Diário de um adolescente

Eu matei a minha mãe atuou com bastante polêmica e força emocional quando foi lançado por expor a realidade humana como ela é — a trama dirigida e com roteiro de Xavier Dolan, que também protagoniza sua obra, é um filme expressivo que lida com a conturbada relação familiar. A história do jovem Hubert (Dolan) de 16 anos, homossexual convicto, angustiado com a dificuldade de lidar com sua mãe Chantale (Anne Dorval), inseriu reflexões/discussões em diversos países onde o filme foi lançado. Compreender esse universo familiar, a relação dialogal de ódio extremo e amor confuso, é o foco argumentativo do roteiro que assume contornos narrativos contundentes, até cruéis. Xavier Dolan escreveu o roteiro, baseado em vivências próprias de sua vida íntima, antes mesmo dos 20 anos de idade. Obviamente, o filme funciona como parâmetro para reflexões sobre as relações de jovens com os entes familiares, mas vai além ao colocar maiores problemáticas comportamentais como a diversidade da sexualidade. No filme, Hubert lida com sua puberdade de maneira tumultuada, pois não controla a rebeldia, nem mesmo a harmonia dentro de sua casa, ao se digladiar, constantemente, com sua mãe — como entender a puberdade, sob a ótica materna? E como um jovem não consegue manter um elo de união e cumplicidade com a única pessoa que esteve sempre ao seu lado? Existem maiores traumas, secretos, em torno disso? O filme foca nesse relacionamento histérico de filho com mãe, mas vai além.

A trama é articulada sob as perspectivas do personagem Hubert que assume a narrativa — os habituais "slow-motion" são colocados à favor da narrativa, já que o roteiro é o retrato do que o personagem sente e visualiza. Inúmeras tomadas em câmera lenta demonstram as sensações do protagonista, bem como os recortes na narrativa que aplicam depoimentos dele na câmera; como se Hubert comungasse com o público sobre suas fragilidades, temores e insatisfações em relação a sua mãe. A história toda se centra nessas constantes brigas e agressões de filho com a mãe, totalizando em momentos de grande tensão e alto teor dramático. A câmera centra-se nessa dimensão angustiante ao expressar a dificuldade de diálogo entre filho e mãe; duas pessoas que jamais entram em sintonia, perderam a proximidade. E o roteiro não torna nada maniqueísta, pelo contrário, as situações evidenciam muito bem os discursos de cada um. Entendem-se as dificuldades de Hubert, porém há uma profundidade na personalidade de sua mãe; cada psicológico é bem delineado.

A sexualidade ferve por questões óbvias. Há a homossexualidade notória de Hubert — fica evidente que o jovem tem um alto posicionamento libidinal, um comportamento transgressor, atitude sexualizada. O roteiro não o inibe ao construir cenas de homoafetividade, como quando Hubert aparece em momentos afetivos ou mesmo sexuais com seu namorado Antonin (François Arnaud) — cenas de sodomia, beijos gays e diálogos sensuais bem conceituados demonstram que a temática queer é priorizada aqui. A sensualidade é bem dosada dentro dessas sequências. Ademais, Xavier Dolan explora também questões que envolvem esse universo sexual, insere situações pequenas sobre traição — Hubert é mandando ao colégio interno pela mãe opressora e lá tem sua fidelidade testada ao ser seduzido por outro garoto. O espaço para a discussão sobre homofobia é também utilizada, além de todo o filme funcionar como um discurso sobre identidade homossexual; a busca pela auto-aceitação perante uma sociedade ainda preconceituosa. Há ainda pautado a dificuldade de um filho assumir sua opção sexual para sua mãe, e essa questão é bem pontuada ao longo do filme.

A caracterização das cores — a fotografia é um recurso imagético sempre priorizado por Xavier Dolan — é papel fundamental no desenvolvimento da narrativa. As cores avermelhadas, tons escuros de neon, toda a técnica das luzes em torno dos atores, fecunda um trabalho ainda mais luminoso. Os diálogos assumem força em momentos onde o elenco improvisa e expressa um tom ainda mais naturalizado, é como se a realidade ali fosse tangível. Esse é o papel fundamental da arte cinematográfica, convencer de que aquilo é uma realidade. Como fez no seu segundo filme, "Amores Imaginários", Xavier Dolan utiliza de sua escrita para fomentar momentos onde pode brilhar como ator — e é neste seu primeiro trabalho aqui que se pode observar como é talentoso, emocional e agressivo na interpretação. Suas cenas de ironia, acidez e malícia comprovam o quão promissor é. Os duelos verbais dele com a atriz Anne Dorval são provocativos, eufóricos e de grande intensidade histérica. O cuidado com a direção de arte e com a montagem é evidente também, assume um estilo próprio de Dolan como novo expoente da cinegrafia atual. Mais que um exercício dramático realista da existencialidade da juventude, é um filme que sensibiliza pelo tom sentimentalista. Belo début, ousado e trabalho inspirador.

