Bonequinha de Luxo?

Como confiar que uma mulher promíscua possa ter sentimentos como qualquer outra pessoa? A grande polêmica colocada em Disque Butterfield 8 é justamente na ironia do destino enfrentado pela protagonista. Gloria Wondrous é uma prostituta de luxo que adquire fama pelo comportamento libidinal e a personalidade forte que condiciona os homens aos seus pés. A mulher que vive de tórridos romances com homens casados, mas que no fundo mantém a consciência pesada por nunca ter conseguido amar alguém de verdade. Vítima de uma traumática experiência ainda na adolescência, a jovem tem que lidar com a relação de conflito com sua mãe bem como com o preconceito de uma sociedade que não tolera uma transgressão tão sexual quanto esta. Quando Gloria apaixona-se por um de seus clientes, o empresário Weston Liggett (Laurence Harvey), é que o filme dirigido por Daniel Mann, baseado no romance de John O'Hara, encontra seu melhor trunfo: como arrepender-se de uma vida firmada em falsas idealizações? O conflito da prostituta que cansa de viver imersa em prazer, sexo com desconhecidos e sustentada por dinheiros/jóias de seus clientes, rende uma trama bastante provocante.

É alarmante a maneira como o filme mostra a sexualidade presente em Gloria e propõe questionamentos morais da época. E é através dessa personagem que todos os outros adquirem contornos, desenvolvem-se. A prostituta mexe com os homens, com a estrutura familiar e percepções de cada um. E isso é muito bem delineado. Ainda que ela se relacione com sexualmente com diversos homens, seu elo de confiança centra-se no seu amigo de infância, Steve Carpenter (Eddie Fisher), pessoa que Gloria mantém uma amizade permeada de sinceridade, amor platônico e muita malícia na intimidade — inclusive, a prostituta causa desconforto e ciúmes na namorada do amigo a ponto da relação dele ser prejudicada por conta de sua presença. A trama procura acentuar esse magnetismo sexual de uma mulher que hipnotiza, conduz e comanda o sexo masculino de acordo com seus anseios. Mas, o tormento é maior para Gloria que acaba tendo que confrontar-se com seus sentimentos quando passa a viver, afetivo e intimamente, com Steve, este um homem casado que ainda tem que esconder da esposa suas traições incessantes. As cenas de romance dos dois, emoldurados pela bela trilha sonora de Bronislau Kaper, fornecem a sedução em cena.

Repleto de diálogos ferinos, intensos e emocionais — obviamente, um filme melodramático —, eis a grande chance de observarmos uma estonteante Elizabeth Taylor que brilha em cena. O Oscar de Melhor Atriz foi merecido a uma interpretação cheia de nuances. A atriz sabe muito bem expor uma feminilidade visceral, toda sedutora e também centrada em seus conflitos psicológicos. A sua personagem oscila o caráter, tem uma certa dualidade presente. Nunca se sabe se ela brinca com os homens ou se é apenas uma mulher libidinal que aprendeu que não pode viver sem amar. E talvez esse seja o elemento mais saboroso: a maneira como ela aprende que precisa ser mais digna, afinal uma vida pautada na promiscuidade e na prostituição torna-se nada mais que um mero sinônimo de fraqueza de alma. E o roteiro não amenizada o lado nada puritano dessa jovem que tem a consciência de sua vida mesquinha, até então sem muitas pretensões de vida, quando ocorre a transformação psicológica por conta de um sentimento que nunca havia descoberto. Ironicamente, a mulher que escolhia uma vida libertina, no vício do sexo e dinheiro fácil, aprende que não existe orgasmo mais intenso que a própria experiência de viver ao lado de um único homem por quem devota um sentimento puro. E é doloroso como o filme, ora eleva a dimensão sensual dessa personagem, ora a coloca em fragmentos por perceber o quão difícil é retomar uma vida que já parece predestinada à perdição. Por fim, é mais uma história de alguém que buscava mais o amor-próprio...

