Sonhos Psicóticos

O instigante A Premonição de Neil Jordan demonstra seu dom minucioso de praticar o assombro no próprio senso da psicologia dentro da esfera cinematográfica. É um diretor que concebe um tratamento, muitas vezes aterrorizante, sobre o lado mais sombrio do humano - além de manter, geralmente, em suas obras fílmicas o gosto por expressar os vícios e fraquezas comportamentais, as fragilidades como forma de sufoco. Neste filme, o centro narrativo dramático se reveste num sombrio thriller no psicológico bastante subjetivo. Claire Cooper é uma escritora e ilustradora de contos infantis que se condicionou a uma vida de abalos espirituais, vidências e certas premonições - com uma mediunidade, sensibilidade aguçada, sempre permaneceu em contato com seus sentidos à flor da pele. Casada com Paul (Aidan Quinn), preserva sua vida num casamento já frequente em cansaço e rotina. Sua vida ganha contornos atormentados quando se depara, misteriosamente, ligada aos sonhos premonitórios que a conduz a uma onda de assassinatos que passam a ser frequentes na região de Massachusetts. Desesperada, Claire parece sentir que seus sonhos tenham ligação com a mente do assassino em questão - o que fazer para entender, traduzir esses sentidos? Como salvar as vítimas? Os crimes envolvem meninas, geralmente menores de 10 anos de idade. Esses sonhos revelam-se em prognósticos desesperados - é como um pesado que a tormenta. Por que ela consegue ver o que a mente do psicopata visualiza? Qual relação teria ela com esse ser misterioso? Quando sua própria filha desaparece e ela vê que alguém de nome Vivian Thompson (Robert Downey Jr) estaria por trás desse seqüestro, sua vida parece caminhar ao ritmo descompassado da insanidade - é internada num hospício, sob os cuidados do psiquiatra Dr. Silverman (Stephen Rea), quiça o único que acredite nas visões dessa mulher temerosa pelo próprio destino. O que terá este assassino com sua vida? Eis que Claire decide enfrentar o killer e para isso decide reviver as memórias dele, tentando descobrir sua identidade e localização. Talvez, a tradução brasileira retire um pouco do próprio sentido que o título original expõe, visto que todo o cerne do enredo se relacione ao poder que os sonhos podem causar - abalos ou não - à vida de uma pessoa.

O roteiro baseado no livro de Bari Wood, adaptado pelo próprio Neil Jordan, tende a percorrer as atmosferas profundas desses sonhos simbólicos para desvendar mistérios, ao longo do filme. A personagem não só precisa provar que não é louca, mas como defender-se dos crimes que se tornam mais assustadores quando todos a sua volta parecem estar por um fio. Na pequena New England, havia nos seus arredores uma represa onde antes existia uma cidade. Submersa, milhões de vidas e mistérios permaneceram sob as águas. E, em uma de suas visões, Claire visualiza as vivências desse homem que parece ter sobrevivido da submersão e nutre algum anseio por ela - nos sonhos, Claire sente tudo que ele sente. E ele a deseja mortalmente, anseia possuí-la. O que fundamenta todo esse desejo? Como um psicótico pode ter uma conexão tão aprofundada com seus sonhos tão íntimos? A clarividência aqui encontra um poder sobrenatural ainda mais aterrorizante, pois se torna inexplicável - e o roteiro percorre esses sensos simbólicos muito bem. Há uma divisão na narrativa - por um lado, há a percepção da trajetória de Claire. Por outro, através de seus sonhos, a vivência do psicopata é esmiuçada, desde sua infância. E, aos poucos, o quebra cabeça vai se desmontando, recriando-se com tensas surpresas. Como uma simples escritora pode ter uma ligação com um serial-killer?

Os tormentos de Claire fundamentam-se, também, em sua fragilidade sexual. Seus sonhos premonitórios interrompem o frisson e a sintonia sexual dela com seu marido Paul - o casal não consegue mais manter um elo que nem no âmbito sentimental já não é perdurável. Com a ausência de afetividade, química e sem sexo - ela tem que confrontar-se com seus medos, receios e inseguranças femininas. Inclusive, há momentos em que descobre que o marido é assediado por uma garota. Ao questioná-lo, ele assume que sente falta de uma presença mais ativa de alguém que corresponda aos seus anseios. Claire teme ser traída, mas sua preocupação com a perda da filha - e mais, o assombro do psicopata se intensifica. O que fazer para sua vida ser menos dolorosa? Nos delírios onde nem tudo é o que parece ser, onde a realidade pode se misturar ao irreal - como voltar ao eixo? O filme percorre esse suspense da personagem, repleta de angústias. Como acordar desses pesadelos constantes? A febre interpretativa de Annette Bening ferve com maestria, perturbada e impecável na sua emotividade. Seu talento se sobressai, ainda que Robert Downey Jr. demonstre uma boa articulação ao personificar um homem visivelmente perturbado, estranho. O embate psíquico entre Claire e Vivian reserva momentos de tensão no filme.

