Meninos não choram?

A dolorosa realidade de uma criança que precisa lidar com sua sexualidade. Laure (Zoé Héran) tem 10 anos, acaba de se mudar com sua família para um bairro novo nos arredores de Paris. O que esconde essa garota? Ela se veste como um típico garoto de sua idade, anda com meninos da sua faixa etária, mantém os cabelos bem curtos em plena rebeldia. Para todos os garotos de sua comunidade seu nome é Michaël. Como entender as motivações dessa criança que já vive em conflito consigo própria? Até quando ela poderá enganar a todos? Dirigido com bastante cuidado por Céline Sciamma, também roteirista, Tomboy é um filme surpreendente que trata de um tema tão atual e já trabalhado em outras abordagens. Contudo, aqui o discurso ganha um novo frescor por conta de um argumento ainda necessário a ser discutido, até por conta do foco narrativo adotado pela diretora que sabe tratar de uma temática tão polêmica com embasamento humanístico. Logo no início, observamos nos créditos do título as cores que se alternam — o azul que se associa ao masculino e o vermelho ao feminino —, recurso visual utilizado como elemento simbólico para as questões do gênero sexual que o filme irá tratar. Este trabalho abriu a Mostra Panorama do Festival de Berlim, onde obteve sucesso de público por lá e já tem sido comentado em muitos festivais de cinema LGBT pelo mundo afora.

O nome “Tomboy”, por sinal, se refere originalmente ao termo “garoto bagunceiro”, que passou a ser utilizado por volta de 1950 como “menina que se comporta como menino” (de acordo com o Dicionário Etimológico). Na Inglaterra o termo também denomina garotas que gostam de jogar futebol, lutar e brincar de carrinhos; são chamadas de “menina-moleca”. Seguindo esse sentido que se compreendem as afirmações de Laure/ Michaël que adota atitudes, comportamentos e posturas masculinas para mascarar sua feminilidade — a menina inibe qualquer aspecto que reforce sua condição de mulher, visto que isso é um incômodo incondicional à sua natureza. Entende-se que não seja um caso de homossexualidade, mas sim de gênero sexual, já que ela se sente como um menino ainda que seu corpo renegue toda essa condição.

Como forma de estabelecer um contato do espectador com sua protagonista, a direção de Sciamma investe em cenas onde mostra a jovem andrógina tendo que esconder para todos os amigos sua verdadeira identidade, principalmente para Lisa (Jeanne Disson), a única garota do grupo que acaba sentindo-se atraída por "ele". E é justamente nesse ponto que o roteiro torna-se mais ousado, visto que coloca as figuras infantis, no período da inocência, tendo teus sentidos desabrochados à favor de uma sexualidade iminente. A atriz Zoe Héran é talentosa, impressiona pela atuação concentrada e bastante emotiva. O cuidado interpretativo provém da meticulosa direção de Sciamma que promove atuações naturais de seu elenco infantil.

O roteiro acredita na inteligência e sensibilidade de suas crianças que sabem o que quer — é até assustador a maneira como Laure/ Michaël sofre por sentir-se inadequada socialmente já que não se enxerga como uma menina. A criança repudia qualquer traço feminino numa total aversão. E o público, obviamente, é facilmente atraído por essa menina que além de ser o foco problemático da trama é um elemento de reflexão diante de tanta expressão comportamental e desconforto sexual com tão pouca idade. Diferente de “Meninos Não Choram”, onde havia uma constante tensão que beirava ao caos vivenciado pela personagem de Hilary Swank, aqui o discurso prefere seguir outra vertente. Não há um teor denso e hiperdramático, as situações ocorrem de maneira mais sóbria, mas isso não quer dizer que haja uma concentração otimista constante na narrativa.

