Tesão tem compromisso?

Por que não estar com alguém só pelo sexo? Amizade que inclui sexo, sem romance, é possível? A incompatibilidade em promover o vínculo afetivo, o medo de se envolver sentimentalmente, a provável frustração — nada melhor do que viver sem amarras do compromisso, firmar apenas o sexo como único elo? Indivíduos que preferem estabelecer o contato apenas com o outro através do orgasmo, evita ao máximo criar expectativas com o outro. Eis a sociedade sexual que foge dos relacionamentos padrões, pessoas que não assumem nunca que são românticas, muito menos querem transparecer que buscam apenas um amor de verdade. Sob essa premissa, o diretor Ivan Reitman direciona seu filme que tem o verniz de comédia romântica, sob o roteiro franco de Elizabeth Meriwether, para pautar questões da sentimentalidade e sexualidade humana. Sexo sem compromisso diverte e brinca ao retratar as relações amorosas da modernidade. O roteiro prioriza e condiciona a questão do sexo casual ao colocar dois personagens sob essa vertente. A médica bem sucedida Emma (Natalie Portman) que não quer nenhum relacionamento sério, mas firma-se num envolvimento só sexual com o produtor de TV Adam (Ashton Kutcher). Obviamente, os dois querem apenas transa fácil, pegação total, sem nada que promova um compromisso evidente. Contudo, o que parece um pacto de sexo, emula-se num sentimento crescente que parece incomodar os dois. Por que tantas pessoas temem amar e ser amado? O que faz com que muitos prefiram manter uma relação de sexo sem maiores aproximações?

A utilização de uma trama — tão banal, rasa e simplória — não permite maiores desdobramentos, porém a sexualidade é bem delineada, visto que a trama apenas favorece a esse condicionamento. Emma e Adam são perfeitas representações do casal moderno, com tesão mútuo, dispostos a unir-se apenas para impulsionar a libido de cada um; em suma, em busca do orgasmo perfeito, do prazer ideal do momento. Duas pessoas que usufruem apenas do corpo, do coito, do gozo. É a amizade da sociedade contemporânea, que não finge seus estímulos libidinais, que podem transar sem sentir-se arrependido depois. Para que moralismo e boa conduta quando só importa o sexo? E o roteiro retrata, através desses dois, esses condicionamentos — a mulher livre pra transar com quem quer; o homem galanteador, pegador, que pode levar para cama a gata da semana. Emma e Adam são estereótipos sociais, bem condizentes com a realidade.

“Somos parceiros do sexo. Amigos com benefícios. Parceiros de foda, entende?”— Ainda que esclareçam isso, fica nítido que ninguém sobrevive a uma relação que apenas se sustente pelo apelo da sexualidade, dos ímpetos da carne. É então que o diretor Ivan Reitman utiliza dos maiores clichês possíveis para dinamizar a crescente relação que, ainda firmada no tesão constante, gradativamente se prontifica à dimensão emotiva: Emma e Adam se apegam, aos poucos. Ainda que queiram fugir da sensação da paixão, pois não querem viver pela passionalidade do romantismo, o casal custa a compreender que não há nada melhor que uma relação com sentimento. E entendem também que o sexo é muito mais prazeroso e intenso quando existe emotividade a dois. Ademais, o filme insere personagens secundários com tons sexuais — como um homossexual declarado e um outro personagem hetero que é filho de dois pais gays; ou mesmo Alvin (Kevin Kline), o pai de Adam, o cinqüentão que entra em conflito com seu filho por roubar suas ex-namoradas para torná-las suas amantes; notório tiozão que só quer devorar ninfetas da metade de sua idade.

A utilização de humor, diálogos com certo apreço pelo tom chulo — que mostram o quão propensos ao sexo fácil são os personagens — e o tom romântico torna a degustação óbvia de um roteiro que não torna nada complexo, apenas degustável. O filme é apenas divertido, ágil e a típica fórmula romântica de um homem com uma mulher. Ainda assim, é crível a interpretação de Natalie Portman que sabe muito bem humanizar o papel que tem em mãos. A atriz aqui levanta bem a bandeira da mulher moderna que só quer sexo, mas aprende que viver é também apaixonar-se. Suas cenas com Ashton Kutcher, que por sinal assume um tom convincente sem as habituais canastrices, conseguem transparecer uma sexualidade tangível. Ambos até tem química. A seqüência em que os dois transam, pela primeira vez, ainda que desajeitada, é provocativa, pois denuncia a malícia e combustão carnal que seus personagens expressam. Ivan Reitman preenche, assim, seu filme com cenas de corpo nu de Kutcher ou mesmo na luminosa beleza de Portman que tem, naturalmente, um sexy-appeal. Em suma, é um filme que mostra muito bem como as pessoas modernas lidam com seus medos, desejos e frustrações, visto que andam cansadas de relacionamentos sérios — mas, no fundo querem mesmo "dormir de conchinha" com alguém ao seu lado.


