Amor Impossível?

Romances tendem a mexer com a sensibilidade, pois exerce uma representação sobre as características do sentimento e dos desejos humanos - até para os mais racionais, é difícil não se contagiar com um enredo que aborde contextos sobre amantes, humanos absortos em vontades conseqüentes da paixão. A importância de uma boa trama com teor romântico é reservado à necessidade de química de um casal em cena. Ou mesmo na transparência da impossibilidade do tal amor proibido. O que move No amor e na guerra é justamente o aflorar de uma relação tão improvável que se torna viável. Baseado nos diários de Agnes Von Kurowsky, que vivenciou uma trajetória verdadeira de amor, durante o período da Primeira Guerra Mundial, com um jovem que viria a ser um dos maiores representantes da literatura do século XX, Ernest Hemingway. O material foi lançado originalmente em 1989 (organizado por Henry S. Villard e James Nagel), tornou-se best-seller, exercendo fascínio e curiosidade. O livro trazia cartas anexas de Agnes ao escritor, bem como diários sobre o relacionamento que tiveram. É então que o filme do diretor Richard Attenborough consegue trazer toda a essência dessa história verídica, condensando todas as partes principais, inclusive diálogos inteiros. O filme foca na fase onde um jovem Ernest (Chris O'Donnell) se alista para lutar na guerra, como repórter no norte da Itália. Rapidamente vivencia o horror e a crueldade da atmosfera desse período. Sofre um atentado, tem a perna gravemente ferida e corre risco de amputação. É então que encontra amparo, num hospital em Milão, no auxílio de uma dedicada enfermeira austríaca, Agnes (Sandra Bullock). Ela mostra um carinho nítido, subitamente ambos tornam-se ligados. Disposta a salvá-lo, ela convence os médicos a tentar um tratamento alternativo, para que seu paciente não sofra amputação na perna. Durante o processo de recuperação, Ernest sente-se atraído pela enfermeira que o trata formalmente, mas com um zelo intenso. É o tesão que cresce, e o casal não consegue mais conter os delírios de desejo. Contudo, a relação de ambos parece predestinada ao impossível - como lidar com um sentimento naquele momento? Seria imaturo viverem aquele anseio louco? O que fazer para conter esses ímpetos? Curiosamente, essa história verídica inspirou o já então escritor Ernest Hemingway a conceber sua maior obra-prima, o livro Adeus Às Armas.

O filme foca no doloroso contexto do plano da Primeira Guerra Mundial - onde Ernest transita como enfermo nesse período, repleto de dores de corpo e alma. É onde ele vivencia a violência, a atrocidade ao seu redor. São amigos que perdem, feridos e vítimas de batalhas que desmontam toda sua visão de mundo. É onde confrontam um momento onde perdas são constantes, numa esfera de emoção e conflitos adornados de desespero. E é nessa teia sombria que Ernest e Agnes são apanhados pelo sentimento, no fogo cruzado de um desejo que cresce na guerra - como imaginar que existiria algo tão prazeroso a brotar ali? E o casal parece não entender como uma relação tão súbita pode dar certo. Agnes demonstra certa frieza aparente, mas na verdade é uma máscara pra conter seus desejos pelo jovem rapaz, seis anos mais novo, que atiça e seduz - interessante a maneira de colocar um Ernest sexual, dotado de desejos juvenis masculinos, disposto a provocar a formalidade e distância estabelecida pela enfermeira que cuida de seus ferimentos. E o filme monta essa relação de ambos, onde a sintonia dos dois cresce, com anseios libidinosos sutis e uma tensão sexual a ponto de explodir. Seria mais que um flerte? O que fazer para colocar em prática esse sentimento? Para Agnes, existia a insegurança. Ernest, um típico passional, prefere demonstrar seus desejos e também é o primeiro a colocar em questão: ele a ama, então a quer para si. Há frases que exemplificam essa atmosfera passional que o casal concebe, ainda mais que o roteiro tende a centralizar apenas nos dois a problemática do argumento.

