O aroma que habito?

A sexy adaptação cinematográfica do famoso livro do alemão Patrick Süskind é ambientado na putrefata França do século XVII. Quando lançado em 1985, o livro provocou polêmica no mundo literário, inclusive foi banido em diversos países por conta do conteúdo considerado "pervertido". A necessidade de um filme adaptado da obra não era surpresa. Perfume, A História de um Assassino traça a vida desde o nascimento de Jean-Baptiste Grenouille (Ben Whishaw), jovem abandonado pela mãe desde quando nasceu de parto grotesco num mercado de peixe, que adquire uma admirável sensibilidade ofaltiva que faz com que ele sinta aromas sutis imperceptíveis pelos homens. A perturbadora trama se atém ao fato de que esse jovem de exímio caráter dúbio, visível comportamento misterioso e meio introspectivo, toma consciência de sua habilidade — Grenouille torna-se fascinado pelo aroma feminino. Certa vez, sente tesão pelo cheiro que o corpo de uma mulher exala. Ao acompanhá-la, acaba por matá-la sem querer e percebe que o cheiro que ela exalava se esvai assim que o corpo fica frio. Então, passa a fomentar a ideia de destilar a "essência" feminina e aprisionar através da extração do cheiro dos corpos. Com sua obsessão, o filme mostra a jornada mórbida de um homem em busca do absoluto perfume que irá seduzir qualquer pessoa. A direção de Tom Tykwer, famoso pelo excêntrico "Corra, Lola, Corra", aqui é minuciosa e dotada de muita poesia visual. O que torna esse homem tão fascinante? Será ele capaz de manipular cheiros à favor de sua sedução humana? Aqui uma história de um homem que seduz, mata mulheres e extrai delas o seu aroma próprio para, assim, ser capaz de criar um perfume que irá provocar toda uma sociedade firmada em falso moralismo.

O filme, ainda que seja adequado ao critério classificativo de thriller psicológico, na verdade é uma "fábula mórbida", pura poesia. A sarcástica narrativa de John Hurt concebe uma pontuação quase literária, fascinando o público com a trajetória do psicótico protagonista. Há toda uma malícia também. Jean-Baptiste enquanto aprimora sua técnica em capturar os odores das mais libidinosas mulheres da região, torna-se, ainda assim, tão cativante ao espectador. Nunca aqui houve um assassino tão fascinante como este explorado no filme, visto que é um homem envolto numa capa de mistério que acaba por instigar quem assiste. Talvez, o maior mérito de sedução do serial-killer que acaba por fascinar o espectador é por conta da maneira como esse personagem é delineado na película: a apurada fotografia, a edição dinâmica e uma direção de arte cuidadosa promovem a sensação do "cheiro" no público.

Através da narrativa imagética é que conseguimos "sentir" os aromas peculiares de Jean-Baptiste. Os cortes providenciais da febril edição favorecem esse sentido. Tom Tykwer é detalhista, soube transpor o clima de mistério e sedução sombria do livro de Süskind — a narrativa é rica em associações providenciais do olfato apurado do assassino, tornando uma experiência estética bem surpreendente para quem vê. A fotografia é deslumbrante. A cor vermelha também é presente em elementos de todo filme, desde os cabelos das belas mulheres vítimas a cenários e detalhes estéticos.

É um êxtase conferir a gradual obsessão do jovem que, através da fixação de capturar o cheiro de todas as mulheres, acredita que poderá sentir novamente o aroma de uma vendedora de rua que tanto o excitou. A sua maneira, a obra coloca o sentido do olfato do jovem muito próximo de uma sensação de desejo, algo libidinal, a ponto de provocar um êxtase próprio. Jean-Baptiste parece sentir orgasmos múltiplos em sua ambição em impregnar nos fracos os mais variantes cheiros possíveis — algo que mexe com seu interior, espécie de gozo incondicional. Talvez por isso, ele não busque, inclusive, o sexo com suas vítimas donzelas. O próprio aroma feminino já é um fetiche único, um sabor especial. A trilha sonora composta por Tom Tykwer com os instrumentistas Johnny Klimek e Reinhold Heil é também um auxílio verbal à narrativa, visto que a sonora atende por um tom que se assemelha a uma ópera dando forma à personalidade do assassino. Rachel Hurd-Wood personifica bem a virginal que é objeto de fascínio de Jean-Baptiste. Dustin Hoffman e Alan Rickman completam o elenco com participações bem expressivas. A escolha dos atores sustenta a gama de boas interpretações, ponto alto do filme.