O filme mostra ainda a alienação familiar e ausência maternal, já que a mãe (Sophie Cattani) demora a encarar que a filha assume uma outra identidade. Efetivamente, mostra como os pais acabam por manter uma cegueira em relação aos seus filhos, ainda que não queiram. Polêmica também a situação da irmã de Laura/ Michaël, Jeanne (Malonn Lévana), uma criança de apenas 6 anos de idade que acaba sendo cúmplice do disfarce de sua irmã. As atuações mirins são bem intensas, expressivas. É um tabu debater a sexualidade na infância e Sciamma é corajosa nesse sentido, sem que seu filme perda qualquer traço de sensibilidade, nunca é forçado. Todo filmado em digital com câmeras Canon 7D, o filme se firma em planos-sequências que acompanham a atmosfera de seus personagens infantis, porém são os closes direcionados na bela face da atriz Zoé Héran que elevam o tom intimista da película.

Tomboy (FRA, 2011)
Dirigido por Céline Sciamma
Roteiro de Céline Sciamma
Com Zoé Héran, Malonn Lévana, Jeanne Disson

16 opinaram | apimente também!:

@SalvadorPráJá disse...

Bem... nunca assisti! Acho ousado discutir essa temática usando crianças, mas também fica claro logo de início que a diretora que fisgar a audiência, porque gera logo um tipo de simpatia, não à tôa estão por quase proibir ou já proibiram usar crianças em comercial aqui no Brasil, porque crianças vendem muito melhor uma ideia, um discurso... vale minha atenção, vou assistir!

Marcio Melo disse...

Tava com esse filme na minha lista para assistir, fiquei bem curioso.

Sua crítica agora me fará correr atrás dele o mais rápido possível

Kamila disse...

Não tinha ouvido falar sobre esse filme ainda, mas adorei seu texto, especialmente a forma como você interpreta o conflito central deste filme. Quero ver!!

Celo Silva disse...

Cris, otimo texto! Gostei da maneiro como delineou as nuances do personagem. Fiquei instigado a assistir, verei logo esse. Um dos seus textos mais instigantes. Abração!

alan raspante disse...

Já havia lido algo a respeito, mas não sabia da história direito (tanto que penava que era um garoto "se descobrindo"). Claro, a premissa é super interessante. Impossível não querer ver!

Marcos Nascimento disse...

Mto bom, ainda nao vi, nem o conhecia, mas deve ser muito bom mesmo. Pelo seu texto, nota-se isso.

Ccine disse...

Quando estava na MostraSP um cara me ofereceu esse filme para comprar (camelô), nem parei para ver, se já tivesse lido esse texto com certeza compraria, porque fiquei curioso.
Quando eu ver o filme volto aqui para dizer o q achei.
Ótimo texto.

Gabriel Neves disse...

Eu adorei esse filme, e adorei o seu texto. Incrível a atuação de Zoé Héran, que pra mim, é a força principal do filme. Em alguns momentos eu não conseguia acreditar que era mesmo uma menina.
Abração!

Fábio Henrique Carmo disse...

Achei interessante o comentário de @SalvadorJá mais acima. Concordo com ele. É muito fácil vender uma ideia usando crianças, já que tendemos facilmente a sentir suas dores. Creio que fica bem mais fácil até para um público mais conservador enxergar a situação com outros olhos, diferentemente do que ocorre com a personagem de Hillary Swank em "Meninos Não Choram". Steven Spielberg é mestre nisso, por sinal. Geralmente seus filmes têm crianças, manipulando a plateia com bastante facilidade.

Não estou querendo dizer com isso que o filme é ruim, me parece bastante interessante, mas que o trabalho da diretora fica bastante facilitado, fica.

Ah, sobre o DVD de "O Mensgeiro do Diabo": não fosse meus sérios cortes de gastos devido ao meu casamento vindouro, eu lhe mandava um de presente!:=)Mas as vacas estão magras e está difícil até aumentar minha coleção! hhehehhehehehe! Abraço!

Bruno Carmelo disse...

