O Libertino

No perigoso jogo da sedução, nunca transforme o senso da sexualidade para algo relacionado ao sentimento. Se existe destino traiçoeiro é quando a linha entre o desejo e paixão seja tênue a ponto de confundir todos os paradigmas do que envolve uma coisa e outra. Existem pessoas que acreditam que o sexo não se relaciona jamais com o envolvimento da emoção; é algo sem efeito de sensibilidade, apenas parte dos anseios da própria carne humana — mas o que fazer quando o desejo torna-se também parte sentimental da questão? Quem disse que o tesão não pode estar subordinado a uma qualidade relativa ao sentimento? Como se manter sóbrio quando não há apenas o desejo de relacionar-se pelo sexo? O filme Casanova discute essas questões ao colocar o personagem título, Giacomo Casanova (Heath Ledger), no desespero ao confrontar-se com seus próprios sentimentos, afetos e sensibilidades. Na Veneza do século XVIII, um homem que destinou uma juventude inteira para os caminhos da luxúria, libido e tentações irresistíveis de inúmeras mulheres. Casanova é o representante masculino libertino que se tornou lendário pelas conquistas; pelo dom de fascinar as mulheres da sociedade, sendo elas casadas, viúvas ou apenas virgens inocentes. O homem que desafia a Inquisição, a Igreja, que o condena como herege por se afastar das imposições e regras decretadas — afinal, a instituição católica era contra aos homens considerados anarquistas e partidários do sexo livre, promíscuos. A produção dirigida por Lasse Haström articula a trajetória desse indivíduo propenso à sexualidade, numa conturbada vida de sexo e desapegos afetivos, até quando a acepção do amor emprega seu significado. O homem que só pensa em devorar as damas é envolvido por um despertar: apaixona-se pela ativa Francesca (Sienna Miller), uma garota rebelde e de comportamento avançado para a época, contra os rigores machistas sociais, e que mantém identidade secreta sob o pseudônimo de um escritor famoso. Ao sofrer rejeição da moça, Casanova desenvolve um plano onde inúmeros disfarces e estratégias são postas em jogo.

Ao retratar o espírito libidinoso, malicioso e transgressor de Casanova, o roteiro percorre as situações sexuais desse personagem que se torna lendário; além da fama crescente que faz com que muitos entrem em atrito com o libertino. Há um inquisidor conservador (Jeremy Irons) que quer a todo custo condenar à forca o homem que a sua Igreja o considera depravado, vil e herege. No tempo em que o catolicismo pregava sua força, dominando a todos e julgava/matava pessoas em praça pública. E o filme evidencia a luta da Igreja contra a sexualidade, através do embate do inquisidor sobre Casanova que foge dessa subjugação religiosa que o condena à forca pelos crimes de desajuste, irrefreável sexualidade e crimes por fornicação. O figurão galanteador era acusado de bruxaria, de pacto demoníaco, feiticeiro que roubava a sanidade de "donzelas indefesas"; por isso havia um ódio generalizado por parte dos homens contra ele.

Com um roteiro que estimula o leve humor, além de sutis críticas ao caráter do sexo casual e certo apreço pelo cinismo nos diálogos ácidos — há uma atmosfera de sexualidade constantemente. A caracterização de Heath Ledger como o libertino homem é bastante tangível, para tanto o roteiro não esconde suas intenções maliciosas nem situações onde se confirmam seu tom sedutor; referente à cópula e à promiscuidade. Há cenas de Casanova seduzindo mulheres casadas; em coitos rápidos com virgens desassossegadas de tesão; de beijos roubados em freiras dentro de convento. Evidencia o quanto insensato, imoderado e viciado em sexo ele é. A seqüência onde Victoria (Natalie Dormer), a jovem prometida que nutre um tesão absurdo por homens casados, insinua um sexo oral, por baixo da mesa, em Casanova é provocante; mas não polemiza muito por conta do tom de humor que o roteiro exerce.

