Manipulações Perversas

Assédio Sexual encerra a "Trilogia Sexual" com o ator Michael Douglas, iniciada com os filmes Atração Fatal e Instinto Selvagem. Dirigido por Barry Levinson, é uma adaptação do livro de Michael Crichton. A trama traça seu contorno narrativo na empresa da área tecnológica DigiCom, fabricante de computadores. O bem sucedido executivo Tom Sanders (Michael Douglas) aguarda ser promovido, porém quem ocupa o cargo principal do departamento é Meredith Johnson (Demi Moore), sua ex-amante do passado, trazida pelo presidente da companhia Bob Garvin (Donald Sutherland). A polêmica abordada no roteiro é anunciada logo após os trinta minutos iniciais do filme: no primeiro dia que ela assume, Tom é convocado pela sua nova chefe para uma reunião após o expediente. O que poderia ocorrer neste encontro noturno? À meia luz, uma garrafa de vinho e sem mais nenhum funcionário na empresa — Tom é coagido por Meredith que se insinua e o força a manter relações sexuais. Eis o jogo perigoso proposto pelo filme. Não é uma mulher que sofre o assédio masculino, mas sim o inverso. Tom resiste à sedução e decide acusá-la. Mas Meredith o confronta, por ser rejeitada inverte a situação e alega ser vítima de abuso e violência, disposta a iniciar uma intricada batalha judicial — como Tom conseguirá provar sua inocência? Existe algo por trás desses acontecimentos? É então que o filme percorre uma trama judicial de um homem que precisa restabelecer sua condição perante ao trabalho e sua família, visto que é casado e pai de dois filhos. Como manter sua moral perdida perante a todos?

O filme promove a discussão de como um escândalo sexual é capaz de destroçar a harmonia de uma vida — mas ainda, é a ruína pessoal caso for ocasionado num ambiente de trabalho. O instigante é a maneira como o assédio sexual é proposto: um homem sofre o abuso de uma mulher autoritária, feminina e de comportamento imperativo pro lado sexual. E o filme apresenta como o ser humano é direcionado pelos valores de machismo; é o hábito social de não creditar confiança na postura de um homem que nega o sexo a uma mulher. Ora, um homem não tem o direito de conter seus instintos sexuais diante de uma mulher fogosa? O roteiro evidencia que o indivíduo masculino sofre o preconceito social ao ter sua imagem denegrida por todos — por que ninguém acredita na recusa do homem? Só a mulher consegue se livrar do assédio? O filme expressa que o assédio sexual nada tem relação com o sexo, mas sim com o poder. Então, o indivíduo que exerce o poder é capaz de coagir sexualmente seu subordinado. E o ponto em questão é a mulher que também pode praticar o assédio, incisivamente. E o roteiro também cultiva como o contexto do assédio sexual pode ser uma arma pelos executivos ambiciosos que buscam progredir ao topo da escada corporativa.

A sequência do assédio sexual é excitante, repleta de insinuações verbais — nota-se que o roteiro evidencia o caráter sexual e da tensão da sensualidade em cena, ao expor o linguajar chulo usado em alguns momentos. O ato do assédio torna-se uma coação a partir do ponto que Tom não permite que Meredith pratique o sexo oral nele; refreando as intenções libidinosas da moça. Ele torna-se uma vítima masculina da agressão de uma mulher que o molesta e mantém uma conduta física de natureza sexual. Ao oferecer resistência, Tom nega-se a penetração, firmando, assim, a não consumação do ato sexual proposto por ela e concretiza o sexo não consensual, ou seja, inexistência de sexo consentido por ele, visto que fora forçado à ação. Há uma boa atmosfera de interpretação sensual por parte de Demi Moore que exibe um papel questionador, polêmico e sensual; Michael Douglas aqui exerce o papel do homem fragilizado por, ainda que excitado, não ter a vontade de praticar o sexo com outra mulher. O papel da mulher como assediante é uma conduta ainda que causa surpresa; estranhamento. A sequência é pontuada pela trilha sonora instigante de Ennio Morricone, concebe bem o tom ousado que a cena dimensiona. A partir dessa cena que a ambição de Meredith se torna ilimitada; disposta a tornar a vida de Tom um inferno.

