom, com suspense sensualidade. Keanu Reeves e Charlize Theron dão um show, sem contar com o sempre bom Al Pacino que é ssustador, forte, objetivo, emocionante e o melhor representante do senhor das trevas em filme que eu já vi. Para mim é o melhor papel de Al Pacino (ao lado de "Perfume de Mulher"). Não entendo como não teve premiações, afinal ele ensina uma coisa muito importante: dê sempre valor à pessoa que está ao seu lado, não troque-a por coisas materiais, depois pode ser tarde...

Um grande abraço...

RENATO disse...

Adoro esse filme. Melhor, nesse estilo, somente Coração Satânico com De Niro em grande fase.

Juliana Barbosa disse...

Muito boa essa resenha!

Não entendo pq demorou para postar!

Beijo

vale a pena disse...

Como você analisa bem os filmes!Adoro ler as suas observações tão bem qualificadas. Além disso, vc sempre seleciona ótimos filmes.Seu blog é sempre consultado por mim.

Anônimo disse...

Perche non:)

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