A trama ganha uma forma mais romântica quando há um interesse/envolvimento mais emocional de Francesca com Casanova — a jovem rebelde que busca o lugar numa sociedade machista, encontra no libertino arrependido a vocação pelo sentimento. Interessante a química sexual em cena de Heath Ledger com Sienna Miller, o casal consegue convencer nas cenas de desejo e diálogos com frases melosas. A trilha sonora de Alexandre Desplat favorece o tom cínico e sedutor do filme, além de uma trilha sonora que prioriza cores avermelhadas e tons de cobre. Lasse Hallström não esconde seu cuidado sobre os atores, principalmente nas participações de Oliver Platt e Lena Olin (mãe de Francesca), onde expõe um certo teatralismo em cena. Um filme que discute o poder da sexualidade masculina; mas também é um retrato sobre as necessidades femininas de mostrar vontades, desejos e anseios próprios num terreno onde imperava apenas o machismo ditador. E as mulheres que se envolvem na teia de luxúria de Casanova — sendo freiras, virgens ou casadas — mostravam que havia muita força de vontade num período tanto opressor. Tinham vontade de opinar, vencer e, ora, gozar! Não deixa de ser um bom exemplo de filme feminista, ainda que sob o verniz da testosterona.

Casanova (EUA, 2005)
Direção de Lasse Hallström
Roteiro de Jeffrey Hatcher e Kimberly Simi
Com Heath Ledger, Sienna Miller, Jeremy Irons, Oliver Platt, Lena Olin

18 opinaram | apimente também!:

M. disse...

Quando vejo Casanova só lembro daquele trecho da música de Ritchie nos anos 80: "Boa noite rainha, como vai? Sou o seu coringa do seu ás..." Mais sedutor que Casanova impossível! Aliás não sei quais desses clássicos sedutores mais me chamam atenção: D. Juan ou Casanova?
Mas, o filme em que nosso inesquecível Heath Ledger participou é sem dúvida um ótimo referencial dessa lenda. E ele fazia o tipo sem parecer blasé, dentro de uma classe e elegância sóbrias. E claro, essa pitada de humor dá aquele movimento bastante curioso a história.

Seu texto está extraordinário mais uma vez. Um grande abraço e ótimo fim de semana.

Reinaldo Glioche disse...

Então Cris, eu diagnostico esse cinismo dentro do humor da fita. Nisso, concordo com vc. Mas não acho que o filme, embora reporte uma figura totalmente sexualizada, seja tão sexual e traga tantas questões relacionadas a sexualidade e, doravante, a causa feminista como vc faz crer. Acho que vc teorizou bem em cima do filme, dilatou a experiência do espectador. O que é sempre legítimo, mas não acho que o filme discuta, por exemplo, como se manter sóbrio quando o desejo pelo sexo não está sozinho...
Abs

Elton Telles disse...

Gostei do texto.
Essa questão do desejo e sentimento é, como tudo nessa vida, muito relativo. E é um assunto interessante de se discutir, mostrar o limiar disso tudo, quando esse "calafrio" se converte em algo a mais... "Casanova" trata disso, mas né? Com muita economia, vamos dizer assim.

O filme é bacana, mas acho ele um pouco prejudicado pelo roteiro, principalmente o lado cômico que tenta (!) investir em alguns momentos. Ledger manda muito bem e o filme conquista no charme. Mas Lasse Hallstrom... cruzes, pensa na preguiça que tenho desse diretor! rs


abs, Cris!

Rodrigo Mendes disse...

Realmente o filme é uma sedução mais emocional que carnal.

Cada vez que penso em Heath Ledger olho para a sua filmografia com mais atenção. Não há como negar: Ledger era puro desejo e só postumamente tenho notado isso.

Casanova pode até ser um bom filme com a presença dele.

Abs.
Ótimo texto.
Interessado em ler Chicago agora. Rs!

RODRIGO

sandra cristina disse...

Senti muita vontade de conhecer o filme, ao ler o seu texto. Você sabe elaborar suas críticas de maneira construtiva, como sempre. Com uma narrativa suntuosa, sem pudores, sinaliza para os pontos positivos, ou negativos, sem economizar verbos.
Creio na capacidade que todo ser humano tem de subordinar a luxúria ao sentimento. Se não estabelecéssemos uma regra para diferenciar o SEXO do SENTIMENTO, náo nos defrontaríamos tanto, com a sensação empregnada em nós, de que estamos sempre ferindo a nossa decência(questões culturais). A libido, há de ser sempre um mecanismo de conquistas. Cabe a nós definir quais conquistas irão nos tornar plenos.
Sandra Cristina

Kamila disse...