É nesse sentido que a trama se dispõe a tratar sua condição: como é difícil para a mulher que força, e também a sociedade, acreditar que o homem também tem o direito de assegurar seu corpo, vontades e sexualidade. Todo homem consegue controlar sua testosterona? O assédio sexual masculino nem sempre obtém crédito, muitos duvidam da situação. As cenas incessantes de tribunal; diálogos que demonstram as intenções pervertidas da mulher que quer prejudicar seu objeto de desejo — e também objeto de um jogo de manipulação dentro do âmbito profissional. Não é um filme com cenas sexuais, nem mesmo o teor libidinoso é presente, contudo a trama se sustenta no fato da condição do assédio sexual estar presente em quaisquer situações. E o agressor pode ser o colega de trabalho que exerce funções similares a da vítima; ou muitas vezes os motivos que levam alguém a assediar a outra são razões psicológicas. Interessante que a lei expressa que no âmbito de trabalho só é considerado crime e punido por lei caso o agressor for hierarquicamente superior à vítima. Irônico este senso? Praticamente pautado em cima de discussões, diálogos e questionamentos pelos personagens, o roteiro ainda abarca contextos de avanços tecnológicos; infidelidade; frustração sentimental e manipulação das aparências humanas. O filme serve como forte alerta quanto aos questionamentos e sentidos dessas motivações das malícias perversas da sexualidade.

Disclosure (EUA, 1994)
Direção de Barry Levinson
Roteiro de Paul Attanasio, baseado no livro de Michael Crichton
Com Michael Douglas, Demi Moore, Donald Sutherland, Caroline Goodall

26 opinaram | apimente também!:

Por que você faz poema? disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Otavio disse...

Filminho safado do Barry Levinson. Acho que o diretor começou a se perder aí. O filme vale pela atuação de Michael Douglas e pelas pernas (e a voz rouca) de Demi Moore.

Abs!

Kamila disse...

Acho curioso como o Michael Douglas gosta de interpretar papeis em que ele é totalmente seduzido e dominado pelas mulheres. Deve ser algum tipo de fetiche dele... rsrsrsrsrs

gabriel disse...

Gostei da temática e do elenco, vou conferir. Mas sinceramente, o filme já me ganhou com essa frase sua: "Ora, um homem não tem o direito de conter seus instintos sexuais diante de uma mulher fogosa?". Entrou pra minha lista.
Abraços.

HSLO disse...

Já gosto de filme assim...o Instinto Selvagem é muito bom.
Já esse não assistir ainda, mas obrigado pela dica.

abraços

Alan Raspante disse...

Demi Moore assediando homens e gemendo o filme inteiro? Novidade, rs

Enfim, não posso dizer que não fiquei curioso, mas é o tipo de filme que não faço a mínima questão de correr atrás para conferir.

Cristiano Contreiras disse...

POR QUE VOCÊ FAZ POEMA?: Pode-se dizer que é o mais fraco dos três filmes, sim. Mas, esse tem o questionamento do assédio sexual sofrido por um homem. E esse ponto é interessante.

OTAVIO: Filme bem safadinho mesmo. E Demi Moore com suas pernas e voz rouca até convence, viu? rs

KAMILA: Eu também acho curioso. Michael Douglas parece ter mesmo esse fetiche por mulheres hiperativas sexualmente e um tanto doidas! rs

GABRIEL: Confira mesmo, o filme é válido!

HSLO: Eu acho que vale a pena conferir por essa questão do assédio retratada no filme, se puder procure.

ALAN RASPANTE: Ah, ela não geme o filme inteiro, mas está muito perversa, isso sim! rs

Rodrigo Mendes disse...

Gostei da sua trilogia Cristiano, mas faço coro ao "Porque você faz poema?". Certamente é o mais fraco dos três nesta fase de não abstinência sexual de Douglas no cinema.

Abs.
Rodrigo

Ricardo Morgan disse...