J’ai Tué ma Mère (Canadá, 2009)
Direção de Xavier Dolan
Roteiro de Xavier Dolan
Com Xavier Dolan, Anne Dorval, François Arnaud, Niels Schneider

21 opinaram | apimente também!:

Luciano disse...

Comentários muito pertinentes. Eu gostei muito do filme porque é extremamente etnso, porém, com bons traços de humor (adoro filme assim). Às vezes um humor negro, mas ainda assim, humor!!! Esse Xavier é um ET...não é possível que uma pessoa dessa idade tenha essa maturidade e talento pra ãtuar e ser cineasta, meu deus...rs. Mas, sério, é um filme muito contundente, com muita informação e merece ser assistido várias vezes para absorver melhor as idéias. Fiquei confuso do início ao fim, decidindo quem era o mais desequilibrado emocionalmente, se ele, ou a mãe. Amei os dois!!! E, fora tudo isso, estou tentando conhecer melhor o cinema canadense. Com este filme, comecei muito bem!!!

Luciano disse...

Esqueci de um comentário importante! Em um determinado momento do filme eu vi uma cena que nunca esqueci: em slow-motion (aprendi???) quando a mãe dele está correndo vestida de noiva. Linda cena. Não sei se entendi completamente a cena, masacho que interpretei muito estranhamente!!! Você tem algo pra falar dessa cena ???

Hugo disse...

Boa dica, não conhecia este filme.

Abraço

renatocinema disse...

Não conhecia o filme e, mais uma vez, seu ótimo texto me apresenta um ótima opção para produções sensuais e provocativas.

barbudean disse...

Bom texto. Só não concordo que o Xavier Dolan tenha criado um "estilo próprio". Muito pelo contrário, o que ele fez, principalmente no segundo filme foi reciclar conceitos visuais e estéticos bonitos aos nossos olhos, mas já usados à exaustão no cinema. O uso do slow-motion que o diga...

Kamila disse...

Todo mundo fala muito sobre este filme, mas eu ainda não o assisti. Parabéns pelo texto!

Gabriel disse...

Filme incrível, texto incrível. Eu me vejo nos filmes do Dolan, acho que isso que o torna um cineasta tão fantástico para mim, o cinema dele é de identificação não para o individual, mas para o todo. Gostei do seu texto, analisou bem um parte que achei boa do filme: por mais que o título me parecesse extremista, em momento algum há um atentado para um possível matricídio, são apenas cenas cotidianas de duas vidas que não conseguem se dar bem juntas devido às diferentes personalidades, como você bem falou cada psicológico é delineado. E o filme, em seu apelo sexual, é uma delícia na forma de explorar o homossexualismo enrustido e práticas libidinosas.
Abração.

sandra cristina disse...

Muito bom seu texto, como sempre.
Mais um filme que pretendo assistir, apesar do roteiro denso, segundo sua narrativa.
Interessante é ver alguém tão jovem, dirigindo, roteirizando e atuando numa mesma película. Talentoso o garoto, heim?
O filme é exibido em palavras. Porque você faz com que tenhamos a impressão de já estarmos diante dele.
Sua colocação é perfeita. E os detalhes você deixa prá que possamos perceber.Na verdade você torna o filme ainda melhor do que é. Porque você sabe como guarnecer os dilemas contidos em cada roteiro.
Normalmente, quando lemos a sinopse de um filme, a mesma deixa a desejar.
No seu caso ficamos mais ansiosos para ver o filme.
Vou conferir.
Beijos.


Sandra Cristina

Marcos Nascimento disse...

Quando assisti ao filme (que me fez cair de amores por Dolan), comparei com o meu referencial - a minha própria adolescência. Nunca quis matar a minha mãe, como o título sugere, nem estive à beira da rebeldia. Mas o "matar a mãe" vai tão além do sentido físico da coisa. É se permitir descobrir, fugir do padrão que foi estabelecido pra você, desvendar o novo e principalmente conhecer a você mesmo. É sair da barra da saia da mãe e, se precisar, "matar a mãe", no sentido mais metafórico da expressão, para enfim, curtir a se mesmo livre de amarras...

Amanda Aouad disse...

Esse estou curiosa mesmo. Gostei bastante do texto.

bjs

bastidoores disse...

Achei que Xavier Dolan só existia em "Eu Matei Minha Mãe". Valeu pela dica, Cris!

renatocinema disse...

