Janela Indiscreta

O ser humano é atraído pela curiosidade, ainda mais quando se refere às questões da sexualidade. O aspecto mais instigante exposto no filme Invasão de Privacidade é a prática do voyeurismo, onde indivíduo obtém prazer sexual através da observação de outras pessoas — sendo elas, decerto, desconhecidas do seu circuito social. O voyeur costuma ter satisfação na observação, sem que as pessoas saibam ou suspeitem que estejam sendo observadas. Geralmente, o observador gosta de se masturbar ou mesmo tem a excitação sexual ao ver outras pessoas em práticas sexuais e/ou desnudas. Dirigido por Phillip Noyce, o filme argumenta essa prática, tão presente na sociedade atual — no mundo onde "reality-shows" são alvos de curiosidade, pois capta atenção das pessoas para uma realidade simulada, no qual indivíduos são vigiados por câmeras e, por sua vez, observados por várias pessoas. Os indivíduos preferem observar o alheio, espionar, como forma de estímulo pessoal e prazer. Na trama, a executiva Carly Norris (Sharon Stone) muda-se para um edifício luxuoso em Manhattan. O local é alvo de misteriosos assassinatos. No prédio, um dos moradores observa tudo que ocorre, inclusive os crimes, através de câmeras de filmagem. Quando descobre que a antiga moradora do seu atual apartamento foi assassinada, Carly passa a temer o ambiente. O que há de tão macabro ali? Quando conhece o vizinho Zeke Hawkins (William Baldwin) por quem sente uma atração irresistível, simultaneamente sofre assédio por outro vizinho, Jack Lansford (Tom Berenger). O thriller incute a dúvida: Carly, gradativamente, passa a acreditar que algum desses dois homens tem a ver com os crimes ocorridos no edifício. Quem seria o serial-killer? Mas, o que parece ser um suspense, trata-se de um artifício para promover o erotismo pautado na tensão.

Ao abordar o voyeurismo, o filme expõe o mistério dos crimes sob a ótica de um ser misterioso (o público não sabe quem é) que observa as vidas íntimas dos moradores através de câmeras, inclusive a própria Carly é alvo — as cenas a mostram sendo observada, principalmente quando troca-se de roupa; toma banho ou mesmo quando se masturba sozinha no banheiro. A sensualidade do roteiro exibe, ao máximo, a caracterização sensual da feminilidade de Carly. Por sinal, o filme trata de colocá-la como objeto de desejo de todos os homens, como se todos estivessem famintos, num total descontrole libidinal. Noyce usa das ideias do clássico de Alfred Hitchcock ao colocar o voyeurismo como lema principal do filme? Janela Indiscreta? Todos os condôminos têm suas vidas vigiadas por alguém misterioso, onde a janela possibilita a exposição de suas vidas íntimas. Até Carly, uma espécie de loira fria a la Grace Kelly, exibe-se em seu apartamento sem saber que é alvo de fantasia alheia. Todo voyeur evita-se expor, a sua prática é segredada e ele prefere manter distância.

A sensualidade percorre a veia narrativa ao colocar o envolvimento de Carly com seu vizinho Zeke. Por ter no roteiro personagens que se envolvem apenas pela força da atração, o filme não esconde sua intenção maliciosa ao executar cenas bastante provocativas. A cena da primeira transa entre os dois é prolongada, ousada, quase explícita — Sharon Stone sabe muito bem explorar sua interpretação centrada na manifestação da sua sensualidade, ainda mais quando personifica uma mulher subordinada ao comando hiperativo e dominador de um homem. É a fêmea passiva ao macho que quer devorar? Stone conduz sua Carly totalmente frágil, subjugada por William Baldwin que investe em cenas de sexo oral, penetração e preliminar. A boa química sexual dos dois atores favorece um realismo que exprime o frisson erótico que a trama pede. Seqüências de nudez, sodomia e até diálogos maliciosos estão presentes também — mas há um tom emotivo explorado pelo argumento ao colocar Carly chorando ao ter um orgasmo após uma transa quente com seu parceiro.

