Pânico do Orgasmo

A mente humana é estranha. Além de imprevisível, é capaz de conceber tormentos íntimos, caos na própria alma. Roman Polanski realizou o seu primeiro filme falado em inglês em 1965. A obra chocou ao explicitar em seu caráter narrativo elementos sexuais, psicológicos e certa ousadia ao misturar planos da realidade com sensos imaginários. Com roteiro dele e de Gerard Brach, o filme é um perturbador olhar sobre os desejos reprimidos e a obscuridade presente no inconsciente do ser humano. Repulsa Ao Sexo é um filme difícil, sufocante e perverso. Talvez, um dos trabalhos mais viscerais sobre o universo da loucura, da alucinação, executa uma experiência estética incrível. Mostra como uma repressão sexual pode causar tormentos irremediáveis a um ser humano. Catherine Deneuve, então com 21 anos, interpreta a manicure Carol Ledoux, uma jovem extremamente reprimida sexualmente, introspectiva e tímida. Ainda que de beleza sedutora, de postura altiva e com um sexy-appeal inevitável, a jovem inibe-se a maiores contatos sociais e tem medo de maiores assédios. É dependente afetivamente da irmã Helen Ledoux (Yvonne Furneaux) e não aceita o romance amoroso que esta tem com um homem casado. O que parece ser um filme de tom dramático, torna-se um conflito alucinante sobre os tormentos da alma.

A aversão a qualquer indício de sexualidade é visível — Carol manifesta indisposição a qualquer senso libidinal. Incomoda-se ao ouvir os gemidos da irmã que transa com o namorado no quarto adjunto; indigna-se ao receber cantadas de transeuntes na rua; não sustenta nenhuma atração pelo namorado Michael (Ian Hendry) que insiste em ter um contato mais íntimo com ela ou tirar sua maculada virgindade; vomita só de sentir o cheiro do orgasmo nas vestes da irmã. É provocante a maneira como Polanski abusa da fragilidade, dos gestos mecânicos e da estranha personalidade de Carol. E o primeiro ato do filme esmiúça a disfunção sexual que a protagonista vivencia, a maneira como a garota demonstra uma apatia completa à ordem sexual. Quais razões da aparente frigidez? Por que o sexo promove um desconforto irrevogável à jovem? Ainda que estonteante, não consegue se conectar com as pessoas, numa aparência constante de alienação. O que torna uma pessoa tão adversa à libido? Enquanto as perguntas se manifestam na mente do espectador, a narrativa assume contornos assustadores.

Quando sua irmã viaja com o amante para uma viagem à Itália, o filme ganha possibilidades sombrias, é quando se acentua o grau nítido de “terror psicológico” e o esqueleto de paranóia é praticado. Carol imerge num abrupto descontrole mental dentro de seu apartamento, gradativamente perturbada, em meio às confusões abismais de sua realidade que se alternam com suas alucinações mórbidas. É justamente assim que Polanski induz o expectador num obscuro caminho mental de sua protagonista, faz com que o segundo ato do filme transpareça como uma representação da amplitude mental de Carol. O tom macabro, a violência e o suspense são elementos visíveis dentro do claustrofóbico apartamento. A jovem submete-se a sua insanidade própria. Visualiza vultos, assombra-se com presenças dentro do quarto, desorganiza-se de forma que se torna vulnerável. É então que entramos no mundo particular de Carol, sua mente é despida e a dimensão da loucura é latente. A ausência de lucidez é consequente de sua sexualidade reprimida, seus desejos dúbios, numa vida de privações sexuais que ocasiona numa turbulência emocional. Esquizofrênica, psicótica ou apenas a realidade incompreendida?

Com uma estética musical do instrumentista Chico Hamilton e fotográfica instigante de Gilbert Taylor, Roman Polanski inquieta o espectador ao colocar Carol em meio aos seus tormentos dentro do apartamento trevoso. A mistura de percepções, o tom nervoso e o desconforto da jovem passam a ser de quem assiste ao filme também. Vemos Carol ser estuprada toda noite por homens diversos; sua intensa insegurança sexual sendo articulada. O ambiente parece ter personalidade própria, cria formas surreais em volta dela, corredores assumem outras dimensões, paredes tornam-se mais largas, tudo de acordo com as suas percepções. Mãos invadem seu corpo como se à procura do sexo compulsivo, rachaduras na parede cada vez maiores que causam pânico. As lentes de Polanski não temem em mostrar o que há de mais denso na obscuridade de Carol — o talento de Catherine Deneuve é impressionante. Sua personagem pouco fala, mas tem uma personificação bem delineada de gestos e olhares. Quando sua Carol explode em fúria assassina, nos tormentos dramáticos de loucura descabida, o filme grita por ser propriamente sufocante. Talvez Roman Polanski nem tivesse consciência de que faria uma obra-prima, definitivamente é um espetáculo psicológico-sexual que merece ser revisado sempre. Com extrema poesia e psicologia, funciona como um estudo sobre o detrimento mental de um ser humano. Pura obra-prima!

