Sentimentos com desejos

Difícil fazer valer todos os sentimentos, desejos e vontades próprias numa sociedade que acaba por julgar. E o que fazer quando o que sente é algo que parece ser uma afronta à natureza da humanidade? Como conter um profundo desejo que teima em dilacerar os preceitos da moralidade? O curta O Amor Contra o Destino agiu com vigorosa polêmica quando lançado ao colocar dois jovens irmãos perdidamente apaixonados. Dirigido e roteirizado por James Burkhammer, a trama centra-se no subúrbio americano onde Darren (J.B. Ghuman Jr.) e Connor (Marshall Allman) crescem sob o teto de rigores familiares — todos os dois rapazes, desde pequenos, receberam uma educação sem muita afetividade por parte do pai que preferia agir com enérgica severidade e intransigência. Ainda que sem uma aliança tão íntima com os pais, os dois irmãos uma sintonia transparente. Mas, o que parecia uma cumplicidade incondicional familiar, torna-se um estranho desejo que proporciona boa dose de confusão mental em cada um ao se tornarem adolescentes. A partir desse senso polêmico que o filme é direcionado, com urgência e sem procurar esmiuçar muito sentidos existenciais. Darren e Connor não conseguem mais conter o que sentem, no limiar da confusão amorosa e tensão sexual.

Falar de sexualidade sob a perspectiva homossexual no cinema torna-se, cada vez mais, permissivo. Diante da turbulência de manifestações à favor do direito da diversidade sexual, da necessidade da quebra dos tabus e do direito à voz ativa que cansou de brigar contra preconceitos — a expressão de comportamento da homossexualidade é perseverante. Porém, é difícil expressar esse senso quando se mistura aí o contexto do incesto. A polêmica desse filme é voltada basicamente a essa questão, visto que diversas obras já problematizaram o “amor impossível entre dois homens”. Felizmente, a proposta aqui é bastante envolvente por ter uma objetividade na transparência dos sentimentos dos seus personagens. Tanto Darren quanto Connor não escondem, logo de cara, o desejo absurdo que sentem um pelo outro — a cena em que Darren dialoga sobre suas insatisfações juvenis, para depois roubar um beijo precipitado em Connor, evidencia a pressa que o diretor Burkhammer tem em extremar as posições libidinais de seus garotos. O tesão é latente, por isso o roteiro cumpre o método de tornar esse contexto visível ao olhar do público. Eis a pressa da juventude, quase sempre passional, que não consegue reprimir seus desejos, ainda que a sociedade tente mascarar tudo em sua volta.

O filme procura mostrar como é doloroso para o ser humano se descobrir sexualmente, mais ainda quando o objeto de desejo é, irrevogavelmente, alguém do mesmo sangue. Como lidar com uma situação tão improvável assim? Corajoso roteiro que não nega os tormentos afetivos dos dois jovens que preferem viver juntos, fazem sexo constantemente e vivenciam o sentimento à flor da pele dentro da redoma de sua casa. Darren e Connor escondem-se da sociedade preconceituosa dentro do quarto, é lá que preferem viver suas carícias, seus sentimentos mais ardorosos e seus sonhos. Fora da intolerância do mundo externo, os jovens buscam o conforto mútuo, experimentam o que o coração anseia. E James Burkhammer aproveita-se da intimidade e talento de Ghuman Jr. com Marshall Allman para promover rápidas passagens de nudez, diálogos homoafetivos e nítida química sexual entre os dois. É compreensível entender que esse curta conseguiu ser premiado em diversos festivais na época de lançamento, é um trabalho autêntico que prioriza os sensos afetivos e carnais do público queer. É natural também que boa parcela da comunidade homossexual tenha mais interesse, por conta da plena identificação com as motivações do casal. Mas, a produção merece ser experimentada por todos, sem julgamentos ou intolerância. Ademais, é um exímio representante do universo sentimental onde prevalece uma icônica história de “amor impossível” que acaba por fascinar quem assiste. Por ser um curta, muito fica subtendido, mas é evidente que a intenção foi promover mesmo uma reflexão do que tornar todos os fatos abertos. Sem dúvida, uma abordagem instigante.

Starcrossed (EUA, 2005)
Direção de James Burkhammer
Roteiro de James Burkhammer
Com J.B. Ghuman Jr., Marshall Allman, John Wesley Shipp

16 opinaram | apimente também!:

Kuki Bertolini disse...

Cris,esse curta eu ainda não vi.Mas eu assisti um tempo atrás o brasileiro Do Começo Ao Fim e simplesmente adorei!Eu adoro filmes polêmicos e o amor que ambos os meio-irmãos sentiam entre si foi simplesmente avassalador.Ache o filme perfeito.Acho que tá mais do que na hora de trabalhos que explorem as diferenças sexuais serem mais vistos e divulgados.Desde quando amar é errado?Adorei o post,Já assistiu o filme Um Quarto em Roma?Explora muito bem o assunto também e esse eu amei demais!Baita abraço!Post perfeito como sempre!!! =D
http://thecinefileblog.blogspot.com/

Marcus Cramer disse...

Acabei de ver o filme só por causa desse post e... não gostei. É história demais pra pouco filme e não deu tempo de me apegar àqueles personagens. Além do final pra lá de exagerado.

Teco Sodré disse...

Eu tenho esse filme, já assisti e considero um trabalho muito bem realizado, esteticamente bonito e, apesar de triste, a história me encantou muito! *-*

George Luis disse...

EU tbm não vi esse curta, mas adorei o texto!

