O amor e outras drogas

Eis a juventude que parece predestinada ao ócio — ou seria a própria conformidade de não querer nada para vida? A única perspectiva aparente, seja no prazer ou na motivação, relaciona-se à auto-destruição, a possibilidade de caminhos tortuosos, ao excesso de tudo que agride o bom-senso. E o que dizer sobre o vício da droga? Jovens que se aventuram na opção de viver uma realidade paralela proveniente do consumo das drogas; do contato com os entorpecentes que concebem uma falsa ilusão de êxtase, nada mais que efêmero. A realidade é bem mais dolorosa, visto que a dependência acaba por dilacerar qualquer senso de moralidade, de amor próprio, não existe nem mesmo a consciência. Em Candy, nada parece ser belo, nem perfeito, não existe sonhos, a realidade é muito dolorosa. Dan (Heath Ledger) é um poeta, desempregado, apaixonado pela namorada pintora Candice "Candy" (Abbie Cornish). Eufóricos, hiperativos, dinâmicos. O casal vive um tórrido romance, uma sintonia perfeita, fazem sexo todo dia. Porém, o melhor orgasmo é quando se viciam, ainda mais, em heroína e cocaína. A partir desse sentido, o filme, dirigido pelo australiano Neil Armfield, surpreende ao percorrer o entusiasmo inicial a decadência física-emocional de duas pessoas que imergem num destino de grande aflição.

Só existe dois protagonistas nessa obra. Só convêm duas coisas para eles: sexo e drogas. Candy, a moça-título, com seu Dan. Boêmios, imaturos e indisciplinados. O casal explode com a sexualidade em cena. O roteiro aproveita-se da própria combustão dos personagens para acentuar uma perspectiva sensual: compreende-se que o casal tem muito amor, desejo e paixão. Tudo misturado, típicos valores de uma relação idealizada. Acompanha-se os dois em transas constantes, beijos e exploração libidinal que recria o universo íntimo da sexualidade presente. E o diretor aproveita-se para conceber inúmeros takes de beleza fotográfica, diálogos poéticos, tudo narrado pelo personagem Dan em tom de reflexão. Porém, não só de sexo se concentra a narrativa. Acompanha-se também a via-crucis dos amantes quando mergulham mais ainda no vício das drogas. E o tom de inocência transforma-se no inferno total.

Dividido em três capítulos — intitulados de "paraíso", "terra" e "céu" —, cada segmento, mais denso que o outro, explora o uso imoderado das drogas e a degradação do casal que transforma o sonho da felicidade inicial em desespero imoderado. A dependência, o vício incontrolável, a progressão da desarmonia conjugal: torna-se contextos da vida dos amantes. Eles passam a roubar para obter dinheiro para sustentar o uso; a prostituição torna-se uma condição vital para Candy que aceita vender seu corpo ou submete-se a sexo oral em desconhecidos para capitar uns míseros trocados; a triste servidão de duas pessoas por substâncias químicas que, se deveria trazer uma suposta "libertação", tornam-se marionetes do próprio vício. "Quando você pode parar, não quer; quando quer parar, não pode..." — é dito pelo personagem de Geoffrey Rush, o amigo homossexual do casal protagonista, tão viciado quanto eles.

O filme é denso em diversas cenas que externam as degradações psicológicas do casal, ao passo que a tensão torna-se gradual mais e mais. O roteiro funciona como um bom estudo sobre a compulsão juvenil — como segurar o que parece ser sempre imoderado? Para um junkie nada mais importa que não seja uma agulha na veia, isso basta. A enérgica atuação de Heath Ledger se converge na entrega interpretativa de Abbie Cornish — é perceptível a química dos dois em cena, tanto nas sequências sexuais quanto nos momentos de maior direcionamento dramático. Ledger é explorado ao máximo aqui, principalmente nos momentos de maior desespero de seu personagem. Cornish vai do corpo desnudo à transformação comportamental vivida pela sua Candy. A delirante cena de mais de 5 minutos de convulsões, vomitação e calafrios, quando o casal vivencia a intolerável crise de abstinência, é um dos momentos mais hipnóticos deste filme que emoldura a realidade das drogas numa triste história de amor. Como traço fiel ao universo da sexualidade que ferve, é eficiente. Mas, é quanto discurso sobre as mazelas das drogas e dos sonhos juvenis destruídos por esses abalos que este produto cinematográfico torna-se imperecível.