Repulsion (EUA, 1965)
Direção de Roman Polanski
Roteiro de Roman Polanski e Gérard Brach
Com Catherine Deneuve, Ian Hendry, Yvonne Furneaux, John Fraser

24 opinaram | apimente também!:

Amy B. disse...

Texto delicioso de ler, adorei Cris!!!!

renatocinema disse...

"Repulsa Ao Sexo é um filme difícil, sufocante e perverso." você resumiu perfeitamente o que penso da obra.

Assisti o filme pela segunda vez mês passado e amei cada detalhe, cada poesia, cada delírio.

Uma obra-prima? não. Uma obra única.

Celo Silva disse...

Excelente texto Cris! Definitivamente conseguiu captar os principais nuances do filme. Agora, qd postei esse filme no meu blog, uma leitora disse q Carol não tinha namorado, que era assediada pelo primo. Não percebi isso e parece q vc tb, q acha? Grande abraço.

Kuki Bertolini disse...

Cris,to com esse filme já faz um mês pra ver e ainda não tive tempo,embora a vontade de assistir seja imensa. Bem,a galera ta me recomendando tanto filme bom que estou com sérias dúvidas do que vejo primeiro. Mas adorei o teu texto,me deixou um tanto perturbada,acredita?Acho que terei de assistí-lo o mais breve possível e passarei novamente por aqui pra dizer o que achei.Adoro o jeito que vc escreve.Grande abraço,Cris!!Voltarei! =D
http://thecinefileblog.blogspot.com/

Luiz disse...

Prabéns pelo post. Este é o mlehor Polanski para mim. Abraços!

José Francisco disse...

Um dos filmes essenciais da filmografia de Polanski.

Marcio Melo disse...

Como sempre seus textos me deixam extremamente interessados em assistir aos filmes que você comenta e não conheço.

E Roman Polanski, terei que assistir então.

Paulo [ALT] disse...

Pelo seu texto notei que ela não tem apenas uma "assexualidade", é algo mais do que isso, algo no negativo até. Ou seja, não é uma ausência de sexualidade já que é no negativo. Algo há, né? Nunca assisti e nem tinha ouvido falar. Gosto quando você cita traços e trabalhos do diretor ou criador. Me deixou curioso pra ver. Estava numa época não querendo ver obras muito pesadas, mas agora sai disso hehe. Pena que não tenho o que dizer por não ter visto. [ps. ainda admiro sua estrutura de texto hehe. fico analisando. adoro isso hehe]
grande abraço! ^^

Fábio Henrique Carmo disse...

Um dos melhores de Polanski, sem dúvida, em uma época em que ele era mais provocador. Tão bom quanto "O Bebê de Rosemary" , filme com o qual tem parentesco próximo. E o seu texto está ótimo! Abraço!

Saulo S. disse...

Demorei pra ver esta filme, mas fiquei extasiado quando o vi. Realmente é uma obra única, da direção à fotografia, tudo casa muito bem ao mostrar os medos e paranoias da personagem da Catherine, que esta soberba.

annastesia disse...

Apesar dos pesares ou por causa deles, sou muito fã de Polanski. Um filme incrível com atuação fantástica de Deneuve.

Eri Jr. disse...

Uma lástima na minha carreira cinéfila ainda não ter assistido este filme!! rsrs Quando surgir a oportunidade, sem dúvidas assistirei!!

Abraços

Gabriel Neves disse...

Nossa, nem conhecia esse filme de Polanski. Mas me interessei bastante agora, não só para conferir Catherine Deneuve nessa trama, mas também porque toda essa abordagem com o psicológico humano sempre me interessa. Vou conferir, com certeza!
Abraços.

Emmanuela disse...

Pura obra-prima mesmo. Além do terror que o filme impõe, somos obrigados a sentir compaixão da personagem de Deneuve. Com brilhantismo, o filme indica que temer prazer é algo extremamante horrível.

Um beijo !

George Luis disse...

