Flertes amigos?

Por que o sexo é tão primordial nos envolvimentos modernos? Seria o orgasmo o elemento de união entre duas pessoas? Se não há mais fidelidade no amor ou uma relação sem amarras, o que vale mesmo é procurar alguém para transar. Não é nenhuma novidade que o cinema hollywoodiano, cada vez mais, tenha investido em filmes que condicionem o estudo óbvio da sexualidade contemporânea: o traço comportamental das relações que se sustentam no sexo, sem laços afetivos. Determinados filmes recentes já foram lançados com propostas semelhantes. O ótimo "Amor e Outras Drogas" com Jake Gylenhaal e Anne Hathaway seguiu a mesma linha, o duvidoso "Sexo Sem Compromisso" com Natalie Portman e Ashton Kutcher também quis mostrar a mesma trajetória. O mais interessante em Amizade Colorida é que ele consegue mesclar a sensualidade com elementos de humor, drama e com habilidosos diálogos rápidos e inteligentes, proporcionando um resultado acima da média. Jamie (Mila Kunis) é uma caça-talentos que convence o astuto diretor de arte Dylan (Justin Timberlake) a trabalhar em Nova York para a Revista GQ. O que torna essas duas pessoas em comum? Ambos magoados por conta de relacionamentos frustrados, cansados de se doar sentimentalmente às pessoas que não os valorizam. Jamie e Dylan tornam-se confidentes, amigos inseparáveis, tão próximos que resolvem apostar numa relação mais apimentada — inserem o sexo sem compromisso. Obviamente, o roteiro de Keith Merryman, David A. Newman e Will Gluck traça um caminho sem surpresas, visto que o público sabe que o casal logo vai perceber que não só o sexo é um elemento importante, mas sim algo mais emotivo: o amor. Como impor regras ao coração? O que parecia uma atração física torna-se algo mais profundo quando cresce a intimidade que pode mexer com as percepções do casal.

Mesmo que haja alguns clichês visíveis, a turbulência sexual em cena de Mila Kunis e Justin Timberlake é perfeita. Interessante que ambos estão à vontade, além de demonstrar uma exímia sintonia não só nas trocas de diálogos inteligentes e com doses de ironia e malícia — o ótimo timing para piadas é relevante com o auxílio da troca romântica de um para o outro em cena. A comédia romântica aqui é funcional por trazer dois atores que sabem personificar um casal em busca de sexo, de companhia, que foge da solidão. Sem pudores algum, Timberlake investe em sua caracterização mais hormonal, acentuando seu corpo sarado, suas posturas masculinas amparadas em uma sensualidade mais contida, mas direta. O ator é amparado pela presença hiperativa de Mila Kunis que verbaliza muito bem a feminista dona de seu corpo, que não esconde que gosta de sexo e prazer, ainda que já tenha sofrido péssimas relações anteriores. A típica bem sucedida profissionalmente, mas que ainda demonstra insegurança no quesito relação afetiva.

A correta direção de Will Gluck prefere investir na admirável relação de amizade e sexo do casal que acaba por se apaixonar, ao invés de ousar mais dos seus coadjuvantes — as pequenas participações de Woody Harrelson como o colega gay de trabalho de Dylan, Patricia Clarkson que faz a mãe insana de Jamie e Richard Jenkins como o pai de Dylan que sofre de Alzheimer são poucos explorados, ainda que seus personagens sejam atraentes a ponto de mexer com o público já envolvido no ritmo febril do filme. Diversas cenas de sexo são providenciais, mas nada que seja tão ousado a ponto de classificar o filme como algo mais erotizado — talvez, o apelo mais sensual seja por conta da ausência de inibição do par central. Timberlake e Kunis funcionam em leves seqüências de nu, tiradas picantes e rápidas cenas de sexo oral ou mesmo momentos em que os seus personagens travam diálogos, ainda que com humor, na cama.

Pode até ser mais do mesmo, ainda assim o filme sabe pontuar a questão problemática dos relacionamentos atuais que não conseguem se sustentar em apelos emotivos; mas sim libidinosos, carnais. Mas o público percebe que é uma história para não ser levada tanto a sério, visto que o alívio cômico é muito mais sustentável e transparente que a dramaticidade aqui. Boa sacada do roteiro em brincar com as gags mais características em abordagens do estilo, ou seja, o filme acaba por se auto-satirizar com modernismo total. Ainda assim, é a típica comédia romântica quadrada que agrada, convence e exibe boa simpatia. Nada mais gostoso que isso. Ao término, o que fica mais evidente é que o melhor orgasmo não vem do sexo, mas sim do coração que clama pela sobrevivência do amor...