Philip Noyce contorna o frágil roteiro nessas cenas, ou mesmo nos personagens secundários que não escondem suas intenções voltadas ao sexo. Apesar do tom provocativo, o filme obteve alguns cortes — existiam cenas onde Baldwin aparecia em nu frontal, porém o ator pediu que as cenas fossem cortadas; uma cena de sexo foi considerada hardcore, o diretor teve que retirar por pressão dos produtores do studio e remontar o material da película. Talvez, quis desvencilhar de maior polêmica ou que o filme tivesse um sentido mais contextualizado na esfera homoerótica. Ainda assim, a sensualidade envolve pela forma como a sexualidade feminina de Stone é utilizada e da masculinidade sensual de Baldwin, habitual representante de papeis de homens sedutores. E o roteirista Joe Eszterhas já havia feito outro sucesso com Stone, Instinto Selvagem. Nota-se que ele investe na caracterização da libido em ambos os filmes, porém aqui o tom é mais voltado à intimidade. Um trabalho banal que cumpre com o que promete: o desejo desenfreado, a malícia e as questões da curiosidade humana em relação ao sexo.

Sliver (EUA, 1993)
Direção de Philip Noyce
Roteiro de Joe Eszterhas
Com Sharon Stone, William Baldwin, Martin Landau, Tom Berenger

27 opinaram | apimente também!:

Adriana disse...

Caraca! Achei que era sobre o filme do Hitchcock. Bom, mas ótimo texto. COmo sempre.

Mas acho "Sliver" ridículo. William Baldwin é péssimo ator, sofrível. E Sharon Stone não precisava ter chorado no sexo. Ficou feio. Eu abriria os olhos, pararia e diria: "Que foi, filha?"

Abs!

Gabriel disse...

E novamente enganando com os títulos. Por mais que eu já soubesse do filme no Em Breve, quando li o título do texto, achei que você tinha mudado de ideia e iria falar da obra de Hitchcock. Não dava nada por esse Invasão de Privacidade em ver apenas título, pôster e elenco, mas seus textos geralmente mudam a ideia que tenho do filme. E gosto quando retratam voyeurismo nas telas, vou procurar.
Abraços.

Adecio Moreira Jr. disse...

Saudades de Sharon Stone musa!

Marcos Nascimento disse...

É curioso ver que "Invasão de Privacidade" traz um tema que hoje é tão recorrente (se bem que Hitchcock já fazia isso décadas antes com "Janela Indiscreta" - titulo do seu post!). Todo mundo, de certa forma, é um pouco vouyeur, se arrepiando e tendo aquelas sensações ao ver os outros se expondo, num filme, na tv, num strip particular. O que "Invasão..." escancara pode ser um pouco do cotidiano privado de cada um.

Parabéns pelo blog, adoro seus textos e acompanho sempre que possível!!!

Marcos Nascimento disse...

É curioso ver que "Invasão de Privacidade" traz um tema que hoje é tão recorrente (se bem que Hitchcock já fazia isso décadas antes com "Janela Indiscreta" - titulo do seu post!). Todo mundo, de certa forma, é um pouco vouyeur, se arrepiando e tendo aquelas sensações ao ver os outros se expondo, num filme, na tv, num strip particular. O que "Invasão..." escancara pode ser um pouco do cotidiano privado de cada um.

Parabéns pelo blog, adoro seus textos e acompanho sempre que possível!!!

Amanda Aouad disse...

Está aí um filme que nunca despertou a minha curiosidade, hehe. Mas, seu texto está ótimo como sempre.

bjs

Ricardo Morgan disse...

Fui seco achando que era hitchcock! kkkk Esse filme marcou minha adolescência justamente pela sensualidade, que sustenta o roteiro e não faz ser um filme ruim.

Abraços

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Vi na tevê. É bem fraquinho, mas rola química entre Stone e Baldwin.
Abraços,

www.ofalcaomaltes.blogspot.com

Rodrigo disse...

Me intriguei com o filme. Adoro toda a aura de mistério que você comentou. Mais um excelente texto. Abraços.

Kamila disse...

Mais um filme da época em que a Sharon Stone queria ser uma porn soft star! rsrsrsrsrrs Não gosto, pra ser bem sincera! rsrsrsrs

Luiz Santiago disse...