É o "estupro inverso"! Coitado do Michael Douglas, ficou viciado em sexo por causa dos filmes anteriores e ainda teve que se conter em sofrer o "Assédio Sexual" da deliciosa Demi Moore! Gostei do filme. Lembro-me, quando garoto, que fiquei puto com a hipocrisia de Meredith Johnson. Ta aí o suspense, já que não sabemos o que iria acontecer com Tom Sanders em um raro caso de assédio.

renatocinema disse...

Não sou fã de Michael Douglas, seu único filme que gostei muito foi "Vidas em Jogo". Demi Moore então...piorou.

Acho que a idéia desse filme, que não assisti, realmente é instigante. Mas, a escolha desse atores não me convenceu a ver a produção. Sou meio "preconceituoso" contra atores que não respeito.


Não sabia que o diretor era Barry Levinson, pode ser que me anime. Pode ser.kkkk

O Misantropo disse...

Não tive a oportunidade de assistí-lo. Olhei alguns comentários no seu blog e parecem desfavoráveis.
Bom, adoro uma "cinesacanagem", mas obedecendo um roteiro bacana.
Vou assistir e qualquer coisa comentarei aqui de novo!

Tudo com muito erotismo aqui. Tô gostando...

Abraço!
O Misantropo

Edson Cacimiro disse...

Também me lembro que fiquei puto com a 'vaca' da Demmi Moore rssss
Mas esse filme devia constar nas listas de advogados que trabalham com casos de assédio, ele é muito bom!

Jonathan Nunes disse...

o Grade Michael, é bom ter-lo de volta quem sabe até voltando aos bons tempos de grandes atuações.

Renato Tavares Mayr disse...

Infelizmente, não vi... Mas adoro Douglas, Chricton e thrillers sexuais... Pelo texto, vou conferir em breve, mesmo pelas críticas negativas.

Sucesso, amigo!

Cristiano Contreiras disse...

RODRIGO: Eu acho que ele é o mais fraco dos três. Mas, como disse acima, a pontuação do assédio sexual e suas ponderações e consequências torna o filme interessante; além do mais, aqui temos um homem que sofre o assédio feminino...mais um ponto a favor.

RICARDO MORGAN: Michael Douglas fragilizado por uma Demi Moore sexualizada é de dar pena, né? rs

RENATOCINEMA: Eu não sou fã dele também, acho que se repete. Mas, até que nessa trilogia e no "Vidas em jogo" ele convence. Demi Moore? eu gosto, acho uma atriz muito subestimada, o que é uma pena. Filmes como "A Letra Escarlate" e tantos outros da década de 80/90 mostraram que ela não era limitada, como muitos insistem em dizer.

Também sou 'preconceituosos' com atores que não respeito ou que observo que não saem do mesmo terreno. Entendo você.

O MISANTROPO: Eu acho válido você ver e, assim, me dizer o que achou. Comentários negativos me instigam a conferir uma obra, até! rs

Obrigado pelo comentário! abraço

EDSON CACIMIRO: Eu fiquei puto com ela também, bem sacana e é dissimulada. E ainda assedia Michael Douglas, rs! O filme pontua bem o universo do assédio sexual e mostra como a lei se cumpre...

JONATHAN NUNES: É verdade!

RENATO TAVARES MAYR: Pois, veja! Espero que goste do filme!

bruno knott disse...

Incrível como tu consegue abordar vários aspectos do filme...

Não sou o maior fã de de Assédio Sexual, mas os "papeis invertidos" aqui é algo extremamente interessante.

Abraços.

Weiner disse...

Douglas ficou marcado em Hollywood por papéis desta natureza, impressionante. Mas tal qual o filme de Adrian Lyne, este aqui tem pontos ótimos. A começar pela beleza e competência de Demi Moore, que transforma a cena que intitula o filme num momento muito marcante, excitante até, como você mesmo diz. Depois, há Douglas, fazendo-se de rato perseguido como ninguém. O roteiro e si não é grande coisa - o maior ponto é mesmo a pergunta que ecoa: "não poderia um homem refugar as investidas de uma mulher dominadora"?
Abs!

pseudo-autor disse...

