Perversa Aristocracia

O que torna alguém seduzível? O diretor britânico Stephen Frears conduz sua leitura ousada do romance epistolar de Chordelos de Laclos, no instigante Ligações Perigosas. O roteiro do filme foi adaptado com maestria por Christopher Hampton, que captou bem a essência da trama libidinosa literária com sensos de paixão, desejo e traições humanas. O terreno perverso da sedução argumentativa é na França de 1788, antes da Revolução Francesa que viria a abalar o país. Dois aristocratas dissimulados - a Marquesa Isabelle de Merteuil (Glenn Close) e o Visconde Sebástian de Valmont (John Malkovich) - gostam de usar da inteligência, do poder da sedução e da vaidade para manipular pessoas a sua volta. Ambos vivem mascarados, numa vida dupla que nem mesmo a sociedade tem conhecimento - a crítica de Laclos é desnudar os indivíduos sádicos da aristocracia francesa daquele período. Merteuil recruta Valmont para um plano - ela quer que ele seduza a ingênua Cecile de Volange (Uma Thurman), visto que a garota virgem é a prometida do seu ex-amante. Num ato de vingança, Merteuil deseja acabar com a reputação da jovem que vai se casar com seu ex-cônjugue Batilde. Mas, Valmont acredita que este plano é uma tarefa simplória - de acordo com sua reputação de sedutor incondicional, este plano funcionaria como algo bastante banal e poderia manchar seu nome. É quando ele sugere à Marquesa um plano mais ousado: seduzir, provocar e devorar sexualmente outra vítima, Madame de Tourvel (Michelle Pfeiffer), uma recatada mulher religiosa e casada. Se o plano der certo, a Marquesa de Merteuil terá uma noite de sexo intenso com ele. Está firmado o pacto de luxúria, sedução e libido. O promíscuo sedutor Valmont decide seduzir então as duas mulheres. Stephen Frears promove seu filme através destes dois personagens sem escrúpulos, malvados, que se divertem por flertar e devorar sexualmente pessoas alheias. Diferente da versão adaptada por Milos Forman, no mesmo ano ("Valmont", com Annette Bening e Colin Firth como protagonistas), esta produção tem um peso impactante pela direção cuidadosa, diálogos densos - o verniz da sexualidade imposta por Frears é mais expressivo, pervertido, ganancioso. Os elementos daquela época permanecem até hoje, são questionamentos tangíveis - a banalização do mal, os sensos de pureza, dignidade e moral; os sentimentos e valores corrompidos.

Tão original, polêmico e contestador - o romance original publicado em 1782 tornou-se um marco na literatura. Para tanto, Stephen Frears realiza um filme que desnuda o comportamento, o senso da libido e da crueldade humana. É um filme picante que entrega as sujeiras de uma sociedade que insiste em ser dissimulada, vive de aparências. Sociedade que varre a promiscuidade por baixo do tapete? A intricada trama estuda a sedução, o jogo da manipulação humana no sustento do sexo como forma de prazer, de fuga contra um tédio mordaz; pela simples satisfação de usar a sexualidade como forma de subjugar outrem. A percepção da sedução coloca a teia relacional de Merteuil e Valmont como pessoas insensíveis, maldosas, capaz de entreter-se com seus jogos perversos sexuais - qual objetivo de uma mulher vingar-se de seu amante atacando sua virginal prometida? Há um senso maquiavélico estabelecido no roteiro, deixa claro como o sexo pode ser útil ao prazer da carne, como um senso de imoralidade. Afinal, para uma rigorosa sociedade, firmada no absoluto falso moralismo, tudo existia a cargo da sexualidade – relações encobertas de traição, de infidelidade, de pessoas num casamento infeliz. Valmont investe na sua sedução com Celice, educando-a sexualmente, manipulando o sentimento da jovem que está apaixonada pelo seu professor de música, Danceny (Keanu Reeves). Em paralelo, assume sua dissimulação, ao colocar-se como um homem centrado, à favor da hospitalidade de Madame de Tourvel que, aos poucos, entrega-se ao charme e convivência solícita de Valmont.

Marquesa de Merteuil e Valmont são hipócritas, dois indivíduos que ferem a sociedade com suas mentiras, falsas personalidades - é interessante como são vazios existencialmente. Amantes no passado, rivalizam-se com interesses próximos. A maneira como o roteiro os coloca, torna tudo irônico: usam da sedução para penetrar uma sociedade que acredita em suas máscaras comportamentais. Eis o contraste, pessoas negligenciam sua essência de alma em função de uma máscara social. Externam o que não são? Merteuil é uma mulher ferida pela vida, mal amada, destroçada por não ter um amor verdadeiro - para isso, banaliza-se em jogos de sedução, em transas furtivas com homens casados, em tramas psicóticas sexuais com seu confidente Valmont. Este, um representante da masculinidade humana daquela época (que cabe ao mundo contemporâneo, bem verdade) - um homem que não se prende amorosamente a ninguém, usa do sexo para sustentar uma ilusória vida de conquistas, envolvido em noites libidinosas com mulheres diferentes. É o símbolo da virilidade, do típico machista, do homem descompromissado com a fidelidade? E o filme mostra esses dois seres em seus fascínios próprios - cada um ao seu modo - dentro de suas esferas orgásticas. O ser humano preenche seu vazio existencial, seu ócio e sua vida infrutífera apenas com sexo? Afinal, o que um jogo de manipulação pode trazer para vida destes dois?