Butterfield 8 (EUA, 1960)
Direção de Daniel Mann
Roteiro de John Michael Hayes e Charles Schnee, baseado no romance de John O'Hara
Com Elizabeth Taylor, Laurence Harvey, Eddie Fisher, Dina Merrill, Mildred Dunnock

30 opinaram | apimente também!:

M. disse...

É um papel forte demais para a época de La Taylor, e no qual ela fez como ninguém. Excelente desempenho da atriz e maravilhosa análise do filme. Um abraço e ótima semana!

Emmanuela disse...

Eu vi este filme ainda essa semana. Adorei os diálogos provocantes e a atuação de Taylor. Muito bom para a realidade que o filme não tenha dissimulado o comportamento dissoluto da personagem. A eloquência sedutora de Weston Ligget é digna de admiração.

Li sua entrevista hoje lá no Poses e Neuroses, parabéns!!

lucidreira disse...

Quase que eu vivia a minha infância, só na data da exposição da película. Risadas.
Feliz dia do amigo e da amizade.
Abraço

alan raspante disse...

Eu comprei esse filme por esses dias. Bem, sinceramente? Não gostei, não. Acho que o filme poderia ter sido infinitamente melhor, sem contar que achei melodramático demais. Porém, possui algumas cenas bacanas [principalmente a inicial] e uma Taylor arrasadora, mesmo que não seja sua melhor atuação.

Verdade seja dita: Seu texto consegue ser melhor que o filme, rs

Abs.

Marcos Eduardo Nascimento disse...

Cris, boa tarde. Entao, Liz Taylor, sem duvida alguma, foi a atriz mais popular da historia de Hollywood. Teve os seus momentos de profissional, sim, mas em sua maioria, os papeis feitos por ela variaram pouco. Na minha opiniao, os melhores trabalhos sao: Um lugar ao Sol e Gata em teto de zinco quente. Interpretacoes arrasadoras.

E que tuuuuudo que voce comentarah sobre Shelter. Aguardo ancioso.

Beijao, meu Rei.

Fábio Henrique Carmo disse...

Comprei esse filme há pouco tempo, mas ainda não vi. Curioso que Taylor o detestava e muitos afirmam que seu Oscar se deveu ao fato de ela quase ter morrido durante as filmagens de "Cleópatra". Bem, devido ao seu texto vou colocá-lo entre as prioridades da minhas extensa lista de filmes ainda por ver. Abraço!

Cristiano Contreiras disse...

M.: Eu gosto do filme, a atuação de Taylor é muito boa. Mas, para mim, o melhor filme dela no quesito interpretação é "Quem Tem Medo de Virginia Woolf?". Aliás, uma das melhores atuações femininas da História do cinema. Obrigado pelo comentário!

EMMANUELA: Eu gosto dos diálogos deste filme, ainda que ele seja um pouco moralista. Mas, o filme tem seu charme, isso tem.

Ah, obrigado, que bom que gostou da entrevista!

LUCIDREIRA: Que bom! Feliz dia do amigo pra você também!

ALAN RASPANTE: Olha, eu gosto do filme, mas reconheço que não é uma obra perfeita. Envelheceu, levemente. Mas, sinceramente, pra mim, a atuação e o charme de Liz Taylor compensa o argumento do filme. Gosto muito dela e aqui há momentos que ela se mostra bem intensa atuando. E, sim, o filme é bem melodramático, mas ainda assim funciona. Obrigado, que bom que gostou do texto!

MARCOS EDUARDO NASCIMENTO: Ela é uma atriz eterna, apesar de eu preferir outra atriz da época "clássica", como Audrey Hepburn, por exemplo. Bem lembrado, eu gosto muito de"Um Lugar ao Sol" e "Gata em teto de zinco quente", por sinal, em breve, irei postá-los aqui! Fique no aguardo, tá?

Ah, sim, "Shelter" é o próximo filme. Eu revi ele, daí já coloquei como próximo! Rs! Abraço!