Realmente uma obra-prima. Apesar de gostar do filme "Cisne Negro", não há ainda um filme que tenha superado a temática da repressão sexual num personagem como em "Repulsa ao Sexo".
No título original, "Repulsion", acredito que a única palavra não se atenha só ao sexo (ao ato em si), mas a toda a forma de prazer ou desejo (a culpa constante e atormentante que assombra a personagem a impede disso).
Catherine sendo a atriz que não é há algum tempinho ... Maravilhosa em cada quadro. Uma interpretação que figura no rol das grandes personas femininas do cinema.

Cris, como sempre seu texto é a real pimenta na internet sobre o cinema. Um calor que seduz pelas palavras! Adoro isso aqui.
Abraço.

Thomaz Ribeiro disse...

Interessante a análise que você fez de uma obra tão perturbadora de Polanski. O que me deixa preocupado é o fato de a existência humana às vezes estar tão reduzida à esfera do sexo.

Kamila disse...

Nunca assisti a este filme, mas seu texto, como sempre, está excelente.

Kuki Bertolini disse...

Cris,adorei o filme!!Nossa,Polanski realmente soube captar a essência da esquizofrenia. Um filme claustrofóbico, to me sentindo angustiada até agora!Nossa,muito bom mesmo.Nem sei o que comentar mais.Caraca,esse filme deve ter gerado muita controvérsia na época que foi lançado!Polêmico demais,Cris e eu adoreii.Cada minuto valeu a pena!Grande abraço e muito obrigado por essa dica incrível de filme!! =D
http://thecinefileblog.blogspot.com/

Laércio Cunha disse...

Faz um tempo que eu tô com curiosidade de assistir esse filme do Polanski e teu texto tá tão ótimo que fiquei com mais vontade ainda. Acho que esse final de semana não me escapa de assisti-lo hehae

http://thecinefileblog.blogspot.com/

abraços

Thiago Priess Valiati disse...

Caro,
Antes de qualquer coisa, gostaria de me apresentar: meu nome é Thiago Valiati, cinéfilo como você, de Curitiba, 21 anos.
Estava navegando pela internet e caí no seu blog. Adorei! Você escreve muito bem e domina o assunto. Parabéns!
E ah, também tenho um blog de Cinema (em fase inicial), se puder dar uma olhada e, eventualmente gostar, adicionar à sua lista de blogs também (adicionei já!), iria me sentir honrado.

Blog: http://this-is-cult-fiction.blogspot.com/

sandra cristina disse...

Catherine Deneuve é uma grande atriz! Altiva e sutil em suas performances, a atriz provoca pela sua áura misteriosa.
Infelizmente ainda não assisti a esse filme, mas já estou morrendo de vontade de assistí-lo.
Cris, você arrebentou com seu texto analítico e muito bem descrito!
Saboreei cada palavra sua tentando desvendar o que poderia estar se passando no inconsciente da personagem Carol. Quanto mais eu lia, mais eu não compreendia, assim como não sou capaz de compreender o que causa uma repulsa, tão importante, ao sexo.
Em muitos contextos reais até podemos compreender, mas nesse caso, descrito do seu ponto de vista, é muito intrigante.
Bem, sem assistir não dá prá pelo menos tentar entendê-la.
Contudo a pergunta que não pode calar:Por que você não faz psicologia, filho? srsr
"A mente humana é estranha. Além de imprevisível, é capaz de conceber tormentos íntimos, caos na própria alma". Aí você disse tudo!
Parabéns pela resenha ma-ra-vi-lho-sa!!!!
Beijos.

Hugo disse...

Grande filme de Polanski, comuma Catherine Deneuve no auge da beleza e perfeita como a esposa fria que se torna prostituta.

Abraço

Marcos Rosa disse...

Este não assisti. Parece ser bom, Polanski já é uma boa referência.

Também linkei o Apimentário lá no algunsfilmes.blogspot.com

Abraços!

Wallace Andrioli Guedes disse...

Um dos grandes filmes de Polanski, talvez só fique atrás de O Bebê de Rosemary e Chinatown. É mesmo impressionante o retrato sufocante da repressão sexual construído pelo diretor, e os efeitos que essa causa em sua protagonista. Lendo seu texto, Cristiano, me veio a mente imediatamente Cisne Negro. Quando escrevi sobre o filme de Aronofsky, há alguns meses, citei Repulsa ao Sexo como um de seus óbvios diálogos, mas talvez não tenha me dado conta do quanto esse diálogo foi primordial. Talvez Polanski tenha sido a principal referência de Aronofsky...

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