Bom, o lado positivo de "Casanova" é que ele não é tão açucarado quanto os outros filmes do Lasse Hallstrom. O lado negativo é a forma como a qual ele abordou sua história. Acho que esse filme pedia atores mais velhos. Ledger, nessa época, e Miller, especialmente, eram meio irregulares como atores.

Mirella Santos disse...

Ah, eu vi mto pouco desse filme. Mas as poucas cenas que vi eram realmente engraçadas, talvez haja um preconceito por achar que ele o maior amante entre as mulheres de que o filme só vai mostrar transas sem compromisso numa época que não era comum, no entanto, pelo pouco que vi era bem diferente disso. Ótima resenha Cris, preciso ver o filme inteiro logo.

renatocinema disse...

Ao descobrir que Heath Ledger (o eterno Coringa) faz filme tão apimentado fiquei curioso para assistir.

Mas, estou curioso e ansioso para ler sua visão sobre Chicago, filme que adoro. Um dos meus musicais prediletos.

Ansiedade pura toma conta do meu corpo e de minha mente.....abraços

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Estava no Festival de Veneza quando esse filme foi lançado por lá. Foi duramente criticado, e o mereceu. Mas a participação de Lena Olin vale o filme.
Abração,

www.ofalcaomaltes.blogspot.com

Augusto disse...

Casanova é ariano... eu teria apostado em outros signos antes, quase jurava que era escorpião, mas não!

Parodiando Voltaire, eu diria que se Casanova não tivesse existido, teríamos que inventá-lo, é uma espécie de arquétipo-auterego coletivo - homens e mulheres, héteros ou gays - todos gostariam de sair passando o rodo com a convicção de Casanova, aquela certeza de nunca errar um alvo, sempre ter algo excitante a falar.

Dizem que ele não era exatamente bonito, talvez uma espécie de Onassis, que era de capricórnio.

Enfim... não sei como terminar esse post.

Rodrigo disse...

Uma das poucas vezes que vejo alguém falar bem desse filme. Apesar de bons nomes no elenco, nada muito me motivo. Abraços.

Close up! disse...

Isto sim,é uma crítica bem escrita!
Já não se vê disto...
Tenho a dizer-te que concordo a 200% com o que disseste!
Os meus mais sinceros parabéns pelo blog!!

Gabriel disse...

Epa, estou com esse filme aqui, só falta ver. E vai ser daqui a pouco, seus textos só aumentam minha vontade de ver o filme e com Casanova não foi diferente. Além do mais, filmes com Heath Ledger não são pra se dispensar, certo?
Abraços.

Matheus Pannebecker disse...

Até tinha curiosidade de ver esse filme, mas o teu post me lembrou que ele é dirigido pelo Lasse Hallström! Não quero ver outro longa sem personalidade dele... =P

Fernando Fonseca disse...

Um filme que chega ao fim e parece que faltou alguma coisa. Falta sexo, falta sensualidade, falta tensão... e acima de tudo, falta um roteiro coeso. Lasse entrega outro filme morno, que sempre promete ir além e congela. Ledger está numa atuação no piloto automático. Talvez a falta de uma história melhor desenvolvida, personagens mais profundos e menos caricatos e uma direção mais picante, tivesse tornado esse filme uma pequena obra-prima. Afinal, ele vem para ser um marco da sensualidade e termina como uma mera diversão escapista pra um sábado a noite sem ter o que fazer.

disse...

Olá! Adorei seu blog! Também tenho um blog sobre cinema: http://criticaretro.blogspot.com
Espero você lá! Abraços, Lê

Otavio Almeida disse...

Você falou bem ao colocar que é um filme feminista, apesar da presença impactante de Heath Ledger. E Sienna Miller está linda de morrer neste filme. Pena que Lasse Hallström mais erra que acerta em sua carreira.

Abs!

Júnia disse...

Esse menino era bonito com força, dói meu coração vê-lo com essa carinha de anjo e saber que ele não está mais entre nós... Há nem!!!!!
Mas vamos ao filme... Uma comédia que une sensibilidade e romance com a perfeita atuação de todo elenco mas destaque para meu fofo Heath Ledger que está mais sensual e sexy que nunca...

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