E o que torna um garoto sem odor, qualquer atributo físico e ausência de carisma tão fascinante? A interpretação de Ben Whishaw é admirável, pois com poucos diálogos, o ator entrega aqui uma caracterização assustadora — expressivo no olhar, nos gestos, na maneira como se movimenta na câmera perspicaz de Tom Tykwer. Seu Jean-Baptiste é um ser tão misterioso quanto sedutor. Por sinal, o ator comentou na época do lançamento do filme que seu personagem mantém uma personalidade autista, por conta do isolamento social, a tal alienação com o mundo que o torna tão desconexo emocionalmente das pessoas. Uma frieza, dificuldade de relacionar-se, torna seus atos criminosos perversos, ainda que revestidos com certos tons poéticos e até surreais — como a tão comentada sequência final: momento onde o personagem põe à prova todo seu talento e sensualidade dominadora, num resultado bastante carnal, orgia transcendental e repleto de simbolismo. Compreende-se que mais que um perfume que dominasse a todos, inebriando de sentidos, Jean-Baptiste tinha a necessidade de ser amado como nunca fora. E talvez esse fosse seu mórbido intuito, ao fim. Pequena obra-prima!

Perfume: The Story of a Murderer (EUA, 2006)
Direção de Tom Tykwer
Roteiro de Andrew Birkin, Bernd Eichinger, baseado no livro de Patrick Süskind
Com Ben Whishaw, Dustin Hoffman, Alan Rickman, Rachel Hurd-Wood

28 opinaram | apimente também!:

Gabriel Neves disse...

Filme excelente mesmo. Extremamente sedutor, consegue trazer o tesão através da sinestesia facilmente. A imagem da obsessão do protagonista acaba trazendo os cheiros para o espectador. É um filme feito para ser sentido. E como você falou, Jean-Baptiste tinha a necessidade de ser amado. O pobre rapaz não tinha uma família, não tinha uma identidade, não tinha seu próprio cheiro. Ele merecia o amor que tanto buscou por vias erradas. Toda a sequência final é um deleite, incrível mesmo.
Abração, e gostei bastante do seu texto!

Celo Silva disse...

Cris, devo dizer q um dos seus grandes textos! Me deu um vontade louca de rever essa maravilha. Um filme perspicaz na sua intenção. Bem lembrado a palheta de cores, o cabelo vermelho da moça dá um tom excitante na pelicula.
Esse ator deveria ter uma sorte melhor e ser escolhido para novos papeis.

Grande Abraço!

Edson Cacimiro disse...

o filme é bom ,mas o livro é 100 vezes melhor, abç.

Maah disse...

Eu gostei MUITO desse filme, tem toda uma aura enigmática, desde o nascimento de Jean e de como ele adquiriu esse poder e incrível percepção,até quando ele começa a matar para guardar as essências para si. Assistindo o filme não consegui achar que ele era realmente mal, achava que era uma pessoa com algum problema mental, como o próprio ator que o interpretou disse que ele sofria de autismo, ele só não teve supervisão e deixou seus instintos, mesmo que não convencionais e amorais, guiá-lo.

A cena em que ele segue a vendedora de frutos realmente é muito interessante, o jeito como ele sente seu aroma e a persegue sorrateiramente, se esgueirando pelos becos até ter um momento de ficar a sós com ela, o jeito como ela morreu teve um pingo erótico e posso dizer que foi uma cena linda.
Dustin Hoffman estava muito bem como o vendedor "fru fru" de perfumes.

A atriz que interpretou a filha de Alan Rickman também era muito linda, esqueci o nome dela, mas sei que ela fez Peter Pan, e a cena final dela foi de cortar o coração, essa foi vez que mais senti raiva de Jean.


O ato final me deixou meio confusa, toda a cena em que as pessoas pareciam hipnotizadas pelo perfume e começaram a tal falada orgia me pareceu muito fantasiosa, por alguma razão a história de um assassino com problemas mentais que percorria toda a frança tentando capturar mulheres para roubar suas essências pareceu possível pra mim, diferente do fim.
Mas gostei muito, recomendo muito, a fotografia é muito bonita também, e sempre acharei que o poster do filme foi um dos que mais conseguiram passar o enredo do filme.