FÁBIO HENRIQUE CARMO: Pois, espero que aprecie como eu! Gostaria de ler seu texto sobre. Na realidade, Taylor não detestava, ela não queria fazer esse filme - mas, depois de feito, ela gostou do resultado e colheu seus frutos com os inúmeros prêmios recebidos. Abraço!

Kamila disse...

Nunca assisti a este filme, mas seus ótimos textos, como sempre, deixam a gente bem interessada na obra! :)

o Humberto disse...

Confesso minha ignorância, nunca tinha ouvido falar desse filme 9ou ao menos não lembro de ter). E fiquei muito interessado. Tratarei de vê-lo logo, até porque algo me diz que a hora é esta.

No mais, suas críticas sempre tão bem feitas. Eu sinto um pouco de inveja, sabia? ;)

Parabéns sempre pelo blog, Cris.
Abrazo!

Gabriel Neves disse...

Ótimo texto, pelo visto preciso conferir esse filme pra ontem, rs.
Abraços.

Cristiano Contreiras disse...

KAMILA: Se puder, procure logo. É um filme que nós, fãs dos clássicos, apreciamos. E é um momento marcante da eterna Liz Taylor! Bj!

HUMBERTO: Poxa, eu acho que você faz certo em buscar o filme, depois me conta o que achou, tá? Na verdade, procure esse e o outro filme que Liz levou o seu segundo Oscar, "Quem Tem Medo de Virginia Woolf?". São atuações significativas!

Obrigado, de verdade, pelos elogios! Abs, amigo!

GABRIEL: Sei que você, além de gostar, vai escrever um bom texto sobre esse filme. Se puder procure, assim que ver aqueles tantos outros que indiquei antes, hahaha! Abraço

renatocinema disse...

O Destino é totalmente irônico.

Eu que sou apaixonado por produções que abusam de diálogos intensos (Talvez por isso seja tão fã de Tarantino) fiquei pedindo perdão a mim mesmo por não ter assistido ainda essa produção.

Seu texto me obriga a tentar a ver Taylor nesse trabalho.

O Impenetrável disse...

ótima resenha, fiquei curiosíssimo em ver esse filme, já vou anotar na minha lista.

grande abraço e parabéns pela qualidade do blog.

Rafael Moreira disse...

Cris, ainda não vi esse filme da Taylor. Você não ficaria chateado por eu não ler seu texto, não é? Bem Verei em breve, assim como outros da diva. Quando ver Disque Butterfield 8 volto aqui :)

Luiz Santiago disse...

...e Tyalor mais uma vez fazendo esse tipo de papel... Não conheço o filme, mas já vi trechos. Preciso conferiu-lo na íntegra urgentemente! =)

George Luis disse...

Como fugir de uma indicação desse nível? Suas críticas nos obrigam a verificar a autenticidade, a raiz dessa paixão explícita no teu escrever.
Aliás, apimentário é o teu vocabulário, a tua caligrafia. Tua assinatura é malagueta.
E Liz Taylor é a cereja no topo do sunday flamejante. Com certeza o filme é, logo, topo da lista.

Cristiano Contreiras disse...

RENATOCINEMA: Eu acho que você pode gostar desse filme, viu. Ainda mais por conta do roteiro que favorece a boa atuação da Taylor - admiro uma cena, inclusive, que "explica" o motivo que levou o Oscar de atriz. Assim que ver, volte aqui! Abs!

O IMPENETRÁVEL: Obrigado! Volte sempre!

RAFAEL MOREIRA: Rafa, pode ler, sempre, meus textos. Rapaz, não costumo soltar "spoilers", ainda que detalhe bem os sentidos do filme em questão. Aposto que você vai gostar desse filme, afinal admiramos a eterna Taylor! Abraço!!!

LUIZ SANTIAGO: Puxa, eu crente que tinha assistido a esse. Quero comentário teu desde filme no teu blog, tá?