E me veio uma lembrança ... O curta brasileiro "Eu não quero voltar sozinho". Acho que daria uma boa postagem neste blog!

Ricardo Morgan disse...

O amor contra tudo e contra todos! Uma bela poesia shakesperiana (Romeu e 'Julieto' rs.) com assuntos pertinentes na sociedade contemporânea, como você abordou com propriedade: o prazer do amor sob os olhos da homossexualidade em contraste com seus medos e preconceitos! Curta envolvente e bastante denso, principalmente por seu clímax. Abraços

Bruno Carmelo disse...

Oi, Cristiano,

concordo com os comentários acima, tanto o que diz que a trama se assemelha muito a Do Começo ao Fim (você viu), tanto quanto o outro que sugere que você veja Eu Não Quero Voltar Sozinho (curta disponível online).

Mas você diz que o pai não tinha muito afeto... você acha que a homossexualidade incestuosa é mostrada no filme como uma consequência da falta de amor paterno? Isso poderia ser bem problemático!

Jefferson Reis disse...

Quero assistir a este curta faz um tempão. O post me deu ânimo.

joyce Pretah disse...

Ao assistir o curta não pude deixar de me lembrar de ''do começo ao fim'' ....

está tudo confuso aqui em mim agora...
Gosto de assistir filmes que me possibilitam essa reflexão.

Ao mesmo tempo que essa questão do insesto me incomoda muito,ela duela com a ideia de que ''qualquer maneira de amor vale a pena'' ...

Gostei bastante, repetindo o que foi dito acima nos comentários,dessa coisa ''romeu e julieto''


achei sim o filme corajoso....e estou aqui pensando em outro final menos trágico.

gostei demais ;) BEIJOO

Marcos Nascimento disse...

Ah eu não gostei não, triste demais!

Hehehe sentimentos pessoais à parte, é impossível não lembrar de Do Começo ao Fim, com a diferença de que, neste curta, o martírio dos protagonistas tem muito sentido. Há claramente dúvidas (em pelo menos um deles), o que é natural em se tratando da situação. E ainda tem o pai truculento pra piorar, dando a humanidade exata que o tema exige.

Já em Do Começo ao Fim não existe polêmica, logo, é tudo muito sem propósito. Claro, é um banquete homoerótico sensacional, mas sem uma razão de ser tudo fica vazio e o filme perde o sentido.

Gabriel Neves disse...

Fazendo eco aos outros comentários, não há como ver sem se lembrar de Do Começo ao Fim. Mas eu achei esses 15 curtos minutos de Starcrossed bem mais verdadeiros do que tudo no longa brasileiro. É um ótimo trabalho que aborda muito bem um tabu duplo com vários desentendimentos e coisas a subtender. Mas não tem como ver o curta de outra forma.
Abraços

Kamila disse...

Mais um filme que eu não assisti, mas que me deixa curiosa por causa da SUA "abordagem instigante" (para te citar, rsrsrsrs) em cada texto.

renatocinema disse...

Adorei a densidade poética do filme.

Achei o filme poesia pura. Cheio de simbolismo e emoção.

Um curta que leva a reflexão.

Uma obra que não é para todos os gostos. Um filme indicado apenas para quem tem coragem de encarar a filosofia e o sentimento da vida e suas complicações sentimentais.

Celo Silva disse...

Um tanto polêmico esse! Excelente texto, me aguçou a curiosidade, mas não sei se gostarei....mas mesmo assim vale a divulgação. PArabens!

sandra cristina disse...

Parece que quem viu o curta não deixa de ter o filme brasileiro "Do Começo Ao Fim" como parâmetro.srsr
Eu sou muito careta em relação a certas temáticas: incesto, pedofilia, são algumas delas.
Porém consigo, dentro desse conteúdo moral, elaborar um diferencial dentro do que se expressa como arte. Afinal, a sétima arte tem também o compromisso de retratar o que é real, ou possível de ser.
Independente do filme roteirizar uma relação homoafetiva entre irmãos, existe a trajetória humana em busca de seus desejos sem fronteiras.
Afinal, quem demarcou ao ser humano, o que se deve ou não fazer com sua libido?
Como existem simbologias nesse curta, no sentido psicológico, filosófico(como comentou alguém acima), é até difícil a gente se dividir em muitos para poder julgar. É um assunto polêmico, mas realista. Pode e até existem muitos casos de paixão(platônica ou não) entre irmãos e etc...
A moralidade que nos foi imputada é que nos impede de aceitar ou não; compreender ou não; julgar ou não.
Por isso julgando apenas pela obra em si, acho questionadora a sinopse, tanto quanto achei o filme brasileiro.
Contudo, se fosse apenas uma história de amor que priorizasse o sentimento entre dois homens
eu seria mais tolerante no meu julgamento: mais um lindo romance shakespeariano!
Pronto! Prevaleceu o meu lado 'careta'! Deixa prá filosofar mais tarde...
Seu texto sempre provocativo e perfeito!
Beijos.

Adecio Moreira Jr. disse...

Deve ser trágico, como de praxe nessa temática. =/

Ccine disse...

Agora sei onde Aluizio Abranches se inspirou para criar o filme Do começo ao fim, o esqueleto do filme é muito parecido com esse curta, que eu não conhecia e que assim como o longa nacional mostra através de um amor entre irmãos a intolerância da sociedade sobre o diferente.
E sua analise é perfeita sobre o curta.
Vale a pena ser conferido para quem não fez.
Parabéns Cristiano pela a escolha e texto, bacana também dá espaço para os curtas que são tão pouco lembrados.

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