E é aqui que o recurso sutil semiótico de Jordan sobre a sexualidade há de ganhar foco, pois a personagem é alvo de uma obsessão do desejo de um homem psicótico. A referência sexual é evidente também. Quase todo o filme, há presença de maças que concebem todo um simbolismo ao roteiro - essas frutas têm forte ligação com o passado do serial Vivian e também remetem à figura da Branca de Neve (por sinal, a filha seqüestrada de Claire participa da peça que leva o mesmo nome do clássico infantil). Maças são vermelhas, remetem ao sexo, demonstram a representação da sensualidade - pois, simbolizam o fruto proibido do pecado original bíblico. Eis o despertar da sexualidade? Há sonhos de Claire que tendem a ter um teor de sexualidade, ainda mais na sua enigmática relação com o psicopata. Há, ainda, uma caracterização sexual do comportamento do serial-killer Vivian - desde pequeno, Claire o visualiza como alguém ligado à libido. O horro-psico assume esse caráter mais da sexualidade, ainda que não seja tão ardente. Essas simbologias são bem expressas no roteiro, carregado de uma introspecção dark intimista e uma impactante fotografia com elementos surrealistas. A trilha bem composta por Elliot Goldenthal é carregada em violinos que explodem em cenas mais densas, boa prefiguração do efeito. Instigante como um homem dotado de sensos imorais, doente e atormentado pode ter um anseio por uma mulher tão comum - do desejo nada se sabe, ainda que isso seja um sinônimo de loucura ou mesmo perversão sexual. E o cinema tem esse papel de representar, também, malefícios e doenças humanas. Que assim seja.

In Dreams (EUA, 1999)
Direção de Neil Jordan
Roteiro de Neil Jordan e Bruce Robinson, baseado no livro de Bari Wood
Com Annette Bening, Aidan Quinn, Robert Downey Jr, Stephen Rea

14 opinaram | apimente também!:

Tiago Britto disse...

Esse filme é realmente interessante. Esta passagem de seu texto é uma coisa até que comum na vida das pessoas "Claire teme ser traída, mas sua preocupação com a perda da filha - e mais, o assombro do psicopata se intensifica."

Parabéns pela visão perfeita da obra!

M. disse...

Eis que leio hoje mais um de seus textos fantásticos. Robert Downey Jr é uma grande presença em quase todos os filmes que fez até agora. Um abraço.

Jυℓyαnα ツ disse...

Adoro a forma como você expressa sua opinião sobre os filmes e livros ;)





;*

cleber eldridge disse...

Gosto do Niel Jordan na medida do possivel, não vi o filme, mas, o elenco me interessou bastante.

Mayara Bastos disse...

Ainda não assisti este filme, mas o elenco despertou o interesse por ele. ;)

renatocinema disse...

Neil Jordan me conquistou com o belo filme Nó na Garganta. Vou tentar assistir essa indicação.

Kamila disse...

Nunca assisti a este filme, mas parece ser uma obra MUITO interessante!

Wagner disse...

Este ainda nao tinha vista! Mas com certeza já entrou na minha lista! Abraços!

Mirella Santos disse...

Achei que Vivian fosse mulher hahaha, ta eu só li sua crítica, mas pelo visto o filme é bom, o ruim em filmes assim é que ele tem vertentes mto opostas. Beijos Cris, vou procurar sim.

AGENTE FOOSE disse...

Filme bem interessante, consegue prender a atenção do telespectador, porém deixa alguns furos, mas eu nem me importei muito, pois Neil Jordan fez um trabalho muito bom (comp diretor), além disso o grande o show fica por conta de Benning e Robert Downey, Jr. Grande figura! Pena que perdeu tanto tempo usando drogas e sendo preso.

Visualmente, o filme é lindo. Uma fotografia muito bem usada e pouco convencional para um filme do gênero. A música também é muito competente. Taí uma trilha sonora que eu tenho que encontrar.
Os minutos finais: toque de mestre. Foge do convencional dos filmes de suspense atuais, o que é sempre bom. Esse é um suspense interessante, porém "Entrevista com o vampiro" é mil vezes melhor."


Um grande abraço...

Robson Saldanha disse...

Pra variar, não vi. Se fosse Premonição aí a gente conversava. haha

TH disse...

Mais um pra listinha de "preciso urgentemente ver'=, graças ao Apimentário :)

Pedro Henrique disse...

Não gosto do filme, mas gostei (um pouquinho só) do último filme dele, Ondine, que tá pra estrear por aqui em breve.

Renato Tavares Mayr disse...

Espero que esse recado apareça agora...

Adoro o Neil Jordan; toda a filmografia dele, pra mim, é ótima(até Valente, com Jodie Foster). Vou procurar este filme...

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