Friends with Benefits (EUA, 2011)
Direção de Will Gluck
Roteiro de Keith Merryman e David A. Newman
Com Justin Timberlake, Mila Kunis, Patricia Clarkson, Woody Harrelson, Richard Jenkins, Jenna Elfman

24 opinaram | apimente também!:

Rodrigo disse...

Ah, se não fossem os dialógos, não sei o que seria desse filme. Acima da média, divertido, se perde no fim quando faz tudo aquilo que brincava anteriormente, mas o casal toma conta do filme. Os coadjuvantes são legais, porém não acho que mereciam mais destaque. Foi bom do jeito que foi. Abraços.

Celo Silva disse...

gostei do tom desse texto, acho esse filme bom e só, talvez nem se sustente em uma revisão, mas é bem divertido, principalmente qd parte para a satira inteligente encima do genero, sabe q nem achei as cenas de sexo ousadas...

Gabriel Neves disse...

Gostei do filme, ri bastante e é uma história boa, por mais clichê que seja. Timberlake e Kunis tem uma boa química juntos, só não gosto dos dois individuais.
Abraços.

Marcio Melo disse...

Não deixa de ser clichÊ, não deixa de terminar do mesmo jeito manjadinho mas é mesmo acima da média.

Divertido, interessante, "atualizaado" e acaba fazendo a gente torcer pelos clichês

Gabriel Fabri disse...

assisti o filme hoje e ameii!!
muito boa a sua crítica, adorei a sua conclusão "o melhor orgasmo não vem do sexo, mas sim do coração que clama pela sobrevivência do amor"!

escrevi sobre o filme no meu blog tbm, da uma lida lá pleasee?

Rodrigo Mendes disse...

Gostei do seu texto Cris, como sempre você é o único que sabe questionar e debater o assunto com maestria. Ainda não assisti ao filme por isso nem tenho base crítica aqui.

Mas é fato que "Sexo sem compromisso", tanto a fita de Reitman com Portman e inúmeras outras fitas fraquinhas de comédias românticas andaram proliferando em Hollywood. Me cansa, mas se vale a pipoca eu até assisto! Bom, eu gostei da Mila e do Justin em fitas fortes (Cisne Negro e A Rede Social - excelentes) posso gostar deste, mesmo se a onda aqui é mais risos.

Abraço.

*E apareça no meu blog também sumido, rs! Vc reclama que eu não comento aqui... HA!Flw;)

Fábio Henrique Carmo disse...

Bem bom mesmo. Acima da média das CRs habituais e a que soube melhor abordar essa nova forma de comportamento sexual. Nada que vá mudar sua vida, mas vale à pena ver.Abraço!

Marcus Cramer disse...

Gostaria de ver um filme que realmente discutisse essa questão de ser "friends with benefits". Será impossível mesmo transar com uma pessoa de vez em quando e não se apaixonar? Pensei que este Amizade Colorida fosse mostrar o contrário mas me enganei. Dizem que o gênero não permite que o casal termine separado, mas nesse caso eles termianriam amigos e transando eventualmente. Qual o problema nissso?

Kamila disse...

O que eu mais gosto nesse filme é a confrontação entre essa visão de que pode existir sexo sem emoção com o que ele acaba retratando na realidade: que, até mesmo um envolvimento dito casual, tem sentimento; tem carinho; tem alguma coisa, enfim! rsrsrsrs

Acho que, apesar da obra ser muito clichê, ela é muito verdadeira na forma como retrata os diversos relacionamentos, sejam os amorosos, os de amizade ou os familiares.

renatocinema disse...

Me espantei ao ver a escolha desse filme como sua análise.

Acho que você possui um estilo muito diferente......e isso é um elogio.

Discordo apenas quando você diz: "o duvidoso "Sexo Sem Compromisso". Gosto do filme, apesar de entender que Amor e Outras Drogas muito superior.

Se não fosse seu comentário, sendo bem sincero passaria longe do filme estrelado por Justin Timberlake.

Mas, você tem crédito. Darei uma chance ao filme.

Márcio Sallem disse...

Gostei muito desta comédia romântica. Ela merece as mesmas críticas de outras no aspecto clichê, conflitos, etc, mas tem algo genuíno que emana dos atores. A chamada química funciona e, apesar de Mila e Justin não serem grandes atores, eles se completam em cena e não é difícil imaginar que seriam um casal.
É interessante, porém, observar como Richard Jenkins interpreta quase o mesmo personagem que ele viveu em Querido John e, por sua vez, Patricia Clarkson revive a versão moderna da caipira em Tudo Pode dar Certo do Woody Allen.
Curioso!
Está de parabéns pelo BLOG.

Cleber Eldridge disse...