Augusto disse...

Primeiro quero declarar que fiquei apaixonado por este ator, neste personagem, é o feio mais bonito de todos os tempos no cinema (aliás, um dos novos vilões do 007); segundo, quero dizer que a trilha é algo beirando o sublime,aquela melodia vocal, ascendente, simula um orgasmo perfeito, eu senti vários orgasmos de sentidos assistindo no cinema (nota: a trilha é composta pelo próprio diretor do filme); Ademais... é um roteiro que segue à risca o livro, e os cortes que fizeram, foram os que eu mesmo teria feito; apenas acho, que houve um pouco de pudor fálico na cena da orgia, mas... sendo uma cena pioneira no cinema, naquelas proporções, eu não recrimino. UM LINDO FILME!!!!

Mirella Santos disse...

Uma obra-prima cinematográfica mesmo. O filme já mostra ao que veio a partir do parto dele, a história é tão envolvente que o assassino nem chega a ser vilão. Um filme de enredo simples, mas impactante, que de certo nas mãos da pessoa errada não seria um suspense tão belo quanto ficou. A cena em que seu perfume finalmente é exalado por todos?! Incrível aquela mescla do inexplicável compreensível. Bem, adoro esse filme, não cansaria de ver e a proposito, seu texto está brilhante e muito bem escrito. Abraços Cris!!!

Gustavo Pavan disse...

Grande texto, cara. Muito bem sinalizado e situado dentro de tudo o que o filme pretende compreender. Minha opinião deste você já conhece.

ps: Adorei o título.
Abraço

Ricardo Morgan disse...

O melhor retrato sobre um assassino que eu já vi. É espetacular em todos os sentidos!

- MƋFƋLDƋ FERNƋNDES ♥ disse...

adorei ver este filme , tem uma realização fantástica

Arthur disse...

filme marcante, incrível como o diretor calou a boca de muita gente que dizia q o filme era intransponível para as telas. Uma obra notável

Dan disse...

O livro é fantástico e este filme é um dos únicos que, dentro dos limites da imagem (diferente da imaginação de cada um quando lê o livro) não deixa nada a desejar!
ótima dica.

Luís disse...

Parece que eu serei o único a discordar desse filme: não o acho bom. Acho que esse é um dos mais sinceramente escorridos a que já assisti - ele é lento, enrolado, inconciso, monótono e ainda comete a heresia de um duplo final, que faz com que o clímax seja dividido e perdido. Realmente, não o considero um filme bom e penso que ele é sutilmente sobrevalorizado.

Érica disse...

Eu assisti esse filme faz algum tempo. Lembro que de primeiro momento achei interessante. Uma época muito louca, a mãe dele dando a luz em meio as tripas de peixe e ele desenvlvendo naquele momento um super poder olfativo, capaz de sentir o cheiro a milhões de kilometros. Loucura total. Aquela cena da orgia coletiva porque ele pingou a grande composição de cabelos femininos... Olha, lembrando agora té que deu vontade de ver de novo.

Rodrigo Mendes disse...

O livro mais provocante e cobiçado por cineastas. Parou até nas mãos do Kubrick que depois de ler disse: "Inadaptável".

Süskind foi genial ao criar esta trama. O filme me envolveu e entorpeceu de uma maneira inexplicável (mesmo o roteiro sendo redondinho) com este "cheiro" visível no visual e narrativa da fita como você descreve. Realmente o cheiro era o ponto alto! Era como se eu estivesse seguindo um aroma interessante até o final... querendo saber o que tem na próxima esquina e acompanhando o filme com curiosidade e fascinação...

Ótimo texto desta obra!
Pena que a fita de Tykwer não teve o sucesso que merecia. Um de seus melhores filmes mostrando um dos personagens mais trágicos da orla dos assassinos em série. Whishaw e Hoffman arrasam assim como todo o elenco!

Grande abs.

J. BRUNO disse...

Gostei muito de "Perfume" desde a primeira vez que o vi, tanto que comprei o DVD, o aspecto que mais me chamou a atenção no início foi a fotografia, é indescritível a sensação que o filme desperta, chega a nos fazer quase sentir o odor que exala tanto da Paris deteriorada quanto dos perfumes... A trama é maravilhosa chia de metáforas e significados ocultos, eu particularmente adoro o final do filme, simplesmente genial! Ainda pretendo ler o livro...