Achei que era sobre o clássico do Hitchcock! Hahahahahahaha

De qualquer forma, o texto faz relações com o filme do mestre do suspense (você faz, quero dizer), e fiquei interessado em assistir ao filme, tanto pelo casal protagonista quanto por saber que o Noyce já dirigiu algo ao menos aceitável. Nem "O Colecionador de Ossos" me agrada muito. "Salt" você sabe minha opinião porque leu o texto no Cinebulição, e "Em Nome da Honra" é invertido demais pro meu gosto.

Quando vir esse aqui, te dou um toque. O texto sobre eu gostei. Vamos ver o filme...

renatocinema disse...

voyeurismo = tudo.kkkk.

gostei muito do filme quando assisti no cinema.

Não tem nenhum ator que realmente eu aprecie. Mas, tudo se encaixa perfeitamente nessa produção.

Bela escolha para seu comentário, como sempre brilhante.

Edson Cacimiro disse...

O filme foi feito na época certa: Sharon ainda estava no auge, Baldwin apesar de pessimo ator ainda enchia a tela com seu corpão e Tom Berenguer não era o gordo que se tornou, e todo aquele aparato eletronico era novidade pra época, hoje nada é mais novidade e nem chama mais a atenção: nem os aparatos eletronicos e muito menos as estrelas do filme. Mas é um bom filme.

Flávio disse...

Esse é um filme que divide opiniões, muitos não gostam dele. Sharon Stone , nesta época, rivalizava os papéis de "vampiras sexuais" com Demi Moore.

Otavio Almeida disse...

Pô! Achei que era o filme do Hitchcock! Eu não gosto de "Sliver". A começar pela atuação de William Baldwin, que é sofrível. O roteiro veio na carona do sucesso de "Instinto Selvagem" e você sabe como são as tendências em Hollywood. Agora, Sharon Stone sensível e transando é o contraste ideal para a Sharon Stone devoradora de homens e... transando? Ela só não precisava ter chorado no meio da transa, né? Isso foi demais pra ilustrar a sensibilidade dela. Se eu fosse o Baldwin, eu pararia e diria pra moça: "Que foi, filha?"

Alan Raspante disse...

Lembro bem das cenas de sexo, hehehehe Baldwin é um "tipo" e tanto, a cena que retrata nesta imagem em baixo é demais...! rs

Enfim, pra mim, é um ótimo filme de/sobre nudez, sabe? só.

[]s

Reinaldo Glioche disse...

Cara, sem sacanear: vc melhorou o filme. Principalmente com a bem sacada relação com os reallities e focando nesse interesse voyeour que o filme, a bem da verdade, não parece interessado em sustentar. Gostei muito da sua análise. Ótima reflexão em cima de um suspense "gostosinho".
Aquele abraço!

Emmanuela disse...

Texto apimentadíssimo!
Adorei a alusão do título.

Nem aparece. snif....

Marcos Eduardo Nascimento disse...

Cris, boa tarde! como assim, outro Marcos Nascimento??? outro de mim na blogsfera??? rsrsrs. Que saudades, meu rei! Mas enfim, estou de volta depois de um intervalo gigantesco! Que delicia de texto, nao?! Ateh mesmo para um filme chato como esse, vc se supera na analise da producao, dos atores, interpretacoes e afins.

PARABENS!

Kleber Godoy disse...

Cristiano,

Gostei. Sempre bom visitar seus textos... mesmo que nem sempre eu comente...

Continue...

Abraços,

Kleber

Jeniss Walker disse...

Acho o filme mais-ou-menos. O Tema é muito bom. Abraço :)

Mayara Bastos disse...

Também pensei que era o filme do Hitchcock! rsrsrsrs. Mas acho também bem fraquinho e a Sharon Stone ficou carimbada neste tipo de filme.

Beijos! ;)

Silvano Vianna disse...

Como filme é bem fraquinho. O que funciona é a sensualidade de Sharon e no ague ela faria até o Papa proferir algumas palavras impróprias.

Hugo de Oliveira disse...

A Sharon Stone arrasa nesse filme, adoroo.

Guto Angélico disse...

Adoro a Sharon ! Não vi esse filme verei! Parece ser bom!Verei

Fernando Prates disse...

Quanto tempo não leio um texto seu. Muito bom cara! Voce ja assistiu Cisne Negro? Vale uma bela resenha!
Um abraço!

Dario Façanha disse...

Cara, só agora conheci teu blog e que surpresa boa!
Muito interessante essa abordagem temática, específica.
Parabéns pela ideia.

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