Eu ainda não conferi o filme, mas tenho uma certa curiosidade, os comentários sobre ele são bons (apesar de relevantes) ... irei conferir em breve.

Lélia Maria disse...

já gostei do filme pela sua crítica. mas tenho uma colocação a fazer, não exatamente sobre o filme, mas sim sobre o contexto. é preocupante saber que o amor, quando vem, é depois do sexo. acredito que deveria ser o contrário e não precisa nem ser amor ao pé da letra.

Amanda Aouad disse...

É isso, o filme segue a linha, tem bons diálogos, o casal tem uma ótima química e nos leva. Gostei principalmente do tom de sátira às comédias românticas ao mesmo tempo que sucumbe a todas as regras dela.

bjs

Paulo [ALT] disse...

Acho que entendo quando vc diz que é uma típica comédia romântica quadrada mas que agrada! Vai sempre explorar as questões que a gente sabe.. o ponto que isso machuca por exemplo, como te disse.. Mas adoro esse tipo de filme.

Adoro a Mila Kunis desde o tempo do That 70's Show, e minha curiosidade... confeeeeeeeeeesso.. é mais por ela.

And please.. recomende mais filmes assim.. estes dias assisti na tv aquele Down To You (Louco Por Você) e lembrei de tu haha

grande abraço
hum.

_Thiago disse...

Olá, tudo bem?
Definitivamente este não era um filme para mim. Mas quando eu vou acompanhado ao cinema, sempre deixo meus amigos escolherem o que a gente vai ver.
E lembro que na época não tinha um filme tão mais interessante do que este no cinema que eu fui.
E de verdade: gostei muito da sensualidade do filme. Não é todo dia que vc vê gente bonita pelada em HD ^^". O casal é fisicamente perfeito.

Mas devo dizer que a segunda metade do filme é um pouco perdida. Uma sequência mais lógica de amor seria o ponto chave para eu realmente gostar do filme como um todo. Porém, é algo hollywoodiano - sem querer desvalorizar, muito pelo contrário - então a cultura de "final feliz para comédias românticas apesar de tudo" estaria presente de qualquer forma.
Um abraço.

Paula disse...

Oi! Vi esse filme ontem e gostei. Mas acho que o final acaba demonstrando uma perspectiva feminina das coisas... acho que quando esse tipo de coisa acontece, geralmente é muito mais fácil da mulher se envolver/ se apaixonar. Sem dúvida, tomar uma decisão dessas, no caso deles, foi um risco... já que a amizade jamais seria a mesma se tudo desse errado. Bjs

Arthur Alter L. disse...

Eu não sou nenhum especialista em filmografia. Gosto de alguns gêneros mais q de outros. E confesso que gosto muito de comédias românticas. Esse filme trabalha bem a questão das diversas formas pq amamos e pq fazemos sexo, não de forma detalhada. Enfim acho que seria mesmo dificil ser definitivo sobre relações a dois, amor e sexo. O contexto e as pessoas envolvidas é que definem isso na intensidade da paixão, do prazer, da diversão...
Por fim, depois de mais de 9 meses, aqui eu volto. E como sempre é bom ler vc.
Um abraço.

Arthur Alter L. disse...

Eu não sou nenhum especialista em filmografia. Gosto de alguns gêneros mais q de outros. E confesso que gosto muito de comédias românticas. Esse filme trabalha bem a questão das diversas formas pq amamos e pq fazemos sexo, não de forma detalhada. Enfim acho que seria mesmo dificil ser definitivo sobre relações a dois, amor e sexo. O contexto e as pessoas envolvidas é que definem isso na intensidade da paixão, do prazer, da diversão...
Por fim, depois de mais de 9 meses, aqui eu volto. E como sempre é bom ler vc.
Um abraço.

Ana disse...

Quero muito ver esse filme. Já está na minha lista desde a estreia. Muito provavelmente, vou aguardar sair em DVD.

Mila Kunis é carismática e gostaria de conferir mais essa atuação dela.

Curto demais diálogos com humor!

Bjs ;)

Marlon Vila Nova disse...

Saudades de ler seu blog. Que bom que voltei quando vc falava desse filme, que assisti recentemente e gostei justamente por tudo que vc escreveu maravilhosamente bem aqui.

Renata disse...

Realmente, os diálogos são o grande destaque desse filme, seguido pelas cenas "técnicas" de sexo.

Cine Mosaico disse...

A química entre os protagonistas dá o tom ao filme. Gostei bastante.

:: João Linno

Maxwell Soares disse...

Lembro-me já de haver lido uma resenha a respeito deste filme em um outro blogger. Confesso que a sua está maravilhosa. Ainda não vi este. Espero vê-lo em breve. Um abraço...

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