Juventude atormentada?

É possível entender o que ocorre na mente de um ser humano que sofre nas mãos de outro? E o que fazer para compreender quando, muitas vezes, um crime é consequência de algo que pode ser justificado, ainda que não aceitável? Diversos filmes e documentários já exploraram chacinas de jovens estudantes vitimados por conta de colegas de escola — Michael Moore com o seu “Tiros em Columbine” ou mesmo o aclamado “Elephant” de Gus Van Sant já debateram temas semelhantes, ainda que sob óticas e abordagens que percorreu outros horizontes. Mas, nenhum foi mais visceral e contundente que o tenso A Classe. O filme produzido na Estônia, país onde não existe tanto investimento no quesito cinematográfico, é um soco violento no estômago, talvez um dos trabalhos mais densos já feitos nos últimos anos. É extremamente assustador. A narrativa estuda minuciosamente um estudante, Joosep (Pärt Uusberg), um típico garoto introspectivo e tímido, que torna-se piada da turma. O diretor e também roteirista Ilmar Raag explora as percepções desse indivíduo que é constantemente torturado físico e psicologicamente pelos seus colegas da turma — alvo de pancadas, xingamentos e abusos tanto dos “valentões” quanto até das meninas, Joosep se vê num clima insuportável crescente. A situação parece ainda tomar proporções mais caóticas quando Kaspar (Vallo Kirs), um dos colegas, decide tomar uma posição de defesa na turma à favor do garoto ameaçado por todos. É então que esses dois garotos tornam-se vítimas de um ambiente de degradação, marginalização e crueldade coletiva.

O filme tem uma linguagem bem crua, natural e objetiva. Uma espécie de documentário “latente de imagens reais”. A ágil edição de Tambet Tasuja favorece esse contexto. E é um auxílio à narrativa que investiga em sete dias as humilhações, o sufoco e a overdose de torturas físicas e psicológicas vivenciadas pelos dois garotos. Numa edição febril e veloz, observa-se os traços comportamentais de cada personagem — é nítido a exploração de diálogos que evidenciam a violência que se sustenta nas salas de aula, vestiários, corredores e demais dependências da escola. A instituição torna-se um ambiente tenebroso, onde professores são omissos e parecem alienados à turbulência emocional vivenciada por Joosep e Kaspar. Surpreendente como a escola torna-se um ambiente engolido por uma atmosfera carregada de tensão, desespero e tristeza. Não é um filme nada fácil de se ver.

O bullying aqui ganha forma, tom e nunca foi tão bem delineado. A maneira como a direção cuidadosa de Ilmar Raag explora as situações mais banais, e até as que não se espera, faz com que o espectador tenha comoção pelos seus personagens centrais. O diretor é bem seguro, parece nunca se distanciar de seus personagens. Aqui não existe aqui o "bem" ou o "mal", mas apenas um rastreamento do que seja mais agressivo no círculo juvenil. Entendemos como se configuram situações reais vivenciadas por jovens dentro da escola e como isso gera péssimas consequências.

O tom polêmico também do roteiro assume um lado mais perverso quando, além do bullying, os jovens Joosep e Kaspar sofrem o preconceito da turma — os colegas enxergam na relação afetiva amigável dos dois um envolvimento homossexual, bem característico já que a juventude retratada na película é um reflexo da homofobia atual. Ilmar Raag traz em seu filme traços de uma juventude permeada de revolta, dentro da ebulição sexual, envolta em anseios de libido e desordem. Jovens carentes, vítimas de pais ausentes, sem estrutura familiar. Indivíduos que acabam tendo que lidar com seus problemas sozinhos, vítimas de uma sociedade que não procura lidar com suas preocupações.

E o filme critica muito essa juventude que passa despercebida pelo universo dos professores e pais que acabam não efetuando uma boa comunicação com eles. A trama criada pelo cineasta Ilmar Raag é cruel, mas é um ponto de reflexão ao mundo que vivemos. Uma compreensão sobre os limites da violência juvenil, os pontos negativos e a capacidade que um ser humano tem em tolerar ser humilhado por pessoas de moralidade questionável. Notáveis atuações do elenco geral, mas aqui o talento fica a cargo da química da dupla principal: os atores Pärt Uusberg e Vallo Kirs absorvem todo o clamor sofrido de seus personagens, comovem o público que fica chocado com o que vê. O drama aqui retratado pela obra é excessiva, mas é necessário ser evidenciada, sem nunca pesar a mão. As cenas finais são cicatrizantes, desde já clássicas, por não pesar o tom sentimentalista. Expressivo argumento apresentado neste filme, de fato é uma obra-prima que merece ser acolhida pelo público em geral.

