Reflexões do desejo?

Um relacionamento desgastado, prestes a explodir de tanto ódio, amor e desejo. Nem sempre há sentido dentro de quatro paredes, visto que na teoria sentimental não há a existência do acordo da razão com a lógica — e se não há emoção, não pode haver uma relação viabilizada com o senso da intensidade. Muito menos o desejo transcorre já que é um elemento de impulso carnal humano. E é justamente esse ponto que o orgasmático Eu sei que vou te amar coloca em questão. Ao tratar de temas tão íntimos, dolorosos e ousados como o sexo em combustão com o sentimento ardente, Arnaldo Jabor retrata em seu filme as vicissitudes de um casal em plena crise da própria existência. Adotando um roteiro que prioriza o tom verborrágico-monólogo, Jabor expõe uma jornada psicossexual sobre um homem e uma mulher. A projeção tem o timing da narrativa vivenciada pelos personagens, em apenas duas horas se dispõe um completo jogo da verdade; o casal em diálogos febris sobre tudo que viveram, com questionamentos sobre próprias atitudes e vômitos sobre indagações sexuais. Qual conceito da fidelidade? Como acreditar no amor eterno? O que motiva o desejo? O filme propõe a realidade dos erros e acertos do amor, coloca em questão as fraquezas humanas bem como os vícios do caráter, eis a psicanálise do ser humano em plenitude cinematográfica. É muita intimidade, overdose de sensualidade a dois, repleto de sincronismo e cinismo sentimental. O que pode ser mais polêmico que os vícios e problemas sobre a esfera da paixão? O sexo é o ápice de um relacionamento? E o amor? O que conceitua um relacionamento intenso?

Com um estilo que mistura o tom teatral com a linguagem dinâmica de cenas que se assemelham ao videoclipe, o filme é todo centrado dentro do apartamento onde o casal não se inibe em providenciar diálogos ora desconexos, ora beirando às incitações filosóficas. Arnaldo Jabor impele seu texto com monólogos próprios de cada um — há seqüências inteiras em que Fernanda Torres exibe-se em indagações sobre o sentimento; perguntas sobre sexualidade ou demonstra fragilidade ao concentrar suas dúvidas sobre infidelidade. A atriz empresta à personagem uma personificação que se mistura em diversos tons; por vezes conduz uma enérgica presença feminista repleta de pontuações sobre questões comportamentais e situações sobre orgasmo feminino; sentimento ou desejos. Em outros momentos, há um tom frágil que mostra uma nova modulação de voz e modo interpretativo, é quando sua voz interpretativa mostra o medo, a agonia e os distúrbios de amar um homem que não te valoriza. Thales Pan Chacon também transforma seu homem; do másculo exibicionista que não teme ser rejeitado ao romântico inveterado que não desiste em conquistar a mulher de sua vida. Os atores, assim como os personagens, enfrentam as oscilações de seus personagens numa rapidez admirável.

A tensão sexual é nítida em muitas cenas. Situações onde o casal rememora transas, beijos ou mesmo nas seqüências em que Fernanda Torres exibe seus seios na presença de um descamisado Pan Chacon. Ainda que inúmeros diálogos concentrem o tom libidinoso da trama — O filme é um singelo estudo sobre os vícios, prazeres e discórdias sentimentalistas de um relacionamento fundamentado no tédio, na dor e na insegurança. Ora o casal permeia entre o amor lúcido repleto de declarações nostálgicas de desejos, ora comunga o ódio em discussões intensificadas de ira. Jabor consegue recriar uma atmosfera lúdica, íntima e com teor de paixão diante da concepção de seus diálogos ácidos e passionais: seria o casal um reflexo de nós mesmos? Até que ponto um relacionamento se condiciona na integridade da fidelidade? Ou está fadado ao término ou transforma-se após uma reflexão a dois. É necessário ter esperança no desejo de amar o outro? Como perdurar o sentimento vibrante? A organização das cenas alia-se do tom teatral, mais ainda pela forma como os diálogos são proferidos, porém a técnica de misturar a trilha sonora, a fotografia com filtros de azul e vermelho, e as narrações em off que pontuam o pensamento dos personagens evidenciam o apuro cinematográfico de Arnaldo Jabor. O diretor também concentra incansáveis closes nos atores para captar a emoção.