No Strings Attached (EUA, 2010)
Direção de Ivan Reitman
Roteiro de Elizabeth Meriwether
Com Natalie Portman, Ashton Kutcher, Kevin Kline, Cary Elwes

21 opinaram | apimente também!:

Alan Raspante disse...

Preciso ver este. Curioso para ver Portman em uma comédia romântica, hehehe

Abs.

renatocinema disse...

Concordo: diverte e brinca ao retratar as relações.

Não sou grande fã do ator. Mas, aqui ele convence e faz um belo trabalho.

Achei um ótimo filme, apesar de não se aprofundar sobre alguns pontos.


Natalie Portman esta numa fase espetacular. "As Coisas Impossíveis do Amor" é outra produção estrelada por ela que merece ser vista.

Perfeito texto para um filme QUASE perfeito.

Caio Marques disse...

Ainda nao consegui ver esse filme, mas na vida real, pelo menos comigo, essa amizade colorida nunca funcionou apesar das tentativas... sempre um dos lados acaba se envolvendo mais que o outro...

sandra cristina disse...

Oi, Cris

Incrível como apesar da diversidade de conteúdo em cada sinopse, os filmes estão sempre enfatizando essa abordagem: Sexo sem compromisso( o medo da afetividade), que é tão atual. Por que?
No fundo, parece que todos querem encontrar alguém que nos possibilite conciliar o sexo com o sentimento.
A sexualidade é algo de suma importância para a maioria dos seres humanos. Criar vínculos com alguém nos dias atuais, é ameaçador.
O temor pela entrega sem limites, da ligação cujo recheio é a paixão, transforma as relações atuais em primitivas; onde o amor fica excluído, ou à espreita. Mesmo aqueles que o sente custam em assumì-lo.
Parece até que verbalizar o que já é pulsante em cada um de nós, pode nos demolir a qualquer momento; é só pronunciar a palavra mágica: Amor.
Enquanto isso, vai-se 'empurrando com a barriga', brincando de faz-de-conta-que-é-só-sexo. Assim não há mortos nem feridos?!
Coragem mesmo é quem se entrega de peito aberto sem dominar seus sentimentos, submetendo-se aos habituais conflitos e frustrações que intercalam-se entre os melhores momentos que a paixão exerce sobre cada um de nós.
Quem não experimentou essa unidade que só o amor e o sexo é capaz de alcançar, não sabe o que é amar.
Gozar com quem se ama é bem mais prazeroso...
Sexo sem compromisso é uma degustação indigesta. É como comermos algo saboroso e depois descobrirmos que 'aquilo não caiu bem, não'...
Beijos,
Sandra Cristina

hellomotta disse...

Eu gostei muito do filme. Chorei e tudo (pra variar!).
A questão é que uma coisa engraçada do filme é que foi mais dificil pro homem assimilar isso de "só sexo" do que pra mulher.
"É sexo, não é um favor!" ahhahaha

Eu curti!
;*

Pat disse...

Oi Cris,

Seu texto me cativou.Aliás,eu já havia lido seu texto há um tempo atrás sobre Amor e Outras Drogas,e li o texto que você escreveu sobre Closer,na semana passada também...Esses dois filmes estão entre meus favoritos e seus textos são sempre convidativos.

Mas hoje,algumas coisas que você escreveu sobre Sexo sem Compromisso ecoaram em minha mente durante a tarde...

Simpatizo com o filme,e me identifiquei com o que você disse sobre "viver é também apaixonar-se",e

" Em suma, é um filme que mostra muito bem como as pessoas modernas lidam com seus medos, desejos e frustrações, visto que andam cansadas de relacionamentos sérios — mas, no fundo querem mesmo "dormir de conchinha" com alguém ao seu lado"

Mexe com algumas coisas que tenho em mente,não muito claras ainda...
Tenho essa impressão de que no mundo atual,as pessoas levantam a bandeira do sexo casual,da pegação geral;do pavor de compromisso,mas que no fundo,todos sentem falta de ter alguém em algum momento,no fundo todos querem saber que são amados e aceitos por alguém.Mesmo inconscientemente.

Quem nunca já observou um casal apaixonado na rua aos beijos e sentiu uma pontinha de inveja,ainda que não admita?rs
Acho que até o mais convicto dos solteiros,já parou para pensar em meio ao clima do dia dos namorados,rsrs

Tô brincando.

No fundo,acho que todos temos medo da solidão e nos escondemos atrás de algumas coisas superficiais,tentando convencer-nos de que não precisamos desse amor romatizado e polido...
A coisa deve ser muito mais profunda...

