Dolorosa Puberdade

Como compreender a juventude que insiste no que é prejudicial? O que estabelece o equilíbrio numa fase onde a imaturidade parece persistir? A adaptação do ousado livro autobiográfico de Jim Carroll exerce um importante recorte da realidade - a adolescência problemática, repleta de vícios e imersa no condicionamento do sexo promíscuo. Expresso na música, principalmente na literatura, desde cedo – Carroll escrevia poemas e sensações de mundo em seu diário. Quem aprecia hoje o poeta, desconhecia boa parte de seu passado obscuro. Diário de um adolescente tornou-se referência de estudo na década de 90, por expressar a cruel e assombrosa vivência do universo das drogas na sociedade e na família. A experiência amarga e emocionante de Carroll recebeu a direção emocional de Scott Kalvert, sob o roteiro de Bryan Goluboff que condensa toda a essência do material originado do livro (o material condensa as anotações do autor do período de seus 12 aos 16 anos). É um filme que pauta a dependência que destrói o ser humano, psico e comportamental. A trama centraliza na trajetória de Jim Carroll (Leonardo DiCaprio), no início da década de 1970, nos guetos de Nova York. Na ebulição de sua puberdade, torna-se um promissor jogador de basquete, porém imerge no submundo das drogas - transformando-se num marginal viciado, permite-se aos furtos para sustentar seu consumo irrefreável. Como conter os impulsos destrutivos? A dependência psíquica de Carroll e de seus três inseparáveis amigos - Pedro (James Madio), Mickey (Mark Wahlberg) e Neutron (Patrick Mc Gaw), o mais consciente da turma - torna-se intensa. Topam qualquer condição apenas para ter acesso às drogas. Inclusive, prostituindo-se. O longa-metragem provoca pela premissa tangível, contundente e percorre a sufocante vivência de um jovem que remodelou seu próprio destino. Eis o redemoinho inebriante da sensação ilusória que o sexo desmedido potencializa e a droga evidencia.

Jim Carroll retrata em seu diário todos seus vícios, sua trajetória ao inferno - o êxtase do consumo diário de drogas que já se torna parte de seu ser. Se inicialmente drogas apenas para melhorar o rendimento no esporte, com a progressão do uso o vício torna-se incontrolável. E o roteiro constrói toda a catarse macabra do personagem real rumo à destruição. De bom aluno e dedicado jogador de basquete, é expulso com seu amigo Mickey de um importante colégio católico onde estuda. A mãe de Carroll (Lorraine Bracco) também não consegue mais conter os ímpetos agressivos do filho, coloca-o na rua. Sem auxílio familiar, marginalizado, é então que a vida torna-se uma gama de abusos de entorpecentes, crescente onda de violência, mergulhando numa realidade perdida de conflitos. Jim Carroll torna-se viciado pelo meio do senso da sexualidade, visto que seu primeiro contato com as drogas é através de uma garota - ela o convence a usar cocaína para estimular um melhor desempenho sexual. É então que a libido, tão característica nessa fase juvenil, encontra reforço pelo contato com as drogas - como fugir dos prazeres sedutores da sexualidade que ofusca a razão? O efeito do uso de entorpecente químico logo afasta Carroll de sua ligação com o esporte, seu mundo desaba irremediável. Como controlar este vício crescente? Como retomar à promissora vida de outrora? E o universo de vício é também o da busca pelo favorecimento da sexualidade, inclusive pelo mesmo sexo.

Os garotos em sua rebeldia crescente, visto que a dependência transforma o caráter e o senso comportamental, aliam-se do sexo para manter o vício. Do uso da cocaína, passam para a heroína - de usuários experimentadores à dependência incondicional. Encontram na prostituição, no sexo com outros homens, preferencialmente, a intenção de usar o lucro na compra de drogas. O filme mostra essa onda de prostituição, principalmente de Carroll que busca sexo oral com homens em banheiros públicos ou estações de metrô. É a cruel realidade de jovens que se submetem a essa condição da sexualidade, a prática imoral e os atos sexuais ilícitos que coloca a discussão da dignidade humana. Neste meio do submundo das drogas, Carroll e seus amigos têm acesso às pessoas que se renderam ao vício e não consegue mais retomar as rédeas da própria vida - indivíduos perdidos, num mundo onde a própria percepção se esvaiu, reflexos do uso abusivo de narcóticos, anfetaminas e entorpecentes que modificaram toda a estrutura comportamental. Toda a realidade é exposta sob a ótica de Carroll: um universo de prostituição, onde jovens desorientados marginalizam-se pelas ruas, numa completa sociedade calamitosa. Ainda que receba ajuda de um ex-viciado, Reggie (Hernie Hudson), Carroll não consegue se desvencilhar do vício - o roteiro desnuda muito bem como a droga corrói o ser, é inevitável se desvencilhar.

