Tesão por amar?

O romantismo exprime um fascínio revelador. Tão contagioso, torna-se algo contundente na vida humana, leva à transformação pessoal. É justamente esse poder revelador, através da possibilidade de vivência desse senso, que o filme Don Juan DeMarco evidencia seu maior objetivo: a linguagem do amor é a única forma do indivíduo sentir-se pleno, físico e sexualmente, sua liberdade existencial. Personagem da literatura tido como sinônimo de sensualidade e libertinagem, tornou-se referência como eterno representante da sedução romântica masculina. Figura lendária, clássica, é o cavalheiro simbólico utilizado em romances universais — Lord Byron e Bernard Shaw — ou através de peças teatrais e até óperas como a de Mozart. Para tanto, diante de relevâncias nas artes e mitos no inconsciente popular, o personagem é um sucesso em diversas línguas; uma espécie de arquétipo cultural, figura mitológica, modelo da sensualidade romântica. O termo donjuanismo foi consequente, até Freud adotou. O diretor Jeremy Leven apropria-se dessa lenda para recriar seu roteiro, numa atualização/adaptação de um mito original. Em Nova York, um jovem rapaz de 21 anos (Johnny Depp) titula-se o próprio Don Juan, ao tentar suicídio, por sofrer uma desilusão amorosa, é resgatado pelo psiquiatra Dr. Jack Mickller (Marlon Brando). Disposto a tratá-lo, acreditando que o jovem sofra de problemas psíquicos ou esquizofrenia, o médico é inspirado e seduzido pelo universo criativo do paciente a ponto de transformar sua própria vida.

O filme foca na relação do jovem que diz ser o próprio Don Juan, assume a identidade desse mito ao evidenciar o arquétipo físico — transvestido, capa, máscara e sotaque castelhano —, bem como a personificação do comportamento sedutor, libidinoso e sexualizado do personagem clássico. O jovem passa a fomentar uma realidade imaginária, contagiando até o seu ouvinte psiquiatra que adentra ao seu universo imaginativo de histórias românticas e sedutoras. O sexo sempre foi forte na sua formação, como o interesse pela nudez do corpo da mãe quando ainda era bebê; na adolescência o voyeurismo e o amor-platônico à professora de moral e religião. O roteiro centra-se nos diálogos do jovem galanteador que, por recriar um universo próprio, libera suas memórias cheias de fantasias de sentimentos e desejos íntimos — histórias de amores diversos; do início da sexualidade; do amor ao sexo feminino que tanto inebriou uma vida predestinada à admiração do corpo/alma de uma mulher. A história contada pelo jovem é tão sensual, vívida e tocante, que contagia o próprio psiquiatra a ponto dele reavaliar seus atos, sentires e reacende a paixão perdida no seu casamento acomodado com sua esposa Marilyn (Faye Dunaway). É possível torna-se romântico novamente? O que há de tão triste, na trajetória carnal, que perder o próprio interesse em amar e ser amado? O jovem acorda o coração em coma do médico a ponto dele questionar: existe o viver sem estar apaixonado?

Toda a representação sexual masculina é exposta no jovem Don Juan, um homem que valoriza cada centímetro do corpo fêmeo; idólatra da alma e do gênero feminino. Eis o homem que nasce pra amar e viver pelo prazer de desejar/sentir a mulher em sua total forma — pelo gozo, de acordo com o sexo constante; é o amante perfeito capaz de proporcionar o prazer absurdo à qualquer mulher. Don Juan respirava amor por várias mulheres, ainda que fosse fiel a cada uma delas — e o filme não esconde essa virilidade e compulsão sexual descontrolada desse homem, o maior amante do mundo. A deliciosa narrativa centra-se nessa provocação ao colocar um jovem que se apropria do mito, assume seu donjuanismo, mas que fundamenta algo óbvio: é um ser romântico que vive por amar e viver da condição do tesão pelas mulheres. E, tão emocional quanto é o senso do romantismo, a realidade acreditada desse jovem influencia a percepção do psiquiatra — é então que ele passa a ter desejo pela sua mulher, observando-a com novos olhos e acorda emocionalmente para um mundo que parecia adormecido nas limitações do racionalismo; da superficialidade conjugal. Nas constantes sessões de análise, há um envolvimento total entre paciente e psiquiatra, uma conexão emocional. Decerto, há uma troca entre eles, sendo o Dr. Jack o beneficiado no tratamento por ter seu romantismo resgatado através do sexualizado poder argumentativo de seu paciente. Mais que a libido, é o amor que promove a ardência numa vida?