Mais que um discurso sobre as esferas da intimidade relacional humana, é um exemplo de acerto de dois atores numa combustão sexual em cena. Fernanda Torres ao lado de Thales Pan Chacon proporcionam um misto de amorosidade e sexo.Talentosos e concentrados, ambos têm uma química interpretativa que determina todo o melodrama verborrágico exponencial de Jabor. Se há um intelectualismo nos diálogos, o tom sexual é muito mais crível por conta do embalo físico-emocional dos dois atores. As cenas que o casal expõe seus fetiches, segredos e obscuridades sobre luxúria/infidelidade é um dos pontos mais hipnóticos do filme. E o diretor sabe explorar a virilidade necessária de Pan Chacon com a sensualidade feminina de Torres para realizar essas pontuações bem provocantes, ousadas e ferinas. Da perversão ao sentimento mais conservador, o filme é uma espécie de celebração sobre o amor e sexo. O casal extravasa seus ressentimentos, mágoas e ofensas sobre as próprias dores. O foco é no delírio da intimidade, no conflito de um para o outro. Altamente intenso e poético, uma espécie de playground psicológico. Um cult-movie feito para reflexão sobre os laços de amor e desejo. A proximidade com a realidade e o monólogo dos personagens proporcionam uma identificação gostosa com o filme. E nada mais prazeroso que constatar que este representante do Cinema Nacional jamais envelhece. Incondicionalmente, excitante.

Eu sei que vou te amar (BRA, 1986)
Direção de Arnaldo Jabor
Roteiro de Arnaldo Jabor
Com Thales Pan Chacon e Fernanda Torres

23 opinaram | apimente também!:

Tiago Britto disse...

Jabor faz bons filmes, mas este eu não conheço. Assisti recentemente o Suprema Felicidade, mas achei mais fraco kkkkkkk abs!

Mayara Bastos disse...

Não gosto do Jabor, só conheço ele pelas crônicas que ele escreve, mas não curto o jeito "ácido" dele. Mas, até que seu texto me despertou a curiosidade de procurar por esse filme dele.

Beijos! ;)

Por que você faz poema? disse...

Pena que ao abordar uma boa obra cinematográfica os comentários não correspondam à altura.

Ricardo Morgan disse...

Ainda não vi este! Na verdade, tenho um pouco de preguiça de Arnaldo Jabor e da estética televisiva do cinema brasileiro dos anos 80! Mas, um dia vou assistir! hehe Abraço

Rodrigo disse...

Mal conhecia a existência desta obra. Talvez veja. O diretor é outro que não me chama muita atenção também. Abraços.

renatocinema disse...

Não quer ler seu texto porque ainda não vi o filme. Mas, promessa para mim é divida.

Essa semana recebi da locadora online Acusados, que assisti faz muitos anos.

Depois de rever entrarei no seu comentário e direi minha visão.kkk

Tardo, mas, não falho.kkk

abraços e obrigado pelo incentivo de sempre

Ulisses Borges disse...

Os comentários são qualquer coisa, deem o nome que quiserem dar. Comentários são relativos e, mais do que isso, pessoais. Se bons ou não, seu texto faz Jabor parecer muito melhor do que realmente ele é. Gosto muito desse desencavar seu, sobre filmes que já passaram, mas que, por algum motivo seu, estão aí nesse momento. Particularmente, não gosto muito de Jabor, embora conheça muito pouco dele e do trabalho. Posso estar enganado, talvez não. Mas sua crítica ainda é sim, melhor do que ele. E isso é somente mais um comentário.

Kamila disse...

Acho que esta deve ser a obra do Jabor que mais obteve repercussão! Ainda não assisti, mas teu texto tá muito bom!!

Fernando Fonseca disse...

Jabor aqui se supera, entrega sua melhor obra e ainda nos faz ficar extasiados. Não pela temática ou sua abordagem, mas por entregar um texto afiado, ácido e altamente verborrágico para dirigir em nuances fortes e paradoxais as atuações de Thales e Fernanda. Aliás, Fernanda aqui mostra uma agilidade performática sem amarras, se desnuda não somente das roupas, mas da pessoa Fernanda. E mostra porque merecidamente levou o prêmio em Cannes de melhor atriz.

Cris, adorei que tenha desenterrado essa pérola do cinema nacional oitentista. Um Jabor nu e cru, sobre sentimentos, amor e sexo.

sandra cristina disse...