Relacionamento familiar, como o próprio filme retrata, pode ser complicado, conflituoso e delirante.

Ao ler sua visão sobre essa obra, me veio a memória a produção "Sitcom - Nossa Linda Familia", uma obra perfeita para quem quer analisar relacionamentos familiares e suas dificuldades e insanidades.

Quando você diz: "Esse é o papel fundamental da arte cinematográfica, convencer de que aquilo é uma realidade." assino embaixo. Essa é, em minha visão, a maior responsabilidade da sétima arte. Fazer o público refletir e acreditar no que está vendo.

Duelos verbais, como faz Tarantino em suas obras, é o que mais me encanta no cinema.

Tesão de assistir a essa obra. URGENTE.

Augusto disse...

O filme é bom (ponto) Dito isto, acatando todos os elogios que já fizeram, deixa eu apontar algumas coisas que me mantiveram com os lábios rígidos. Não gosto muito do discurso vertiginosamente acelerado do personagem de Dolan - imagino que para delinear uma certa ansiedade juvenil - mas me lembra uma certa proximidade com a prosa de Wood Allen, que me cansa um pouco. É um ritmo em que o limite é muito tênue, que eu acho mais bem dosado em Almodóvar, por exemplo, que em Allen. É sempre um risco assumir essa linguagem que tende a ser floreada, sem deixar transparecer pedância, e eu sinto um pouco dessa abuso em "Eu Matei Minha Mãe", não que um personagem pedante em si seja um problema - afinal, o que pensar de um francês? - mas o filme como um todo tem uma certa aura de "vamos a Cannes de qualquer jeito". Apesar disso tudo, gosto do filme, sobretudo, do tratamento de relacionamento maduro entre Hubert e Antonin, mais maduro por parte de Antonin. Ademais, é um tipo de drama genuinamente Freudiano, já que este é um dos pressupostos da análise: matar a mãe. Neste sentido, ele é bem feliz na narrativa... Enfim... é isso!

Flávio disse...

Mais um ótimo texto Cris. Não conheço este filme, mas o caráter psicológico me chamou atenção.

Natalia disse...

Crissss sumido!

=)

Nao conhecia o filme, mas achei o tema interessante. Essa relação de mae com filho, durante a puberdade, e na aceitação ou nao de sua opção sexual é bastante curiosa e delicada de se expor...

Tem selo pra vc (especial) la no le matinee! =)

Bjos

annastesia disse...

Gostei bastante. Mais do que Amores imaginários. Xavier Dolan tem talento cinematográfico, mas precisa desenvolvê-lo um pouco mais.

Mirella Santos disse...

Eu nunca vi esse filme, apesar de já ter tido várias oportunidades, mas eu gostei do enredo, no entanto, ainda não é muito do meu agrado cenas em slow-motion. Adorei que vc disse que tem cenas dele se digladiando com a mãe, bem típico de famílias que tem problemas com relacionamento, realmente me interessei pelo filme. Bjss Cris!

Thomaz Ribeiro disse...

Me parece claro que toda grande briga não é nada mais que um conflito originado na própria família. Os grandes tiranos carregam para sempre as suas birras da adolescência.

Rafael Moreira disse...

Eu amei esse filme. Acheia fotografia belíssima. Xavier Dolan me surpreendeu com a experiência que mostrou ter. Ora fiquei sem compreender as atitudes de Hubert, ora fiquei sem compreender as atitudes da mãe. É um filme sobre a rebeldia moderna. E aquela cena final é pura poesia. Lindo filme.

Matheus Pannebecker disse...

Tirando o fato que os gritos revoltados do personagem me irritam, gostei bastante do filme! E adorei a associação da história com o título. Não é nada daquilo que nós pensávamos!

LuEs disse...

Lembro-me que assisti a esse filme depois de ver Les Amours Imaginaires e, durante a primeira hora, eu realmente gostei de vê-lo. Achei que a história tinha potencialmente chances de suceder, com boas interpretações, um argumento bastante sólido, bom desenvolvimento de roteiro.

Então, passada a primeira hora, me deparei com um filme cujo foco narrativo é repetitivo, cansativo. A história pára de se desenvolver e fica apenas tentando dar ênfases desnecessárias em cenas que nada mais acrescentam à história. Eu honestamente me cansei de tantas vezes que vi o personagem Hubert em câmera lenta, jogando objetos no chão, gritando com a mãe etc.

Para mim, a obra seria exponencialmente um filme interessante, mas se perde em pequenos erros, que nem conseguem ser salvos pela trilha sonora, que, embora nãos eja perfeita, é melhor do que toda a construção cinematográfica proporcionada por Xavier Dolan.

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