Brilhante sua análise Cristiano!

Marcos Nascimento disse...

Lembro que quando saiu "Perfume" eu não dei a mínima atenção, mas vendo o filme depois vi o quanto eu me enganei. Filme extremamente sedutor e que faz pensar exatamente no odor das coisas e em como há magia, sedução e sensualidade num bom perfume... Claro, esse não é o único mote do filme, mas é impossível nao sentir cheiro de perfume - literalmente - assistindo o filme. E isso porque ainda nao desenvolveram melhor a técnica de assistir filme com cheiro.

Parabéns pelo texto, como sempre, bem apimentado!

Júlio Pereira disse...

Eu adoro o filme. É sensual e poético, como disse. O mais impressionante é como conseguem evidenciar através de imagens o olfato, uma sensação ausente na 7ª arte. É a magia do cinema: contar histórias através de imagens, não importa os truques e as sensações objetivadas. Enfim, só acho que o final fica deslocado do resto da trama, já que ele surge como algo muito lírico e exagerado, para um filme que apesar de uma história com esse tom, tem ritmo e técnicas muito viscerais e reais. Isso, pra mim, afasta-o da perfeição!

Otávio disse...

Excelente crítica Cristiano. Adoro o filme de Wyker. Ele realmente transmitiu uma realidade incondicional. Teu texto descreve o quanto o filme é puro, em inspiração e harmonia. Não conhecia teu blog, mas agora vou ficar por dentro. rsrsrs

Kamila disse...

Esse filme é de uma beleza técnica sem igual. Gosto muito da atuação de Ben Whishaw aqui e só acho o roteiro da obra meio complicado, com algumas falhas.

Amanda Aouad disse...

Uma pequena obra-prima mesmo como você define. Mórbito, sensual, forte, assustador. Já começa com grande impacto.

bjs

Fábio Henrique Carmo disse...

Sempre vi ótimas críticas sobre este filme e o seu texto aumentou ainda mais meu interesse em vê-lo! Abraço!

Suzane Weck disse...

Passei para desejar muitas alegrias e felicidade neste Natal e 2012.Abrs.

Marcio Melo disse...

Foi um dos primeiros filmes que comentei no meu blog e acho ele simplesmente fantástico.

E o final é daqueles de fazer chorar a todos aqueles que só enxergam as camadas mais superficiais dos filmes que assistem.

Renata disse...

Esse filme é incrível. Além de ser bastante diferente do que se vê habitualmente, ele prende a atenção e deixa o espectador ligado em tudo. Uma energia absolutamente incrível!

Marcos Rosa disse...

Boa dica, muito bom filme, principalmente as cenas finais!

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Faço um ano de blog hoje, e fiz um breve comentário, inclusive destacando nossos parceiros, como vc.
Valeu e feliz 2012!

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http://algunsfilmes.blogspot.com/

Ccine disse...

Oi Cristino,

Feliz 2012 e continue nessa jornada de apimentar nossos olhos com visões únicas sobre os mais diversos filmes.
Abraço e grande ano para vc.

sandra cristina disse...

Cris, sua resenha é uma obra-prima que retrata com fidelidade os fatos e sentimentos que temos em relação ao filme.
Uma perfeita descrição sobre o personagem e seus conflitos; consegue-se visualizar a poesia, que é resgatada da morbidez que a sinopse revela. Você disse tudo. O filme foi expressado vividamente através do seu olhar crítico e sempre meticuloso, narrando cada minúcia, de forma cautelosa, contudo, captando cada detalhe, cada movimento e caprichando nas entrelinhas. Se algo passou despercebido a alguém, você trouxe à tona, através de um conteúdo enriquecido de pormenores. Um dos mais brilhantes textos que já realizou. Filme muito intrigante e questionador, e que você abordou com muita clareza ética e, como sempre, com um senso crítico maravilhoso! Parabéns!Na minha opinião, um ótimo filme.
Beijos.
Sandra Cristina.

Andreia Arantes disse...

Sua resenha ficou muito bem feita.Parabéns pelo blog.Abraços!

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