Existe em Johnny Depp uma atuação altamente sedutora, apaixonado, na maneira como ele personifica a testosterona e o comportamento romântico de acordo com a necessidade que seu Don Juan exige. O ator instiga por executar em cena um domínio enérgico ao encarnar um representante másculo, viril, caliente. Suas cenas, com as várias mulheres que compõem o mosaico feminino do filme, são bastante torneadas de sedução e funciona como recurso meloso, mas concernente aos sentidos libidinosos que a película expressa. Puro sex-appeal. O seu talento tem o contraponto sincero na interpretação atenta de Marlon Brando, um homem que acorda para à hiperatividade sentimental, sensorial e sexual — obviamente, a direção segura de Jeremy Leven extrai uma química perfeita dos dois atores em cena, bela sintonia. Interessante que Depp só aceitou participar do filme caso Brando estivesse na produção também. Há um erotismo elegante e poético que contorna a película, ainda mais na narração em off do personagem título. Não beira à vulgaridade. A trilha sonora de Michael Kamen condensa em sua melodia instrumental os acordes do tema central do filme, a canção "Have you ever really loved a woman", de Bryan Adams. Soma-se uma fotografia avermelhada, com cores terrenas do marrom ao cinza escura, bastante coerente com o universo amoroso do filme. Um trabalho que traz dentro de si a reflexão sobre valores dos sentimentos; da importância da paixão como forma de vivência humana; de como a sexualidade ainda é importante aos sentidos e prazeres pessoais. E nunca é fora de moda adotar o romantismo como lema vital, muito menos permitir-se aos anseios tão descontrolados da sentimentalidade. O êxito de existir é o de amar. "Sem fogo não há calor, sem calor não há vida." — eis a pura verdade.

Don Juan DeMarco (EUA, 1994)
Direção de Jeremy Leven
Roteiro de Jeremy Leven
Com Johnny Depp, Marlon Brando, Faye Dunaway, Géraldine Pailhas

19 opinaram | apimente também!:

Gabriel disse...

O filme é tão sedutor quanto o personagem de Johnny Depp. As idas a um cenário paradisíaco mergulhadas numa fotografia vermelha e recheadas com o sotaque castelhano se inserem completamente ao romantismo, que pode envolver os espectadores mais sentimentais e até os mais fechados que estiverem dispostos a se entregarem para Don Juan DeMarco. As atuações estão ótimas
Como Marlon Brando bem falou e você frisou em seu delicioso texto, - diga-se de passagem, tão delicioso quanto o filme - sem fogo não há calor, e sem calor não há vida.
Abraços.

Fernando Fonseca disse...

Um filme para os apaixonados e sedutores. Apesar de toda sensualidade exalada em cada poro de Depp, em cada quadro que ele apareça, quem mais me encanta nesse filme é Brando. A partir dele passamos a nos questionar "quanto tempo dura o amor?" ou "posso amar a mesma pessoa mesmo após anos de convivência?". Com toda conotação sexual do filme, temos um argumento emocional atemporal, pois desde que o mundo é mundo, os casais têm problemas de relação, principalmente, com o desgaste do passar do tempo. Enfim, uma obra sedutora e deliciosa. E a música do Bryan Adams é trilha sonora essencial para qualquer casal apaixonado.

Renata (impermeável a) disse...

assisti este filme na adolescencia... abriu em mim um desejo imenso de viver sempre amores sexuais, que trago comigo até hoje. não consigo entender relações homem-mulher que nao estejam embasadas no tesão....

muito legal a analise...

Renata (impermeável a) disse...

assisti este filme na adolescencia... abriu em mim um desejo imenso de viver sempre amores sexuais, que trago comigo até hoje. não consigo entender relações homem-mulher que nao estejam embasadas no tesão....

muito legal a analise...

M. disse...

AAAAh! Esse filme é tudo de bom! Para quem quer entender o que é o romantismo na vida a dois, mesmo que o tempo passe, mesmo que a rotina queira estragar a convivência, vale à pena ser um(a) Don Juan: conquistar a cada dia, amar, amar sempre. Assisti esse filme quatro vezes no cinema, tenho ele aqui em DVD e é sempre uma fonte de inspiração maravilhosa. As atuações de Marlon Brando e Faye Dunawaye são lindinhas e inesquecíveis. Sem falar na incorporação do Don Juan de Johnny Depp... A trilha sonora e o vídeoclipe dela é para sonhar.

Hugo de Oliveira disse...

Gostei da sua análise.

abraços

Wallace Andrioli Guedes disse...

Acho um filme bonitinho, uma ode ao romantismo bem bacana. É legal ver Brando e Depp juntos, mas acho que mereciam um filme melhor para a realização dessa parceria (me parece que Brando também esteve na estreia do Depp na direção, O BRAVO). E ainda tem a Faye Dunaway, outrora uma das grandes atrizes de Hollywood. Ah, e Bryan Adams é dose, né? rs.

Edson Cacimiro disse...

Lindo filme e linda música.