Klass (Est, 2007)
Direção de Ilmar Raag
Roteiro de Ilmar Raag
Com Vallo Kirs, Pärt Uusberg

17 opinaram | apimente também!:

Gabriel Neves disse...

Parece ser um filme maravilhoso, agora só me falta tempo pra procurar e ver. A temática já me interessa e muito, com seu texto então, A Classe já se tornou obrigatório pros meus próximos filmes.
Abraços!

Kamila disse...

Nunca assisti a um filme da Estônia e nem conhecia esse "A Classe". Mas, esse teu texto sensacional como sempre me deixou curiosíssima.

Celo Silva disse...

É um filme contudente mesmo, como disse, talvez a melhor representação cinematografica do Bullying. Um filme q faz o sangue ferver e o diretor consegue manter essa tensão o filme todo. Não há momentos de reflexão e minimalismo, talvez o verdadeiro intento da pelicula seja infringir essa violencia ao expectador e parece q se sai muito bem em relação a isso. Otimo texto, acho q o primeiro q leio seu q não envolva reminiscencias sexuais. Gostei! E obrigado pela dica desse filme, um dos q mais gostei esse ano. Abs!

Marcos Nascimento disse...

Curioso como saiu do tema habitual do blog e ainda assim ficou tão bem relacionado ao blog como um todo.

Só bons escritores conseguem isso. Parabéns!

M. disse...

Nossa! Eu não conhecia este filme! Valeu pela indicação.

Luan Fernando disse...

Um filme estrangeiro de 2007, com um tem bem atual aqui no Brasil.
Realmente é curioso o que há na mente de jovens para realizar tas crimes com outros até com si mesmos.
Nessas horas queremos apenas imaginar para onde esse mundo está caminhando.

Abraço.

Luan Fernando disse...

Um filme estrangeiro de 2007, com um tem bem atual aqui no Brasil.
Realmente é curioso o que há na mente de jovens para realizar tas crimes com outros até com si mesmos.
Nessas horas queremos apenas imaginar para onde esse mundo está caminhando.

Abraço.

Ricardo Morgan disse...

Interessante! Boa dica!
Abraços

Fábio Henrique Carmo disse...

Caramba, Cristiano. Você me empolgou para ver o filme! Já tinha visto algo sobre ele, mas seu texto foi decisivo para nutrir um real interesse pelo filme! Um dos seus melhores escritos, por sinal! Abraço e até mais!

Amanda Aouad disse...

É, esse deixou muita curiosidade mesmo.

bjs

Facundo disse...

Será que é fácil de achar? Vou garimpar!

Adecio Moreira Jr. disse...

Uia. Filmes underground... Estônia???
Em todo caso, a pergunta inicial que você faz no primeiro parágrafo é interessante o suficiente para me fazer interessado na obra.

Rodrigo Mendes disse...

Não tenho o que dizer muito aqui... só vou procurar e assistir. Se não for uma repetição estilo Larry Clark, vou curtir. O que me incomoda um pouco é não perceber traços e perfil sexual na fita como é o tema que o Apimentário discute. Sei lá me pareceu um filme tão cru e violento apenas, sem indícios que mostram violações sexuais. Só o fato dos amigos serem chamados de gays e do filme discutir homofobia me pareceu pouco. Não sei! É estilo “Bully” com Brad Renfro? Um filme perturbador.

Abraços Cris!

J. BRUNO disse...

Fiquei realmente curioso, vou procurar, se você tiver algum link par download dele me passe depois... Tenho bastante interesse pelo tema. coincidência ou não, assisti hoje "Sem Medo de Morrer" que também toca no tema... mais atual impossível!

Juliana Góis disse...

Xu, começa a deixar um link pra baixar esses filmes mais difíceis de achar.A maioria do pessoal nem pode opinar pq não assistiu.
bjs

Ccine disse...

Bem interessante a sinopse, fiquei curioso, vou tentar procurar para ver.
O legal de seu blog é exatamente essa "visibilidade" para filmes que possivelmente a gente nunca iria ter notícias.
Belo texto como sempre.

Lia Sousa disse...

Hummm...será que é bom mesmo?Pois a sinopse ta boa.

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