Contudo, no jogo da sedução, existe uma regra: jamais se apaixone. A catarse no enredo surge no momento que o senso da sexualidade é elevado ao sentimental - em suas empreitadas da sedução, Valmont sofre quando se apaixona por Madame de Tourvel. Seria o surgimento do sentimento uma resposta a uma vida firmada em mentiras e compulsões sexuais? O que fazer para atenuar essa aflição? Pois, Valmont precisa manter seu acordo de sedução, tendo em vista a própria reputação de sedutor calculista que ele reserva a Marquesa de Merteuil - esta se desespera por perder as rédeas da manipulação dominante sobre o outro. O visconde reflete os próprios atos - estaria a se trair por perder a tônica de sedutor, ao deixar de querer todas as mulheres e apenas desejar a Tourvel? Estaria ele abrindo mão de seu poder de macho em função de um sentimento que nunca nutriu por ninguém? Os luxos da aristocracia da época; a trilha sonora de George Fenton exibe acordes dramáticos e elementos sonoros sensuais; a deslumbrante fotografia de Philippe Rousselot torna o trabalho técnico deste filme um puro requinte. Decerto, o grande triunfo deste filme é pelas atuações de Glenn Close e John Malkovich, em momentos inspirados, numa sintonia frenética através de diálogos afiados. Michelle Pfeiffer é o contraponto, pois exerce uma interpretação sensível e expressiva com uma mulher sofrida pelo amor. Um estudo carnal também sobre a vaidade, a ambição sexual, a pretensão humana em crer nos próprios atos de manipulação. Um conto provocante da sedução que atinge o reinado das contradições do sentimento. Eis toda a aristocracia desnuda, é puro ardor, clássico imbatível.

Dangerous Liaisons (EUA, 1988)
Direção de Stephen Frears
Roteiro de Christopher Hampton, baseado no livro homônimo de Choderlos de Laclos
Com Glenn Close, John Malkovich, Michelle Pfeiffer, Uma Thurman, Keanu Reeves

26 opinaram | apimente também!:

Edson Cacimiro disse...

Perfeito!

renatocinema disse...

Assisti o filme anos atrás e na época a única coisa que me atraiu foi a beleza de Uma Thurman. Mas, talvez tenha que assistir novamente para tentar descobrir se estou mais preparado para a crueldade humana no assunto perversão sexual.

O Antagonista disse...

Não assisti. Mas um filme com Glenn Close, John Malkovich e a belíssima Michelle Pfeifrer não pode ser ruim nunca. Ótima resenha!

Valeu!

Amanda Aouad disse...

Acredita que ainda não vi? Belo texto como sempre.

bjs

Daniel Prestes disse...

Bom, a sua abordagem é um pouco diferenciada da que eu tenho feito, mas não deixa de ser uma leitura e daquelas bem interessantes.

Só que, tanto no livro como nessa adaptação, não há pré nomes, apenas os nomes de família pós-postos aos títulos de nobreza. Vemos eles aparecerem apenas nas adaptações teen e em alguns trabalhos que além de darem os nomes, tbm dão a idade das personagens.

Ah, não consegui achar o dvd pra lhe mandar. =x

Foose disse...

Não dá para passar despercebido frente a esse filme. É uma verdadeira rede de intrigas contada de forma charmosa e sofisticada. através de um roteiro denso e diálogos inteligentíssimos, que irão exigir muita atenção de quem for assisti-lo. Trama essa que destaca as interpretações de um elenco estrelar. Glenn Close, John Malkovich e Michelle Pfeiffer estão perfeitos ao lado de veteranos como Mildred Natwick (de Descalços no Parque) e dos ainda novatos, na época, Keanu Reeves e Uma Thurman.
Bela resenha meu amigo, cada vez mais me torno fã dos seu textos.

Um grande abraço...

Tertúlias... disse...

Uma jóia de filme, realmente muito bem elaborado... só um defeito terrível me deixa distante dele (ou pelo menos de ve-lo em original) o sotaque dos tres atores principais (Hurman nesta época estava comecando e é uma secundária) é terrívelmente americano, o que os deixa meio "peixes fora d'água" em anos anteriores à revolucao francesa - no período Louis XVI... Viram já "Chéri" também de Stephan Frears e com uma mais velha Pfeiffer? Magnífico... (Existe nas inhas "Tertúlias" uma postagen sobre este trabalho!).
Que Blog mais lindo o seu, hein?
Parabéns!

M. disse...

Seu blog está cada vez mais extraordinário! Esse filme é indispensável na estante de qualquer cinéfilo. Um abraço.

cleber eldridge disse...

FILMAÇO, lindo, sensual, divino e talvez com o melhor momento de toda carreira de Close -, o roteiro é excepcional, assim como a direção! Fantástico!