Rodrigo disse...

Poxa, nunca vi estes filmes, portanto toda vez que venho aqui sinto uma vontade de me matar. Os seus comentários nao sao só apaixonados, sao também belos. E ainda aposto que se tivesse visto o filme, iria gostar mais ainda. Continue assim, por favor. Abraços.

Amanda Aouad disse...

Mas, rapaz, você pede para falar do filme e fala antes? kkkk. Já tinha programado ele para amanhã, então deixo para você ler lá o que acho do filme. Quanto ao seu texto, ótimo e apaixonado como sempre.

bjs

Lai Paiva disse...

Apaixonada pelo filme. Fui totalmente seduzida por ele.

Ricardo Morgan disse...

Um dos melhores romances que já vi. Johnny Depp é foda! Abraços

bruno knott disse...

acabei de ler sobre ele no cinepipocacult... e li agora denovo.

minha vontade de assistir ao filme aumentou.

quando eu vi pela primeira vez tinha uns 10 anos... não lembro de quase nada!

Abraços.

bastidoores disse...

Quem imaginaria que "Don Juan" daria as caras no Apimentário - me surpreendeu bastante.
Faz tempo que não assisto...
Cris, vc está me lembrando de vários filmes que preciso rever hahaha

Natalia disse...

ótimo texto Cris! Não consigo imaginar ninguem alem de Depp para este papel. Faz mto tempo que vi o filme, já anotei na minha lista de filmes pra rever.

Filmes que tratam a sexualidade de uma forma elegante sempre me chamam a atenção. Acredito que não é uma tarefa mto facil, mas neste filme Leven conseguiu mto bem.

Bjo!

Fábio Henrique Carmo disse...

Esse é um daqueles filmes mal vistos pela crítica, mas bastante queridos pelo público em geral. Eu gosto bastante. Leve e saboroso, com ótimas atuações de Depp e Brando. Aliás, uma grande encontro de dus gerações.

Abraço!

Kamila disse...

Acho, sinceramente, este filme muito fraco. Mas, vale pelo charme do Johnny Depp!

Cristiano Contreiras disse...

GABRIEL: Concordo integralmente contigo. O filme é um misto de sensualidade e paixão mesmo. Interessante que o grande charme é por conta do equilíbrio de Depp com Brando em cena, né?

FERNANDO FONSECA: Eu prefiro Depp, adoro a atuação de Brando, mas é o Don Juan mesmo que nos fascina e proporciona os melhores momentos do filme. Sensualidade e sentimento! É um filme delicioso mesmo, bem como a música de Adams!

RENATA (IMPERMEÁVEL A): Concordo contigo! E o filme também foi bem representativo em minha adolescência. Revi e continuo gostando...

M.: Um filme que discute mesmo as questões do coração, do romantismo. E isso é mais que interessante. É um trabalho que nos alerta à necessidade de manter, dentro de nós, acesa, a chama do sentimento...concordo contigo, o elenco é perfeito!

HUGO DE OLIVEIRA: Obrigado! Apareça mais!

WALLACE ANDRIOLI GUEDES: Eu acho mais que bonitinho, rs. Gosto muito do trabalho deles aqui e acho que a trilha, a música, de Bryan Adams é um marco pro filme. É deliciosa, é ótima de se ouvir e cantar. Gosto bastante.

EDSON CACIMIRO: Concordo com você! ;)

RODRIGO: Poxa, se puder, veja este. Eu acho que todo cinéfilo e apreciador de Depp deve conhecer. O ator está no ápice aqui, cativa mesmo.

AMANDA AOUAD: Ué, eu também tive vontade de expressar um pouco do que vejo no filme, hehe. Adorei termos postado, juntos!

LAI PAIVA: Eu também!

RICARDO MORGAN: Com certeza, pena que Depp mudou tanto e hoje, parece, está preguiçoso...lamentável, hein?

BRUNO KNOTT: Eu adoraria ver seu texto sobre este filme. Gosto muito!

BASTIDOORES: Por que nunca imaginaria? É um filme bem apimentado e, claro, deliciosamente sentimental! Eu valorizo isso, é sexy! Veja o filme, reveja, é ótimo! Depp está inspirado nele.

NATÁLIA: Ah, eu acho que você vai gostar quando revisar. Momento único de Depp aqui. Rs!

FÁBIO HENRIQUE CARMO: Eu concordo contigo, integralmente!

KAMILA: Discordo de ti. É um filme gostoso e que jamais envelhece. Depp está ótimo e temos um Brando muito bem também!

ligadona disse...

Amooo esse filme! Não estou exagerando. É o tipo de filme que mata dois coelhos com uma cajada só. Marlon Brando e Johnny Depp juntos? É um sonho! Ainda mais em um filme tão bem feito. Inesquecível!
=1

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