Seu texto me faz refletir.

Beijos.

Kamila disse...

Uma análise profunda de uma rasa comédia romântica??? :) Eu adoro esse gênero, ainda não conferi o filme, mas acho que, apesar de todos os clichês do gênero, quero muito conferir a obra.

Rodrigo disse...

Esse eu vi. Muito boa análise, aliás. Gostei do filme, mas seus errinhos são óbvios. Diverte, e os dois tem quimica. Porém acredito que sem tanto o Reitman, quanto Portman, seria muito pior. Abraços.

Marcio Melo disse...

Apesar dos comentários aprovadores em diversos locais, eu não me interessei muito pelo filme, e sua crítica me fez ver que tem pouco a oferecer além do óbvio em comédias românticas, acho que vou deixar passar na tv e pensar na possibilidade de conferí-lo.

Dulcíssima Prisão disse...

Tu poderias, ao menos, respeitar a diversidade que tanto alardeia e tornar público toda sorte de opiniões, o mundo, como podes perceber, não é sempre colorido. Não ocultei-me no anonimato, não faças isso por mim.

Elton Telles disse...

Hahaha, amarrou bem o final do texto.

Eu não sabia até ler seu texto que este filme é dirigido pelo Ivan Reitman. Não me atentei a esse detalhe. Na verdade, a única coisa que me chamou a atenção aí foi a presença de Natalie Portman, atriz q adoro muito antes desse hype da galinha preta rs. Por outro lado, essa chatice desse Ashton Kutcher, arre, que carinha mais exagerado...

mas o trailer é bacana e vou arriscar uma conferida. Pelo seu texto, ao menos, parece que o filme não tem um discurso machista quanto à figura da mulher em querer apenas sexo em uma relação - nem amizade, nem namoro - com uma pessoa do sexo oposto. Isso é bacano, é moderno, como você bem diz.

Tenho um casal de amigos que não namoram, mas fazem sexo normalmente. Fazem quando sentem vontade e depois se encontram com a gente pra tomar uma cerveja no bar, sem problemas e talz. Não falam abertamente sobre isso, claro, pois é a intimidade deles, mas nenhum deles tem intenção de ir além. Basicamente, sexo sem compromisso mesmo.


abraço!

Amanda Aouad disse...

Não achei o roteiro tão raso e tolo assim, hehe. Exatamente por expor essa nossa sociedade com medo de se entregar, ele toca em vários pontos interessantes. Mas, o tom é mesmo de comédia leve, sem grandes compromissos. Eu gostei.

bjs

Gabriel disse...

Apenas com base na sinopse e no trailer, o definiria como um retrato da sociedade contemporânea mas sem nenhum atrativo em especial. No geral, veria só por Natalie Portman. Mas seu texto me fez ver alguma outra coisa nessa história, agora já estou até mais animado para conferir, no fim de semana já devo ter um texto sobre. E aguardo ansiosamente seu próximo texto, Dolan no Apimentário só pode render algo bom, rs.
Abração.

Emmanuela disse...

Divertimento que faz refletir. Primeiro sexo, depois amor. Totalmente compatível com a modernidade. Vê se aparece! Um beijo!

Mirella Santos disse...

Adoro os atores principais, mas nào me atraiu muito esse enredo. Uma relação que se baseia no sexo... Nada que muitos outros filmes não apresentem também, dispenso por enquanto, mas vou acabar assistindo por causa da Natalie e Ashton. Abraços

Adecio Moreira Jr. disse...

"...em busca do orgasmo perfeito"

huhauahuahuahuahua

Bom, enquanto filme, "Sexo Sem Compromisso" é beeeem raso. Mas enquanto a análise sexual, até que deu pra desenvolver algo que!

Ou você tirou leite de pedra?

hahahaha... Pego pesado com o filme, né?

flavio disse...

Parabéns pelo texto Cris. Um filme onde o Ashton não esteja canastríssimo pode ser uma boa atração. Abs!

Mayara Bastos disse...

Não estava muito curiosa pela premissa, talvez, veria pela Natalie em um filme pós-Black Swan. Talvez, dou uma chance casa. ;)

bastidoores disse...

Seu texto me deixou com vontade de ver. Agora já é tarde ='(
Cris, já pensou em escrever sobre "Como arrasar um coração"?
É francês e é excelente!
Abraços

Ricardo Morgan disse...

Baixei esse filme mas não vi!!! Quando eu assistir comento com vc! Abraços

LuEs disse...

Esse é um dos filmes que eu quero ver, mas não por causa da história, que penso que deve ser clichê, mas por causa da presença de Natalie Portman. Por causa de Ashton Kutcher, eu dispenso - não é um ator que me atrai muito.

Por causa do que você disse, eu vou tentar vê-lo logo.

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