CRIS,

ADOREI A CONOTAÇÃO POÉTICA QUE DEU AOS SEUS COMENTÁRIOS SOBRE ESTA OBRA MARAVILHOSA. GOSTARIA DE REVÊ-LO.
VOCÊ TEM UM ESTILO TODO PRÓPRIO DE NARRAR. UMA NARRATIVA PECULIAR DAQUELES QUE CONSEGUEM ENXERGAR MUITO MAIS DO QUE VEMOS, AO ASSISTIRMOS AO FILME.TALENTO É O QUE NÃO FALTA A VOCÊ. MUITO BOM SEU TEXTO.ELE TEM ANÁLISE AMPLA, DE UMA TOTALIDADE ANALÍTICA, INCRIVEL! AVE!

Amanda Aouad disse...

O que mais gosto de Jabor é mesmo Opinião Pública, seguida de Toda Nudez Será Castigada, mas esse filme tem um certo charme. Bom texto como sempre.

bjs

João disse...

belissima observação e tanto detalhe
o duro é voce se ver em texto.
abrçs João;

Elton Telles disse...

Tu só comenta filmes que não vi, recentemente rs. Já sabe da minha política pessoal, né?

E pelo fator "A Suprema Felicidade", não quero ver nada de Arnaldo Jabor nos próximos 3 anos, nem no Jornal da Globo etc hehe, mas Fernanda Torrer, ah, que atriz talentosa e adoravel. Um dia verei este. Por ela.

Qdo tu escrever sobre "Casanova", passo aqui. Esse eu vi =D


abs!

Raphael Martins disse...

Muito interessantes as suas postagens... parabéns pela criatividade! Passei a seguir o blog. Abcs!

Eric disse...

É uma pena que a figura do Jabor hoje seja tão polêmica que acabe ofuscando o trabalho que ele fez. Eu não vi esse filme inteiro(shame on me), vi uns pedaços de curioso quando estudava cinema, mas li o roteiro dele. É puro Jabor. Dá para ver a voz do cara em diálogos em que se deveria imaginar a voz de outras pessoas, o que é meio estranho. Mas agora fiquei curioso, vou "pegar" para assistir :)
baci.

Mirella Santos disse...

Esses filmes dos anos 80 nacional já não me chama mta atenção e ainda mais dirigido por Arnaldo Jabor... Bem, eu até posso ver um dia, mas não entra numa lista de filmes prioritários, os filmes nacionais recentes chamam mais atenção, mas mesmo assim sua resenha me atraiu. Abraços Cris!!!!

Sirena disse...

Cristiano, que delícia pensar nas respostas á todas essas perguntas que voce fez!
Vou rever o filme, o Thales era um ator maravilhoso...e voce, sempre escrevendo textos instigantes, emocionados, profundos!

Gabriel disse...

Mais outro do Jabor aqui, e esse me pareceu ainda melhor e mais excitante, não sei se pela premissa do filme ou se pelo seu texto.
Abraços.

Flávio disse...

Oi Cristiano. Ótima a sua crítica. Parabéns!

Natalia Xavier disse...

Nossa! Fernanda Torres super novinha.
Eu li o livro, achei interessantismo a forma que Jabor trabalha o diálogo. Infelizmente nao vi o filme, na verdade nunca achei ele pra ver. Gostaria mto de assistir, ainda mais por ja ter lido o livro.

Gosto da forma de Jabor ter retratado o casal que acabou caindo na rotina e tédio e simplesmente num dialogo que oscila entre amor e raiva há impulsos novamente, como se acabassem de se conhecer. Mto legal...

Saudade Cris!
Bjs!

Ccine disse...

É sempre bom ver um texto desses ressaltando as produções nacionais.
Esse realmente é um filme bacana que como vc disse é repleto de sensualidade e bem apimentadado perfeito para a proposta do blog (risos).

Abraço.

Bruno disse...

DOIDO PRA VER ESSE FILME!!!!!
VALEU!!!

Wallace Andrioli Guedes disse...

Talvez seja o filme do Jabor que mais me impressionou quando assisti, apesar de, hoje, ter TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA como o meu favorito dele. Lendo o seu texto, Cristiano, fui me dando conta do quanto esqueci quase completamente EU SEI QUE VOU TE AMAR, não me lembro de nenhum diálogo marcante, de nenhuma cena impactante, apesar de ter o filme, como um todo, guardado com carinho e admiração. Na verdade, acho que uma das poucas coisas que me recordo bem é aquele lance do polvo na casa deles, e que depois ressurge na cena final, na praia. Não é isso?
De qualquer forma, acho que a lembrança geral que tenho do filme é mesmo de uma obra carregada de tesão e sensualidade, e que me hipnotizou somente com aqueles dois personagens em cena discutindo sua relação.

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