Belo texto. Concordo com a diferença entre o conflito de gênero com crianças e com adultos. No caso dos adultos, algumas pessoas ainda vão pensar que pode ser "moda", "más influências", "provocação", "escolha". O retrato da criança instaura um conflito de gênero natural, não influenciado por ninguém, que não é culpa de pessoa nenhuma. A tal inocência infantil é confrontada com a questão do gênero.

Gosto bastante também que você procure a etimologia do termo, os efeitos particulares de tal ou tal câmera - elementos que realmente aprofundam o teu discurso e trazem algo novo. Um prazer te ler.

J. BRUNO disse...

Confesso que não o conhecia, tão pouco tinha lido qualquer coisa sobre ele... de fato é um tema que já é polêmico e usar crianças para ilustrá-lo o torna ainda mais... fiquei curioso para assistir e descobrir se ele é panfletário ou se apenas expõe questões acerca do tema abordado... Se ele tender para a segunda opção, estou certo de que valerá a pena procurá-lo...

Gilberto Carlos disse...

Parece ser um filme bem interessante. Preciso ver.

Otávio disse...

Muito bom mesmo teu texto. O filme é de uma ousadia tão sublime que as vezes tenta nos enganar, antes de descobrirmos se é homem ou mulher. E mostra o quanto somos presos à sociedades que não respeitam essa temática. Como todos somos seres humanos iguais manipulados pela sociedade que nos faz agir da forma que eles querem. Merecia ter levado muitos prêmios, mas foi bom saber que um filme como esse foi bem reconhecido pela crítica em vários festivais. Mostra o quanto as pessoas que têm visões críticas sobre o mundo tem importância para dissolver o bem nesse.

Abraço, Otávio.

http://cult-cine.blogspot.com/

Fernando Silva disse...

Seu blog é muito bom.Dá pra ter uma ideia legal do filme e nos impede de perder tempo com filmes sem conteúdo.Obrigada pelas dicas.

Thiago Priess Valiati disse...

Assisti hoje ao filme e gostei bastante dele! Achei muito interessante como o filme aborda a sexualidade da criança, de uma maneira não muito explícita. As atuações mirins são geniais e fabulosas, muito boas mesmo. Só não gostei muito do final do filme, que poderia ser um pouco mais ''elaborado''.
Em suma, um filme super interessante! Gostei da sua análise sobre a relação da mãe com a ''filha''. Ela foi omissa em grande parte do filme...
Abraços!

Mente Hiperativa disse...

Esse filme é FANTÁSTICO e mudou a forma como encaro certas questões sexuais. É difícil para a maioria de nós entendermos o conflito de gênero/sexualidade e quando se trata de crianças é ainda mais complicado. Nesses casos infantis, entretanto, nos sentimos mais incapazes de julgá-las e condená-las por serem homossexuais.

Ao assistir o filme eu não me senti digno de dizer à garotinha que ela estava errada, que não podia fazer aquilo ou que ela não era um menino. Como fazer isso com uma criança que sofre? Por que ela sofre e isso é fato! Sendo assim, depois acabei por expandir o meu pensamento e abranger também os adultos (os quais nos sentimos mais confortáveis pra julgar e discriminar), como eu posso dizer que ele tá errado e que deveria ser assim ou assado? No fim das contas ele também foi uma criança, viveu seus conflitos, e ainda hoje carrega dentro de si aquela criança sofrida.

Então no fim das contas acho que o filme nos sensibiliza de uma forma que acaba por nos convencer a aceitar o outro da forma como é mais confortável pra ele, mesmo que isso nos obrigue a engolir nossos preconceitos. Pra aceitá-lo não é preciso compreendê-lo nem muito menos ser igual a ele, basta permitir que ele se sinta feliz como quiser, e aproveito pra estender esse conceito além da questão sexual. Respeitar natureza e a individualidade do outro é imprescindível à boa convivência e ao bem-estar geral. É tão pouco que se pede...

Abraço

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