Candy (Austrália, 2006)
Direção de Neil Armfield
Roteiro de Neil Armfield e Luke Davies
Com Heath Ledger, Abbie Cornish, Geoffrey Rush e David Argue

25 opinaram | apimente também!:

Gabriel Neves disse...

Um amor movido a sexo e drogas. Adoro Candy, um filme fiel e nada exagerado. Talvez apenas no clima melancólico excessivo para quem assiste, mas para quem vive Candy o mundo é apenas paixão. E seu texto ficou ótimo, explorando bem a questão sexual ao invés de se focar apenas nas drogas.
Abraços.

Fernando Fonseca disse...

Cris nos deleita com mais um texto apimentado e orgástico.

E Candy é tudo isso, sim! Sexo, drogas, prazer e rebeldia. Ledger novamente entrega uma atuação visceral - literalmente. E Abbie é tão espontânea que a sensação de realismo da obra se torna chocante.

Uma bela e triste crítica a uma juventude compulsiva e avassaladora que se entrega de corpo e alma aos prazeres da carne e das drogas, em busca de uma felicidade utópica que ao chegar ao ápice desce ao inferno vertiginosamente.

Boa escolha, um texto delicioso sobre um filme, que para muitos se torna intragável.

renatocinema disse...

Vi Candy por acaso e AMEI....PAIXÃO MESMO.

Adoro a densidade e a paixão dos personagens.


Texto malicioso e delicioso para um filme com as mesmas características.

Adorei sua poesia> "Porém, o melhor orgasmo é quando se viciam". Esse é um retrato dessa geração, quase, perdida em que vivemos.

Cristina Loureiro dos Santos disse...

Impressionante como, não tendo visto o filme, é como se já o tivesse feito, de tal forma intensa é a tua apreciação.
Obrigada. Gosto muito de Heath Ledger.

Beijos :**

Amanda Aouad disse...

Seu texto me pareceu melhor que o filme, que nunca me despertou o interesse. Acho que vou dar uma chance a ele.

bjs

M. disse...

O filme é realmente muito bom. As cenas de tentativa de desintoxicação do casal são penosas e chocantes. Tentar se livrar das drogas juntos foi algo impossível para o csal de protagonistas. Eles tiveram que se separar para dar uma chance à vida. Seu texto como sempre maravilhoso!

Adecio Moreira Jr. disse...

De fato, as cenas de crise de abstinência são hipnotizantes, mas a mais forte, é a do bebê morto. Oh, God.

Leonardo Alexander disse...

Já está na minha lista de próximos filmes a ver. Adoro Abbie Cornish, amo a atuação dela em Bright Star. Ansioso para vê-la em Candy.

sandra cristina disse...

Cris, você como sempre trazendo sua narrativa diferenciada. Expondo suas explanações de tal maneira que, mesmo prá quem não assistiu ao filme, é como se estivesse diante dele.
Fiquei com muita vontade de assistir, gosto demais de Heath Ledger, e o roteiro me parece interessante. Me empresta, tá? rsrs
Gosto de filmes densos e que trazem questionamentos às nossas vidas.
Ótima resenha, como sempre.
Beijos.

Sandra Cristina.

Rogério Saraiva disse...

Listado para o próximo filme. Ótimo texto!!

Hugo de Oliveira disse...

Ótimo filme...

Abraços
de luz e paz

Flávio disse...

Oi Cris. Outro belo texto. Bem sou completamente apaixonado pela Abbie Cornish. Acho que ela ainda vai ser grande em Hollywood.