Interessante que a tensão sexual dos dois é evidente, ainda que ambos não explorem logo esse sentido. Entre flertes, diálogos sentimentais e sintonia de uma notável química - Ernest e Agnes simbolizam o envolvimento lúdico, a relação natural de um homem que ama uma mulher e vice-versa. Eles estabelecem um envolvimento intenso, ainda mesmo antes de se tocarem - e o roteiro, bem verdade, fiel ao material do livro, consegue transpor essa relação de sentimento e desejo que o casal explora. Interessante também a forma maternal que Agnes exerce sobre Ernest - enquanto cuida de seu ferimento, com medo de que não vire uma gangrena, ela o toma com todos seus cuidados. E é ela que estabelece também o senso de racionalidade na relação de ambos - será que dará certo? Um rapaz tão novo assim iria querer algo sério com uma enfermeira? É possível acreditar nos sonhos que esse rapaz expressa? E Agnes contraria as regras - tanto do hospital (por decidir cuidar dele sozinha, opondo-se a possibilidade dele amputar a perna) quanto da sociedade (uma mulher que decide ser dona de seu próprio destino). E traçam planos pro futuro, porém reviravoltas são expostas no filme - e o casal precisa mostrar, de fato, se o sentimento é capaz de enfrentar todos os obstáculos. É onde mágoas ocorrem, tons mais emocionais são ocasionados por situações e o casal parece entrar em catarse negativa. Todo o filme é narrado sob a voz e perspectiva feminina de Agnes. Interessante que ao encenar o seu diário, o filme foca nesse contraponto de amor difícil e sofrimento diante das hostilidades da guerra.

O mais prazeroso no roteiro é como a delicadeza, a transparência de sentimento consegue ser expressa em cena. Há um desempenho contido, porém bem personificado por Sandra Bullock - talvez, por ela própria ter lido o livro mais de duas vezes e conhecer toda a trajetória real, consegue representar bem a sensibilidade de Agnes Von Kurowsky. A direção de Richard Attenborough prioriza o melodrama plastificado de romance impossível, explora bem os closes e na dualidade desse casal. Chris O'Donnell expõe um Ernest mais imaturo na primeira metade do filme, contudo é na segunda que ele estrutura uma dose de melancolia e um olhar mais rígido ao seu personagem real. Com uma melancólica melódica trilha sonora de George Fenton, fotografia de Roger Pratt; o filme se propõe a mostrar que, às vezes, relações efêmeras podem ecoar para toda uma eternidade - são intensas, repleta de paixões que cicatrizam seres amantes. A cena que ambos dançam nus, num quarto de bordel, é puro deleite romântico. O tom realista do filme atinge o ápice nos momentos finais, onde os personagens reais mostram ao que veio e tudo é exposto com sinceridade numa densa cena triste. O amor consegue evocar a beleza de mundo, mas também conduz às reformas íntimas que são puramente reflexões. E amar também é sofrer de ódio, de orgulho e de dor que é difícil esquecer. E é um trabalho que pauta um breve período de sensibilidade, não menos significativo, de um escritor que é um ícone da literatura.

In Love and War (EUA, 1996)
Direção de Richard Attenborough
Roteiro de Allan Scott, Clancy Sigal, Anna Hamilton Phelan
Com Sandra Bullock, Chris O'Donnell, Mackenzie Astin, Ian Kelly

20 opinaram | apimente também!:

renatocinema disse...

Esse filme não me atraiu por não ser fã do casal de protagonistas. Não gosto de Bullock, achei uma vergonha ela vencer o "Oscar" e o ator também não me convence. abs

Mateus Selle Denardin disse...