Tanto Atração Fatal como Instinto Selvagem são superiores a esse. Não sou admirador do trabalho da Demi Moore, mas o trabalho do Michael Douglas aqui é ótimo. Depois que ele casou com a Catherine ele parou de enveredar por essas produções de apelo sexual forte. Deve ser alguma cláusula nupcial!

cultura na web:
http://culturaexmachina.blogspot.com

Brenno Bezerra disse...

Durante minha infância, gostava desse filme. #quevergonha

Marcio Nicolau disse...

quer dizer que pra manter a moral o sujeito tem que comer todas, ele não pode se recusar? É isso?

O filme diz sim pro sexo verbal e não pro sexo oral: que moral afinal é esta? Se é isto o que a personagem temia perder, eu lhe digo: não há risco, não perderia nada.

"Controlar a testosterona". Acredita nisso?

"Intenções pervertidas", "malícias perversas". O que significa isso afinal?

De verdade só existe a "manipulação das aparências humanas"

Cristiano Contreiras disse...

BRUNO KNOTT: Eu tento abordar as questões mais evidentes, obviamente torno em questão as discussões sobre sexualidade através do filme. Não sou fã do filme, mas é um bom trabalho pela premissa, enfim...

WEIRNER: Seu comentário resume tudo que penso em relação ao filme!

PSEUDO-ATOR: "Atração Fatal" e "Instinto Selvagem" (meu predileto da trilogia, rs) são mesmo melhores. Eu gosto de Demi Moore, é uma pena que ela não soube escolher mais bons papéis ou seria bons filmes?

É verdade, acho que Zeta-Jones deve ter feito uma cláusula nupcial: "Eu caso, mas não quero mais meu marido em filmes sexuais com atrizes dominadoras e fatais, rsrs".

BRENO BEZERRA: Eu gosto mais do filme hoje em dia mesmo, rs.

MARCIO NICOLAU: Pra manter a moral o sujeito machista acha sim que deve comer todas, infelizmente. Muitos homens pensam assim. A moralidade deles age de acordo pelo próprio instinto sexual...

Acredito que tudo na vida é controlado, sim. Até a testosterona. Pode-se sentir tesão por alguém, mas você não precisa transar com a pessoa. Tudo é relativo.

"Intenção pervertida" se refere àquela onde a pessoa nutre um objetivo mais malicioso por outrem; ou seja, quer o outro pra transar e faz de tudo pra isso. É algo mais perverso, de acordo com um jogo mais baixo, onde rola manipulações e tal - a personagem feminina do filme age pela perversão, sua intenção é maldosa, macabra...ela não parece ter escrúpulos. Entende?

"Malícia perversa" é ainda pior. Na verdade, a pessoa é maliciosa e age com dose de perversão, não tem equilíbrio e limite nos atos sórdidos, nem na vontade.

De verdade só existem várias coisas, o ser humano é muito impreciso, meu caro. Não é fácil delimitá-lo.

Ccine disse...

Recebemos o selo de qualidade da creativite e indicamos o seu blog para receber também.
Abraço

KADU (CCINE)

http://ccine10.blogspot.com/2011/01/selo-de-qualidade-blog-recomendadissimo.html

Flávio disse...

Sensacional o seu texto Cristiano. Vc soube transmitir com competência a atmosfera do filme.

Reinaldo Glioche disse...

Bela crítica Cris. E muito interessante a construção proposta por vc aqui no Apimentário dessa "trilogia sexual" com o Michael Douglas.
Gosto muito desse filme e da inversão de expectativas proposta. Além do que pegar o "garanhão" do michael Douglas e colocá-lo para se defender como vítima é uma ótima ideia...rsrs

Abs

Cristiano Contreiras disse...

CCINE: Obrigado!

FLÁVIO: Eu quis mostrar bem a essência sexual do filme mesmo, obrigado pela presença!

REINALDO GLIOCHE: Obrigado! E essa 'inversão' proposta no filme é o que torna ele mais diferente mesmo. É curioso observar Michael Douglas de vítima diante de uma mulher sexualmente maldosa, rs!

Fagner Abrêu disse...

Realmente ele é o mais fraco dos três. Isso é comum em filmes sequenciados, por exemplo "Jurassic Park III" Matrix Realoaded. Mas a atuação de Demi Moore é fascinante.

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