Andrew Magalhães M. Santiago disse...

Não tive ainda a oportunidade de ver o filme, mas se ele for tão bom quanto a sua resenha já estará de bom tamanho.

Um abraço e até mais!

Kamila disse...

Acho esse filme bem legal. Para mim, o que une esse casal é o vício às drogas mesmo. É como se um estivesse viciado no outro, tanto que eles nunca conseguem ficar muito tempo juntos sem recorrer ao uso das drogas. Eles precisam daquilo e isso é mais forte do que o amor que os une.

D. T. S. disse...

Dessa vez é minha vez de dizer que teu texto é melhor que o filme.

Não que achei ruim, mas pra mim só valeu pela atuação dele que é excepcional. E olha que ela está muito bem, mas ele ofusca.

Abraços.

Natalia Smirnova disse...

Ola, ótimo post. Chamou a minha atenção. Gostei.
Estou aqui para avisar que já está no ar o sexto capítulo de “Illegitimate”. O book está tendo ótimas críticas. Confira através do POET (Pages Of Erased Text).
Te vejo lá.
http://pagesoferasedtext.blogspot.com/

Hugo disse...

É um dos filmes que está na minha lista.

Abraço

Marcos Nascimento disse...

Ainda não assisti ao filme, mas seu texto me despertou a vontade de assistí-lo (embora tenha me passado a impressão de o fato de ter drogas é o mais importante da história).

Parabéns pelo texto, como sempre, e pelo visual do blog, que ganhou mais leveza! Ficou mto bom!

William Ribeiro disse...

Pronto, vc venceu. Agora vou ter que assistir esse filme.
Gosto de filmes intensos e por sua descrição ele bate neste quesito.
Gostei muito do texto, vc escreve bem rapaz!

Abraço,

Will

William Ribeiro disse...

Pronto, vc venceu. Agora terei de assitir esse filme.
Fiquei curioso para ver. Adoro filmes intensos, e pelo que vc ns descreveu ele bate nesse quesito.
Gostei muitodo texto. Vc escreve bem rapaz. Vai dar um ótimo jornalista!

Parabéns!

Abraços,

Will

William Ribeiro disse...

Pronto, vc venceu. Agora terei de assitir esse filme.
Fiquei curioso para ver. Adoro filmes intensos, e pelo que vc ns descreveu ele bate nesse quesito.
Gostei muitodo texto. Vc escreve bem rapaz. Vai dar um ótimo jornalista!

Parabéns!

Abraços,

Will

wellthon disse...

Segunda vez que leio seus textos e me delicio com o modo que você escreve. Incrível como você usa as palavras certas para cada coisa que deseja expressar.
Sobre o filme... bem eu não vi esse mas vi outros parecidos. Acho que mostrar isso é viável para se discutir os limites do uso de drogas e como isso deve ser estabelecido. Mas convenhamos que SEXO + DROGAS é uma ótima combinação.

Abraços,
Well

F. D. Oliver disse...

Já havia lido outras resenhas a respeito desse fipme, mas tenho de admitir que essa foi a que mais me incentivou a procurá-lo. Não por se tratar de um filme com Ledger - isso conta um pouco - mas por me parecer uma visão bem mais direta sobre a contradição entre prisão e liberdade que as drogas podem trazer. Simplesmente, ótima resenha. ;)

Pedro Henrique Gomes disse...

O filme vai se perdendo na medida em que resolve não apresentar soluções para o caos dos personagens, só fulgura o óbvio e perecível. Fica só na degradação, no velho discurso "não use drogras, elas acabam com sua vida". Ainda bem que tem bons intérpretes dando corpo a essas imagens.

Reinaldo Glioche disse...

Bélissimo texto. Candy é mesmo polêmico, sensual e alarmante no debate que propõe, ainda que implicitamente, sobre a desgraça que as drogas acarretam...

Abs

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