Otavio disse...

É o melhor filme de Stephen Frears! De longe! Glenn Close deveria ter ficado com o Oscar de Melhor Atriz. Foi um absurdo isso! Aliás, John Malkovich está soberbo, mas não dava pra tirar a estatueta de DUstin Hoffman (Rain Man).

Abs!

Película Criativa disse...

Adoro esse filme! Também acho o melhor de Stephen Fears. As atuações de Glenn Close e John Malkovich são fantásticas.

Kamila disse...

Acho este filme brilhante. Especialmente no retrato que ele faz do jogo de sedução. Ele nos mostra que somos todos marionetes, neste jogo. O problema é que, quando a conquista acaba, as máscaras caem - aí entra aquela sequência close final na Glenn Close, que é sensacional!!

DANIZINHA disse...

Esse filme é bem marcante. Eu adorei. Assisti tbém "Valmont" e de fato, Ligações Perigosas é bem mais intenso. Aliás, assisti Valmont já pq tinha gostado do "Ligações".Uma história picante, ácida e ao mesmo tempo consegue ser sensível e ter uma boa dose de humor. E o trio Glenn, Malkovich e Michelle está sensacional.E achei a versão teen, digamos assim, tbem interessante,o filme "Segundas intenções"(O primeiro. Pq as sequencias se tornaram entretenimento barato).Gostei muitissimo tbem.

beijos

Luiz Neves de Castro disse...

Cristiano!
Fiz a indicação do seu blog para receber o Prêmio Dardos! Vim convidá-lo para retirar no Egrégora: Carrancas Literárias... se você curtir receber o selo ele estará a sua disposição, com um afetuoso abraço...

Richard Mathenhauer disse...

O filme é muito bom, e gosto principalmente da cena final.

Já o livro, é enfadonho demais...

Abraços,

Bruno Mendes disse...

Opa Cristiano! Obrigado por comparecer o meu, estou num período de provas sem tempo para atualiz-lo com frequência, mas nos meses seguintes vou fazer isso. O seu blog é muito bom , organizado, bons textos.
Você é jornalista? Penso e quero em trabalhar com crítica profissionalmente, trabalhar com esse hobby é meu sonho.
Abraços!

gabriel disse...

Fiquei com vontade de ver, depois do seu ótimo texto e dos comentários aqui. John Malkovich, Michelle Pfeiffer, Glenn Close, Uma Thurman, é, não dá para passar despercebido.
Abraços (:

Caique Gonçalves disse...

Meu caro, estou de volta de verdade à blogosfera. O novo endereço do meu blog é www.aplausus.com.br.

Abraço

Luiz Santiago disse...

Concordo com você, quando faz a relação com o filme do Forman. Apesar de não odiar "Valmont", ele me deixou com raiva...

Já "LIgações Perigosas" é realmente fenomenal. Adorei o jeito como você inseriu o contexto histórico! E com postura crítica!

Parabéns pelo inspirado texto, amigo!


p.s.: saudade de tu!

Ricardo Morgan disse...

Valeu pelo apoio Cristiano! Na verdade eu já escrevia críticas de cinema para um jornal aqui em BH e já fiz mais de 500 análises de filmes. Recentemente voltei a escrever sobre cinema após hiato de quase 2 anos, já que não tive tempo por causa do jornalismo esportivo hehe. Por enquanto, escrevo como hobby mesmo somente em meu blog! Mas como disse no meu editorial, tento fazer algo um pouco diferente do pragmatismo acadêmico, ou seja, textos objetivos para o 'povão' que gosta de cinema! Gostei muito do seu blog também e já adicionei aos links do Lixeiro do Cinema!

Grande Abraço!

leo disse...

Maravilhoso,um dos meus filmes preferidos ever.John Malcovich estupendo e Glenn Close numa das melhores atuações de todos os tempo e o que dizer de sua desconcertante sequencia final.
E definitivamente Isabelle Merteuil é a personagem mais extraordinária de todos os tempos (incluindo literatura e dramaturgia).
Abraços

Wally disse...

Adoro tudo neste filme. O elenco, os diálogos e a sensação perversa que a atmosfera exala cena após cena. Frears é um excelente cineasta e este talvez seja seu melhor filme.

Jonathan Nunes disse...

Adoro a atuação da Glenn Close, a atuação dela nesse filme foi o que me fez começar a assistir Damages. Abs.

Edson Coelho disse...

Tenho um fascínio por esse filme. Pela história em si, porque o livro também é de um primor total.
Ah, como eles são cínicos!!

Mateus Selle Denardin disse...

Belíssimo texto! O filme é de um requinte técnico e narrativo invejável mesmo. E que atuações! Indigno-me por Malkovich ter sido tão esnobado. [E o filme VALMONT, na verdade, foi lançado 1 ano depois desse, em 1989.]

annastesia disse...

Assisti esse filme no cinema, logo após o Oscar (aos 15 anos)e fiquei maravilhada. Frears no auge, com um trio de atores em momento sublime. Infelizmente, já nessa época, tive que aguentar Keanu Reeves e sua inexpressividade.

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