É inegável que esse momento da sua vida tenha sido importante e, por isso, formador do que Hemingway veio a ser. Só que o filme não é tão eficiente em mostrar, acredito que mais por opções equivocadas na direção, toda essa modificação do personagem. Que isso tenha acontecido em meio a uma guerra e, mais ainda, durante uma experiência amorosa tão marcante, parece servir mais ao filme do que o desenvolvimento do escritor ou, ainda, da própria enfermeira. Attenborough, que entregou uma das mais poderosas cinebiografias que já vi (GANDHI), ficou devendo aqui. 5/10

cleber eldridge disse...

Nossa! Me recordo que comecei a assistir esse filme, há muito tempo atrás, mas, não terminei!

alan raspante. disse...

não conhecia o filme, mas sendo de guerra e com bullock como protagonista, eu encaro! hehehe

abs.

Edson Cacimiro disse...

Não vi esse filme, lembro de te-lo visto na época do lançamento mas acabei pegando outros e ele caiu no meu esquecimento.

M. disse...

Como sempre Cristiano você nos presenteia com um texto maravilhoso! Preciso ver este filme! Um abração.

Fábio Henrique Carmo disse...

Taí um filme que eu não dava nada por ele. Vai entrar na minha lista agora! Grande abraço e vou procurar aparecer mais!

Rita Contreiras disse...

Assisti há muito tempo, mas senti vontade de rever ao ler seu texto.Com certeza a percepção dessas sutilezas que vc coloca exige um olhar mais apurado, mais sensível e uma maturidade de quem assiste pra entender algumas questões q vc expõe com grande propriedade. Lembro algumas coisas. Gosto dos protagonistas. Irei vê-lo novamente(mais um!!!).bj

Luiz Neves de Castro disse...

Cristiano, sinto-me honrado e feliz. Honrado com sua visita ao meu blog e por ser leitor-seguidor do Apimentário, um blog que pela excelente qualidade, dispensa elogios. E Feliz por saber que você é amigo de minha filha Eliana. Carinhoso abraço.

Carlos Augusto Matos disse...

Ainda não vi o filme, mas vou procurar ver...

Abração...

Kamila disse...

Esse filme é MUITO, mas MUITO chato!!!!

Mariane disse...

Gosto da tua forma de comentar.. das tuas narrativas..

Estou sempre por aqui, em silêncio, meio invisível, mas acompanhando cada passo teu..

Uma ótima semana..!

;)

Wally disse...

Bem, o diretor é bom, os atores são legais e o texto é motivador. Fiquei curioso.

O Antagonista disse...

Esse filma não assisti... Entretanto, seu post me fez lembrar da existência do Chris O'Donnell. Caramba, faz muito tempo que não ouço falar dele, desde que fez o papel de Robin... rs.

valeu!

pseudo-autor disse...

A história teria funcionado bem melhor nas mãos de um outro elenco. Falta carisma na dupla!

Cultura na web:
http://culturaexmachina.blogspot.com

R.Vicenth disse...

Muito bom, ou melhor, ótimo o seu blog.
Estou te seguindo. Já sou seu fã! ^^
A abordagem que você faz dos filmes é simplesmente impressionante.

Mayara Bastos disse...

Tentei assistir, mas acabei dormindo no começo, porque estava cansada. Vou dar mais uma chance a ele depois que seu texto me animou.

Beijos! ;)

Amanda Aouad disse...

Vi esse filme há tanto tempo que nem lembrava que era com Sandra Bullock, hehehe. Na minha memória podia jurar que era com Julia Ormond. (vergonha alheia).

Apesar de não parece, pela fraca memória, gosto muito da história, da forma como ela luta pela perna dele e a relação começa. E toda a resolução. Deu vontade de rever.

bjs

Cezzarus Guinness disse...

Olá! Inclui o link de vocês na lista de blogs amigos do meu blog.

Dêem uma conferida no meu blog: http://avoltadosmortosvideos.blogspot.com/~

Abraços!
Cezzarus

Rodrigo Passos disse...

maravilhoso texto!

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