A homossexualidade é abordagem dentro do cenário deste caráter da prostituição; além de ser colocada em pauta quando Carroll enfrenta assédio sexual do seu treinador de basquete. É um longa que exerce um forte teor de dramaticidade - principalmente pela inspirada atuação de Leonardo DiCaprio, em cenas densas onde seu personagem enfrenta a abstinência ou dissolve-se em dor por ter que se prostituir. Há cenas dolorosas, onde apenas a câmera focaliza os gritos e o desespero de um jovem que não consegue mais controlar a própria vida, perdido pelo domínio de uma droga que dilacera toda alma. É um ser destruído pelo vício, corrompido pelo sexo sujo. É um filme que concretiza a esfera da prostituição como forma de sustento das drogas; da tristeza de jovens que estão também inseridos na linha entre o perigo de contrair doenças como AIDS. E Carroll simboliza toda uma realidade, sustenta um grito de alerta à sociedade que ainda insiste em não observar como esses caminhos tortuosos podem ser devastadores, sem volta. Jovens como ele jamais tem consciência de como a dependência destrói, de que estão de fato firmados neste condicionamento - a maioria acredita que tem o poder de retroceder o uso das drogas quando quer. A fotografia do filme investe em cores avermelhadas, tons de azul. A direção cuidadosa de Kalvert seduz pela narrativa imagética, closes que captam a atmosfera dessa juventude inquieta. A trilha sonora, com hinos clássicos como ''Riders On The Storm'' do The Doors, revitaliza a efervescência transgressora juvenil da película. A injeção de realidade neste filme impressiona, sonhos são destruídos, porém a reflexão torna-se exercício necessário.

The Basketball Diaries (EUA, 1995)
Direção de Scott Kalvert
Roteiro de Bryan Goluboff, baseado no livro de Jim Carroll
Com Leonardo DiCaprio, Mark Wahlberg, Lorraine Bracco, Ernie Hudson, Juliette Lewis, Bruno Kirby Jr.

33 opinaram | apimente também!:

Thiago Paulo disse...

Comprei esse filme esse dias e pude assisti-lo, coisa que fiz a muito tempo, na época de escola. Realmente é um ótimo filme, e o DiCaprio está excelente em cena. Teve uma época - TITANIC- que o galera só fazia piadinhas, mas já neste filme ele demostra ser um bom ator.

Abraço, e adorei a analise. Parbéns!

renatocinema disse...

Sem dúvida esta entre os melhores filmes que retratam a juventude. Essa produção demonstrava que o Di Caprio realmente queria uma carreira sólida e não personagens "bonitinhos". Eu adoro esse filme. Abs

lucidreira disse...

Realmente o DiCaprio está demonstrando uma maturidade inconfudivel.
Abraço

O Garoto Perdido disse...

Esse é um daqueles filmes que tinha tudo para ser um filme bobo e cansativo, mas causa a impressão totalmente contrária. Um daqueles clássicos usados por professoras para fazer trabalhos de ensino fundamental. Sempre ótimo rever. Excelente resenha, abraços.

M. disse...

Olá Cristiano!!! Taí um filme inesquecível e que merece ser visto de novo!

Tania regina Contreiras disse...

Ando sumida daqui, dali e de acolá, Cris, mas sempre que posso estou aqui te lendo... Nem sempre comentando, porque...enfim, vc sabe que fico devendo assistir a alguns filmrs e esperando por Leiro, que é o meu fornecedor de filmes...:-)
Beijos, e gostei, como sempre, da sua leitura...

Amanda Aouad disse...

Esse filme é um marco, lembro que na época fiquei impressionanda, mas confesso que hoje lembro pouco dele. Depois do seu texto acho que preciso rever.

bjs

Guilherme Sakuma disse...

Quando garoto, acho que assisti à esse filme umas sete vezes. Gosto muito.

Igor Carvalho barbosa disse...

Adorei a interface do blog, e os filmes escolhidos tb!

Basketball diaries, em especial, nunca assisti, mas seus comentaram instigam a exibição

Parabéns!

Kamila disse...

Para mim, o filme faz um bom retrato de um jovem e seus problemas e anseios. O bom também é a ótima performance do Leonardo di Caprio.

Foose disse...

Olá meu amigo!

Este filme é excelente! A fabulosa performance de Leonardo DiCaprio é um grande atrativo para abordar o tema drogas. O qual é retratado divinamente, passando a dependência, os momentos de fraqueza e tudo mais na vida do jovem adolescente que retrata tudo em poemas no seu diário. Vale a pena com certeza!!!

Um grande abraço...

Jonathan Nunes disse...

Assisti esse filme no tempo da escola, e já faz muito tempo. Mas ainda lembro o quanto o filme me chocou naquela época. O filme tem um bom roteiro e a atuação de Leonardo DiCaprio já mostrava a sua força. Ótimo texto Cristiano. Parabéns.

Jota disse...

Vou baixar esse filme. Já havia ouvido falar, mas não sabia que ele tinha essa ótica.

Abraços

TH disse...

Assisti esse filme - pasme- na escola! Muito corajosa a atitude de mostrar um filme tão pesado a adolescentes de 14 anos na epoca. O filme é mesmo um soco no estomago...
Um dos meus preferidos!

Emmanuela disse...