GEORGE LUIS: Obrigado mesmo por esse comentário! É isso que me faz continuar postando aqui. Eu apenas escrevo o que sinto. E esse filme tem um bom significado pra mim. Taylor é cereja eterna mesmo, rs. Abraço!!!

Rodrigo Mendes disse...

Grande resgate Cris, gosto quando você discute os clássicos aqui com teor sexual. As fitas de antigamente são um desafio escrever sobre o assunto. Ótimo!

Disque Butterfield 8 não é o melhor da galeria de Liz Taylor, em minha opinião, perto de Gata em Teto de Zinco...,Giant, Virginia Woolf, Um Lugar Ao Sol, Cleo.. e principalmente O Pecado De Todos Nós. São tantos clássicos!

Liz Taylor, saudosa Liz!

Abs.
Rodrigo

Caique disse...

Muito legal seu blog também! Seguindo o colega de blog Cristiano Contreiras :)

Adecio Moreira Jr. disse...

Nunca vi, acredita?

Mas estou querendo me voltar para clássicos como esse. De fundamental importância, né?

Kuki Bertolini disse...

muito legal seu blog!eu vi esse filme e gostei dele,a liz é perfeita e linda demais.é claro que o filme tem uma carga meia pesada de drama,mas acho que era um clichê na epoca.mesmo assim,me encantou.abraços e se puder,visite-nos também!! =D
http://thecinefileblog.blogspot.com/

Cristiano Contreiras disse...

RODRIGO: Eu acho esse filme em questão bem mais interessante que "O Pecado de Todos Nós", mas na realidade, eu gosto de todos esses citados por ti. Abração!

CAIQUE: Grato!

ADECIO MOREIRA JR: De extrema importância, se puder confira o mais breve possível. Abs!

KUKI BERTOLINI: Ei, obrigado mesmo pela visita aqui, seja bem-vinda! Vou conferir seu blog, tá? Abraços!

José Francisco disse...

Não assisti ao filme ainda e quase o ocmprei em uma promoção das Lojas Americanas.
Depois do seu post instigante, nada melhor que vê-lo, ter minhas ideias. Mais uma vez, muito obrigado pelas dicas.
Abs.

Leonardo Alexander disse...

Muita gente torce o nariz para esse melodrama e diz que Taylor ganhou o Oscar por ter superado uma grave doença na época. Eu gosto bastante da performance da atriz, intensa e deliciosa.

Abraços e parabéns pela análise!

Leo

Leonardo Alexander disse...

Muita gente torce o nariz para esse melodrama e diz que Taylor ganhou o Oscar por ter superado uma grave doença na época. Eu gosto bastante da performance da atriz, intensa e deliciosa.

Abraços e parabéns pela análise!

Leo

Leonardo Alexander disse...

Muita gente torce o nariz para esse melodrama e diz que Taylor ganhou o Oscar por ter superado uma grave doença na época. Eu gosto bastante da performance da atriz, intensa e deliciosa.

Abraços e parabéns pela análise!

Leo

Elton Telles disse...

adorei "Disque Butterfield 8", mas não me recordo tanto da trama a ponto de trazer novos pontos para a discussão. Inesqueecível, no entanto, é a protagonista vivida com esplendor por Elizabeth Taylor, que engole todos que ousam em dividir a cena com ela rs. No auge da beleza, ela está irretocável!

abs!

Murillo Quintino disse...

Aqui está muito lindo
Já estou seguindo
Gostaria de contar com a sua visita
Ótima semana

Murillo
http://in-conditional.blogspot.com

sandra cristina disse...

Ótimo comentário, como sempre.
Parabéns pelo texto com ótima elucidação.
Ao menos é inegável a sensualidade de Elizabeth Taylor.
Beijos.

Raphael Camacho @vassilizai disse...

Cris, irmão cinéfilo, teus textos são fodas! Adorei a referência a esse clássico. Grande abraço

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