Eu assisti em tempo de escola, o próprio colégio exibiu para a turma. A lembrança que tenho é de como o filme me alterou psicologicamente. Altamente truculento e realista. Preciso rever, agora com mais maturidade.

Tiago Britto disse...

Este é um filme muito bom e mais um que faz do Leonardo Dicrapia uma certeza de sucesso. O mundo das drogas realmente é muito complicado e difícil de ser abordado, o que você retratou de ser prostituir, me recordo ter sido umas das coisas que mais impressionou no filme! Grande filme e Grande texto!

Alexandre Alves disse...

A primeira vez em que assisti a este filme me encontrava ainda sob o olhar turvo da adolescencia... um ano após construir um relacionamento de amor e ódio com o cinema(é, pq os filmes apontam minhas verdades rsrs, reassisti este filme com um novo prisma, e digo que é uma película que fala muito acerca da mente jovem que deseja se preencher, porém busca vias que tende a se esvaziar mais e mais.

O Leonardo di Caprio atua de forma profunda, deixa marcas e encarna o personagem. Ele destrói a tendencia do filme se tornar mais um clichê dos personagens revoltados em sua juventude, e traz a tona o sujeito em crise dentro do cinema, um filme desarmado do maninqueísmo. Um filme "humano, demasiadamente humano".

JhonSiller disse...

Que nome sugestivo!

Edson Cacimiro disse...

Preciso reve-lo, vi há muito tempo esse fime,mas lembro que o 'Léo' dá um show, e o filme também é muito bom.
abç Cris
www.osenhordosfilmes.blogspot.com

Alice disse...

Oi, Cristiano!

Infelizmente eu não vi esse filme, por enquanto. Mas, como sempre, fui convencida pelo seu post e me vejo ampliando a minha lista de filmes que desejo ver mais uma vez.

Já fazia um tempo que eu não comentava, espero que me perdoe por isso.

Beijos,

Alice

Carlos Augusto Matos disse...

Ainda não vi este filme, mas vou providenciar pra ver...

Abração...

Marcio Melo disse...

Pequeno grande clássico, o nascimento de um monstro do cinema.

Deu vontade de rever o filme

Mariane disse...

Olá, tudo bem?

Então, seja bem vindo ao meu espaço... fico feliz de saber que gostou.

Passei a acompanhá-lo tbm... Adorei estar aqui...

Um beijão, e ótimo final de semana, pessoa especial!

;)

loveandglamour disse...

Tem Leonardo? Vou assistir agora!

pseudo-autor disse...

Dos primeiros da carreira dele é disparado o melhor. E é impressionante a evolução dele a cada novo filme!

Cultura na web:
http://culturaexmachina.blogspot.com

Vanderson disse...

Esse filme é muito bom e é a cara da minha adolescencia na verdade pré... não sou tão velho assim... ¬¬
Abraçooo!

cinecabare disse...

oi Cristiano, eu ñ vi esse filme mas sua critica é excelente. ñ é um tema q me atrai; as drogas embora devo confessar q sou fan do Leonardo. é um excelente ator. quero te agradecer por ter visitado meu blog e ter deixado um comentario. concordo q para vc Os Vampiros que se Mordam pode ter méritos q eu ñ vi. é normal. melhor vc assistri e depois me contr. certo? podemos fazer parceria? grato e forte abraço

http://cinecabare.blogspot.com/

Luis Baptista disse...

O dicaprio está realmente cada vez melhor!

Rodrigo Gerace disse...

Não gosto muito das interpretações do DiCaprio, mas este filme ainda o salva do naufrágio do Titanic... Boa crítica :-)

Edu O. disse...

Estu ausente por causa de viagens, mas é sempre bom vir aqui e ler vc.

Mirella Santos disse...

Vou te confessar que quando te indiquei não lembrava de quase nada, mas foi lendo sua resenha e o filme ia repassando mentalmente. Adorei mesmo e vou procurar rever pra perceber coisa que não tinha percebido antes. Muito bom esse filme e um tanto chocante pra quem é mais novo. Bjss Cris.

Mirella Santos disse...

Vou te confessar que quando te indiquei não lembrava de quase nada, mas foi lendo sua resenha e o filme ia repassando mentalmente. Adorei mesmo e vou procurar rever pra perceber coisa que não tinha percebido antes. Muito bom esse filme e um tanto chocante pra quem é mais novo. Bjss Cris.

annastesia disse...

Acompanho Leonardo desde seu primeiro filme, O despertar de um homem (assisti na época por ser fã de De Niro), e não consigo entender como, após ver uma atuação como a de Diários..., alguns insistiam e ainda insistem em dizer que DiCaprio não tem todo esse talento. E o filme, claro, também é ótimo.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Aperitivos deliciosos

CinePipocaCult Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos Le Matinée! Cinéfila por Natureza Tudo [é] Crítica Crítica Mecânica La Dolce Vita Cults e Antigos Cine Repórter Hollywoodiano Cinebulição Um Ano em 365 Filmes Confraria de Cinema Poses e Neuroses